



PRLOGO
        UMA CORDILHEIRA DE ESCOMBROS
        ONDE NOSSA NARRADORA APRESENTA:
        ela mesma
        as cores
        e a roubadora de livros

        MORTE E CHOCOLATE
        Primeiro, as cores. Depois, os humanos. Em geral,  assim que vejo as coisas. Ou, pelo menos,  o que tento.

 EIS UM PEQUENO FATO 
Voc vai morrer.

        Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais
forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amvel. Agradvel. Afvel. E esses so apenas os As. S no me pea para
ser simptica. Simpatia no tem nada a ver comigo.

 REAO AO FATO SUPRACITADO 
Isso preocupa voc?
Insisto - no tenha medo.
Sou tudo, menos injusta.
-  claro, uma apresentao.
Um comeo.
Onde esto meus bons modos?
        Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso no  necessrio. Voc me conhecer o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada
de variveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre voc, com toda a cordialidade possvel. Sua alma estar em meus braos. Haver uma cor
pousada em meu ombro. E levarei voc embora gentilmente.
        Nesse momento, voc estar deitado(a). (Raras vezes encontro pessoas de p.) Estar solidificado(a) em seu corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito pingar
pelo ar. O nico som que ouvirei depois disso ser minha prpria respirao, alm do som do cheiro de meus passos.
        A pergunta : qual ser a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar voc? Que dir o cu?
        Pessoalmente, gosto do cu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as cores que
vejo o espectro inteiro. Um bilho de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual, e um cu para chupar devagarinho. Tira a contundncia da tenso. Ajuda-me
a relaxar.
 UMA PEQUENA TEORIA 
As pessoas s observam as cores do dia no comeo e no fim, mas, para mim, est muito claro que o dia se funde atravs de uma multido de matizes e entonaes, a
cada momento que passa.
Uma s hora pode consistir em milhares de cores diferentes.
Amarelos creos, azuis borrifados de nuvens. Escurides enevoadas.
No meu ramo de atividade, fao questo de not-los.

        J que aludi a ele, o nico dom que me salva  a distrao. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a agentar, considerando-se h quanto tempo venho executando
este trabalho. O problema : quem poderia me substituir? Quem tomaria meu lugar, enquanto eu tiro uma folga em seus destinos-padro de frias, no estilo resort,
seja ele tropical, seja da variedade estao de inverno? A resposta,  claro,  ningum, o que me instigou a tomar uma deciso consciente e deliberada - fazer da
distrao minhas frias. Nem preciso dizer que tiro frias  prestao. Em cores.
        Mesmo assim,  possvel que voc pergunte: por que  mesmo que ela precisa de frias? De que precisa se distrair?
        O que me traz  minha colocao seguinte.
        So os humanos que sobram.
        Os sobreviventes.
         para eles que no suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasies. Procuro deliberadamente as cores para tir-los da cabea, mas, vez por outra, sou
testemunha dos que ficam para trs, desintegrando-se no quebra-cabea do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles tm (oraes vazados. Tm pulmes esgotados.
        O que por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manh, ou seja l quais forem a hora e a cor.  a histria de um desses
sobreviventes perptuos uma especialista em ser deixada para trs.

         s uma pequena histria, na verdade, sobre, entre outras coisas:
        *        Uma menina
        *        Algumas palavras
        *        Um acordeonista
        *        Uns alemes fanticos
        *        Um lutador judeu
        *        E uma poro de roubos
        Vi trs vezes a menina que roubava livros.

        AO LADO DA LINHA FRREA
        Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante.
        E muito provvel que alguns de vocs achem que o branco no  realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou aqui para lhes dizer que
. O branco  sem dvida uma cor e, pessoalmente, acho que voc no vai querer discutir comigo.
 UM ANNCIO TRANQILIZADOR 
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaa anterior.
Sou s garganta...
No sou violenta.
No sou maldosa.
Sou um resultado.

        Sim, era branco.
        Era como se o globo inteiro estivesse vestido de neve. Como se houvesse enfiado aquilo, do jeito que se enfia um suter. Junto  linha de trem, as pegadas
afundavam at as canelas. As rvores usavam cobertores de gelo.

        No podiam simplesmente deix-lo ali no cho. De momento, no era um problema to grande, mas, logo, logo, a linha seria desobstruda mais adiante e o trem
precisaria seguir viagem.
        Havia dois guardas.
        Havia uma me com sua filha.
        Um cadver.
        A me, a menina e o cadver continuaram obstinados e calados.
        -        Bem, o que mais voc quer que eu faa?
        Os guardas eram um alto e um baixo. O alto sempre falava primeiro, embora no fosse o responsvel. Olhava para o menor, mais rechonchudo. O do rosto vermelho
e suculento.
        - Bem - foi a resposta - no podemos s deix-los assim, no ?
        O alto estava perdendo a pacincia. - Por que no?
        E o baixote por pouco no explodiu. Ergueu os olhos para o queixo do alto e gritou:
        -        Spinnst du?! Voc est variando? - A averso em suas bochechas adensava-se a cada momento. Sua pele foi-se alargando. - Vamos - disse, tropeando
na neve. - Levaremos todos os trs de volta, se for preciso. Faremos a notificao na prxima parada.
        Quanto a mim, eu j havia cometido o mais elementar dos erros. No consigo lhe explicar a intensidade de minha decepo comigo mesma. Originalmente, eu tinha
feito tudo certo:
        Estudei o cu ofuscante, branco feito neve, que estava na janela do trem em movimento. Praticamente o inalei, mas, mesmo assim, titubeei. Cedi - fiquei interessada.
Na menina. Fui vencida pela curiosidade e me resignei a ficar o tempo que meu horrio permitisse, e observei.
        Vinte e trs minutos depois, quando o trem estava parado, desci com eles.
        Havia uma alminha em meus braos.
        Postei-me meio  direita.
        A dupla dinmica de guardas do trem voltou  me,  menina e ao corpinho masculino. Lembro-me claramente de que estava respirando alto nesse dia. Fiquei
surpresa com o fato de os guardas no me notarem ao passarem por mim. Agora o mundo estava afundando, sob o peso de toda aquela neve.
        Uns dez metros  minha esquerda, talvez, postava-se a menina plida, de estmago vazio, enregelada.
        Sua boca tremia.
        Seus braos frios estavam cruzados.
        Havia lgrimas cristalizadas no rosto da roubadora de livros.

      O ECLIPSE
        Depois vem uma assinatura preta, para mostrar os plos da minha versatilidade, se assim lhe agrada. Foi no momento mais escuro antes do alvorecer.
        Dessa vez, eu tinha ido buscar um homem de uns vinte e quatro anos, talvez. De certo modo, foi uma coisa bonita. O avio ainda tossia. A fumaa vazava de
seus dois pulmes.
        Quando ele caiu, fez trs sulcos profundos na terra. Agora suas asas eram braos serrados. Nada de bater, nunca mais. No para aquele avezinha metlica.

 OUTROS PEQUENOS FATOS 
s vezes eu chego cedo demais.
Apresso-me,
e algumas pessoas se agarram
por mais tempo  vida do que seria espervel

        Aps uma pequena coleo de minutos, a fumaa se esgotou. Na restava mais nada para acontecer.
        Primeiro chegou um menino, com a respirao desordenada que parecia ser uma caixa de ferramentas. Com grande inquietao aproximou-se do cockpit e observou
o piloto, avaliando se estava vivo o que, alis, ainda estava, quela altura. A roubadora de livros chegou talvez trinta segundos depois.
        Anos se haviam passado, mas eu a reconheci.
        Estava adiante.

        Da caixa de ferramentas, o menino tirou, quem havia de imaginar, um ursinho de pelcia.
        Estendeu a mo pelo pra-brisa partido e o colocou no peito do piloto. O ursinho sorridente sentou-se, aninhado entre os destroos amontoados do homem e
o sangue. Minutos depois, arrisquei a sorte. Era o momento certo.
        Entrei, soltei a alma dele e a levei embora gentilmente.
        S restaram o corpo, o cheiro minguante de fumaa e o ursinho de pelcia sorridente.
        Quando chegou toda a multido,  claro que as coisas haviam mudado. O horizonte comeava a se acinzentar. O que restava de negrume no alto j no passava
de um rabisco, e desaparecia depressa.
        O homem, em comparao, estava cor de osso. Pele cor de esqueleto. Uniforme amarrotado. Tinha os olhos frios e castanhos - feito manchas de caf - e a ltima
garatuja l do alto formou o que me pareceu ser uma forma curiosa, mas conhecida. Uma assinatura.
        A multido fez o que fazem as multides.
        Enquanto eu passava, cada pessoa ficou brincando com a quietude daquilo. Uma pequena mistura de movimentos desconexos das mos, frases abafadas e guinadas
mudas, constrangidas.
        Quando me virei e olhei para o avio, a boca aberta do piloto parecia sorrir.
        Uma ltima piada obscena.
        Mais um final de piada humano.
        Ele continuou amortalhado em seu uniforme, enquanto a luz mais cinzenta fazia uma queda-de-brao no cu. Como acontecia com muitos outros, quando comecei
a me afastar, pareceu haver de novo uma sombra ligeira, um instante final de eclipse o reconhecimento da partida de outra alma.
        Sabe, assim por um momento, apesar de todas as cores que afetam e se atracam com o que vejo neste mundo, comigo  freqente captar um eclipse quando morre
um ser humano.
        J vi milhes deles.
        Vi mais eclipses do que gosto de lembrar.


        A BANDEIRA
        Na ltima vez que a vi, estava vermelho. O cu parecia uma sopa, borbulhando e se mexendo. Queimado em alguns lugares. Havia migalhas pretas e pimenta riscando
a vermelhido.
        Antes, houvera crianas pulando amarelinha ali, na rua que lembrava pginas manchadas de gordura. Quando cheguei, ainda era possvel ouvir seu eco. Os ps
batendo no cho. As vozes infantis rindo, e os sorrisos feito sal, mas se estragando depressa.
        Depois, bombas.
        Dessa vez, foi tudo tarde demais.
        As sirenes. Os gritos malucos no rdio. Tudo muito tarde.
        Em minutos, montes de concreto e terra se superpuseram e empilharam. As ruas eram veias rompidas. O sangue escorreu at secar no cho e os cadveres ficaram
presos ali, feito madeira boiando depois da enxurrada.
        Estavam colados no cho, at o ltimo deles. Um pacote de almas.
        Seria o destino?
        O azar?
        Foi isso que os grudou assim?
        E claro que no.
        No sejamos burros.
        Provavelmente, teve mais a ver com as bombas atiradas, lanadas por seres humanos escondidos nas nuvens.
        Sim, agora o cu era de um vermelho devastador, desses leitos em rasa, A cidadezinha alem fora rasgada com violncia, mais uma vez.

        Flocos de neve feitos de cinzas caam to encantadoramente, que a gente ficava tentada a espichar a lngua para peg-los, prov-los. S que eles queimariam
os lbios. Cozinhariam a boca.
        Claramente, eu vi.
        Estava prestes a ir embora, quando a encontrei ajoelhada.
        Uma cordilheira de escombros fora escrita, desenhada, erigida  sua volta. Ela estava agarrada a um livro.
        Afora todo o resto, a menina que roubava livros queria desesperadamente voltar para o poro, escrever ou ler sua histria at o fim, uma ltima vez. Olhando
para trs, vejo tudo muito bvio em seu rosto. Ela morria de saudade daquilo - da segurana, da familiaridade -, mas no conseguiu se mexer. Alm disso, o poro
j nem existia. Era parte da paisagem mutilada.
        Por favor, mais uma vez, peo-lhe que acredite em mim. Tive vontade de parar. Agachar-me. Tive vontade de dizer:
        Sinto muito, menina. Mas isso no  permitido. No me agachei. No falei.
        Em vez disso, observei-a por algum tempo. Quando ela conseguiu se mexer, acompanhei-a.
Ela deixou cair o livro.
Ajoelhou se.
A roubadora de livros uivou.

        Seu livro o foi pisoteado vrias vezes quando comearam a limpeza e, embora tivesse havido ordens de que se limpasse apenas a confuso de concreto, o objeto
mais precioso da menina foi jogado num caminho de lixo, e foi nesse ponto que me senti obrigada. Subi na caamba e o peguei com minha mo, sem me dar conta de que
o guardaria e o olharia milhares de vezes, ao longo dos anos. Observaria os lugares em que nos cruzssemos e me deslumbraria com o que a menina viu e a maneira como
Sobreviveu. Isso e o melhor que posso fazer - ver aquilo se encaixar em tudo o mais de que fui espectadora naqueles tempos.
        Quando me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas so as cores em que a vi em carne e osso que tem mais ressonncia. Vez on outra, consigo flutuar
muito acima daqueles trs momentos. Fico suspensa, at que uma verdade sptica sangra para a claridade.
        E a que as vejo numa frmula.

 AS CORES 
vermelho:  branco:  preto:
        Elas caem umas sobre as outras. A assinatura rabiscada em preto sobre o branco global ofuscante, em cima do vermelho espesso de sopa.
        Sim, lembro-me dela com freqncia e, num de meu vasto sortimento de bolsos, guardei sua histria para contar. E uma dentre a pequena legio que carrego,
cada qual extraordinria por si s. Cada qual uma tentativa - uma tentativa que  um salto gigantesco - de me provar que voc e a sua existncia humana valem a pena.
        Aqui est ela. Uma dentre um punhado.
        A menina que roubava livros.
        Se quiser, venha comigo. Vou lhe contar uma histria.
        Vou lhe mostrar uma coisa.



    PARTE UM

        O MANUAL DO COVEIRO
        APRESENTANDO:
        a rua himmel
        a arte de dizer saumensch
        uma mulher de punhos de ferro
        tentativa de um beijo
        Jesse Owens
        lixa de parede
        o cheiro da amizade
        uma campe peso pesado
        e a maior de todas as watschen

        CHEGADA  RUA HIMMEL
        Aquela ltima vez.
        Aquele cu vermelho...
        Como  que uma menina que rouba livros acaba ajoelhada, soltando uivos e ladeada por um monte de entulho ridculo, gordurento, inventado, feito pelo homem?
        Anos antes, o comeo foi a neve.
        Tinha chegado a hora. Para um.

 UM MOMENTO ESPETACULARMENTE TRGICO 
Um trem se deslocava depressa.
Abarrotado de seres humanos.
Um menino de seis anos morreu no terceiro vago.

        A roubadora de livros e seu irmo estavam viajando para Munique, onde logo seriam entregues a pais de criao. Agora sabemos,  claro, que o menino no chegou
l.

 COMO ACONTECEU 
Houve um intenso acesso de tosse.
Um acesso quase inspirado.
E, logo depois - nada.
        Quando a tosse parou, no restou outra coisa seno o nada da vida, seguindo em frente com um arrastar dos ps, ou um espasmo quase silencioso. Nessa hora,
uma subtaneidade achou o caminho de seus lbios, que eram de um marrom corrodo e descascado, feito tinta velha.
        Precisando desesperadamente de reforma.
        A me deles dormia.
        Entrei no trem.
        Meus ps passaram pelo corredor atravancado e minha palma lhe cobriu a boca num instante.
        Ningum notou.
        O trem continuou em seu galope.
        Menos a menina.
        Com um olho aberto, outro ainda no sonho, a roubadora de livros - tambm conhecida como Liesel Meminger - pde ver, sem sombra de dvida, que seu irmo caula,
Werner, estava cado de lado e morto.
        Seus olhos azuis fitavam o cho.
        Sem nada ver.
        Antes de acordar, a menina que roubava livros estivera sonhando com o Fhrer, Adolf Hitler. No sonho, ela participava de um comcio em que ele fazia um discurso,
e olhava para o repartido cor de crnio em seu cabelo e para o quadrado perfeito de seu bigode. Ouvia contente a enxurrada de palavras que jorrava da boca do homem.
As frases dele rebrilhavam  luz. Num momento mais calmo, ele at se abaixara e sorrira para ela. Liesel retribura o sorriso, dizendo: "Guten Tag, Herr Fhrer.
Wie geht's dir hent?" Ela no havia aprendido a falar muito bem, nem tampouco a ler, porque raras vezes freqentara a escola. A razo disso ela descobriria no devido
tempo.
        Quando o Fhrer estava prestes a responder, a menina acordou.
        Era janeiro de 1939. Liesel tinha nove anos, logo faria dez.
        Seu irmo estava morto.
        Um olho aberto.
        Um ainda num sonho.
        Seria melhor um sonho completo, eu acho, mas realmente no tenho controle sobre isso.
        O segundo olho acordou de um salto e ela me flagrou, disso no tenho dvida. Foi exatamente na hora em que me ajoelhei e extra a alma do menino, segurando-a,
amolecida, em meus braos inchados. Logo depois ele se aqueceu, mas, quando o peguei originalmente, o esprito do menino estava mole e frio, feito sorvete. Comeou
a derreter em meus braos. Depois, foi-se aquecendo completamente. Curando-se.
        Para Liesel Meminger, houve a rigidez aprisionada dos movimentos e a invaso atordoante das idias. Es stimmt nicht. Isso no est acontecendo. No est
acontecendo.
        E os sacolejos.
        Por que eles sempre os sacodem?
        , eu sei, eu sei, imagino que tenha algo a ver com o instinto. Para estancar o fluxo da verdade. O corao dela, naquele momento, estava escorregadio e
quente, e alto, muito, muito alto.
        Estupidamente, fiquei.
        Observei.
        Depois disso, a me.
        A menina a acordou com o mesmo sacolejo aflito.
        Se voc no consegue imaginar como , pense num silncio canhestro. Pense em cacos e pedaos de desespero flutuante. E em se afogar num trem.
        A neve andara caindo ininterruptamente, e o servio para Munique foi obrigado a parar, por causa do trabalho malfeito nos trilhos. Havia uma mulher chorando.
E uma menina entorpecida, parada ao lado dela.
        Em pnico, a me abriu a porta.
        Desceu para a neve, segurando o corpinho.
        Que podia fazer a menina seno segui-la?
        Como j lhe informei, dois guardas tambm desceram do trem. Conversaram e discutiram sobre o que fazer. Era uma situao desagradvel, para dizer o mnimo
Acabou sendo decidido que todos os trs seriam levados para a estao seguinte e deixados l, para resolver as coisas.
        Dessa vez, o trem capengou pelo interior coberto de neve.
        Chacoalhou e parou.
        Eles desceram na plataforma, o corpo nos braos da me.
        Pararam.
        O menino estava ficando pesado.
        Liesel no tinha idia de onde estava. Era tudo branco e, enquanto ficaram na estao, ela s conseguiu olhar para as letras desbotadas da placa  sua frente.
Para Liesel, a cidade no tinha nome, e foi l que seu irmo, Werner, foi enterrado, dois dias depois. As testemunhas incluram um padre e dois coveiros, trmulos
de frio.

 UMA OBSERVAO 
Um par de guardas do trem.
Um par de coveiros.
No frigir dos ovos, um deles dava as ordens.
O outro fazia o que lhe mandavam.
A pergunta : e quando o outro  muito mais do que um?
Erros, erros,
s vezes parece que isso  tudo de que sou capaz.

        Durante dois dias, cuidei do que  meu. Viajei pelo globo, como sempre, entregando almas  esteira rolante da eternidade. Vi-as serem passivamente levadas.
Em vrios momentos, avisei a mim mesma que deveria manter uma boa distncia do enterro do irmo de Liesel Meminger. No ouvi meus conselhos.
        A quilmetros de distncia, ao me aproximar, j pude ver o grupinho de humanos frigidamente parados em meio ao deserto de neve. O cemitrio me acolheu como
a uma amiga e, logo depois, eu estava com eles. Abaixei a cabea.
        Parados  esquerda de Liesel, os coveiros esfregavam as mos e resmungavam sobre a neve e as condies de escavao do momento. "E muito difcil atravessar
esse gelo todo", coisas assim. Um deles no podia ter mais de quatorze anos. Um aprendiz. Quando foi embora, depois de umas dezenas de passos, um livro preto caiu
inocuamente do bolso de seu casaco, sem seu conhecimento.
        Minutos depois, a me de Liesel comeou a se afastar com o padre. Agradecia-lhe por ter oficiado a cerimnia.
        Mas a menina ficou.
        Seus joelhos afundaram no cho. Era chegada a sua hora.
        Ainda incrdula, ela comeou a cavar. Ele no podia estar morto. Ele no podia estar morto. Ele no podia...
        Em segundos, havia neve trinchando sua pele.
        O sangue congelado rachava em suas mos.
        Em algum lugar, em toda aquela neve, ela via seu corao partido em dois pedaos. Cada metade luzia e pulsava sob a imensa branquido. A menina s percebeu
que a me voltara para busc-la quando sentiu a mo ossuda em seu ombro. Estava sendo arrastada para longe. Um grito quente encheu-lhe a garganta.

 UMA IMAGENZINHA, TALVEZ 
A VINTE METROS DE DISTNCIA
Terminado o arrastar, a me e a menina pararam e respiraram.
Havia uma coisa preta e retangular abrigada na neve.
S a menina a viu.
Ela se curvou, apanhou-a e a segurou firme entre os dedos.
O livro tinha letras prateadas.
As duas deram as mos.

        Soltou-se um ltimo adeus encharcado e elas fizeram meia-volta e saram do cemitrio, olhando vrias vezes para trs. Quanto a mim, fiquei mais uns momentos.
Acenei. Ningum retribuiu o aceno.
        Me e filha deixaram o cemitrio e se dirigiram ao prximo trem para Munique.
        As duas eram magras e plidas.
        As duas tinham machucados nos lbios.
        Liesel percebeu isso na janela suja e embaada do trem, quando elas embarcaram, pouco antes do meio-dia. Nas palavras escritas pela prpria menina que roubava
livros, a viagem prosseguiu, como se tudo houvesse acontecido.
        Quando o trem parou na Bahnhof, em Munique, os passageiros saram como que de um embrulho rasgado. Havia gente de todas as classes, mas, em meio a ela, os
pobres eram os mais fceis de reconhecer. Os empobrecidos sempre tentam continuar andando, como se a relocao ajudasse. Desconhecem a realidade de que uma nova
verso do mesmo velho problema estar  sua espera no fim da viagem - aquele parente que a gente evita beijar.
        Acho que a me sabia muito bem disso. No entregaria os filhos aos escales superiores de Munique, mas, aparentemente, um lar de criao fora encontrado
e, que mais no fosse, ao menos a nova famlia poderia alimentar a menina e o menino um pouco melhor, e educ-los como convinha.
        O menino.
        Liesel tinha certeza de que a me carregava a lembrana dele, jogada sobre o ombro. Deixou-o cair. Viu seus ps, suas pernas e seu corpo baterem na plataforma.
        Como  que aquela mulher podia andar?
        Como podia mover-se?
        Est a uma coisa que nunca saberei nem compreenderei - do que os humanos so capazes.
        Ela o apanhou e continuou a andar, com a menina agora agarrada  sua saia.
        Encontraram-se autoridades e as perguntas sobre o atraso e o menino fizeram-nas levantar as cabeas vulnerveis. Liesel ficou num canto do escritrio pequeno
e empoeirado, enquanto a me se sentava numa cadeira muito dura, com os pensamentos apertados.
        Houve o caos da despedida.
        Foi uma despedida molhada, com a cabea da menina enterrada nas depresses lanosas e gastas do casaco da me. Houve mais alguns arrastamentos.
        Bem alm dos arredores de Munique, havia uma cidade chamada Molching que se pronuncia melhor por gente como voc e eu como "Molking". Era para l que a levariam,
para uma rua chamada Himmel.
UMA TRADUO
Himmel = Cu
         Quem quer que tenha dado nome  Rua Himmel tinha, sem dvida, um saudvel senso de ironia. No que ela fosse um inferno na Terra. No era. Mas com certeza
tambm no era o paraso.
        Como quer que fosse, os pais de criao de Liesel estavam esperando.
        Os Hubermann.
        Haviam esperado um menino e uma menina, e receberiam uma pequena penso por acolh-los. Ningum queria ser a pessoa a dizer a Rosa Hubermann que o garoto
no sobrevivera  viagem. Na verdade, ningum jamais queria mesmo dizer-lhe coisa alguma. Em matria de temperamentos, o dela no era propriamente invejvel, embora
a mulher tivesse um bom histrico com filhos de criao no passado. Ao que parece, havia endireitado alguns.
        Para Liesel, foi um passeio de carro.
        Ela nunca andara em nenhum.
        Houve a subida e a descida constantes do estmago, bem como a v esperana de que eles se perdessem no caminho, ou mudassem de idia. Em meio a tudo, seu
pensamento no conseguia deixar de voltar para a me, l na Bahnhof outra vez  espera de partir. Tremendo de frio. Embrulhada naquele casaco intil. Ela havia rodo
as unhas enquanto esperava o trem. A plataforma era comprida e desconfortvel - uma tira de cimento frio. Ser que ela ficaria de olho no local aproximado do sepultamento
do filho, na viagem de volta? Ou o sono seria pesado demais?
        O carro seguiu em frente, com Liesel temendo a ltima curva letal.
        Era um dia cinza, a cor da Europa. Cortinas de chuva fechadas ao redor do carro.
        - Estamos quase chegando - disse a mulher do servio de adoes, Frau Heinrich, virando-se com um sorriso. - "Dein neues Heim. Sua nova casa." Liesel limpou
um crculo no vidro embaado e respingado, e olhou para fora.

 UMA FOTOGRAFIA DA RUA HIMMEL 
As construes pareciam grudadas umas nas outras,
quase todas de casas pequenas e edifcios de ar nervoso.
Havia uma neve suja, estendida feito um tapete.
Havia concreto, rvores nuas que pareciam
porta-chapus, e um ar cinzento.

        Tambm havia um homem no carro. Ficou com a menina enquanto Frau Heinrich desapareceu l dentro. Liesel presumiu que ele estivesse ali para se certificar
de que ela no fugisse, ou para obrig-la a entrar, se ela criasse problemas. Depois, no entanto, quando o problema comeou de verdade, o homem simplesmente ficou
sentado, olhando. Talvez, fosse apenas o ltimo recurso, a soluo final.
         Passados alguns minutos, um homem muito alto saiu da casa. Hans Hubermann, o pai de criao de Liesel De um lado dele estava Frau Heinrich, de estatura
mediana. Do outro, a forma atarracada de Rosa Hubermann, que parecia um pequeno guarda-roupas com um casaco jogado por cima. Havia em seu andar um gingado muito
distinto. Ela era quase engraadinha, no fosse pelo rosto, que lembrava papelo amarrotado e aborrecido, como se ela meramente tolerasse aquilo tudo. O marido andava
ereto, com um cigarro queimando entre os dedos. Ele mesmo os enrolava.
        0 caso foi o seguinte:
        Liesel se recusou a sair do carro.
        - Was ist los mit dem Kind? - perguntou Rosa Hubermann. Repetiu a pergunta, - Qual  o problema da menina?
        Enfiou a cabea dentro do carro e disse: - Na, komm. Komm.
        O banco da frente foi abaixado. Um corredor de luz fria a convidava a sair. Ela no se mexeu.
        Do lado de fora, pelo crculo que tinha feito, Liesel via os dedos do homem alto, ainda segurando o cigarro. A cinza tombou de sua ponta, projetou-se e subiu
no ar vrias vezes, antes de cair no cho. Convenc-la a sair do carro levou quase quinze minutos. Foi o homem alto quem conseguiu.
        Em silncio.
        Depois veio o porto, ao qual ela se agarrou.
        Um bando de lgrimas lhe escorria dos olhos, enquanto ela ficava agarrada e se recusava a entrar. Comeou a juntar gente na rua, at que Rosa Hubermann ps-se
a xingar as pessoas, ao que elas voltaram para o lugar de onde tinham vindo.

 TRADUO DO ANNCIO DE ROSA HUBERMANN 
"Pro que  que esto olhando, seus babacas?"

        Liesel Meminger acabou entrando, cautelosamente. Hans Hubermann a levou por uma das mos. Sua malinha a segurava na outra. Enterrado sob a camada de roupas
dobradas nessa mala estava um livrinho preto, o qual, ao que saibamos, um coveiro sisudo de quatorze anos, numa cidade sem nome, devia ter passado as ltimas horas
procurando. "Eu juro", imagino o dizendo a seu patro, "que No fao idia do que aconteceu com ele. Procurei por toda parte. Em tudo". Estou certa de que ele nunca
suspeitaria da menina, e, no entanto, ali estava o objeto - um livro preto de letras prateadas, que tinha por teto as roupas de Liesel.

 O MANUAL DO COVEIRO 
Guia em doze passos
para o sucesso como coveiro
Publicado pela Associao Bvara de Cemitrios
        A menina que roubava livros tinha atacado pela primeira vez - o comeo de uma carreira ilustre.

        CRESCENDO COMO SAUMENSCH
        Sim, uma carreira ilustre.
        Devo apressar-me a admitir, no entanto, que houve um hiato considervel entre o primeiro livro roubado e o segundo. Outro aspecto digno de nota  que o primeiro
foi roubado da neve e o segundo, do fogo. Sem omitir que outros tambm lhe foram dados. No cmputo final, ela possua quatorze livros, mas via sua histria como
predominantemente composta por dez deles. Desses dez, seis foram roubados, um apareceu na mesa da cozinha, dois foram feitos para ela por um judeu escondido, e um
foi entregue por uma tarde suave, vestida de amarelo.
        Quando viesse a escrever sua histria, ela se perguntaria exatamente quando os livros e as palavras haviam comeado a significar no apenas alguma coisa,
mas tudo. Teria sido ao pr os olhos pela primeira vez na sala com estantes e mais estantes deles? Ou quando Max Vandenburg chegara  Rua Himmel, carregando as mos
cheias de sofrimento e o Mein Kampf de Hitler? Teria sido durante a leitura nos abrigos? Na ltima parada para Dachau? Teria sido A Sacudidora de Palavras? Talvez
nunca houvesse uma resposta exata sobre onde e quando isso havia ocorrido. Seja como for, estou me adiantando. Antes de entrarmos em qualquer desses assuntos, primeiro
precisamos dar uma volta pelos primrdios de Liesel Meminger na Rua Himmel e pela arte de saumenschiar.
        Quando de sua chegada, ainda se podiam ver as marcas das mordidas da neve em suas mos e o sangue enregelado em seus dedos. Tudo nela era subnutrido. Canelas
que pareciam arame. Braos de cabide. A menina no o produzia com freqncia, mas, quando ele surgia, seu sorriso era faminto.

        Seu cabelo era um tipo bem prximo do louro alemo, mas seus olhos eram perigosos. Castanhos escuros. Ningum gostaria realmente de ter olhos castanhos escuros
na Alemanha daquela poca. Talvez ela os tivesse herdado do pai, mas no havia como saber, j que no se lembrava dele. Na verdade, s havia uma coisa que ela sabia
do pai. Era um rtulo que Liesel no compreendia.
 UMA ESTRANHA PALAVRA 
Kommunist
        Ela a ouvira vrias vezes nos anos mais recentes.
        "Comunista".
        Havia penses apinhadas de gente, salas repletas de perguntas. E aquela palavra. Aquela palavra estranha estava sempre presente em algum lugar, parada na
esquina, espreitando no escuro. Usava ternos, uniformes. Onde quer que eles fossem, l estava o termo, toda vez que seu pai era mencionado. Liesel era capaz de cheir-lo
e prov-lo. S no conseguia soletr-lo nem entend-lo. Quando perguntara  me o que a palavra significava, ela lhe dissera que isso no tinha importncia, que
ela no devia se preocupar com essas coisas. Numa penso, uma mulher mais sadia havia tentado ensinar as crianas a escrever, usando carvo na parede. Liesel ficara
tentada a lhe perguntar o significado, mas isso nunca aconteceu. Um dia, a mulher foi levada para interrogatrio. No voltou.
        Quando chegou a Molching, Liesel tinha ao menos uma vaga percepo de estar sendo salva, mas isso no servia de consolo. Se sua me a amava, por que deix-la
na porta de outra pessoa? Por qu? Por qu?
        Por qu?
        O fato de ela saber a resposta - nem que fosse no nvel mais elementar - parecia no vir ao caso. Sua me estava sempre doente e nunca havia dinheiro para
consert-la. Liesel sabia. Mas isso no queria dizer que tivesse de aceitar. Por mais que lhe dissessem que a amavam, no havia nenhum reconhecimento de que a prova
disso fosse o abandono. Nada alterava o fato de ela ser uma menina magrela e perdida em mais um lugar estranho, com mais gente estranha. Sozinha.
        Os Hubermann moravam numa das casinhas com jeito de caixa na Rua Himmel. Alguns cmodos, uma cozinha e um banheiro dividido com os vizinhos. O telhado era
plano e havia um poro baixo para guardar coisas. Era tido como no sendo um poro de profundidade suficiente. Em 1939, isso no era problema. Depois, em '42 e '43,
passou a ser. Quando comearam os bombardeios areos, eles sempre tinham que correr pela rua para um abrigo melhor.
        No comeo, foi a linguagem desbocada que causou impacto imediato. Era muito veemente e prolixa. A cada duas palavras vinham Saumensch, ou Saukerl, ou Arschloch.
Para quem no est familiarizado com esses termos, convm eu explicar. Sal,  claro, refere-se a porcos. No caso de Saumensch, serve para descompor, espinafrar ou
simplesmente humilhar uma pessoa do sexo feminino. Saukerl (que se pronuncia "zaukerl")  para os homens. Arschloch pode ser diretamente traduzido por "babaca".
Mas essa palavra no diferencia os sexos. E s assim.
        - Saumensch, du dreckiges! - gritou a me de criao de Liesel naquela primeira noite, quando ela se recusou a tomar banho. - Sua porca imunda! Por que no
quer tirar a roupa?
        Ela era boa em matria de se enfurecer. Na verdade, podia-se dizer que Rosa Hubermann tinha a face decorada por uma fria constante. Era assim que os vincos
tinham se transformado na textura de papelo de seu rosto.
        Liesel,  natural, estava imersa em angstia. No havia jeito de tomar banho nenhum, nem de ir dormir, alis. Ficou contorcida num canto do banheiro, que
mais parecia um armrio, agarrada aos braos inexistentes da parede, em busca de algum nvel de apoio. No havia nada seno tinta seca, a respirao difcil e o
dilvio de improprios de Rosa.
        - Deixe-a em paz - disse Hans Hubermann, entrando na briga. Sua voz meiga entrou de mansinho, como quem se infiltrasse na multido. - Deixe-a comigo.
        Chegou mais perto e se sentou no cho, encostado na parede. Os ladrilhos eram frios e impiedosos.
        - Sabe enrolar cigarros? - perguntou  menina, e, durante mais ou menos uma hora, os dois ficaram sentados no poo crescente de escurido, brincando com
o tabaco e os papis dos cigarros, que Hans Hubermann ia fumando.
        Terminada a hora, Liesel sabia enrolar moderadamente bem um cigarro. E ainda no havia tomado banho.
 ALGUNS DADOS SOBRE HANS HUBERMANN 
Ele adorava fumar.
O que mais gostava no fumo era de enrolar os cigarros.
Tinha o ofcio de pintor de paredes e tocava acordeo.
        Isso era uma mo na roda, especialmente no inverno, quando ele podia ganhar um dinheirinho tocando nos bares de Molching, como o Knoller.
        Ele j me havia tapeado numa guerra mundial, mas depois seria posto em outra (como uma espcie perversa de recompensa), na qual daria um jeito de conseguir
me evitar outra vez.
        Para a maioria das pessoas, Hans Hubermann mal chegava a ser visvel. Uma pessoa no especial. Com certeza, tinha excelentes habilidades como pintor. Sua
habilidade musical era superior  mdia. Mas, de algum modo, e tenho certeza de que voc deve ter conhecido gente assim, ele conseguia parecer uma simples parte
do cenrio, mesmo quando estava na frente de uma fila. Vivia apenas por ali, sempre. Indigno de nota. No importante nem particularmente valioso.
        O frustrante nessa aparncia, como voc pode imaginar, era ela ser completamente enganosa, digamos. Decididamente, havia valor nele, e isso no passou despercebido
para Liesel Meminger. (A criana humana - to mais arguta, s vezes, do que o adulto espantosamente grave!) Ela percebeu de imediato.
        O jeito dele.
        O ar tranqilo perto dele.
        Naquela noite, quando Hans acendeu a luz no banheirinho indiferente, Liesel observou a estranheza dos olhos de seu pai de criao. Eram feitos de bondade
e prata. Como prata mole, derretida. Ao ver aqueles olhos, Liesel compreendeu que Hans Hubermann tinha muito valor.
 ALGUNS DADOS SOBRE ROSA HUBERMANN 
Rosa tinha um metro e cinqenta e cinco de altura e prendia
os fios castanho-acinzentados do cabelo elstico num coque.
Para complementar a renda dos Hubermann,
lavava e passava roupa para
cinco das famlias mais ricas de Molching.
Sua comida era atroz.
Ela possua a habilidade singular de irritar
quase todas as pessoas que encontrava.
Mas realmente amava Liesel Meminger.
Seu jeito de demonstr-lo  que era estranho.
Implicava agredi-la com a colher de pau e com as palavras,
a intervalos variveis.
        Quando Liesel finalmente tomou banho, depois de morar duas semanas na Rua Himmel, Rosa deu-lhe um enorme abrao, daqueles de machucar. Quase sufocando-a,
disse: - Saumensch, du dreckiges, j no  sem tempo!
        Passados alguns meses, eles deixaram de ser o Sr. e a Sra. Hubermann. Num tpico esmurrar de palavras, disse Rosa:
        -        Escute aqui, Liesel: de agora em diante, voc me chama de mame. Pensou por um momento e indagou:
        -        Como voc chamava sua me de verdade?
        -        Auch Mama, tambm de mame - respondeu Liesel, baixinho.
        -        Bom, ento eu sou a mame nmero dois - fez Rosa.
        - Olhou para o marido - E ele ali - e pareceu segurar as palavras na mo, amass-las e jog-las por cima da mesa: - Aquele Saukerl, aquele porco imundo,
voc o chama de papai, verstehst? Entendeu?
         - Sim - concordou Liesel, prontamente. Naquela casa se apreciavam respostas rpidas.
        - Sim, mame - corrigiu-a Rosa. - Saumensch, me chame de mame quando falar comigo.
        Nesse momento, Hans Hubermann havia acabado de enrolar um cigarro, lambendo o papel e colando tudo. Olhou para Liesel e deu uma piscadela. A menina no teria
nenhuma dificuldade para cham-lo de papai.

        A MULHER DE PUNHO DE FERRO
        Os primeiros meses foram decididamente os mais difceis.
        Toda noite, Liesel tinha pesadelos.
        O rosto do irmo.
        De olhos fixos no cho.
        Ela acordava nadando na cama, aos gritos, afogando-se no mar de lenis. Do outro lado do quarto, a cama que fora destinada a seu irmo flutuava nas trevas
feito um barco. Aos poucos, com a chegada da conscincia, parecia afundar at o cho. Essa viso no ajudava em nada e, em geral, passava-se um bom tempo antes de
os gritos pararem.
        Possivelmente, a nica coisa boa advinda desses pesadelos era que eles traziam ao quarto Hans Hubermann, seu novo papai, para acalm-la, acarinh-la.
        Ele ia todas as noites e se sentava com a menina. Nas primeiras duas vezes, s fez ficar com ela - um estranho para matar a solido. Noites depois, sussurrou:
- Pssiu, eu estou aqui, est tudo bem.
        Passadas trs semanas, abraou-a. A confiana se acumulava depressa, graas sobretudo  fora bruta da delicadeza do homem, a seu estar ali. Desde o comeo,
a menina soube que Hans Hubermann sempre apareceria no meio do grito e no iria embora.

 UMA DEFINIO NO ENCONTRADA NO DICIONRIO 
No ir embora: ato de confiana e amor, comumente decifrado pelas crianas

        Hans Hubermann sentava-se na cama, com o olhar ensonado, e Liesel chorava em suas mangas e o aspirava. Toda madrugada, logo depois das duas horas, ela tornava
a dormir com o cheiro do pai. Era uma mescla de cigarros apagados, dcadas de tintas e pele humana. No comeo, ela sugava tudo, depois respirava o perfume, at tornar
a mergulhar lentamente no sono. Toda manh, l estava Hans, a um metro e pouco da menina, amarfanhado na poltrona, quase dobrado ao meio. Ele nunca usava a outra
cama. Liesel levantava, aplicava-lhe um beijo cauteloso no rosto, e ele acordava e sorria.
        Havia dias em que o pai a mandava voltar para a cama e esperar um minuto, e retornava com o acordeo e tocava para ela. Liesel sentava-se na cama e cantarolava,
cerrando os dedos dos ps de animao. Ningum jamais lhe oferecera msica, at aquele momento. Ela sorria tanto que parecia idiota, observando as rugas que se desenhavam
no rosto do pai e o metal macio de seus olhos - at vir o xingamento da cozinha.
        - PARE COM ESSE BARULHO, SAUKERL!
        Papai tocava um pouquinho mais.
        Piscava o olho para a menina e, sem jeito, ela retribua a piscadela.
        s vezes, s para irritar mame um pouco mais, ele tambm levava o instrumento para a cozinha e tocava at o fim do caf-da-manh.
        O po com gelia de papai ficava meio comido em seu prato, enrolado no formato das dentadas, e a msica olhava de frente para Liesel. Sei que soa estranho,
mas era assim que ela a sentia. A mo direita de papai passeava pelas teclas cor de dente.
        A esquerda apertava os botes. (A menina gostava especialmente de v-lo apertar o boto prateado cintilante - o d maior.) O exterior preto do acordeo,
arranhado, mas reluzente, ia para um lado e para o outro, enquanto os braos de Hans apertavam os foles empoeirados, fazendo-os sugar o ar e tornar a expeli-lo.
Na cozinha, nessas manhs, papai dava vida ao acordeo. Acho que isso faz sentido, quando a gente realmente pra para pensar.
        Como  que a gente sabe se uma coisa est viva?
        Verifica a respirao.
        O som do acordeo, na verdade, era tambm o anncio da segurana. Do dia. Durante o dia, era impossvel ela sonhar com o irmo. Liesel sentia sua falta e,
muitas vezes, chorava no banheiro minsculo, o mais baixo possvel, mas tambm ficava contente por estar acordada. Na primeira noite com os Hubermann, ela havia
escondido seu ltimo vnculo com o irmo - O Manual do Coveiro - embaixo do colcho, e vez por outra o tirava de l e o segurava. Fitando as letras da capa e tocando
o texto impresso na parte interna, ela no fazia a menor idia do que o livro dizia. A questo  que o assunto do livro no tinha mesmo importncia. O mais importante
era o que ele significava.

 O SIGNIFICADO DO LIVRO 
1. A ltima vez que ela vira o irmo.
2. A ltima vez que ela vira a me.

        De quando em quando, Liesel murmurava a palavra mame e via o rosto materno umas cem vezes, numa nica tarde. Mas esses eram sofrimentos pequenos, comparados
ao terror de seus sonhos. Nessas ocasies, na imensa extenso do sono, ela nunca se sentia to completamente s.
        Como voc certamente j notou, no havia outras crianas na casa.
        Os Hubermann tinham dois filhos, mas eles eram mais velhos e tinham sado de casa. Hans Jnior trabalhava no centro de Munique, e Trudy tinha um emprego
de domstica e bab. Os dois logo entrariam na guerra. Uma faria projteis. O outro os dispararia.
        A escola, como voc pode imaginar, foi um fracasso terrvel.
        Embora fosse estatal, sofria uma influncia catlica macia, e Liesel era luterana. O que no era um comeo dos mais auspiciosos. Depois, eles descobriram
que a menina no sabia ler nem escrever.
        De modo humilhante, ela foi jogada com as crianas menores, que mal comeavam a aprender o alfabeto. Apesar de ser pele e osso e plida, a menina sentia-se
gigantesca entre a garotada nanica e, muitas vezes, desejava empalidecer at sumir por completo.
        Mesmo em casa, no havia grande margem para orientao.
        -        No v pedir ajuda a ele - assinalou mame. - Aquele Saukerl - apontou-o.
        O pai olhava pela janela, como era seu hbito freqente. - Ele saiu da escola na quarta srie.
        Sem se virar, papai respondeu calmamente, mas com veneno:
        -        Bem, no a pea a ela tambm - disse, batendo a cinza do lado de fora. Ela saiu da escola na terceira srie.
        No havia livros em casa (exceto o que a menina escondera embaixo do colcho), e o melhor que Liesel podia fazer era repetir baixinho o alfabeto, at receber
ordens, em termos inequvocos, de calar a boca. Toda aquela resmungao. S depois, quando houve um incidente de xixi na cama em meio a um pesadelo, foi que comeou
uma instruo extra na leitura. Era oficiosamente chamada de aula da meia-noite, embora costumasse comear por volta das duas da madrugada. Falarei mais disso daqui
a pouco.
        Em meados de fevereiro, quando tez dez anos, Liesel ganhou uma boneca usada, com uma perna faltando e o cabelo amarelo.
        - Foi o melhor que pudemos fazer desculpou se o pai.
        -        Do que voc est falando? Ela tem sorte de ganhar tudo isso - corrigiu-o a me.
        Hans continuou a examinar a perna restante, enquanto Liesel experimentava o novo uniforme. Dez anos significavam a Juventude Hitlerista. Juventude Hitlerista
significava um uniformezinho marrom. Sendo menina, Liesel foi matriculada no que era chamado de BDM.

         EXPLICAO DA ABREVIATURA 
        Ela significava Bund Deutscher Mdchen - Liga de Meninas Alems.

        A primeira coisa que eles faziam por l era certificar-se de que o seu "heil Hitler" funcionava corretamente. Depois, ensinavam a marchar direito, enrolar
ataduras e costurar roupas. As meninas tambm eram levadas para caminhadas e outras atividades similares. Quartas e sbados eram os dias marcados para os encontros,
das trs s cinco da tarde.
        Toda quarta e sbado, papai levava Liesel at l e ia busc-la duas horas depois. Os dois nunca falavam muito do assunto. Apenas andavam de mos dadas e
escutavam o som de seus passos, e o pai fumava um cigarro ou dois.
        A nica aflio que papai lhe causava era o fato de sair constantemente. Muitas noites, ele entrava na sala de estar (que tambm servia de quarto para os
Hubermann), tirava o acordeo do armrio velho e se espremia pela cozinha at a porta da frente.
        Enquanto ele descia a Rua Himmel, mame abria a janela e gritava:
        -        No volte muito tarde!
        -        Mais baixo! - respondia ele, virando-se para trs.
        -        Saukerl! V tomar no cu! Eu falo alto o quanto quiser!
        O eco de seus xingamentos o acompanhava pela rua. Hans nunca olhava para trs, ou, pelo menos, no at ter certeza de que sua mulher se afastara. Nessas
noites, no fim da rua, com a caixa do acordeo na mo, ele virava para trs, pouco antes ela loja de Frau Diller, na esquina, e via a figura que substitura sua
mulher  janela. Por um breve instante, sua mo comprida e fantasmagrica se erguia, antes de ele tornar a virar para frente e seguir caminhando devagar. Liesel
s tornava a v-lo s duas da madrugada, quando ele a arrancava delicadamente do pesadelo.
        As noites na pequena cozinha eram uma barulheira infalvel. Rosa Hubermann estava sempre falando e, quando falava, isso assumia a forma do schimpfen. Ela
brigava e reclamava constantemente. A rigor, no havia ningum com quem brigar, mas a me era perita em faz-lo, em toda oportunidade que tinha. Era capaz de brigar
com o mundo inteiro naquela cozinha, e era isso que fazia quase todas as noites. Depois de comerem e de papai sair, Liesel e Rosa costumavam ficar l, e Rosa passava
roupa.
        Algumas vezes por semana, Liesel voltava ela escola e percorria as ruas de Molching com a me, apanhando e entregando a roupa nas partes mais ricas da cidade.
Knaupt Strasse, Heide Strasse. E umas outras. Mame entregava a roupa passada ou pegava a roupa por lavar com um sorriso respeitoso, mas, assim que fechavam a porta
e ela se afastava, punha-se a xingar aquela gente rica, com todo o seu dinheiro e sua preguia.
        -        So g'schtinkerdt demais para lavar a prpria roupa - dizia, apesar de depender deles.
        -        Aquele - bufava, acusando Herr Vogel, da Rua Heide. - Ganhou do pai todo o dinheiro que tem. Desperdia-o com mulheres e bebida. E mandando lavar
e passar a roupa,  claro.
        Era uma espcie de lista de chamada feita de desprezo.
        Herr Vogel, Herr e Frau Pfaffelhrver, Helena Schmidt, os Weingartner. Todos tinham culpa de alguma coisa.
         parte a embriaguez e a libertinagem, Ernst Vogel, de acordo com Rosa, estava sempre coando a cabea piolhenta, lambendo os dedos e entregando o dinheiro.
        -        Eu devia lavar o dinheiro antes de voltar para casa - resumia.
        Os Pfaffelhrver examinavam minuciosamente o resultado.
        - "Nem um nico vinco nessas camisas, por favor" -- imitava-os Rosa. - "Nada de amassados neste terno" E depois, ficam l inspecionando tudo, bem na minha
cara. Bem embaixo do meu nariz! Que G'sindel, que lixo!
        Os Weingartner, ao que parece, eram uns idiotas, com um Saumensch de um gato que estava sempre soltando plos.
        -        Voc sabe o tempo que demora para eu me livrar daquele plo todo? Ele se entranha em toda parte!
        Helena Schmidt era uma viva rica.
        -        Aquela velha aleijada, sentada l, s definhando. Nunca teve que enfrentar um dia de trabalho em sua vida inteira.
        0 maior desdm de Rosa, porm, ficava reservado para o nmero 8 da Grande Strasse. Uma casa ampla, no alto de uma ladeira, na parte rica da cidade.
        -        Essa a -- apontou Rosa, mostrando-a a Liesel, na primeira vez que foram at l -  a casa do prefeito. Aquele safado. A mulher fica sentada em
casa o dia inteiro, to mesquinha que nem acende a lareira; est sempre gelado l dentro. E maluca - concluiu, pontuando as palavras. - Completamente. Maluca.
        No porto, fez um gesto para a menina: - V voc.
        Liesel ficou apavorada. Uma gigantesca porta marrom, com uma aldraba de bronze, erguia-se acima de uma pequena escadaria.
        -        O qu?
        A me deu-lhe um empurro.
        -        No me venha com "o qu", Saumensch. Ande logo.
        Liesel andou. Percorreu a entrada, subiu os degraus, hesitou e bateu.
        Um roupo de banho atendeu  porta.
        Dentro dele, uma mulher de olhar assustado, cabelos que pareciam lanugem e uma postura de derrota postou-se diante da menina. Viu a mame no porto e entregou
a Liesel uma trouxa de roupa suja.
         -        Obrigada - disse Liesel, mas no houve resposta. S a porta. Fechada.
        -        Viu? - disse a me, quando ela voltou ao porto. - E isso que eu tenho de agentar. Esses ricaos cretinos, esses porcos preguiosos...
        Segurando a trouxa enquanto as duas se afastavam, Liesel olhou para trs. Da porta, a aldraba de bronze a fitava.
        Quando terminava de descompor as pessoas para quem trabalhava, Rosa Hubermann costumava passar a seu outro tema favorito de improprios. O marido. Olhando
para os sacos de roupa suja e as casas acanhadas, ela falava, falava, falava.
        -        Se o seu papai prestasse para alguma coisa - informava a Liesel, toda vez que andavam por Molching -, eu no teria que fazer isto.
        E fungava de escrnio.
        -        Pintor! Para que casar com aquele Arschloch? Era isso que me diziam... a minha famlia, digo.
        Os passos das duas trituravam os caminhos.
        -        E aqui estou eu, andando pelas ruas e me esfalfando feito escrava na cozinha, porque aquele Saukerl nunca tem emprego. No um emprego de verdade,
pelo menos. S aquele acordeo ridculo naquelas espeluncas sujas, toda noite.
        -        Sim, mame.
        -        E s isso que voc tem para dizer?
        Os olhos da me pareciam recortes de azul plido colados no rosto.
        As duas continuavam andando.
        Com Liesel carregando o saco.
        Em casa, a roupa era lavada num tanque de gua quente ao lado do fogo, pendurada para secar na lareira da sala e passada na cozinha. A cozinha era o local
em que se dava a ao.
        -        Ouviu isso? - perguntava mame, quase todas as noites, segurando o ferro aquecido no fogo. A luz era fraca na casa toda, e Liesel, sentada  mesa
da cozinha, olhava para as fagulhas  sua frente.
        -        O qu? - respondia. - Que foi?
        -        Foi aquela tal da Holtzapfel - dizia a me, j levantando da cadeira. - Aquela Saumensch acabou de cuspir na porta de novo.
        Era uma tradio de Frau Holtzapfel, uma das vizinhas, cuspir na porta dos Hubermann toda vez que passava por ela. A porta de entrada ficava a poucos metros
do porto, e digamos que Frau Holtzapfel simplesmente era boa em distncia - e linha preciso.
        As cusparadas deviam-se ao fato de que ela e Rosa Hubermann travavam uma espcie de guerra verbal de uma dcada. Ningum sabia a origem dessa hostilidade.
Era provvel que elas mesmas a tivessem esquecido.
        Frau Holtzapfel era uma mulher magra e rija, alm de obviamente rancorosa. Nunca se casara, mas tinha dois filhos homens, poucos anos mais velhos que os
dos Hubermann. Ambos estavam no exrcito e ambos faro rpidas aparies aqui antes de terminarmos, eu lhe garanto.
        Em matria de rancor, convm ainda dizer que Frau Holtzapfel tambm era minuciosa com suas cusparadas. Nunca deixava de spuck na porta do nmero trinta e
trs e dizer "Schweinel", toda vez que passava. Essa  uma coisa que notei nos alemes:
        Eles parecem gostar muito de porcos.
 UMA PERGUNTINHA 
E SUA RESPOSTA
E quem voc acha que era obrigada
a limpar a cusparada da porta, toda noite?
 - acertou.
        Quando uma mulher de punhos de ferro manda voc ir l fora limpar o cuspe da porta, voc vai. Principalmente quando o ferro est quente.
        Era s parte da rotina, na verdade.
        Toda noite, Liesel ia l fora, limpava a porta e observava o cu. Em geral, ele parecia um transbordamento - frio e pesado, escorregadio e cinzento -, mas,
vez por outra, algumas estrelas se atreviam a aparecer e flutuar, nem que fosse por uns minutos. Nessas noites, Liesel ficava um pouquinho mais e esperava.
        - Oi, estrelas.
        E esperava.
        Pela voz proveniente da cozinha.
        Ou at as estrelas serem novamente arrastadas para as guas do cu alemo.

        O B E I J O
        (Um tomador de decises na infncia)
        Como a maioria das cidadezinhas, Molching era cheia de personagens singulares. Um punhado deles morava na Rua Himmel. Frau Holtzapfel era apenas um dos integrantes
do elenco. Os outros incluam tipos como:
        *        Rudy Steiner - o garoto da casa ao lado, que era obcecado com o atleta negro norte-americano Jesse Owens.
        *        Frau Diller - a ariana inflexvel que era dona da loja da esquina.
        *        Tommy Mller - um garoto cujas infeces crnicas nos ouvidos tinham resultado em diversas cirurgias, num rio de pele cor-de-rosa pintado no rosto
e numa tendncia a contraes espsticas.
        *        Um homem inicialmente conhecido como "Pfiffikus", cuja vulgaridade fazia Rosa Hubermann parecer uma artfice das palavras e uma santa.
        De modo geral, era uma rua cheia de gente relativamente pobre, a despeito da visvel ascenso da economia alem no governo de Hitler. Ainda existiam reas
pobres na cidade.
        Como j foi mencionado, a casa vizinha  dos Hubermann era alugada por uma famlia de sobrenome Steiner. Os Steiner tinham seis filhos. Um deles, o famigerado
Rudy, logo se tornaria o melhor amigo de Liesel e, tempos depois, seu parceiro e catalisador ocasional no crime. Ela o conheceu na rua.
        Dias depois do primeiro banho de Liesel, a me a deixou sair para brincar com as outras crianas, na Rua Himmel, as amizades eram feitas do lado de fora,
qualquer que fosse o tempo. As crianas raramente visitavam as casas umas das outras, porque estas eram pequenas e, em geral, tinham pouqussima coisa. Alm disso,
a meninada praticava seu passatempo favorito, como profissionais, na rua. O futebol. Os times eram bem montados. Usavam-se latas de lixo para marcar as balizas.
        Como a nova criana da cidade, Liesel foi imediatamente enfiada entre um par dessas latas. (Tommy Mller finalmente se libertou, embora fosse o mais intil
jogador de futebol que a Rua Himmel j vira.)
        Correu tudo bem por algum tempo, at o momento fatdico em que Rudy Steiner virou de cabea para baixo na neve, num trompao cheio de frustrao desferido
por Tommy Mller.
        -        Que foi?! - gritou Tommy. O rosto exibia espasmos de desespero. - Que foi que eu fiz?!
        O pnalti foi marcado por todo o mundo no time de Rudy, e a era Rudy Steiner contra a nova garota, Liesel Meminger.
        Ele ps a bola num imundo monte de neve, confiante no desfecho habitual. Afinal, fazia dezoito cobranas que Rudy no perdia um pnalti, mesmo quando a oposio
fazia questo de tirar Tommy Mller do gol a pontaps. No importava quem o substitusse, Rudy sempre marcava.
        Nessa ocasio, tentaram obrigar Liesel a sair. Como voc pode imaginar, ela protestou, e Rudy concordou.
        -        No, no - sorriu. - A deixemela ficar.
        E esfregou as mos.
        A neve tinha parado de cair na rua imunda e as pegadas enlameadas juntavam-se entre os dois. Rudy ajeitou os ps, disparou o tiro e Liesel mergulhou e, de
algum modo, desviou a bola com o cotovelo. Levantou-se sorrindo, mas a primeira coisa que viu foi uma bola de neve arrebentando-lhe na cara. Metade dela era lama.
Doeu como o diabo.
        -        Que tal, gostou? - riu o menino e saiu correndo em busca da bola.
        -        Saukerl - murmurou Liesel. O vocabulrio de sua nova casa estava pegando depressa.

 ALGUNS DADOS SOBRE RUDY STEINER 
Ele era oito meses mais velho do que Liesel e tinha pernas ossudas,
dentes afiados, olhos azuis esbugalhados e cabelos cor de limo.
        Como um dos seis filhos dos Steiner,
estava permanentemente com fome.
Na Rua Himmel, era considerado meio maluco.
Isso se devia a um acontecimento raras vezes mencionado,
mas visto por todos como "O Incidente de Jesse Owens", no qual
ele se pintara de preto com carvo e correra os cem metros
do campo de futebol local numa noite.

        Doido ou no, Rudy sempre esteve destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bolada de neve na cara , com certeza, o comeo perfeito de uma amizade duradoura.
        Dias depois do incio das aulas, Liesel comeou a ir  escola com os Steiner. A me de Rudy, Barbara, o fez prometer andar junto com a menina nova, principal
mente por ter ouvido falar da bolada de neve. A favor de Rudy, verdade seja dita, ele ficou feliz em obedecer. No tinha nada daquele tipo de garotinho misgino
        Gostava muito das meninas e gostava de Liesel (da a bolada de neve). Na verdade, Rudy Steiner era um daqueles cretininhos audaciosos que gostam de se engraar
com as mocinhas. Toda infncia parece ter exatamente um desses jovens em seu meio e suas brumas. E o garoto que se recusa a temer o sexo oposto, puramente porque
todos os outros abraam esse medo, e  o tipo que no teme tomar decises. Nesse caso, Rudy j se decidira a respeito de Liesel Meminger.
        A caminho da escola, ele procurava apontar alguns marcos territoriais da cidade ou, pelo menos, conseguia introduzir isso tudo, em algum ponto entre mandar
os irmos mais novos fecharem a matraca e os mais velhos o mandarem fechar a dele. Seu primeiro ponto de interesse foi uma janelinha no segundo andar de um prdio.
        -  ali que mora o Tommy Mller - disse, e percebeu que Liesel no se lembrava do menino. - O careteiro, sabe? Quando tinha cinco anos, ele se perdeu na
feira no dia mais frio do ano. Trs horas depois, quando o acharam, estava duro de gelado e teve uma dor de ouvido horrvel, por causa do frio. Depois de algum tempo,
ficou com os ouvidos todos infeccionados por dentro e fez trs ou quatro operaes, e os mdicos acabaram com os nervos dele.  por isso que ele faz caretas. Liesel
fez coro:
        -        E  ruim no futebol.
        -        Pssimo.
        Depois veio a loja da esquina no fim da Rua Himmel. A de Frau Diller.

 NOTA IMPORTANTE SOBRE FRAU DILLER 
A mulher tinha uma regra fundamental

        Frau Diller era uma mulher irritadia, de culos grossos e olhar implacvel Tinha criado esse olhar nefando para desestimular a prpria idia de algum roubai
sua loja, que ela ocupava com postura militar, voz glida e at uma respirao que cheirava a "heil Hitler". A loja em si era branca e fria, completamente exangue.
A casinha espremida ao seu lado tremia com um pouco mais de severidade do que as outras construes da Rua Himmel. Frau Diller administrava esse sentimento, servindo-o
como o nico produto grtis de suas instalaes. Ela vivia para sua loja, e sua loja vivia para o Terceiro Reich. Mesmo quando comeou o racionamento, mais para
o fim do ano, sabia-se que ela vendia por baixo do pano algumas mercadorias difceis de obter e doava o dinheiro para o Partido Nazista. Na parede, alias do lugar
em que costumava ficar sentada, havia uma fotografia emoldurada do Fhrer.
        Se voc entrasse na loja dela e no dissesse "heil Hitler", no seria atendido. Quando os dois passaram, Rudy chamou a ateno de Liesel para os olhos a
prova de bala que fitavam de soslaio pela vitrine da loja.
        -        Diga "heil" quando entrar l - advertiu-a Rudy, com ar tenso. - A no ser que queira andar um pouco mais.
        Mesmo depois de terem passado muito da loja, Liesel virou para trs, e os olhos ampliados continuavam l, grudados na vitrine.
        Dobrada a esquina, a Rua Munique (a principal avenida para se entrar e sair de Molching) estava toda enlameada.
        Como freqentemente acontecia, algumas fileiras de soldados em treinamento passaram marchando. Seus uniformes andavam eretos e suas botas negras poluam
ainda mais a neve. Os rostos fixavam-se adiante, concentrados.
        Depois de verem os soldados desaparecer, o grupo dos Steiner e Liesel passaram por algumas vitrines de lojas e pela imponente prefeitura, que, anos depois,
seria retalhada pelos joelhos e enterrada. Algumas lojas estavam abandonadas e ainda marcadas por estrelas amarelas e estigmas anti-semitas. Mais adiante, a igreja
apontava para o cu, com seu telhado que era um verdadeiro ensaio sobre a colaborao das telhas. No conjunto, a rua era um longo tubo cinzento - um corredor de
umidade, gente agachada no frio e o som chapinhante de passos molhados.
        A certa altura, Rudy saiu correndo, arrastando Liesel consigo.
        Bateu na vitrine ela loja de um alfaiate.
        Se tivesse conseguido ler a tabuleta, Liesel teria notado que ela pertencia ao pai de Rudy. A loja ainda no tinha aberto, mas, l dentro, um homem arrumava
peas de vesturio atrs do balco. Olhou para cima e acenou.
        -        Meu pai - informou Rudy, e, logo em seguida, eles estavam no meio de uma massa de Steiners de tamanhos variados, todos dando adeusinho ou jogando
beijos para o pai, ou simplesmente parados e cumprimentando com um aceno de cabea (no caso dos mais velhos), e ento seguiram adiante, em direo ao ltimo marco
antes da escola.

 A LTIMA PARADA 
A rua das estrelas amarelas
        Era um lugar em que ningum queria ficar e para o qual ningum queria olhar, mas quase todos o faziam. No formato de um longo brao quebrado, a rua continha
vrias casas com janelas destroadas e paredes machucadas. Nas portas estava pintada a estrela-de-davi. Essas casas eram quase como leprosos. No mnimo, eram pstulas
infeccionadas no tecido alemo ferido.
        -        Schiller Strasse - disse Rudy. - A rua das estrelas amarelas.
        Ao fundo, algumas pessoas se deslocavam. A garoa as fazia parecerem fantasmas. No seres humanos, mas formas, movendo-se sob as nuvens cor de chumbo.
        -        Andem, vocs dois - chamou Kurt (o mais velho das crianas Steiner). Rudy e Liesel apertaram o passo em direo a ele.
        Na escola, Rudy fazia questo de procurar Liesel nos horrios de recreio. No se incomodava com o fato de os outros murmurarem sobre a burrice da nova menina
Esteve ao lado dela no comeo e estaria a seu lado depois, quando a frustrao de I Liesel explodisse. Mas no ia faz-lo de graa.
 A NICA COISA PIOR DO QUE 
UM MENINO QUE DETESTA A GENTE
Um menino que ama a gente.
        No fim de abril, quando voltavam da escola, Rudy e Liesel ficaram esperando na Rua Himmel pelo jogo habitual de futebol. Era meio cedo e nenhuma outra criana
havia aparecido at ento. A nica pessoa que viram foi Pfiffikus, o desbocado.
        -        Olha l - apontou Rudy.

 RETRATO DE PFIFFIKUS 
Ele era uma estrutura delicada.
Era uma cabeleira branca.
Era uma capa de chuva preta, calas marrons,
sapatos decrpitos e uma boca - e que bocal

        -        Ei, Pfiffikus!
        Quando a figura distante se virou, Rudy comeou a assobiar.
        O velho empertigou-se ao mesmo tempo e comeou a xingar com uma ferocidade que s se pode descrever como um talento. Ningum parecia saber qual era seu verdadeiro
nome, ou pelo menos, se sabia, nunca o usava. Ele s era chamado de Pfiffikus porque esse  o nome que se d a quem gosta de assobiar, e Pfiffikus decididamente
gostava. Vivia assobiando uma msica chamada Marcha Radetzky e a garotada toda da cidade o chamava e reproduzia a melodia. Nesse exato momento, Pfiffikus abandonava
seu jeito habitual de andar (curvado para frente, com passadas largas e desajeitadas e as mos atrs das costas protegidas pela capa de chuva) e se empertigava para
soltar improprios. Era o momento em que a impresso de serenidade sofria uma interrupo violenta, porque a voz dele transbordava de dio.
        Nessa ocasio, Liesel acompanhou o motejo de Rudy, quase como um ato reflexo
        -        Pfiffikus! - ecoou, adotando prontamente aquela crueldade apropriada que a infncia parece exibir. Seu assobio era horroroso, mas no havia tempo
para aperfeio-lo.
        O velho correu atrs deles, aos gritos. A coisa comeou por "Geh' scheissen!" e, desse ponto em diante, deteriorou depressa. No comeo, ele dirigiu os insultos
apenas ao menino, mas no tardou a chegar a vez de Liesel.
        -        Sua vadiazinha! - rugiu o homem. As palavras a atingiram como tijoladas nas costas. - Nunca vi voc mais gorda! - continuou. Imagine chamar uma
menina de dez anos de vadia. Pfiffikus era assim. Havia uma concordncia geral em que ele e Frau Holtzapfel formariam um casal encantador. - Voltem aqui! - foram
as ltimas palavras ouvidas por Liesel e Rudy, enquanto continuavam correndo. Correram at chegar  Rua Munique.
        -        Venha - disse Rudy, depois de recobrarem o flego. - S mais um pouquinho, at ali.
        Levou-a at o Oval Hubert, palco do incidente de Jesse Owens, onde os dois ficaram parados, com as mos nos bolsos. A pista se estendia  sua frente. S
podia acontecer uma coisa. Rudy comeou.
        -        Cem metros - incitou-a. - Aposto que voc no consegue me ganhar.
        Liesel no estava disposta a engolir nada daquilo.
        - Aposto que eu consigo.
        - Voc aposta o qu, Saumenschzinha? Tem algum dinheiro?
        -  claro que no. Voc tem?
        - No.
        Mas Rudy teve uma idia. Era o menino apaixonado vindo  tona.
        -        Se eu ganhar, eu beijo voc.
        Abaixou-se e comeou a dobrar a bainha das calas. Liesel ficou assustada, para dizer o mnimo.
        -        Para que voc quer me beijar? Eu estou imunda.
        -        Eu tambm.
        Era claro que Rudy no via razo para um pouquinho de sujeira atrapalhar as coisas. J fazia algum tempo desde o ltimo banho dos dois.
        Ela pensou no assunto, enquanto examinava as pernas magricelas da oposio. Eram mais ou menos iguais s suas. No tem jeito de ele me vencer, pensou com
seus botes. Balanou afirmativamente a cabea, com ar grave. Aquilo era para valer.
        -        Voc pode me dar um beijo, se ganhar. Mas, se eu ganhar, deixo de ser goleira no futebol.
        Rudy refletiu.
        -        Est valendo -, e os dois apertaram as mos.
        Tudo eram cus escuros e neblina, e comeavam a cair umas gotinhas de chuva. A pista era mais lamacenta do que parecia. Os competidores se aprontaram.
        Rudy jogaria uma pedra para cima, como se fosse o tiro da partida. Quando ela batesse no cho, os dois poderiam comear a correr.
        - Nem consigo ver a linha de chegada - reclamou Liesel.
        -        E eu consigo?
        A pedra afundou feito cunha na terra.
        Os dois correram lado a lado, trocando cotoveladas e procurando ficar na frente. O cho escorregadio sugava seus ps e acabou por derrub-los, talvez a uns
vinte metros do final.
        -        Jesus, Maria e Jos! - gritou Rudy. - Estou coberto de coc!
        -        No  coc,  lama - corrigiu Liesel, embora tivesse suas dvidas. Os dois se arrastaram mais cinco metros em direo  chegada.
        -        Ento, vamos considerar empate? - perguntou.
        Rudy olhou-a, com seus dentes afiados e os olhos azuis botocudos. Metade de seu rosto estava pintada de lama.
        -        Se der empate, ainda ganho meu beijo?
        -        Nem num milho de anos - disse Liesel, que se levantou e sacudiu um pouco de lama do capote.
        -        Voc deixa de ser goleira.
        -        Dane-se a sua goleira.
        Enquanto voltavam para a Rua Himmel, Rudy a advertiu:
        -        Um dia, Liesel, voc vai morrer de vontade de me beijar.
        Mas Liesel sabia.
        Jurou.
        Enquanto ela e Rudy Steiner vivessem, jamais beijaria aquele Saukerl desgraado e imundo, especialmente no nesse dia. Havia assuntos mais importantes de
que cuidar. Liesel olhou para sua roupa de lama e declarou o bvio.
        -        Ela vai me matar.
        Ela,  claro, era Rosa Hubermann, tambm conhecida como mame, e por pouco no a matou mesmo. A palavra Saumensch foi uma grande protagonista na administrao
do castigo. Rosa fez picadinho de Liesel.

        O INCIDENTE DE JESSE OWENS
        Como ns dois sabemos, Liesel no estava  mo na Rua Himmel quando Rudy praticou seu ato de infmia infantil. Mas, quando rememorou o passado, foi como
se tivesse estado presente. Em sua lembrana, de algum modo, tornara-se membro da platia imaginria de Rudy. Ningum mais o mencionou, mas Rudy com certeza compensou
isso, tanto que, quando Liesel veio a recordar sua histria, o incidente de Jesse Owens fez parte dela, tanto quanto tudo que a menina havia testemunhado em primeira
mo.
        Era 1936. A Olimpada. Os jogos de Hitler.
        Jesse Owens acabara de completar o revezamento 4 X 100 e conquistara sua quarta medalha de ouro. A histria de que ele era subumano, por ser negro, e da
recusa de Hitler a lhe apertar a mo foi alardeada pelo mundo afora. At os alemes mais racistas ficaram admirados com os esforos de Owens, e a notcia de sua
proeza vazou pelas brechas. Ningum ficou mais impressionado do que Rudy Steiner.
        Todos os seus familiares estavam amontoados na sala da famlia quando ele se esgueirou para a cozinha. Tirou um pouco de carvo do fogo e segurou as pedras
nas mozinhas midas. " agora." Veio o sorriso. Ele estava pronto.
        Esfregou bem o carvo no corpo, numa camada espessa, at ficar coberto de preto. At no cabelo deu uma esfregada.
        Na janela, o menino deu um sorriso quase manaco para seu reflexo e, de short e camiseta, surrupiou silenciosamente a bicicleta do irmo mais velho e saiu
pedalando pela rua, em direo ao Oval Hubert. Escondera num dos bolsos uns pedaos extras de carvo, para o caso de parte dele sair, mais tarde.
        Na cabea de Liesel, a Lua estava costurada no cu naquela noite. Com nuvens pespontadas em volta dela.
        A bicicleta enferrujada parou com um tranco na cerca do Oval Hubert, que Rudy escalou. Desceu do outro lado e foi saltitando, desajeitado, at o comeo dos
cem metros. Com entusiasmo, fez uma srie de alongamentos pavorosos. Cavou buracos para a partida na terra.
        A espera de seu momento, andou de um lado para outro, reunindo a concentrao sob o cu de trevas, com a Lua e as nuvens vigiando, tensas.
        - Owens est com pinta de vencedor - comeou a comentar. - Esta talvez seja sua maior vitria em todos os tempos...
        Apertou as mos imaginrias dos outros atletas e lhes desejou boa sorte, muito embora soubesse. Eles no tinham a menor chance.
        O juiz da largada fez sinal para que os atletas avanassem. Uma multido materializou-se em cada centmetro quadrado da circunferncia do Oval Hubert. Todos
gritavam uma coisa s. Entoavam o nome de Rudy Steiner - e seu nome era Jesse Owens.
        Calaram-se todos.
        Os ps descalos do menino agarraram o cho. Ele podia sentir a terra grudada entre os dedos.
        Ao comando do juiz de largada, assumiu a posio - e a pistola abriu um buraco na noite.
        No primeiro tero da corrida, foi tudo bastante equilibrado, mas era s uma questo de tempo para que o Owens encarvoado se livrasse e ampliasse a vantagem.
        - Owens na frente - gritou a voz esganiada do menino, enquanto ele corria pela pista deserta, diretamente em direo aos aplausos retumbantes da glria
olmpica. Chegou at a sentir a fita romper-se em duas em seu peito, ao atravess-la em primeiro lugar. O homem mais veloz da Terra.
        S na volta da vitria foi que as coisas azedaram. Em meio  multido, seu pai estava parado na linha de chegada, que nem o bicho-papo. Ou, pelo menos,
um bicho-papo de terno. (Como j foi mencionado, o pai de Rudy era alfaiate. Raras vezes era visto na rua sem estar de terno e gravata. Nessa ocasio, eram apenas
o terno e uma camisa amarrotada).
        - WAS IST LOS?  perguntou o Sr. Steiner ao filho, quando ele apareceu em toda a sua glria acarvoada. - Que diabo est acontecendo aqui?
        A multido desapareceu. Uma brisa agitou-se.
        - Eu estava dormindo na minha poltrona quando o Kurt notou que voc tinha sumido. Esto todos  sua procura.
        Em circunstncias normais, o Sr. Steiner era um homem admiravelmente bem educado. Descobrir que um de seus filhos se encarvoara at ficar preto, numa noite
de vero, no era o que ele considerava circunstncias normais.
        - O menino  maluco - resmungou, embora admitisse que, com seis filhos, era fatal que acontecesse uma coisa dessas. Pelo menos um tinha que ser a ma podre.
Neste exato momento, ele a olhava,  espera de uma explicao.
        - Bem?
        Rudy arfou, dobrando-se e pondo as mos nos joelhos.
        - Eu estava sendo o Jesse Owens - respondeu, como se fosse a coisa mais natural do unindo para se fazer. Em seu tom havia at um qu implcito que sugeria
alguma coisa do tipo "Que diabos isso parece ser?" Mas o tom se desfez quando ele viu a falta de sono recortada sob os olhos do pai.
        - Jesse Owens? -- repetiu o Sr. Steiner. Ele era daquele tipo de homem muito rgido. Tinha a voz angulosa e franca. O corpo era alto e pesado, como um carvalho.
O cabelo lembrava lascas de madeira. - O que tem ele?
        - Voc sabe, papai, o Mgico Negro.
        - Vou mostrar a voc o que  magia negra - e segurou a orelha do filho entre o polegar e o indicador.
        Rudy estremeceu.
        - Puxa, isso di mesmo!
        - Ah, ? - fez o pai, mais preocupado com a textura pegajosa do carvo a lhe contaminar os dedos. Ele cobriu o corpo todo, no foi?, pensou consigo mesmo,
est at nas orelhas, pelo amor de Deus! - Vamos.
        A caminho de casa, o Sr. Steiner resolveu conversar com o filho sobre poltica, da melhor maneira que pde. S anos depois  que Rudy entenderia tudo - quando
j era tarde demais para se dar ao trabalho de entender o que quer que fosse.
 A POLTICA CONTRADITRIA 
DE ALEX STEINER
Ponto Um: Ele era membro do Partido Nazista, mas no
odiava os judeus, nem qualquer outra pessoa, alis.
Ponto Dois: Secretamente, no entanto, no conseguiu deixar
de sentir uma parcela de alvio (ou pior - alegria!) quando
os lojistas judeus foram  falncia: a propaganda lhe
informara que era apenas uma questo de tempo
ama praga de alfaiates judeus aparecer e lhe roubar a clientela.
Ponto Trs: Mas isso significava que eles Iodos
tinham que ser expulsos?
Ponto Quatro: A famlia. Com certeza, ele tinha que fazer
o que pudesse para sustent-la.
Se isso significasse estar no partido,
significaria estar no partido.
Ponto Cinco: Em algum lugar, bem no fundo, havia uma comicho
em seu peito, mas ele fazia questo de no coar.
Tinha medo do que pudesse vazar dela.

        Os dois dobraram algumas esquinas at chegar  Rua Himmel, e Alex disse:
        -        Filho, voc no pode sair por a se pintando de preto, escutou?
        Rudy estava interessado e confuso. Agora a Lua se soltara, livre para se movimentar, subir, descer e pingar no rosto do menino, deixando-o escuro para valer,
como seus pensamentos.
        -        Por que no, papai?
        -        Porque eles o levam embora.
        -        Por qu?
        -        Porque voc no deve querer ser como os negros, nem os judeus, nem qualquer um que... que no seja ns.
        -        Quem so os judeus?
        -        Conhece aquele meu fregus mais antigo, o Sr. Kaufmann? Da loja onde compramos seus sapatos?
        -        Sim.
        -        Bom, ele  judeu.
        -        Eu no sabia. A gente tem de pagar para ser judeu? Precisa de uma licena?
        -        No, Rudy.
        O Sr. Steiner ia conduzindo a bicicleta com uma das mos e Rudy com a outra. Estava tendo dificuldade era para conduzir a conversa. Ainda no havia soltado
o lobo da orelha do filho. Esquecera-se dela.
        -        E como ser alemo ou catlico.
        -        Ah. O Jesse Owens  catlico?
        -        E eu sei l!
        Nessa hora, tropeou num pedal da bicicleta e soltou a orelha. Os dois andaram em silncio por algum tempo, at Rudy dizer:
        -        Eu s queria ser como o Jesse Owens, papai.
        Dessa vez, o Sr. Steiner ps a mo na cabea do menino e explicou:
        -        Eu sei, meu filho, mas voc tem um lindo cabelo louro e olhos azuis grandes e seguros. Devia ficar feliz com isso, est claro?
        Mas no havia nada claro.
        Rudy no compreendeu coisa alguma, e essa noite foi o preldio do que estava por vir. Dois anos e meio depois, a Sapataria Kaufmann foi reduzida a vidros
quebrados e todos os calados foram jogados num caminho, dentro de suas caixas.

        O OUTRO LADO DA LIXA DE PAREDE
        As pessoas tm momentos definidores, suponho, especialmente quando so crianas. Para umas,  um incidente de Jesse Owens. Para outras, um momento de histeria
que faz urinar na cama.
        Era o fim de maio de 1939, e a noite tinha sido como quase todas as outras. Mame sacudira seu punho de ferro. Papai havia sado. Liesel limpara a porta
da frente e observara o cu da Rua Himmel.
        Antes disso, tinha havido um desfile.
        Os camisas-pardas que eram membros extremistas do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemes, NSDAP (tambm conhecido como Partido Nazista), tinham
marchado pela Rua Munique, exibindo orgulhosamente suas bandeiras, de queixo erguido, como que sustentado por um mastro. As vozes, cheias de melodia, haviam culminado
numa tonitruante execuo de "Deutschland ber Alies" - "A Alemanha acima de tudo".
        Como sempre, eles tinham sido aplaudidos.
        Foram instigados a prosseguir, ao caminharem sabe-se l para onde.
        As pessoas da rua ficaram paradas, observando, algumas estendendo o brao em saudao, outras com as mos ardendo de tanto aplaudir. Algumas exibiam rostos
contorcidos de orgulho e arregimentao, como Frau Diller, mas aqui e ali tambm se espalhavam alguns homens atpicos, como Alex Steiner, que se postou como um bloco
de madeira em forma humana, batendo palmas lentas e obedientes. E belas. Submisso.
         Na calada, Liesel ficara ao lado do pai e de Rudy. O rosto de Hans Hubermann parecia ter as venezianas fechadas.

 ALGUNS NMEROS MASTIGADOS 
Em 1933, noventa por cento dos alemes manifestavam
um apoio resoluto a Adolf Hitler.
Isso deixa dez por cento que no o manifestavam.
Hans Hubermann fazia parte dos dez por cento.
Havia uma razo para isso.

        Durante a noite, Liesel sonhou, como sempre sonhava. No comeo, viu os camisas-pardas marchando, mas, logo depois, eles a levaram para um trem, onde a descoberta
de praxe a esperava. Seu irmo tinha os olhos fixos de novo.
        Quando acordou, aos gritos, Liesel soube de imediato que, nessa ocasio, alguma coisa havia mudado. Um cheiro vazava por baixo das cobertas, morno e doentio.
A princpio, ela tentou se convencer de que no havia acontecido nada, mas, quando papai chegou mais perto e a abraou, ela chorou e admitiu a verdade em seu ouvido.
        -        Papai - murmurou. - Papai -, e foi s. Provavelmente, ele sentira o cheiro.
        Hans tirou-a delicadamente da cama e a levou para o banheiro. O momento veio minutos depois.
        -        A gente tira os lenis - disse o papai, e, quando estendeu a mo por baixo e puxou o tecido, alguma coisa se soltou e caiu com um baque. Um livro
preto, com letras prateadas na capa, que veio num tranco e despencou no cho, entre os ps do homem alto.
        Ele baixou os olhos.
        Olhou para a menina, que encolheu timidamente os ombros.
        Em seguida, leu o ttulo em voz alta, com concentrao:
        -        O Manual do Coveiro.
        Ento era esse o nome, pensou Liesel.
        Uma nesga de silncio infiltrou-se entre eles. O homem, a menina, o livro. Ele o pegou e falou, baixinho feito algodo.

 UMA CONVERSA S DUAS DA MANH 
- Isto  seu?
-        Sim, papai.
-        Quer l-lo?
De novo: - Sim, papai.
Sorriso cansado.
Olhos metlicos, derretendo-se.
- Bem, ento  melhor a gente ler.

        Quatro anos depois, quando ela comeou a escrever no poro, duas idias ocorreram a Liesel a respeito do trauma de urinar na cama. Primeiro, ela achou que
tivera uma sorte imensa por ter sido papai a descobrir o livro. (Felizmente, ao lavar os lenis na vez anterior, Rosa mandara Liesel tir-los da cama e refaz-la.
- E trate de andar depressa, Saumensch! Est parecendo que eu tenho o dia inteiro?) Segundo, ela sentia um orgulho evidente do papel de Hans Hubermann em sua educao.
Talvez voc no imagine, escreveu, mas no foi tanto a escola que me ajudou a ler. Foi papai. As pessoas acham que ele no  inteligente, e  verdade que ele no
l muito depressa, mas eu no tardaria a saber que as palavras e a escrita tinham salvado sua vida, uma vez. Ou, pelo menos, as palavras e um homem que lhe ensinara
o acordeo...
          
        - Primeiro as coisas mais importantes - disse Hans Hubermann naquela noite. Lavou os lenis e os pendurou. - Agora - disse, ao regressar - vamos dar incio
a esta aula da meia-noite.
        A luz amarela estava viva, de tanta poeira.
        Liesel sentou-se nos lenis limpos e frios, envergonhada, radiante. A idia de ter minado na cama a aguilhoava, mas ela ia ler. Leria o livro.
        A empolgao ps-se de p dentro dela.
        Acenderam-se vises de um gnio da leitura de dez anos de idade.
        Que bom se fosse fcil assim!
        -        Para lhe dizer a verdade - papai foi logo explicando -, eu mesmo no sou muito bom de leitura.
        Mas no fazia mal ele ler devagar. Para dizer o mnimo, talvez fosse til o seu ritmo de leitura ser mais lento do que a mdia. Talvez causasse menos frustrao,
ao lidar com a inabilidade da menina.
        Ainda assim, a princpio, Hans pareceu meio constrangido ao segurar o livro e folhe-lo.
        Quando se aproximou e sentou ao lado dela na cama, reclinou-se, com as pernas penduradas de lado. Tornou a examinar o livro e o deixou cair no cobertor.
        -        Ora, por que uma boa menina como voc quer ler uma coisa dessas?
        Liesel tornou a encolher os ombros. Se o aprendiz andasse lendo a obra completa de Goethe, ou outro desses luminares, seria isso que estaria diante deles.
Ela tentou explicar:
        -        Eu... quando... Eu estava sentada na neve, e...
        As palavras, ditas baixinho escorregaram pela lateral da cama e se esvaziaram no cho, feito p.
        Mas papai sabia o que dizer. Ele sempre sabia o que dizer. Passou a mo pelo cabelo sonolento e disse:
        -        Bem, prometa-me uma coisa, Liesel. Se eu morrer dentro em breve, trate de fazer com que me enterrem direito.
        Ela fez que sim com a cabea, com grande sinceridade.
        -        Nada de pular o captulo seis nem a quarta etapa do captulo nove. Ele riu, assim como a molhadora de cama.
        -        Bom, fico contente por termos resolvido isso. Agora podemos ir em frente. Hans ajeitou o corpo e seus ossos rangeram como as tbuas invejosas do
piso.
        -        Vai comear a diverso.
        Ampliada pela quietude da noite, abriu-se com o livro... uma rajada de vento.
        Ao olhar para trs, Liesel era capaz de dizer exatamente em que seu pai estivera pensando ao vasculhar a primeira pgina do Manual do Coveiro. Percebendo
a dificuldade do texto, ele tivera clara conscincia de que aquele livro estava longe de ser o ideal. Havia palavras com que ele mesmo teria dificuldade. Para no
falar da morbidez do assunto. Quanto  menina, ela sentira um desejo repentino de l-lo, que nem sequer tentara entender. Qualquer que fosse a razo, sua nsia de
ler aquele livro era to intensa quanto qualquer ser humano de dez anos seria capaz de vivenciar.
        O captulo um chamava-se "O primeiro passo: escolher o equipamento certo". Numa breve passagem introdutria, resumia o tipo de material a ser abordado nas
vinte pginas seguintes. Tipos de ps, picaretas, luvas e similares foram discriminados, assim como a necessidade vital de fazer sua manuteno adequada. Esse negcio
de cavar sepulturas era srio.
        Enquanto o pai percorria o texto, com certeza sentia os olhos de Liesel fixados nele. Os olhos o alcanavam e agarravam,  espera de alguma coisa, de qualquer
coisa que lhe sasse dos lbios.
        - Pronto - disse o pai, tornando a se ajeitar e lhe entregando o livro. - Ollie para essa pgina e me diga quantas palavras voc sabe ler.
        Liesel a olhou - e mentiu.
        -        Mais ou menos a metade.
        -        Leia algumas para mim.
        Mas  claro que ela no conseguiu. Quando Hans a fez apontar para qualquer palavra que soubesse ler e efetivamente pronunci-la, houve apenas trs: as trs
palavras principais em alemo que do as formas do artigo "o". A pgina inteira devia ter umas duzentas palavras.
        Isso talvez seja mais difcil do que eu imaginava.
        Foi o que Liesel o apanhou pensando, s por um instante.
        Hans se inclinou para frente, ps-se de p e saiu. Dessa vez, ao voltar, disse:
        -        Na verdade, tenho uma idia melhor.
        Trazia na mo um lpis grosso de pintor e uma pilha de lixas de parede.
        -        Vamos comear do zero.
        Liesel no viu motivo para discutir.
        No canto esquerdo de um pedao de lixa virado pelo avesso, ele desenhou um quadrado de mais ou menos dois centmetros e meteu um A maisculo dentro dele.
No canto oposto, botou um minsculo. At ali, tudo bem.
        - "A" - disse Liesel.
        - A de qu?
        Ela sorriu: - Apfel.
        Hans escreveu a palavra em letras grandes e desenhou embaixo uma ma meio torta. Era pintor de paredes, no de quadros. Ao terminar, olhou para o papel
e disse:
        -        Agora, o B.
        Enquanto os dois avanavam pelo alfabeto, os olhos de Liesel se arregalaram. Ela j fizera aquilo na escola, na aula do jardim-de-infncia, mas dessa vez
era melhor. Ela era a nica presente e no era gigantesca. Era bom ver a mo do pai escrevendo as palavras e construindo devagar os esboos primitivos.
        -        Ora, vamos, Liesel - disse-lhe Hans depois, quando ela lutava com a dificuldade. - Uma coisa que comece com S.  fcil. Estou muito decepcionado
com voc.
        Ela no conseguia pensar.
        -        Vamos! - veio o sussurro brincalho. - Pense na mame.
        Foi quando a palavra atingiu-a no rosto, feito uma bofetada. Um sorriso reflexo.
        -        Saumensch! - exclamou a menina, e o pai caiu na gargalhada, depois ficou quieto.
        -        Pssiu, no podemos fazer barulho.
        Mas continuou a rolar de rir e escreveu a palavra, completando-a com um de seus esboos.


 UMA TPICA OBRA DE ARTE 
DE HANS HUBERMANN

        -        Papai! - sussurrou Liesel. - Eu no tenho olhos!
        Hans fez um afago no cabelo da menina. Ela havia cado em sua armadilha.
        -        Com um sorriso desses - disse Hans Hubermann -, voc no precisa de olhos. Abraou-a e tornou a olhar para o desenho, com um rosto de prata aquecida.
        -        Agora, o T.
         Terminado e estudado o alfabeto umas dez vezes, papai se inclinou e disse:
        -        J chega por hoje?
        -        Mais umas palavras?
        Ele foi categrico:
        -        Chega. Quando voc acordar, eu lhe toco o acordeo.
        -        Obrigada, papai.
        -        Boa noite.
        Um riso baixinho, de uma slaba:
        -        Boa noite, Saumensch.
        -        Boa noite, papai.
        Ele apagou a luz, voltou e se sentou na cadeira. Na escurido, Liesel manteve os olhos abertos. Estava vendo as palavras.

        O CHEIRO DA AMIZADE
        Continuou.
        Nas semanas seguintes e at entrar o vero, a aula da meia-noite comeou no fim de cada pesadelo. Houve mais dois episdios de urinar na cama, porm Hans
Hubermann s fez repetir sua herica proeza anterior de limpeza e se dedicar  tarefa de ler, desenhar e recitar. Nas primeiras horas da madrugada, as vozes baixas
eram altas.
        Numa quinta-feira, pouco depois das trs da tarde, a mame disse a Liesel que se aprontasse para ir com ela entregar umas roupas passadas. Papai tinha outras
idias.
        Entrou na cozinha e disse:
        -        Desculpe, mame, mas hoje ela no vai com voc.
        A me nem se deu ao trabalho de erguer os olhos da trouxa de lavagem:
        -        Quem foi que lhe perguntou, Arschloch? Vamos, Liesel.
        -        Ela vai ler - disse Hans. Ofereceu a Liesel um sorriso firme e uma piscadela. - Comigo. Estou ensinando a ela! Ns vamos ao Amper,  parte alta
do rio, l onde eu costumava treinar o acordeo.
        Nessa hora, captou a ateno de Rosa.
        A me ps na mesa a roupa que estava lavando e se armou com todo o empenho para chegar ao nvel adequado de cinismo.
        -        Que foi que voc disse?
        -        Acho que voc me ouviu, Rosa.
        Mame deu uma risada.
        -        E que diabo voc pode ensinar a ela? - indagou. Um sorriso de papelo. Palavras que pareciam cruzados no queixo. - Como se voc soubesse ler grande
coisa, seu Saukerl.
         A cozinha esperou. Papai revidou o golpe. -- Levaremos sua roupa passada para voc.
        -        Seu porcaria de... - Mas Rosa se deteve. As palavras lhe ficaram na ponta da lngua, enquanto ela pensava. - Voltem antes do anoitecer.
        -        No podemos ler no escuro, mame - disse Liesel.
        -        Como , Saumensch?
        -        Nada, mame.
        Papai sorriu e apontou para a menina.
        -        Livro, lixa de parede, lpis - ordenou - e o acordeo! - quando ela j havia sado. Logo estavam na Rua Himmel, carregando as palavras, a msica
e a roupa lavada.
        Enquanto andavam em direo  loja de Frau Diller, viraram-se algumas vezes para ver se mame ainda estava no porto a observ-los. Estava. A certa altura,
ela gritou:
        -        Liesel, segure direito essa roupa passada! No a amarrote!
        -        Sim, mame!
        Mais uns passos adiante:
        -        Liesel, voc se agasalhou direito?
        -        O que voc disse?
        -        Saumensch dreckiges, voc nunca escuta nada? Est bem agasalhada? Pode esfriar mais tarde!
        Ao dobrar a esquina, o pai abaixou-se para amarrar um cadaro do sapato.
        -        Liesel - disse -, pode enrolar um cigarro para mim?
        Nada lhe daria maior prazer.
        Uma vez entregue a roupa passada, eles refizeram o percurso para o Rio Amper, que margeava a cidade. O rio serpenteava por ali, apontando na direo de Dachau,
o campo de concentrao.
        Havia uma ponte de tbuas.
        Os dois se sentaram na grama a uns trinta metros dela, talvez, escrevendo as palavras e lendo-as em voz alta, e, quando a escurido se aproximou, Hans pegou
o acordeo. Liesel o fitou e ouviu, embora no notasse de imediato a expresso perplexa no rosto do pai naquela noite, enquanto ele tocava.

 O ROSTO DE PAPAI 
Ele vagava e meditava,
mas sem revelar nenhuma resposta.
Ainda no.
Tinha havido uma mudana nele. Uma mudana ligeira.

        Liesel a viu, mas s se deu conta depois, quando todas as histrias se juntaram. No a viu ao observ-lo tocar, porque no tinha idia de que o acordeo
de Hans Hubermann era uma histria. Em tempos vindouros, essa histria chegaria ao nmero 33 da Rua Himmel nas primeiras horas da madrugada, usando ombros amarrotados
e um palet enregelado. Carregaria uma mala, um livro e duas perguntas. Uma histria. Uma histria depois da histria. Uma histria dentro da histria.
        Por enquanto, havia apenas a histria que dizia respeito a Liesel, e dessa ela estava gostando.
        Acomodou-se nos braos compridos da relva, deitada de costas.
        Fechou os olhos, e seus ouvidos seguraram as notas.
        Tambm havia alguns problemas,  claro. s vezes, papai quase gritava com ela.
        -        Ande, Liesel - dizia. - Voc sabe essa palavra, voc sabe!
        Justo quando o progresso parecia correr bem, as coisas empacavam, de algum modo.
        Quando fazia bom tempo, os dois iam ao Amper  tarde. Com tempo ruim, era o poro. Isso foi principalmente por causa da me. No comeo, eles tentaram a cozinha,
mas no houve jeito.
        -        Rosa - Hans lhe disse, a horas tantas. Baixinho, suas palavras interromperam uma das frases dela. - Pode me fazer um favor?
        Ela ergueu os olhos do fogo.
        -        O que ?
        -        Eu lhe peo, eu lhe imploro, ser que voc pode fazer o favor de calar a boca, s por cinco minutos?
        A reao voc pode imaginar. Os dois acabaram no poro.
        L no havia luz, de modo que eles levavam uma lamparina de querosene, e aos poucos, entre a escola e a casa, do rio ao poro, dos dias bonitos aos de mau
tempo, Liesel foi aprendendo a ler e escrever.
        -        Dentro em breve - disse-lhe o pai -, voc saber ler aquele livro horroroso das sepulturas de olhos fechados.
        -        E a posso sair daquela turma de anes.
        Proferiu essas palavras com uma espcie de jeito sombrio de posse.
        Numa das aulas no poro, papai dispensou a lixa (que estava acabando depressa) e pegou um pincel. Eram poucos os luxos na casa dos Hubermann, mas havia um
suprimento abundante de tinta, e ela foi mais do que til para a aprendizagem de Liesel. Papai dizia uma palavra e a menina tinha que soletr-la em voz alta e pint-la
na parede, desde que a acertasse. Depois de um ms, a parede era repintada. Uma nova pgina de cimento.
        Certas noites, depois de trabalhar no poro, Liesel se agachava na banheira e ouvia os mesmos ditos provenientes da cozinha.

        - Voc est fedendo - dizia mame a Hans. - A cigarro e querosene.
        Sentada na gua, a menina imaginava aquele cheiro, mapeado nas roupas do pai. Mais do que tudo, era o cheiro da amizade, e ela tambm o sentia em si mesma.
Liesel adorava aquele cheiro. Cheirava o prprio brao e sorria, enquanto a gua esfriava a seu redor.

        A CAMPE PESO PESADO DO PTIO DA ESCOLA
        O vero de 1939 estava com pressa, ou talvez Liesel estivesse. Ela passou o tempo jogando futebol com Rudy e os outros garotos da Rua Himmel (um passatempo
do ano inteiro), carregando roupas pela cidade com a me e aprendendo palavras. Foi como se o vero acabasse dias depois de comear.
        Na ltima parte do ano, aconteceram duas coisas.

 SETEMBRO-NOVEMBRO DE 1939 
1. Comeou a Segunda Guerra Mundial.
2. Liesel Meminger tornou-se a campe
peso pesado do ptio da escola.

        Incio de setembro.
        Fez um dia frio em Molching quando a guerra comeou e minha carga de trabalho aumentou.
        O mundo discutiu o assunto.
        As manchetes dos jornais se deleitaram.
        A voz do Fhrer rugia nos rdios alemes. No desistiremos. No descansaremos. Seremos vencedores. Chegou a nossa vez.
        Comeara a invaso da Polnia e havia gente reunida em toda parte, escutando as notcias. A Rua Munique, como todas as outras ruas principais ela Alemanha,
ganhou vida com a guerra. O cheiro, a voz, O racionamento tinha comeado dias antes - o sinal ela desgraa iminente - e agora era oficial. A Inglaterra e a Frana
tinham feito sua declarao  Alemanha. Para roubar uma frase de Hans Hubermann,
        Vai comear a diverso.
        No dia do anncio, papai tivera a sorte de ter trabalho. Na volta para casa, pegou um jornal que algum jogara fora e, em vez de parar para met-lo entre
as latas de tinta de sua carroa, dobrou-o e o enfiou embaixo da camisa. Quando chegou em casa e o retirou, o suor havia puxado a tinta para sua pele. O jornal caiu
na mesa, mas as notcias lhe ficaram gravadas no peito. Uma tatuagem. Mantendo a camisa aberta, ele olhou para baixo, na luz incerta da cozinha.
        -        O que  que diz? - perguntou Liesel, que olhava para l e para c, dos contornos pretos na pele para o jornal.
        - "Hitler toma a Polnia" - foi a resposta, e Hans Hubermann desabou numa cadeira. - "Deutschland ber Alies" - murmurou, e sua voz no foi nem remotamente
patritica.
        L estava o rosto de novo - o rosto do acordeo.
        Foi o comeo de uma guerra. Liesel logo estaria em outra.
        Quase um ms depois do reinicio das aulas, ela foi transferida para a srie do seu nvel apropriado. Talvez voc imagine que foi por causa de sua melhora
na leitura, mas no foi. Apesar do avano, ela continuava a ler com grande dificuldade. Havia frases espalhadas por toda parte. As palavras a ludibriavam. A razo
de ela ter sido promovida teve mais a ver com o fato de Liesel ter-se tornado disruptiva na turma dos mais novos. Respondia a perguntas dirigidas a outras crianas
e interrompia. Vez por outra, recebia o que era conhecido como uma Watschen (pronunciada "varchen") no corredor.
 UMA DEFINIO 
Watschen = uma boa sova
        Ela era levantada, posta numa cadeira  parte e instruda pela professora a calar a boca; a professora, alis, tambm era freira. Do outro lado da sala,
Rudy a olhava e lhe dava adeusinhos. Liesel retribua o aceno e procurava no sorrir.
        Em casa, ela havia avanado bastante na leitura do Manual do Coveiro com o pai. Os dois circundavam as palavras que ela no conseguia compreender e as levavam
para o poro no dia seguinte. Liesel achava que isso era o bastante. No era.
        Em algum ponto do incio de novembro, houve provas de aproveitamento na escola. Uma delas era de leitura. Todas as crianas tinham que ficar de p na frente
da sala e ler um trecho que a professora lhes dava. Era uma manh gelada, mas de sol brilhante. As crianas espremiam os olhos. Um halo circundava a ceifeira implacvel,
Irm Maria. (A propsito, gosto dessa idia humana da ceifeira implacvel. Gosto da gadanha. Isso me diverte.)
        Na sala banhada de sol, os nomes iam sendo chacoalhados ao acaso. - Waldenheim, Lehmann, Steiner.
        Todos ficaram de p e fizeram uma leitura, todos com nveis diferentes de capacidade. Rudy foi surpreendentemente bem.
        Durante toda a prova, Liesel ficou sentada, com uma mescla de expectativa febril e medo excruciante. Queria desesperadamente ser avaliada, descobrir de uma
vez POR TODAS se seu aprendizado vinha progredindo. Estaria  altura da prova? Poderia sequer, aproximar-se de Rudy e dos demais?
        Toda vez que Irm Maria olhava para a lista, um feixe de nervos comprimia as costelas de Liesel. Tinha comeado no estmago, mas fora subindo. Logo, logo
estaria em seu pescoo, grosso como uma corda.
        Quando Tommy Mller terminou sua tentativa medocre, Liesel correu os olhos pela sala. Todos j tinham lido. Ela era a nica que faltava.
        - Muito bem - disse Irm Maria, balanando a cabea enquanto examinava a lista - Esto todos a. O que?
        - No! Uma voz praticamente apareceu do outro lado da sala. Preso a ela estava um pouco de cabelo cor de limo, cujos joelhos ossudos chocavam-se com suas
calas debaixo da carteira. Ele levantou a mo e disse:
        - Irm Maria, acho que a senhora esqueceu a Liesel.
        Irm Maria.
        No se impressionou.
        Bateu com a pasta na mesa  sua frente e inspecionou Rudy, com um suspiro de reprovao. Foi quase melanclico. Por qu, lamentava-se a freira, tinha ela
que suportar Rudy Steiner? Ele simplesmente no conseguia ficar de boca fechada. Por qu, Senhor, por qu?
        - No - disse, em tom categrico. Sua barriguinha inclinou-se para a frente com o resto do corpo. - Receio que a Liesel no possa, Rudy - e olhou para a
menina, em busca de confirmao. - Ela ler para mim depois.
        A menina pigarreou e falou, com sereno desafio: - Posso ler agora, Irm. A maioria das outras crianas observava em silncio. Algumas praticaram o belo ato
infantil de dar risinhos abafados. Foi o bastante para a Irm.
        - No, voc no pode!... Que est fazendo?
         que Liesel sara da cadeira e se dirigia lentamente, com andar duro, para a frente da sala. Pegou o livro e o abriu numa pgina qualquer.
        -        Ento, muito bem - disse Irm Maria. - E o que voc quer fazer? Pois leia.
        -        Sim, Irm.
        Aps uma rpida olhadela para Rudy, Liesel baixou os olhos e examinou a pgina.
        Quando tornou a ergu-los, a sala desfez-se em pedaos, depois voltou a se amontoar numa s. Todas as crianas tinham virado uma pasta, bem diante dos seus
olhos, e, num momento luminoso, ela se imaginou lendo a pgina inteira, num triunfo impecvel de fluncia.

 UMA PALAVRA-CHAVE 
Imaginou

        -        Anda, Liesel!
        Rudy quebrou o silncio.
        A menina que roubava livros tornou a baixar os olhos para as palavras.
        Anda. Dessa vez, Rudy fez apenas os movimentos labiais. Anda, Liesel.
        O sangue dela soou mais alto. As frases viraram um borro.
        Sbito, a pgina branca estava escrita em outra lngua, e o fato de seus olhos se encherem de lgrimas no ajudou. Ela j nem conseguia enxergar as palavras.
        E o sol. Aquele sol terrvel. Explodia pela janela - havia vidro em toda parte - e brilhava diretamente sobre a menina intil. Gritava em seu rosto. "Voc
 capaz de roubar um livro, mas no consegue l-lo!"
        Ento lhe ocorreu. Uma soluo.
        Respirando, respirando fundo, ela comeou a ler, mas no o livro  sua frente. Era alguma coisa do Manual do Coveiro. Captulo trs: ''Na eventualidade de
nevar." Ela o havia decorado na voz do pai.
        -        Na eventualidade de nevar - disse - voc deve certificar-se de usar uma boa p. Deve cavar fundo, no pode ter preguia. No pode economizar o trabalho!
- prosseguiu, sugando mais um grande naco de ar. -  claro que  mais fcil esperar pela parte mais quente do dia, quando...
        Acabou-se.
        O livro foi arrancado de sua mo e ela ouviu a ordem:
        -        Liesel, para o corredor.
        Enquanto recebia uma pequena Watschen, podia ouvir todos rindo na sala, entre um tapa e outro de Irm Maria. Ela as via. Todas aquelas crianas misturadas.
Arreganhando os dentes, gargalhando. Banhadas em sol. Todo o mundo ria, menos Rudy.
        No recreio, fizeram chacota dela. Um menino chamado Ludwig Schmeikl aproximou-se, segurando um livro.
        - Ei, Liesel disse-lhe -, estou com dificuldade com esta palavra. Pode l-la para mim? - e riu, um riso presunoso de garoto de dez anos. - Sua Dammkopf,
sua idiota.
        Agora as nuvens se enfileiravam, grandes e desajeitadas, e havia mais crianas chamando por ela, vendo-a fervilhar.
        - No d ouvidos a eles - aconselhou Rudy.
        - Para voc  fcil falar. No  voc o idiota.
        Quase no fim do recreio, a contagem dos comentrios estava em dezenove. No vigsimo, ela perdeu a estribeira. Com Schmeikl, que voltou para implicar mais
um pouco.
        - Vamos, Liesel - e lhe enfiou o livro embaixo do nariz. - Me ajude, sim? E Liesel ajudou, pode crer.
        Levantou-se, arrancou-lhe o livro e, enquanto ele sorria por cima do ombro para outras crianas, jogou longe o livro e lascou-lhe o pontap mais forte que
podia nas imediaes da virilha. Bem, como voc pode imaginar, Ludwig Schmeikl certamente dobrou-se e, caminho da descida, levou um soco no ouvido. Quando arriou
no cho, foi atacado. Atacado, levou tapas e unhadas e foi obliterado por uma menina profundamente tomada pelo dio. A pele de Ludwig era muito quente e macia. Os
punhos e unhas Liesel eram assustadoramente brutos, apesar da pequenez.
        - Seu Saukerl! - disse a voz dela, que tambm sabia arranhar. - Seu Arschloch. Sabe soletrar Arschloch para mim?
        Ah, como as nuvens se atropelaram e se juntaram estupidamente no cu! Enormes nuvens obesas. Escuras e gorduchas.
        Esbarrando umas nas outras. Pedindo desculpas. Continuando a se mover para arranjar espao.
        Viriam as crianas, to rpido, bem, to rpido quanto crianas gravitando para na briga. A misturada de braos e pernas, de gritos e vivas, engrossou em
volta deles. Todas assistiam, enquanto Liesel Meminger dava em Ludwig Schmeikl a maior surra de sua vida.
        - Jesus, Maria, Jos - comentou uma menina, soltando um grito -, ela vai matar ele.
        Liesel no o matou. Mas chegou perto.
        Provavelmente, na verdade, a nica coisa que a deteve foi o rosto sorridente e cheio de tiques ridculos de Tommy Mller. Ainda locupletada de adrenalina,
Liesel avistou, rindo de um jeito to absurdo, que o puxou para baixo e comeou a dar ele tambm.
        - O que voc est fazendo? - gemeu o menino, e s ento, depois do terceiro ou quarto tapa e de surgir um filete de sangue vivo em seu nariz, foi que ela
parou.
        De joelhos, inspirou forte e ouviu os gemidos abaixo. Olhou para o remoinho de rostos  direita e  esquerda e anunciou:
        -        Eu no sou burra.
        Ningum discordou.
        S depois que todos voltaram para dentro e Irm Maria viu o estado de Ludwig Schmeikl foi que a briga recomeou. Primeiro, o grosso da suspeita recaiu sobre
Rudy e uns outros. Eles estavam sempre se pegando.
        - Mos - veio a ordem para cada menino, mas todos os pares estavam limpos.
        - No acredito - resmungou a freira. - No pode ser - porque,  claro, quando Liesel deu um passo  frente para mostrar suas mos, Ludwig Schmeikl estava
em todas as partes delas, mais vermelhas a cada instante.
        - Para o corredor - disse Irm Maria, pela segunda vez naquele dia. Pela segunda vez naquela hora, a rigor.
        Dessa vez, no foi uma Watschenzinha. No foi nem uma Watschen mdia.
        Dessa vez, foi a pior de todas as Watschens do corredor, uma fustigada da vara de marmelo aps outra, a tal ponto que Liesel mal pde sentar-se durante uma
semana. E no houve risadas vindas da sala. Foi mais o medo silencioso de quem escuta.
        No fim do dia de aulas, Liesel voltou para casa com Rudy e os outros filhos dos Steiner. Quando se aproximava da Rua Himmel, numa precipitao de idias,
uma culminao de sofrimentos tomou conta dela - o recital falho do Manual do Coveiro, a demolio de sua famlia, seus pesadelos, a humilhao do dia -, e Liesel
se agachou na sarjeta e chorou. Tudo levava quilo.
        Rudy ficou parado junto dela.
        Comeou a chover, uma chuva muito forte.
        Kurt Steiner chamou, mas nenhum dos dois se mexeu. Uma estava sofridamente sentada, em meio s bateladas de chuva que caam, e o outro se postava de p a
seu lado, esperando.
        -        Por que ele tinha que morrer? - perguntou Liesel, mas Rudy no fez nada, no disse nada.
        Quando ela enfim terminou e se levantou, o menino ps o brao em seus ombros, no estilo melhor amigo, e os dois seguiram caminho. No houve pedidos de beijos.
Nada disso. Voc pode gostar do Rudy por isso, se quiser.
        S no me d um pontap nos ovos.
        Foi o que ele pensou, mas no o disse a Liesel. S quase quatro anos depois foi que lhe ofereceu essa informao.
        Por ora, Rudy e Liesel caminharam para a Rua Himmel embaixo de chuva.
        Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo inteiro.
        Ela era a roubadora de livros que no tinha palavras.
        Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mos feito nuvens, e as torceria feito chuva.

PARTE DOIS
        O DAR DE OMBROS
        APRESENTANDO:
        uma menina feita de trevas
        a alegria dos cigarros
        a andarilha da cidade
        umas cartas mortas
        o aniversrio de Hitler
        suor alemo cem por cento puro
        os portes do furto
        e um livro de fogo

        UMA MENINA FEITA DE TREVAS

 ALGUNS DADOS ESTATSTICOS 
Primeiro livro furtado: 13 de janeiro de 1939
Segundo livro furtado: 20 de abril de 1940
Intervalo entre os citados livros furtados: 463 dias

        Se voc quisesse usar de insolncia, diria que bastou um pouquinho de fogo, na verdade, com uma gritaria humana para acompanhar. Diria que isso foi tudo
de que Liesel Meminger precisou para arrebatar seu segundo livro roubado, ainda que ele fumegasse em suas mos. Ainda que lhe acendesse as costelas.
        Mas o problema  este:
        No  hora de insolncias.
        No  hora de ateno parcial, nem de virar as costas e ir dar uma olhada no fogo - porque, quando a menina que roubava livros roubou seu segundo livro,
no s houve muitos fatores implicados em sua nsia de faz-lo, como o ato de furt-lo desencadeou o ponto crucial do que estava por vir. Isso lhe proporcionaria
uma abertura para o roubo contnuo de livros. Inspiraria Hans Hubermann a conceber um plano para ajudar o lutador judeu. E mostraria a mim, mais uma vez, que uma
oportunidade conduz diretamente a outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte.
          
        De certo modo, foi o destino.
        Sabe, talvez lhe digam que a Alemanha nazista ergueu-se sobre o anti-semitismo, sobre um lder meio exagerado no entusiasmo e uma nao de fanticos cheios
de dio, mas tudo teria dado em nada se os alemes no adorassem uma atividade em particular:
        Queimar.
        Os alemes adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichstags, casas, objetos pessoais, gente assassinada e,  claro, livros. Adoravam uma boa queima
de livros, com certeza - o que dava s pessoas que tinham predileo por estes uma oportunidade de pr as mos em certas publicaes que de outro modo no conseguiriam.
Uma das pessoas que tinha essa inclinao, como sabemos, era uma garota ossuda chamada Liesel Meminger. Ela pode ter esperado 463 dias, mas valeu a pena. No fim
de uma tarde em que houvera muita animao, muita maldade bonita, um tornozelo encharcado de sangue e um tapa vindo de uma mo que inspirava confiana, Liesel Meminger
obteve sua segunda histria de sucesso. O Dar de Ombros. Era um livro azul com letras vermelhas gravadas na capa, e havia um desenhinho de um cuco abaixo do ttulo,
tambm em vermelho. Quando olhou para trs, Liesel no se envergonhou de t-lo roubado. Ao contrrio, foi orgulho o que mais se assemelhou quele bolinho de uma
coisa sentida em seu estmago. E foram a raiva e um dio tenebroso que alimentaram seu desejo de roub-lo. Na verdade, em 20 de abril - o aniversrio do Fhrer --,
quando surrupiou aquele livro debaixo de uma pilha fumegante de cinzas, Liesel era uma menina feita de trevas.
        A pergunta,  claro, seria: por qu?
        Que razo havia para sentir raiva?
        O que tinha acontecido, nos quatro ou cinco meses anteriores, para culminar nesse sentimento?
        Em suma, a resposta ia da Rua Himmel para o Fhrer e para a localizao inencontrvel de sua me de verdade, e perfazia o caminho de volta.
        Como a maioria dos sofrimentos, esse comeou com uma aparente felicidade.

        A ALEGRIA DOS CIGARROS
        Ali pelo fim de 1939, Liesel se acomodara bastante bem na vida em Molching. Ainda tinha pesadelos com o irmo e sentia saudade da me, mas agora tambm havia
alguns consolos.
        Ela gostava muito do pai, Hans Hubermann, e at da me de criao, apesar das grosserias e das agresses verbais. Amava e odiava seu melhor amigo, Rudy Steiner,
o que era perfeitamente normal. E gostava do fato de que, apesar do fracasso na sala de aulas, sua leitura e sua escrita vinham tendo uma melhora decisiva e logo
estariam  beira de alguma coisa respeitvel. Tudo isso resultava pelo menos numa certa forma de contentamento, e em pouco tempo se erigiria em algo prximo do conceito
de Ser Feliz.

 AS CHAVES DA FELICIDADE 
1. Terminar O Manual do Coveiro.
2.        Escapar  ira de Irm Maria.
3.        Ganhar dois livros no Natal.
        17 de dezembro.
        Ela se lembrava bem dessa data, por ter sido exatamente uma semana antes do Natal.
        Como de praxe, seu pesadelo de todas as noites interrompeu-lhe o sono e ela foi acordada por Hans Hubermann. A mo dele segurou o tecido encharcado de seu
pijama.
        -        O trem? - murmurou o pai.
        -        O trem - confirmou Liesel.
        Engoliu ar at ficar pronta, e os dois comearam a ler o dcimo primeiro captulo do Manual do Coveiro. Terminaram pouco depois das trs da manh, e s ficou
faltando o ltimo captulo, "O respeito ao cemitrio". Papai, com os olhos de prata inchados de cansao e o rosto coberto de plos de barba, fechou o livro e aguardou
suas sobras de sono. No as conseguiu.
        Mal fazia um minuto que a luz fora apagada quando Liesel se dirigiu a ele, na escurido.
        -        Papai?
        Ele apenas fez um rudo, em algum lugar da garganta.
        -        Est acordado, papai?
        -      Ja.
        Apoiada num dos cotovelos:
        -        Podemos terminar o livro, por favor?
        Houve um longo suspiro, o raspar da mo coando a barba e, em seguida, a luz. Ele abriu o livro e comeou.
        - "Captulo Doze. O respeito ao cemitrio."
        Leram at ficar de manhzinha, circundando e anotando as palavras que a menina no compreendia, e virando pginas em direo ao amanhecer. Em alguns momentos,
o pai quase dormiu, sucumbindo  fadiga que lhe comichava os olhos e  inclinao da cabea. Liesel o flagrou em todas as ocasies, mas no teve o altrusmo de deix-lo
dormir nem o descaramento de ficar ofendida. Era uma menina com uma montanha para escalar.
        Enfim, quando a escurido l fora comeou a clarear um pouco, eles terminaram. O ltimo trecho dizia assim:
        Ns, da Associao Bvara de Cemitrios, esperamos ter informado e entretido o leitor quanto ao funcionamento, s medidas de segurana e aos deveres da escavao
de tmulos. Desejamos extremo sucesso em sua carreira nas artes funerrias e esperamos que este livro tenha contribudo de algum modo.
        Fechado o livro, os dois trocaram um olhar de vis. O pai falou.
        -        Conseguimos, hein?
        Liesel, meio enrolada no cobertor, estudou o livro preto em sua mo e as letras prateadas. Fez que sim com a cabea, de boca seca e com a fome matinal. Foi
um daqueles momentos de cansao perfeito, de haver dominado no s o trabalho por fazer, mas tambm a noite que atrapalhava.
        Papai se espreguiou, com os punhos cerrados e os olhos arranhando para fechar, e a manh no se atreveu a ser chuvosa. Os dois se puseram de p, andaram
at a cozinha e, atravs da neblina e dos cristais de gelo na janela, puderam ver as faixas rseas de luz sobre as camadas de neve nos telhados da Rua Himmel.
        -        Veja as cores - disse o pai. E difcil no gostar de um homem que no apenas nota as cores, mas fala delas.
        Liesel continuava segurando o livro. Apertou-o com mais fora quando a neve se alaranjou. Num dos telhados, via um garotinho sentado, olhando para o cu.
        -        O nome dele era Werner - mencionou. As palavras foram saindo, involuntariamente.
        -        Sim - disse o pai.
        Na escola, nessa poca, no tinha havido outras provas de leitura em voz alta, mas,  medida que foi aos poucos ganhando mais confiana, certa manh Liesel
pegou um livro didtico que estava por perto, para ver se conseguia l-lo sem dificuldade. Conseguiu ler todas as palavras, mas continuou presa a um ritmo muito
inferior ao dos colegas de turma.  muito mais fcil, percebeu, estar  beira de alguma coisa do que ser de fato aquilo. Isso ainda levaria tempo.
        Uma tarde, ela se sentiu tentada a furtar um livro da estante da sala de aulas, mas, com franqueza, a perspectiva de outra Watschen no corredor, nas mos
de Irm Maria, foi um fator de dissuaso suficientemente forte. Alm disso, ela no tinha mesmo um desejo verdadeiro de tirar os livros da escola. O mais provvel
 que a intensidade de seu fracasso de novembro houvesse causado esse desinteresse, mas Liesel no tinha certeza. S sabia que era assim.
        Em aula, ela no falava.
        Nem sequer olhava na direo errada.
        Com a aproximao do inverno, deixou de ser vtima das frustraes de Irm Maria, preferindo observar outros serem levados em marcha ao corredor para receber
sua justa recompensa. O som de outro aluno debatendo-se no corredor no era particularmente agradvel, mas o fato de se tratar de uma outra pessoa era, se no um
consolo verdadeiro, ao menos um alvio.
        Quando as aulas tiveram uma breve interrupo para a Weihnachten, Liesel at se permitiu dizer "Feliz Natal"  Irm Maria, antes de ir embora. Ciente de
que os Hubermann estavam essencialmente duros, ainda quitando dvidas e pagando o aluguel mais depressa do que o dinheiro conseguia entrar, ela no esperava nenhum
tipo de presente. Talvez apenas uma comida melhor. Para sua surpresa, na noite de Natal, depois da missa da meia-noite com mame, papai, Hans Jnior e Trudy, ela
voltou para casa e encontrou uma coisa embrulhada em papel de jornal embaixo da rvore de Natal.
        -        Do Papai Noel - disse-lhe o pai, mas a menina no se deixou enganar. Abraou os pais de criao, ainda com a neve espalhada nos ombros.
        Ao desdobrar o papel, desembrulhou dois livrinhos. O primeiro, Fausto, o cachorro, fora escrito por um homem chamado Mattheus Ottleberg. Ao todo, ela o leria
treze vezes. Na noite de Natal, leu as primeiras vinte pginas  mesa da cozinha, enquanto papai e Hans Jnior discutiam sobre uma coisa que ela no compreendia.
Uma coisa chamada poltica. Depois, leu um pouco mais na cama, aderindo  tradio de circundar as palavras que no conhecia e escrev-las. Fausto, o cachorro tambm
tinha desenhos - curvas e orelhas e caricaturas encantadoras de um pastor alemo com um problema vexatrio de babar e dotado da capacidade da fala.
        O segundo livro chamava-se O Farol e fora escrito por uma mulher, Ingrid Rippinstein. Esse era um pouquinho mais longo, de modo que Liesel s conseguiu l-lo
at o fim nove vezes, aumentando ligeiramente o ritmo ao final dessas leituras prolficas.
        Foi dias depois do Natal que ela fez uma pergunta a respeito dos livros. A famlia fazia uma refeio na cozinha. Olhando para as colheradas de sopa de ervilha
que entravam na boca da me, Liesel resolveu desviar o foco para o pai.
        -        Preciso perguntar uma coisa.
        A princpio, nada.
        -        Ento?
        Foi a me, ainda com a boca meio cheia.
        -        Eu s queria saber como vocs arranjaram o dinheiro para comprar meus livros. Um sorrisinho sorriu para a colher do pai.
        -        Quer mesmo saber?
        -         claro.
        Papai tirou do bolso o que restava de sua quota de fumo e comeou a enrolar um cigarro, ao que Liesel se impacientou.
        -        Vai me dizer ou no? O pai riu.
        -        Mas j estou lhe dizendo, menina.
        Concluiu a produo de um cigarro, bateu-o na mesa e comeou a enrolar outro.
        -        Foi exatamente assim.
        Foi nessa hora que mame terminou a sopa com uma batida da colher, reprimiu um leve arroto e respondeu no lugar de Hans.
        -        Esse Saukerl! - comeou. - Sabe o que ele fez? Enrolou todos esses cigarros nojentos, foi  feira quando ela passou pela cidade, e os trocou com
um cigano qualquer.
        -        Oito cigarros por livro - disse o pai, pondo um na boca, com ar triunfal. Acendeu-o e tragou fumaa.
        -        Louvado seja Deus pelos cigarros, hein, mame?
        Ela s fez dirigir-lhe um dos olhares de nojo que eram sua marca registrada, seguido pela quota mais comum de seu vocabulrio:
        -- Saukerl.
        Liesel trocou a piscadela costumeira com o pai e acabou de tomar a sopa. Como sempre, um dos livros estava a seu lado. Ela no pde negar que a resposta
 pergunta fora mais do que satisfatria. No havia muita gente capaz de dizer que sua instruo tinha sido paga com cigarros.
        A me, por outro lado, disse logo que, se Hans Hubermann prestasse para alguma coisa, trocaria um pouco do fumo pelo vestido novo de que ela precisava desesperadamente,
ou por sapatos melhores.
        - Mas no... - completou, esvaziando as palavras na pia. - Quando se trata de mim, voc prefere fumar uma quota inteira, no ? E mais alguma do vizinho.
        Algumas noites depois, entretanto, Hans Hubermann chegou em casa com uma caixa de ovos.
        - Desculpe, mame - disse, colocando-a na mesa. - Eles no tinham sapatos.
        Mame no reclamou.
        Chegou at a cantarolar sozinha, enquanto cozinhava os ovos at quase queimarem. Parecia haver uma grande alegria nos cigarros, e foi um perodo feliz na
casa dos Hubermann.
        Acabou semanas depois.

        A ANDARILHA DA CIDADE
        O estrago comeou com a roupa lavada e aumentou rapidamente.
        Num dia em que Liesel acompanhava Rosa Hubermann em suas entregas por Molching, um de seus fregueses, Ernst Vogel, informou-lhes que no poderia mais pagar
para mandar lavar e passar sua roupa.
        -        So os tempos - desculpou-se -, como  que eu vou dizer? Esto ficando mais difceis. A guerra est trazendo um aperto.
        Olhou para a menina e completou:
        -        Tenho certeza de que voc recebe uma penso para cuidar da garotinha, no ?
        Para desolao de Liesel, a me ficou sem palavras.
        Com um saco vazio a seu lado.
        Vamos, Liesel.
        As palavras no foram ditas. Foram arrastadas pela mo junto com ela, asperamente.
        Vogel chamou-as da escada da frente. Teria talvez l,75m, e seus fiapos de cabelo untuosos pendiam sem vida pela testa.
        -        Sinto muito, Frau Hubermann!
        Liesel acenou para ele.
        Vogel retribuiu o aceno. Mame praguejou.
        -        No d adeusinho para esse Arschloch - disse. - E ande depressa.
        Nessa noite, quando Liesel tomou banho, a me a esfregou com rispidez especial, o tempo todo resmungando sobre aquele Saukerl do Vogel e imitando-o a intervalos
de dois minutos.
        -        "A senhora deve receber uma penso pela menina..."
        Castigou o peito nu de Liesel com suas esfregadelas.
         -        Voc no tem todo esse valor, Saumensch. No est me deixando rica, sabe?
        Liesel continuou sentada e agentou.
        No mais de uma semana depois desse incidente especfico, Rosa a rebocou para a cozinha.
        -        Muito bem, Liesel - disse, fazendo-a sentar  mesa. - J que voc passa metade do tempo na rua, jogando futebol, pode muito bem tornar-se til aqui.
Para variar.
        Liesel olhava apenas para as prprias mos.
        -        O que foi, mame?
        -        De agora em diante, voc vai buscar e entregar a roupa para mim. E menos provvel que aqueles ricaos nos despeam, se for voc parada na frente
deles. Se lhe perguntarem por mim, diga que estou doente. E faa uma cara triste quando disser isso. Voc j  magrela e plida o bastante para inspirar pena neles.
        -        Herr Vogel no sentiu pena de mim.
        -        Bem... - Era visvel a agitao de Rosa. - Pode ser que os outros sintam. Por isso, no discuta.
        -        Sim, mame.
        Por um instante, a me adotiva pareceu prestes a consol-la, ou a lhe dar um tapinha no ombro.
        Boa menina, Liesel. Voc  uma boa menina. Tape, tape, tape.
        Mas ela no disse nada parecido.
        Em vez disso, Rosa Hubermann levantou-se, escolheu uma colher de pau e a segurou embaixo do nariz da menina. Aquilo era uma necessidade, no que lhe dizia
respeito.
        -        Quando estiver na rua, voc leva a sacola de roupa a cada lugar e a traz direto para casa, com o dinheiro, ainda que ele no seja quase nada. Nada
de ir atrs do papai, se por acaso ele estiver trabalhando, para variar. Nada de fazer baguna por a com aquele Saukerlzinho do Rudy Steiner. Direto. Para casa.
        -        Sim, mame.
        -        E, quando segurar a sacola, segure direito. Nada de balanar, nem de deix-la cair no cho, nem de amass-la, nem de jog-la no ombro.
        -        Sim, mame.
        -        Sim, mame - repetiu Rosa Hubermann, que era uma grande imitadora, e das mais fervorosas. - E melhor mesmo, Saumensch. Eu descubro, se voc fizer
uma dessas coisas. Sabe disso, no sabe?
        -        Sim, mame.
        Dizer essas duas palavras era, muitas vezes, a melhor maneira de sobreviver, assim como obedecer quando era mandada; e, a partir de ento, Liesel passou
a palmilhar as ruas de Molching, do bairro pobre para o rico, apanhando e entregando roupa. No comeo, foi um trabalho solitrio, do qual ela nunca se queixava.
Afinal, na primeirssima vez que carregou a sacola pela cidade, ela dobrou a esquina da Rua Munique. olhou para um lado e para o outro, e lhe deu uma enorme girada
- uma revoluo completa -, e depois verificou o contedo. Felizmente, no havia amassados. Nada de rugas. S um sorriso, e a promessa de nunca mais balan-la outra
vez.
        De modo geral, Liesel gostava da tarefa. No havia participao no pagamento, mas ela ficava longe de casa, e andar pelas ruas sem a me j era, por si s,
um paraso. Nada de dedos apontados nem xingamentos. Ningum olhando para as duas, enquanto ela era xingada por no carregar a sacola direito. Nada alm de serenidade.
        Liesel tambm passou a gostar das pessoas:
        *        Os Pfaffelhrver, que inspecionavam a roupa e diziam: "ja, ja, sehrgut, sehrgut" Liesel imaginava que eles faziam tudo duas vezes.
        *        A delicada Helena Schmidt, que entregava o dinheiro com um trejeito da mo artrtica.
        *        Os Weingartner, cujo gato de bigodes tortos sempre atendia  porta com eles. Pequeno Goebbels, era assim que o chamavam, por causa do homem que
era o brao-direito de Hitler.
        *        E Frau Hermann, a mulher do prefeito, parada com seu cabelo fofo e toda trmula no vo enorme e frio de sua porta de entrada. Sempre calada. Sempre
sozinha. Nem uma palavra, nem uma vez.
        De quando em quando, Rudy tambm ia.
        -        Quanto dinheiro voc tem a? - perguntou ele, certa tarde. J ia anoitecendo e os dois andavam em direo  Rua Himmel, passando pela loja. - Voc
j ouviu falar da Frau Diller, no foi? Dizem que ela tem balas escondidas em algum lugar e, pelo preo certo...
        -        Nem pense nisso - disse Liesel. Como sempre, segurava o dinheiro com fora. - Pr voc no  muito ruim: voc no tem que encarar a minha me.
        Rudy deu de ombros.
        -        Valeu a tentativa.
        Em meados de janeiro, o trabalho escolar voltou a ateno para a redao de cartas. Depois de aprender os fundamentos, cada aluno tinha que escrever duas
cartas, uma para um amigo, uma para algum de outra turma.
        A carta que Liesel recebeu de Rudy foi assim:

        Cara Saumensch,
        Voc continua to intil no futebol quanto era da ltima vez que jogamos? Espero que sim. Isso significa que posso passar correndo por voc, de novo, que
nem o Jesse Owens na olimpada...
        Quando a Irm Maria a encontrou, fez uma pergunta muito amvel ao menino.

 O OFERECIMENTO DE IRM MARIA 
- Est com vontade de visitar o corredor, Sr, Steiner?

        Nem  preciso dizer que a resposta de Rudy foi negativa, o papel foi rasgado e ele recomeou. A segunda tentativa foi escrita para uma pessoa chamada Liesel
e indagou quais seriam os passatempos dela.
        Em casa, enquanto terminava uma carta da tarefa escolar, Liesel resolveu que, na verdade, escrever para Rudy ou outro Saukerl parecido era ridculo. No
significava nada. Enquanto redigia no poro, ela falou com o pai, que repintava a parede mais uma vez. Ele e os vapores da tinta viraram-se.
        -        Was wuistz?
        Bom, essa era a mais grosseira forma de alemo que algum podia falar, mas foi dita com ar de absoluta satisfao.
        -        Que ?
        -        Ser que eu poderia escrever uma carta pr mame? Pausa.
        -        Para que voc quer lhe escrever uma carta? J tem que agent-la todos os dias - disse papai, schmunzelando, com um sorriso maroto. - Isso j no
 ruim o bastante?
        -        No  essa mame - disse Liesel, engolindo em seco.
        -        Ah.
        O pai voltou-se para a parede e continuou a pintar.
        -        Bem, acho que sim. Voc poderia mand-la para a... como  mesmo o nome? Aquela que trouxe voc para c e veio visitar algumas vezes, a do pessoal
da adoo.
        -        Frau Heinrich.
        -        Isso mesmo. Mande-a para ela. Talvez ela possa mand-la para sua me.
        J nessa hora ele no soou convincente, como se deixasse de dizer alguma coisa a Liesel. As notcias sobre sua me tambm tinham sido silenciadas nas breves
visitas de Frau Heinrich.
        Em vez de perguntar qual era o problema, Liesel comeou a escrever na mesma hora, optando por ignorar a sensao de mau pressgio que se acumulava rapidamente
em seu peito. Precisou de trs horas e seis rascunhos para aperfeioar a carta, contando  me tudo sobre Molching, seu papai e o acordeo dele, o jeito estranho,
mas sincero, de Rudy Steiner, e as faanhas de Rosa Hubermann. Tambm explicou como estava orgulhosa por saber ler e escrever um pouquinho, agora. No dia seguinte,
despachou a carta na loja de Frau Diller, com um selo tirado da gaveta da cozinha. E comeou a esperar.
        Na noite em que escreveu a carta, ela entreouviu uma conversa entre Hans e Rosa.
        -        Para que ela est escrevendo para a me? - perguntou mame. Sua voz era surpreendentemente calma e atenciosa.
        Como voc pode imaginar, isso deixou a menina preocupadssima. Ela preferiria ouvi-los brigando. Adultos aos cochichos dificilmente inspiravam confiana.
        -        Ela me pediu - respondeu o pai -, e no consegui dizer no. Como poderia?
        - Jesus, Maria, Jos - de novo, o cochicho. - Ela devia mesmo era esquec-la; quem sabe por onde ela anda? Quem sabe o que fizeram com ela? Na cama, Liesel
se abraou, apertado. Enroscou-se feito uma bola. Pensou na me e repetiu as perguntas de Rosa Hubermann. Onde estava ela? O que eles teriam feito com ela? E na
verdade, de uma vez por todas, quem eram eles?

        CARTAS MORTAS
        Avano rpido para o poro, setembro de 1943.
        Uma menina de quatorze anos escreve num caderninho de capa escura.  ossuda, mas forte, e j viu muita coisa. Papai est sentado com o acordeo junto aos
ps.
        Diz ele:
        -        Sabe, Liesel? Quase lhe escrevi uma resposta e assinei o nome da sua me - e coou a perna, onde tinha estado o gesso. - Mas no pude. No consegui
fazer isso.
        Em vrias ocasies, durante o resto de janeiro e todo o ms de fevereiro de 1940, quando Liesel vasculhava a caixa do correio em busca de uma resposta 
sua carta, aquilo claramente partia o corao de seu pai adotivo. "Sinto muito", ele lhe dizia. "Nada hoje, hein?" Olhando para trs, ela percebeu que aquilo tudo
fora intil. Se sua me estivesse em condies de faz-lo, j teria entrado em contato com o pessoal da agncia de lares de criao, ou diretamente com ela, ou ento
com os Hubermann. Mas no houvera nada.
        Para piorar as coisas, em meados de fevereiro, Liesel recebeu uma carta de outro fregus da lavagem de roupa - os Pfaffelhrver, da Heide Strasse. O casal
postou-se com grande altivez na porta, dando-lhe um olhar melanclico.
        -  para sua mame - disse o homem, entregando-lhe o envelope.
        - Diga a ela que sentimos muito. Diga-lhe que lamentamos.
        No foi uma noite muito boa na residncia dos Hubermann. Mesmo quando se recolheu ao poro, para escrever sua quinta carta  me (todas ainda por enviar,
exceto a primeira), Liesel pde ouvir Rosa praguejando e xingando aqueles Arschlcher dos Pfaffelhrver e aquele nojento do Ernst Vogel.
        -        Feuer soll'n's brunzen fr einen Monatl!- ouviu-a gritar. Traduo: "Eles todos deviam urinar fogo durante um ms!"
        Liesel escreveu.
        Quando chegou seu aniversrio, no houve presente. No houve presente porque no havia dinheiro e, na ocasio, papai estava sem fumo.
        -        Eu disse a voc - acusou a me, apontando-lhe o dedo. - Eu lhe disse para no dar os dois livros a ela no Natal. Mas no. Voc escutou?  claro
que no!
        -        J sei! - disse Hans, voltando-se para a menina, em voz baixa: - Desculpe, Liesel. No podemos arcar com a despesa.
        Liesel no se importou. No resmungou nem gemeu nem bateu com os ps. Simplesmente engoliu a decepo e optou por um risco calculado - um presente dela para
si mesma. Juntaria todas as cartas acumuladas para a me, poria tudo num envelope e usaria s um tiquinho do dinheiro da roupa lavada e passada para envi-lo pelo
correio. Depois,  claro, levaria a Watschen, muito provavelmente na cozinha, e no emitiria um som.
        Trs dias depois, o plano foi posto em prtica.
        -        Est faltando um pouco - disse a me, contando o dinheiro pela quarta vez, com Liesel parada junto ao fogo. Estava quentinho ali, e cozinhava o
fluxo acelerado de seu sangue. - Que aconteceu, Liesel?
        Ela mentiu:
        -        Devem ter-me dado menos que de costume.
        -        Voc contou o dinheiro? Liesel rendeu-se:
        -        Eu o gastei; mame.
        Rosa aproximou-se. Aquilo no era bom sinal. Ficou muito perto das colheres de pau.
        - Voc o qu?
        Antes que houvesse possibilidade de resposta, a colher de pau baixou sobre o corpo de Liesel Meminger feito os passos de Deus. Marcas vermelhas, como pegadas,
e ardiam. Do cho, quando a surra acabou, a menina olhou para cima e se explicou.
        Havia a pulsao e a luz amarela, tudo junto. Seus olhos piscavam.
        -        Eu mandei minhas cartas.
        O que lhe ocorreu nesse momento foi o empoeirado do cho, a sensao de que sua roupa estava mais junto dela do que nela, e o sbito reconhecimento de que
tudo aquilo no adiantaria nada - sua me nunca responderia s cartas e ela nunca mais a veria. A realidade disso foi uma segunda Watschen. Foi como uma ferroada,
e durou vrios minutos at parar.
        Acima dela, Rosa parecia um borro, mas logo ficou ntida, quando seu rosto encarquilhado chegou mais perto. Desalentada, ela ficou parada ali, com todas
as suas formas rolias, segurando a colher de pau junto ao corpo, como um porrete. Estendeu a mo e se deixou extravasar um pouco.
        - Desculpe, Liesel.
        Liesel a conhecia bem o bastante para compreender que no era pela surra.
        As marcas vermelhas estenderam-se em tiras sobre sua pele, enquanto a menina continuava deitada no p, na sujeira e na luz mortia. Sua respirao se acalmou
e uma lgrima amarela e perdida escorreu-lhe pelo rosto. Ela voltou a sentir o prprio corpo junto ao cho. Um brao, um joelho. Um cotovelo. Uma bochecha. Um msculo
da panturrilha.
        O cho era frio, especialmente a parte encostada no rosto, mas ela no conseguia se mexer.
        Nunca mais voltaria a ver sua me.
        Durante quase uma hora, ficou ali, estirada embaixo da mesa da cozinha, at papai chegar em casa e tocar o acordeo. S ento foi que ela se sentou e comeou
a se recuperar.
        Quando escreveu sobre essa noite, no guardava nenhum rancor de Rosa Hubermann, nem de sua me, alis. Para Liesel, as duas eram apenas vtimas das circunstncias.
A nica idia que lhe voltou continuamente foi a da lgrima amarela. Se estivesse escuro, percebeu, a lgrima teria sido preta.
        Mas estava escuro, disse a si mesma.
        No importa quantas vezes tentasse imaginar a cena, com a luz amarela que ela sabia ter estado presente, precisava se esforar para visualiz-la. Levara
uma surra no escuro e havia permanecido l, num piso frio e enegrecido de cozinha. At a msica de papai tinha sido da cor da escurido.
        At a msica de papai.
        O mais estranho era que ela se sentia vagamente consolada por essa idia, em vez de aflita.
        A escurido, a luz.
        Qual era a diferena?
        Os pesadelos reforaram-se nas duas, quando a menina que roubava livros comeou realmente a compreender como eram as coisas e como sempre seriam. Pelo menos,
ela poderia se preparar. Talvez tenha sido por isso que, no aniversrio do Fhrer, quando a resposta  pergunta referente ao sofrimento de sua me evidenciou-se
por completo, ela pde reagir, a despeito de sua perplexidade e sua raiva.
        Liesel Meminger estava pronta.
        Feliz aniversrio, Herr Hitler.
        Muitos anos de vida.

        O ANIVERSRIO DE HITLER, 1940
        Contra toda a desesperana, Liesel continuou a examinar a caixa do correio todas as tardes, durante o ms inteiro de maro e boa parte de abril. E isso,
apesar de uma visita (pedida por Hans) de Frau Heinrich, que explicou aos Hubermann que o escritrio da agncia de adoo perdera completamente o contato com Paula
Meminger. Mesmo assim, a menina persistiu e, como voc poderia esperar, a cada dia que ela examinava a correspondncia, no havia nada.
        Molching, como o resto da Alemanha, estava em plenos preparativos para o aniversrio do Fhrer. Nesse ano, em particular, com o desenrolar da guerra e a
posio ento vitoriosa de Hitler, os partidrios dos nazistas em Molching queriam que a comemorao fosse especialmente adequada. Haveria um desfile. Gente marchando.
Msica. Cantoria. E haveria uma fogueira.
        Enquanto Liesel andava pelas ruas de Molching, recolhendo e entregando roupa para lavar e passar, os membros do Partido Nazista acumulavam combustvel. Umas
duas vezes, Liesel foi testemunha de homens e mulheres que batiam s portas, perguntando s pessoas se elas possuam alguma coisa que achassem que devia ser jogada
fora ou destruda. O exemplar do Expresso de Molching de papai anunciou que haveria uma fogueira comemorativa na praa central, junto  qual estariam presentes todas
as divises locais da Juventude Hitlerista. Ela celebraria no apenas o aniversrio do Fhrer, mas tambm a vitria sobre seus inimigos e sobre as restries que
haviam mantido a Alemanha atrasada desde o fim da Primeira Guerra Mundial.
         "Qualquer material daquela poca", pedia o jornal - "jornais, cartazes, livros, bandeiras -, assim como qualquer propaganda de nossos inimigos que seja
encontrada, deve ser levado ao escritrio do Partido Nazista, na Rua Munique." At a Schiller Strasse - a rua das estrelas amarelas -, que ainda estava  espera
de uma reforma, foi saqueada pela ltima vez, a fim de se encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse ser queimada em nome da glria do Fhrer. No seria
surpresa se alguns membros do partido se afastassem e publicassem uns mil livros ou cartazes de material moral venenoso, simplesmente para inciner-los.
        Estava tudo preparado para produzir um magnfico 20 de abril. Seria um dia repleto de queimao e vivas.
        E furto de livros.
        Naquela manha, na casa dos Hubermann, foi tudo tpico.
        -        Aquele Saukerl est de novo na janela - praguejou Rosa Hubermann. - Todo dia - continuou. - Que  que voc est olhando, desta vez?        -        Ahhhh
- suspirou papai, encantado. A bandeira lhe cobria as costas, pendendo do alto da janela. - Voc devia dar uma olhada na mulher que estou vendo! - disse. Olhou por
cima do ombro e sorriu para Liesel. --. Eu seria capaz de sair correndo atrs dela. D de dez a zero em voc, mame.
        -        Schwein! - e Rosa sacudiu a colher de pau para o marido.
        Papai continuou a olhar pela janela para a mulher imaginria, e para um corredor muito real de bandeiras alems.
        Nas ruas de Molching, nesse dia, todas as janelas estavam decoradas para o Fhrer. Em alguns lugares, como na loja de Frau Diller, os vidros tinham sido
vigorosamente lavados e a sustica parecia uma jia, deitada sobre um cobertor vermelho e branco. Noutros, a bandeira tremulava nos beirais feito roupa pendurada
para secar.
        Um pouco antes, tinha havido uma pequena calamidade. Os Hubermann no conseguiam encontrar sua bandeira.
        -        Eles viro nos buscar - Rosa alertara o marido. - Viro para nos levar embora Eles.
        -        Temos que ach-la!
        A horas tantas, achou-se que o pai teria que descer ao poro e pintar uma bandeira numa das mantas que usava para proteger os mveis dos respingos de tinta!;
Felizmente, descobriu-se que ela estava enfiada atrs do acordeo, no armrio.
        -        Esse acordeo infernal, estava tapando minha viso! - exclamou a me girando-o. - Liesel!
        A menina teve a honra de prender a bandeira no caixilho da janela.
        Hans Jnior e Trudy chegaram para a refeio vespertina, como faziam no Natal e na Pscoa. Este parece ser um bom momento para apresent-los com mais detalhes.
        Hans Jnior tinha os olhos e a altura do pai. Mas o prateado de seus olhos no era teimoso como o do pai - tinha sido Fhrerizado. Havia tambm um pouco
mais de carne sobre seus ossos, e ele tinha cabelos louros espetados e uma pele feito tinta cor de prola.
        Trudy, ou Trudel, como muitas vezes era conhecida, era poucos centmetros mais alta que a me. Havia clonado o andar lamentvel e meio gingado de Rosa Hubermann,
mas o resto era muito mais suave. Como domstica residente num bairro rico de Munique, o mais provvel era que estivesse farta de crianas, mas sempre conseguia
produzir ao menos algumas palavras risonhas em direo a Liesel. Tinha lbios macios. E falava baixo.
        Os dois chegaram juntos no trem de Munique, e no demorou para que surgissem as antigas tenses.
 BREVE HISTRIA DE HANS HUBERMANN VERSUS SEU FILHO 
O rapaz era nazista, o pai, no.
Na opinio de Hans Jnior, seu pai fazia parte de
uma Alemanha velha e decrpita -
que havia deixado o mundo inteiro lhe passar o
proverbial conto-do-vigrio, enquanto seu povo sofria.
Quando adolescente, ele tomara conhecimento de que
o pai era chamado de "Der Juden Maler" -
o pintor dos judeus -, por pintar casas de judeus.
Depois tinha havido um incidente, que lhe exporei na ntegra
daqui a pouco - no dia em que Hans estragou tudo,
quando estava prestes a se filiar ao partido.
Todo o mundo sabia que ningum devia cobrir de tinta
os insultos escritos na fachada de uma loja judaica.
Esse comportamento era ruim para a Alemanha
e era ruim para o transgressor.

        - E ento, eles j o deixaram entrar? - perguntou Hans Jnior, retomando o assunto onde ele havia parado no Natal.
        - Onde?
        -        Adivinhe. No partido.
        - No, acho que se esqueceram de mim.
        -        Bem, voc pelo menos fez outra tentativa? No pode ficar a sentado, esperando que o novo mundo venha busc-lo. Voc tem que sair para fazer parte
dele... apesar de seus erros do passado.
        O pai ergueu os olhos.

        SUOR ALEMO CEM POR CENTO PURO
        As pessoas perfilaram-se nas ruas enquanto a juventude da Alemanha marchava para a prefeitura e a praa. Num bom nmero de ocasies, Liesel esqueceu-se da
me e de qualquer outro problema de que detivesse a posse naquele momento. Havia um inchao em seu peito, enquanto as pessoas aplaudiam. Algumas crianas acenaram
para os pais, porm muito rapidamente - havia uma instruo explcita de que marchassem em frente e no olhassem nem acenassem para a multido.
        Quando o grupo de Rudy entrou na praa e recebeu a ordem de fazer alto, houve uma discrepncia. Tommy Mller. O resto do regimento parou de marchar e Tommy
trombou diretamente com o menino  sua frente.
        -        Dummkopf! - cuspiu o garoto, antes de se virar para trs.
        -        Desculpe - disse Tommy, com os braos arrependidamente estendidos. Seu rosto tropeou nele mesmo. - Eu no ouvi.
        Foi s um breve momento, mas foi tambm uma prvia dos problemas que viriam. Para Tommy. Para Rudy.
        Terminada a marcha, as divises da Juventude Hitlerista tiveram permisso de se dispersar. Teria sido quase impossvel mant-los todos juntos, enquanto a
fogueira ardia em seus olhos e os deixava alvoroados. Juntos, eles gritaram um "heil Hitler" em unssono e ficaram livres para perambular. Liesel procurou Rudy,
mas, uma vez espalhada a multido de crianas, ela se viu presa numa confuso de uniformes e palavras estridentes. Crianas chamando outras crianas.
        Por volta das quatro e meia, o ar havia esfriado consideravelmente.
        As pessoas brincavam, dizendo que precisavam se aquecer.  para isso que serve toda essa porcaria, afinal.
        Usaram-se carroas para transportar tudo. A tralha foi jogada no meio da praa central e encharcada de um lquido doce. Os livros, papeis e outros materiais
escorregavam ou despencavam, mas eram atirados de novo na pilha. De uma distncia maior, aquilo parecia uma coisa vulcnica. Ou algo grotesco e estranho que, de
algum modo, tivesse sido milagrosamente descarregado no meio da cidade e precisasse ser destrudo com um atiador, e rpido.
        O cheiro aplicado aos papis inclinou-se para a multido, mantida a uma boa distncia. Havia bem mais de mil pessoas, no cho, na escadaria da prefeitura
e nos telhados que cercavam a praa.
        Quando Liesel tentou passar, um som estralejante a fez supor que a fogueira j tinha comeado a arder. No tinha. O som era da cintica humana, fluindo,
arremetendo.
        Comearam sem mim!
        Embora alguma coisa dentro dela lhe dissesse que aquilo era um crime - afinal, seus trs livros eram os bens mais preciosos que possua -, a menina sentiu-se
impelida a ver a coisa acesa. No pde evit-lo. Acho que os seres humanos gostam de assistir a uma destruiozinha. Castelos de areia, castelos de cartas,  por
a que comeam. Sua grande aptido est em sua capacidade de promover a escalada.
        A idia de perder o espetculo diminuiu quando ela achou uma brecha entre os corpos e pde ver a montanha de culpa, ainda intacta. A coisa foi cutucada e
borrifada, e at cuspiram nela. Aquilo fez Liesel pensar numa criana impopular, desamparada e perplexa, impotente para modificar seu destino. Ningum gostava dela.
Cabea baixa. Mos nos bolsos. Para sempre. Amm.
        Pedaos soltos continuavam a despencar pelos lados, enquanto Liesel caava Rudy. Onde estava aquele Saukerl?
        Quando ela levantou os olhos, o cu se agachava.
        Um horizonte de bandeiras e uniformes nazistas se erguia, barrando-lhe a viso, toda vez que ela tentava enxergar acima da cabea de uma criana pequena.
Era intil. A multido era uma coisa com vida prpria. No havia como control-la, espremer-se por ela ou ponderar com ela. A pessoa respirava com ela e entoava
seus cnticos. Aguardava sua fogueira.
        Um homem num pdio pediu silncio. Seu uniforme era marrom reluzente. O ferro praticamente permanecera nele. Comeou o silncio. Suas primeiras palavras:
- Heil Hitler! Seu primeiro ato: a saudao ao Fhrer.
        - Hoje  um lindo dia - prosseguiu. - No s  o aniversrio de nosso lder, como tambm detivemos nossos inimigos mais uma vez. Impedimos que chegassem
a nossas mentes...
        Liesel continuava tentando abrir caminho, nos trancos.
        - Pusemos fim  doena que se espalhou pela Alemanha nos ltimos vinte anos, ou at mais at!
        Afora ele apresentava o que se chama de Schreierei - uma exibio completa de gritaria apaixonada -, alertando a multido a ser atenta, vigilante, a desvendar
e destruir as maquinaes malficas que conspiravam para infectar a ptria com seus costumes deplorveis.
        - Os imorais! Os Kommunisten! Aquela palavra de novo.
        Aquela velha palavra. Salas escuras. Homens de terno.
        - Die Juden, os judeus!
        Na metade do discurso, Liesel desistiu. Enquanto a palavra comunistas se apoderava dela, o resto do recital nazista foi passando pelos dois lados, perdido
em algum ponto dos ps alemes que a cercavam. Cascatas de palavras. Uma menina tentando no perder p. Pensou naquilo de novo. Kommunisten.
        At essa ocasio, na BDM, tinham-lhes dito que a Alemanha era a raa superior, porm ningum mais, em particular, fora mencionado. E claro que todos sabiam
dos judeus, j que eles eram o principal infrator, no que dizia respeito a violar o ideal alemo. Nem uma vez, entretanto, os comunistas tinham sido mencionados
at esse dia, a despeito do fato de que as pessoas desse credo poltico tambm deviam ser punidas.
        Liesel tinha que sair.
        A sua frente, uma cabea com o cabelo louro repartido e trancinhas apoiava-se sobre os ombros, absolutamente imvel. Fixando os olhos nela, Liesel revisitou
aqueles cmodos escuros do passado e sua me respondendo a perguntas feitas de uma palavra s.
        Enxergou tudo com perfeita clareza.
        Sua me passando fome, seu pai desaparecido. Kommunisten.
        Seu irmo morto.
        -        E agora, vamos dizer adeus a esse lixo, a esse veneno.
        Pouco antes de Liesel Meminger rodopiar de nusea para sair da multido, a criatura reluzente de camisa marrom desceu do pdio. Recebeu uma tocha de um cmplice
e acendeu a pilha, que o apequenava com toda a sua culpa.
        - Heil Hitler!
        E a platia:
        -        Heil Hitler!
        Um batalho de homens desceu de uma plataforma e circundou a pilha, acendendo-a, para a enorme aprovao de todos. As vozes se elevaram acima dos ombros
e o cheiro de puro suor alemo lutou para se soltar, a princpio, depois desprendeu-se. Contornou esquina aps esquina, at todos nadarem nele. Nas palavras, no
suor. E no riso. No esqueamos o riso.
        Seguiram-se muitos comentrios jocosos, assim como outra investida furiosa de gritos de "heil Hitler". Sabe, realmente me pergunto se algum dia algum perdeu
um olho, ou machucou a mo ou o pulso com todos aqueles gestos. Era s estar olhando na direo errada na hora errada, ou estar ligeiramente perto demais de outra
pessoa. Talvez algum se machucasse, sim. Pessoalmente, s posso lhe dizer que ningum morreu disso, ou, pelo menos, no fisicamente. Houve,  claro, a questo dos
quarenta milhes de pessoas que peguei, quando a coisa toda acabou, mas isso est ficando muito metafrico. Deixe-me devolver-nos  fogueira.
        As labaredas cor de laranja acenavam para a multido,  medida que papel e tinta se dissolviam dentro delas. Palavras em chamas eram arrancadas de suas frases.
        Do outro lado, para alm do calor das formas indistintas, era possvel ver as camisas pardas e as susticas dando as mos. No se via gente. Apenas uniformes
e smbolos.
        No alto, os pssaros davam voltas.
        Descreviam crculos, atrados de algum modo pelo brilho - at chegarem perto demais do calor. Ou seriam os seres humanos? Com certeza, o calor no era nada.
        Em sua tentativa de fugir, uma voz a encontrou.
        -        Liesel!
        Abriu caminho e a menina a reconheceu. No era Rudy, mas ela conhecia aquela voz.
        Liesel contorceu-se para se libertar e achou o rosto ligado  voz. Ah, no. Ludwig Schmeikl. Ele no deu risinhos de mofa nem fez piadas, como a menina esperava,
nem entabulou nenhuma conversa. Tudo que conseguiu fazer foi pux-la para si e apontar para o prprio tornozelo. Ele fora esmagado, em meio  empolgao, e sangrava,
escuro e ominoso, pela meia. O rosto de Ludwig exibia uma expresso de desamparo, abaixo do cabelo louro embaraado. Um bicho. No um cervo assustado. Nada to tpico
nem especfico. Ele era apenas um animal, ferido na confuso de sua prpria espcie, prestes a ser pisoteado por ela.
        De algum modo, Liesel o ajudou a ficar de p e o arrastou para os fundos. Ar puro.
        Cambalearam at a escadaria na lateral da igreja. Ali havia algum espao e os dois descansaram, ambos aliviados.
        A respirao despencava da boca de Schmeikl. Escorregou, desceu-lhe pela garganta. Ele conseguiu falar.
        Sentado, segurou o tornozelo e encontrou o rosto de Liesel Meminger.
        - Obrigado - disse, dirigindo-se mais  boca do que aos olhos da menina.
        Novas golfadas de ar.
        - E... - o menino viu imagens de travessuras escolares, seguidas por uma surra no ptio da escola. - Sinto muito por... voc sabe.
        Liesel tornou a escutar a palavra.
        Kommunisten.
        Mas optou por se concentrar em Ludwig Schmeikl:
        - Eu tambm.
        Depois disso, ambos se concentraram em respirar, porque no havia mais nada a fazer nem dizer. Seu assunto tinha chegado ao fim.
        O sangue aumentou no tornozelo de Ludwig Schmeikl.
        Uma nica palavra encostava-se na menina.
        A esquerda dos dois, as labaredas e os livros em chamas eram saudados como heris.
        OS PORTES DO FURTO
        Ela continuou na escada,  espera do pai, observando as cinzas que se espalhavam e o cadver dos livros reunidos. Tudo muito triste. Brasas alaranjadas e
vermelhas pareciam balinhas recusadas, e quase toda a multido havia sumido. Liesel vira Frau Diller ir embora (muito satisfeita) e Pfiffikus (cabeleira branca,
uniforme nazista, os mesmos sapatos dilapidados e um assobio triunfal). Agora, no faltava nada alm da limpeza e, em pouco tempo, ningum sequer imaginaria que
aquilo tinha acontecido.
        Mas era possvel sentir o cheiro.
        - Que est fazendo?
        Hans Hubermann chegou  escadaria da igreja.
        -        Oi, papai.
        -        Era para voc estar em frente  prefeitura.
        -        Desculpe, papai.
        Hans sentou-se a seu lado, reduzindo sua altura pela metade no concreto e segurando uma mecha do cabelo de Liesel. Seus dedos a ajeitaram com delicadeza
atrs da orelha da menina.
        -        Liesel, o que foi?
        Por algum tempo ela no disse nada. Estava fazendo contas, embora j soubesse. Uma menina de onze anos pode ser muitas coisas, mas burra no .
 UMA SOMINHA 
A palavra comunista + uma grande fogueira
+ uma coleo de cartas mortas + o sofrimento da me
+ a morte do irmo = o Fhrer

        O Fhrer.
        Era ele o eles de quem Hans e Rosa Hubermann haviam falado, na noite em que Liesel escrevera sua primeira carta  me. Ela sabia, mas tinha que perguntar.
        -        Minha me  comunista? - indagou. Olhando fixo. Para frente. - Estavam sempre perguntando coisas a ela, antes de eu vir para c.
        Hans chegou um pouquinho para a beirada do degrau, compondo o comeo de uma mentira.
        -        No fao idia... nunca a conheci.
        -        O Fhrer levou ela embora?
        A pergunta surpreendeu os dois e obrigou o pai a ficar de p. Ele olhou para os homens de camisas pardas que remexiam a pilha de cinzas com ps. Podia ouvi-los
a escav-la. Outra mentira crescia em sua boca, mas foi impossvel solt-la.
        -        Acho que ele pode t-la levado, sim.
        -        Eu sabia.
        As palavras foram jogadas nos degraus e Liesel sentiu a lama de raiva quente que se agitava em sua barriga.
        -        Odeio o Fhrer - disse. - Odeio ele.
        E Hans Hubermann?
        Que foi que ele fez?
        O que disse?
        Porventura se curvou e abraou a filha de criao, como teve vontade de fazer? Disse-lhe que sentia muito pelo que estava acontecendo com ela, com sua me,
e pelo que havia acontecido com seu irmo?
        No exatamente.
        Fechou os olhos com fora. Tornou a abri-los. Plantou uma slida bofetada no rosto de Liesel Meminger.
        -        Nunca mais diga isso!
        Sua voz foi baixa, mas contundente.
        Enquanto a menina tremia e se arqueava na escada, Hans sentou-se a seu lado e cobriu o rosto com as mos. Seria fcil dizer que ele era s um homem alto,
sentado com uma postura precria e abalada numa escadaria de igreja. Mas no era. Naquele momento, Liesel no fazia idia de que seu pai de criao, Hans Hubermann,
enfrentava um dos dilemas mais perigosos que um cidado alemo podia encarar. E no apenas isso, mas o vinha encarando fazia quase um ano.
        -        Papai?
        A surpresa em sua prpria voz a apressava, mas tambm a deixou sem ao. Ela teve vontade de correr, mas no pde. Podia levar uma Watschen de freiras e
de Rosas, mas doa muito mais quando vinha do papai. Agora as mos tinham sado do rosto dele, que encontrou foras para falar de novo.
        -        Voc pode dizer isso na nossa casa - autorizou, com um olhar grave para a face de Liesel. - Mas nunca o diga na rua, na escola, na BDM, nunca!
        Ps-se de p diante dela e a levantou pelos trceps. Sacudiu-a.
        - Est me ouvindo?
        Com os olhos arregalados, aprisionados, Liesel acenou sua concordncia com um gesto da cabea.
        Na verdade, isso foi um ensaio para uma preleo futura, quando todos os piores temores de Hans Hubermann chegassem  Rua Himmel, no fim do ano, nas primeiras
horas de uma madrugada de novembro.
        - timo - e a reps no cho. - Agora, vamos tentar... Na base da escadaria, o pai empertigou-se numa postura ereta e estendeu o brao. Quarenta e cinco graus.
        -        Heil Hitler.
        Liesel levantou-se e tambm esticou o brao. Com absoluta infelicidade, repetiu:
        -        Heil Hitler.
        Foi uma viso e tanto: uma menina de onze anos, esforando-se para no chorar na escadaria da igreja, fazendo a saudao ao Fhrer, enquanto as vozes atrs
dos ombros do pai picotavam e surravam a forma escura ao fundo.
        -        Ainda somos amigos?
        Passados quinze minutos, talvez, o pai estendeu uma oferta de paz, sob a forma de cigarros na palma da mo - o papel e o fumo que havia acabado de receber.
Sem dizer palavra, Liesel estendeu tristonhamente a mo e comeou a enrol-lo.
        Por um bom tempo, ficaram sentados juntos.
        A fumaa ergueu-se sobre os ombros do pai.
        Passados mais dez minutos, os portes do furto se abririam s uma frestinha, e Liesel Meminger os abriria um pouco mais e se espremeria para atravess-los.

 DUAS PERGUNTAS 
Os portes se fechariam atrs dela?
Ou teriam a boa vontade de deix-la sair de costas?

        Como Liesel descobriria, um bom ladro precisa de muitas coisas.
        Movimentos furtivos. Coragem. Velocidade.
        Mais importante que qualquer dessas coisas, no entanto, era um ltimo requisito.
        Sorte.
        De verdade.
        Esquea os dez minutos.
        Os portes se abrem agora.

        UM LIVRO DE FOGO
        A escurido chegou aos pedaos e, terminado o cigarro, Liesel e Hans Hubermann comearam a caminhar para casa. Para sair da praa, teriam que passar pelo
local ela fogueira e por uma ruazinha que dava na Rua Munique. No chegaram to longe.
        Um carpinteiro de meia-idade, de nome Wolfgang Edel, chamou. Havia construdo as plataformas em que os figures nazistas ficariam durante a fogueira e estava
no processo de desmont-las.
        -        Hans Hubermann? - disse. Tinha longas costeletas que apontavam para a boca e uma voz soturna. - Hansi!
        -        Ol, Wolfal - respondeu Hans. Houve uma apresentao  menina e um "heil Hitler".
        -        Muito bem, Liesel.
        Nos minutos seguintes, Liesel ficou num raio de cinco metros da conversa. Alguns fragmentos passaram por ela, mas a menina no prestou muita ateno.
        -        Tem arranjado muito trabalho?
        -        No, est tudo mais difcil agora. Voc sabe como , especialmente quando o sujeito no  filiado.
        -        Voc me disse que ia se filiar, Hansi.
        -        Tentei, mas cometi um erro... Acho que eles ainda esto considerando.
        Liesel perambulou at a montanha de cinzas. Parecia um im, uma anomalia, Irresistvel para os olhos, semelhante  rua das estrelas amarelas.
        Como em sua nsia anterior de ver a pilha se acender, ela no conseguia desviar os olhos. Inteiramente s, no tinha disciplina para se manter a uma distncia
segura. A pilha a sugava, e Liesel comeou a circund-la.
        Acima dela, o cu conclua sua rotina de escurecer, mas ao longe, acima do ombro da montanha, havia um vestgio opaco de luz.
        -        Pass auf, Kind - disse-lhe um uniforme, a certa altura. "Cuidado, menina", enquanto jogava mais umas ps de cinza numa carroa.
        Mais perto da prefeitura, embaixo de uma lmpada, algumas sombras conversavam de p, provavelmente exultando pelo sucesso da fogueira. Da posio em que
estava Liesel, suas vozes eram apenas sons. Nada de palavras.
        Durante alguns minutos, ela observou os homens que removiam a pilha com ps, primeiro reduzindo-a dos lados, para deixar que uma parte maior desmoronasse.
Iam e voltavam de um caminho e, depois de trs viagens, quando a pilha estava quase reduzida  base, um pedacinho de material vivo escorregou do interior das cinzas.
 O MATERIAL 
Meia bandeira vermelha, dois cartazes anunciando
um poeta judeu, trs livros e uma placa de madeira,
com uma inscrio em hebraico.

        Talvez estivessem molhados. Talvez a fogueira no tivesse ardido por tempo suficiente para atingir as profundezas em que se encontravam. Qualquer que fosse
a razo, estavam aninhados entre as cinzas, abalados. Sobreviventes.
        -        Trs livros - disse Liesel, baixinho, olhando para as costas dos homens.
        -        Vamos - disse um deles. - Ande logo, sim? Estou morto de fome.
        Dirigiram-se ao caminho.
        O trio de livros espichou o nariz para fora. Liesel aproximou-se.
        O calor ainda era forte o bastante para aquec-la, quando parou ao p da pilha de cinzas. Quando estendeu a mo, levou uma mordida, mas, na segunda tentativa,
ela se certificou de ser bem rpida. Fisgou o livro mais prximo. Estava quente, mas tambm molhado, queimado apenas nas bordas, mas, afora isso, intacto.
        Era azul.
        A capa dava a sensao de ter sido feita de centenas de cordas firmemente esticadas e presas. Havia letras vermelhas impressas nessas fibras. A nica palavra
que Liesel teve tempo de ler foi ombros. No sobrou muito tempo para o resto, e havia um problema. A fumaa.
        A fumaa erguia-se da capa do livro, quando ela o pegou num passe de mgica e se afastou depressa. Manteve a cabea baixa, e a beleza doentia do nervosismo
revelou-se de maneira mais horripilante a cada passo. Foram quatorze passos at a voz.
         Voz que se perfilou atrs dela.
        - Ei!
        Foi quando ela quase voltou correndo e atirou o livro na pilha, mas no conseguiu. O nico movimento de que dispunha era o gesto de se virar.
        -        Tem uns troos aqui que no queimaram!
        Era um dos homens da limpeza. No olhava para a menina, mas para as pessoas paradas junto ao prdio da prefeitura.
        -        Bom, ento queime de novo - veio a resposta. - E fique olhando at queimarem.
        -        Acho que esto molhados!
        -        Jesus, Maria, Jos, ser que eu tenho que fazer tudo sozinho?
        O som das passadas ladeou-a. Era o prefeito, usando um sobretudo preto por cima do uniforme nazista. No notou a menina, parada absolutamente imvel, a uma
pequena distncia.
 UMA PERCEPO 
Havia uma esttua da roubadora
de livros na praa...
 muito raro, no acha?,
uma esttua aparecer antes de o
 homenageado ter-se tornado famoso.

        Liesel desabou.
        A emoo de ser ignorada!
        Agora o livro parecia frio o bastante para que ela o enfiasse dentro do uniforme. No comeo, fez um calorzinho gostoso em seu peito. Mas, quando a menina
comeou a andar, ele tornou a se aquecer.
        Quando Liesel voltou para junto do pai e de Wolfgang Edel, o livro comeava a queim-la. Parecia estar pegando fogo.
        Os dois homens a olharam.
        Ela sorriu.
        Imediatamente, quando o sorriso encolheu em seus lbios, sentiu uma outra coisa. Ou, para falar com mais exatido, outra pessoa. No havia como confundir
a sensao de estar sendo observada. Ela a invadiu por inteiro, e foi confirmada quando a menina se atreveu a virar de frente para as sombras junto  prefeitura.
Ao lado da coletnea de silhuetas havia uma outra, a alguns metros de distncia, e Liesel percebeu duas coisas.

 PEDACINHOS DE RECONHECIMENTO 
1. A identidade da sombra e
2. O fato de que ela vira tudo.

        As mos da sombra estavam nos bolsos do casaco.
        O cabelo dela era fofo.
        Se ela tivesse rosto, sua expresso seria de mgoa.
        - Goltverdammt - disse Liesel, baixinho, s para ela mesma. "Que diabo!"
        - Estamos prontos para ir? Nos instantes anteriores de perigo estupendo, o pai se despedira de Wolfgang Edel e estava pronto para acompanhar Liesel at em
casa.
        - Pronta - respondeu ela.
        Comearam a deixar a cena do crime, e agora o livro a queimava para valer. O Dar de Ombros estava grudado em sua caixa torcica.
        Quando os dois passaram pelas sombras incertas junto  prefeitura, a menina que roubava livros estremeceu.
        - O que foi? - perguntou o pai.
        - Nada.
        Mas uma poro de coisas estava decididamente errada: Havia fumaa saindo da gola de Liesel. Um colar de suor formara-se em torno de sua garganta. Embaixo
da blusa, um livro a estava devorando.

     PARTE TRS
        MEIN KAMPF
        APRESENTANDO:
        a volta para casa
        uma mulher alquebrada
        um lutador
        um malabarista
        os atributos do vero
        uma lojista ariana
        uma roncadora
        dois trapaceiros
        e uma vingana em forma de balinhas mistas
         A VOLTA PARA CASA
        Mein Kampf.
        O livro escrito pelo prprio Fhrer.
        Foi o terceiro livro de grande importncia a chegar a Liesel Meminger; s que, dessa vez, ela no o furtou. O livro apareceu na Rua Himmel, 33, talvez uma
hora depois de Liesel ter mergulhado de novo no sono, aps seu pesadelo obrigatrio.
        Alguns diriam que foi um milagre a menina ter chegado a possuir esse livro.
        A viagem dele comeou no trajeto para casa, na noite da fogueira.
        Eles haviam percorrido metade do caminho de volta  Rua Himmel quando Liesel no agentou mais. Curvou o corpo e puxou o livro fumegante, deixando-o saltar,
envergonhado, de uma das mos para a outra.
        Depois que ele esfriou o suficiente, os dois o fitaram por um instante,  espera das palavras.
        -        De que diabo voc chama isso? - perguntou o pai.
        Estendeu a mo e pegou O Dar de Ombros. No havia necessidade de explicao. Era bvio que a menina o furtara da fogueira. O livro estava quente e molhado,
azul e vermelho - sem graa -, e Hans Hubermann o abriu. Pginas trinta e oito e trinta e nove.
        -        Mais um?
        Liesel esfregou as costelas.
        Sim.
        Mais um.
        - Parece - sugeriu o papai - que no preciso mais trocar cigarros, no ? No quando voc furta essas coisas to depressa quanto eu consigo compr-las.
        Liesel, em comparao, no falou. Talvez tenha sido seu primeiro reconhecimento de que a criminalidade falava melhor por si. Irrefutvel.
        O pai estudou o ttulo, provavelmente se perguntando que tipo exato de ameaa aquele livro representaria para os coraes e mentes do povo alemo. Devolveu-o.
Havia acontecido alguma coisa.
        -        Minha Santssima Trindade!
        Cada palavra foi escorregando pelas bordas. Interrompia-se e formava a seguinte. A criminosa no pde mais resistir.
        -        O que foi, papai? O que ?
        -         claro!
        Como a maioria dos seres humanos tomados por uma revelao, Hans Hubermann ficou com um certo torpor. As palavras seguintes seriam gritadas, ou ento no
chegariam a passar de seus dentes. Alm disso, o mais provvel  que fossem uma repetio da ltima coisa que ele dissera, momentos antes.
        -         claro!
        Dessa vez, sua voz foi como um murro recm-desferido na mesa.
        O homem estava tendo uma viso. Observava-a depressa, de uma ponta  outra, feito uma corrida, mas a coisa era grande demais e estava longe demais para Liesel
enxerg-la. A menina lhe implorou:
        -        Anda, papai, o que foi?
        Teve medo de que ele contasse  me sobre o livro. Como acontece com os humanos, tudo tinha a ver com ela.
        -        Voc vai contar?
        -        Perdo?
        -        Voc sabe. Vai contar  mame?
        Hans Hubermann continuava a observar sua viso, alto e distante.
        -        Contar o qu? Ela ergueu o livro:
        -        Isto - e o brandiu no ar, como se balanasse uma arma.
        O pai ficou perplexo:
        -        Por que contaria?
        Liesel detestava essas perguntas. Elas a obrigavam a admitir uma verdade feia, a revelar sua natureza imunda de ladra.
        -        Porque eu tornei a roubar.
        O pai curvou-se at se agachar, depois levantou-se e ps a mo na cabea da menina. Afagou-lhe o cabelo com os dedos longos e rudes e disse:
        -         claro que no, Liesel. Voc est a salvo.
        -        Ento, o que voc vai fazer? Essa era a questo.
        Que ato maravilhoso Hans Hubermann estaria prestes a praticar, tirando-o da brisa da Rua Munique?
         Antes de eu mostr-lo a voc, acho que devemos dar uma olhada no que ele estava vendo, antes de tomar sua deciso.

 AS VISES ACELERADAS DE PAPAI 
Primeiro, ele viu os livros da menina:
O Manual do Coveiro, Fausto, o Cachorro,
O Farol e, agora, O Dar de Ombros.
Depois, uma cozinha e um Hans Jnior voltil,
vendo esses livros na mesa, onde a menina costumava ler.
Ele dissera: "E qual  a porcaria que essa menina anda lendo?"
O filho repetira a pergunta trs vezes, e depois fizera
sua sugesto de um material de leitura mais apropriado.

        -        Escute, Liesel - disse o pai, abraando-a e fazendo-a recomear a andar. - Este  o nosso segredo, esse livro. Vamos l-lo  noite no poro, tal
como os outros... mas voc tem que me prometer uma coisa.
        -        Qualquer coisa, papai.
        A noite estava suave e quieta. Tudo ouvia.
        -        Se algum dia eu lhe pedir para guardar um segredo para mim, voc o guardar.
        -        Prometo.
        -        timo. Agora, vamos. Se demorarmos mais, a mame vai nos matar, e ns no queremos isso, no ? E nada de roubar mais livros, hein?
        Liesel sorriu.
        O que ela s veio a saber depois foi que, nos dias que se seguiram, seu pai de criao conseguiu trocar uns cigarros por outro livro, embora este no fosse
para ela. Bateu na porta do escritrio do Partido Nazista em Molching e aproveitou o ensejo para indagar sobre seu pedido de filiao. Discutido esse assunto, tratou
de dar ao pessoal de l seus ltimos trocados e uma dzia de cigarros. Em troca, recebeu um exemplar usado de Mein Kampf.
        -        Boa leitura - disse um membro do partido.
        -        Obrigado - fez Hans, assentindo com a cabea.
        Na rua, ainda pde ouvir os homens l dentro. Uma das vozes foi especialmente clara.
        -        Ele nunca ser aprovado - dizia - mesmo que compre cem exemplares de Mein Kampf.
        Houve uma concordncia unnime com essa afirmao.
        Hans segurou o livro na mo direita, pensando no dinheiro dos selos, numa vida sem cigarros e na filha de criao que lhe dera essa idia brilhante.
        -        Obrigado - repetiu, ao que um transeunte perguntou o que ele tinha dito.
        Com tpica afabilidade, Hans respondeu:
        -        Nada, meu bom homem, absolutamente nada. Heil Hitler - e seguiu pela Rua Munique, segurando as pginas do Fhrer.

        Deve ler havido uma boa dose de sentimentos confusos naquele momento, porque a idia de Hans Hubermann brotara no apenas de Liesel, mas tambm de seu filho.
Ser que ele j temia nunca mais voltar a v-lo? Por outro lado, ele tambm se comprazia com o xtase de uma idia, ainda sem se atrever a pensar em suas complicaes,
perigos e absurdos perversos. Por ora, a idia bastava. Era indestrutvel. Transform-la em realidade, bem, isso era outra histria completamente diferente. Mas,
por enquanto, deixemos que ele a desfrute.
        Vamos dar-lhe sete meses.
        Depois, chegaremos a ele.
        Ah, e como chegaremos.

        A BIBLIOTECA DO PREFEITO
        Com certeza, algo de grande magnitude se aproximava do nmero 33 ela Rua Himmel, algo a que Liesel ainda no dava ateno. Para distorcer uma expresso humana
muito batida, a menina tinha mais - e mais depressa - o que fazer:
        Havia furtado um livro.
        Algum a vira.
        A roubadora de livros reagiu. Apropriadamente.
        A cada minuto, a cada hora, havia uma preocupao, ou, para ser mais exata, uma parania. A atividade criminosa faz isso com as pessoas, especialmente com
uma criana. Elas imaginam um sortimento prolfico de maneiras de serem flagradas. Eis alguns exemplos: gente pulando de becos. Professores que, de repente, descobrem
todos os pecados que voc j cometeu. A polcia parada na porta, toda vez que uma pgina  virada ou que se ouve um porto bater ao longe.
        Para Liesel, a parania em si tornou-se o castigo, assim como o pavor de entregar outros sacos de roupa lavada e passada na casa do prefeito. No foi por
engano que, como voc certamente pode imaginar, quando chegou o momento, Liesel esqueceu-se convenientemente da casa da Grande Strasse. Fez a entrega  artrtica
Helena Schmidt e pegou a roupa na residncia dos Weingartner, os que gostavam de gatos, mas ignorou a casa pertencente ao Brgermeister Heinz Hermann e sua mulher,
Ilsa.

 OUTRA TRADUO RPIDA 
Brgermeister = prefeito

        Na primeira ocasio, ela afirmou ler simplesmente esquecido daquele lugar - a desculpa mais fajuta de que j ouvi falar, uma vez que a casa ficava em cima
da colina, com vista para a cidade, e era inesquecvel. Quando ela foi de novo e tornou a voltar e mos vazias, mentiu, dizendo que no havia ningum em casa.
        -        Ningum em casa? - disse a me, ctica. O ceticismo lhe dava uma comicho de pegar a colher de pau. Ela a brandiu para Liesel e disse:
        -        Volte l agora e, se no chegar em casa com a roupa para lavar, nem precisa voltar.
        -         mesmo?
        Foi essa a reao de Rudy, quando Liesel lhe contou o que a me dissera.
        -        Quer fugir comigo?
        -        A gente morreria de fome.
        -        Eu estou passando fome mesmo!
        Os dois riram.
        -        No - disse a menina. - Eu tenho que ir.
        Percorreram a cidade como costumavam fazer, quando Rudy ia junto. Ele sempre tentava ser cavalheiresco e carregar a sacola, mas, em todas as ocasies, Liesel
recusava. ') ela estava com a ameaa de uma Watschen pairando sobre a cabea e, por isso, s a a podia ser confiada a tarefa de carregar corretamente a sacola. Qualquer
outra pessoa teria mais tendncia a no segur-la direito, torc-la ou maltrat-la, nem que fosse a maneira mais nfima, e o risco no valia a pena. Alm disso,
era provvel que, se Liesel deixasse Rudy carregar a sacola, ele esperasse um beijo por seus servios, e essa alternativa era invivel. Depois, ela j estava acostumada
com o peso. Passava a sacola de um ombro para outro, aliviando cada lado a cada cem passos, mais ou menos.
        Liesel foi andando  esquerda, Rudy,  direita. Rudy falou quase o tempo todo, sobre o ltimo jogo de futebol na Rua Himmel, sobre trabalhar na loja do pai
e sobre que mais lhe veio  cabea. Liesel procurou escutar, mas no conseguiu. O que havia era o pavor zumbindo em seus ouvidos, e ficando mais alto quanto mais
perto eles chegavam da Grande Strasse.
        -        O que voc est fazendo? No  aqui?
        Liesel fez um aceno de cabea, indicando que Rudy tinha razo, porque havia tentado passar direto pela casa do prefeito, para ganhar tempo.
        -        Bom, vai logo - apressou-a o menino. Escurecia em Molching. O frio comeava subir do cho. - Anda logo, Saumensch - e parou no porto.
        Depois da alameda, havia oito degraus para a entrada principal da casa, e a porta enorme parecia um monstro. Liesel franziu o cenho para a aldraba de bronze.
        -        Que est esperando? - gritou Rudy.
        Liesel virou-se de frente para a rua. Haveria algum jeito, um jeitinho qualquer, escapar daquilo? Haveria outra histria, ou, sejamos francos, outra mentira
em que ela no tivesse pensado?
         -        A gente no tem o dia inteiro - disse de novo a voz distante de Rudy. - Que droga voc est esperando?
        -        Quer fechar a matraca, Steiner? - foi o grito de Liesel, emitido como um cochicho.
        -        O qu?
        -        Eu disse pr calar a boca, seu Saukerl idiota...
        E com isso, virou-se novamente para a porta, levantou a aldraba de bronze e bateu trs vezes, devagar. Ps se aproximaram do outro lado.
        No comeo, ela no olhou para a mulher, mas se concentrou no saco de roupa que tinha nas mos. Examinou o cordo que o fechava ao entreg-lo. O dinheiro
lhe foi entregue e, em seguida, nada. A mulher do prefeito, que nunca falava, apenas ficou parada, com seu roupo de banho, o cabelo macio e fofo preso num rabo-de-cavalo
curto. Uma corrente de ar se fez sentir. Algo assim como a respirao imaginria de um cadver. Mesmo ento no houve palavras e, quando Liesel encontrou coragem
para encar-la, a mulher no exibia uma expresso de censura, mas de profunda distncia. Por um instante, olhou para o menino, por cima do ombro de Liesel, depois
fez um aceno com a cabea e deu um passo atrs, fechando a porta.
        Durante um bom tempo, Liesel ficou parada, de frente para a manta de madeira vertical.
        -        Ei, Saumensch! Nenhuma resposta.
        -        Liesel!
        A menina recuou.
        Cautelosamente.
        Desceu os primeiros degraus de costas, contando.
        Talvez a mulher no a tivesse visto roubar o livro, afinal. Estava escurecendo. Talvez tivesse sido uma daquelas ocasies em que uma pessoa parece estar
olhando diretamente para a gente, quando, na verdade, est feliz da vida prestando ateno em outra coisa, ou s devaneando. Qualquer que fosse a resposta, Liesel
no tentou nenhuma anlise adicional. Tinha-se safado, e isso era o bastante.
        Virou-se e cuidou normalmente dos degraus que restavam, saltando os ltimos trs de uma vez s.
        -        Vamos, Saukerl - disse. Chegou at a se permitir uma risada. A parania aos onze anos  poderosa. O alvio aos onze anos  eufrico.

 UMA COISINHA PARA BAIXAR A EUFORIA 
Ela no se safara de coisa alguma.
        A mulher do prefeito a vira, sim.
        S estava esperando o momento certo.

        Passaram-se algumas semanas.
        Futebol na Rua Himmel.
        Leitura de O Dar de Ombros entre as duas e as trs de todas as madrugadas, ps-pesadelo, ou durante a tarde, no poro.
        Outra visita sem incidentes  casa do prefeito. Estava tudo um encanto. At que.
        Na visita seguinte de Liesel, sem Rudy, apresentou-se a oportunidade.
        Era dia de buscar a roupa suja.
        A mulher do prefeito abriu a porta e no estava segurando o saco de roupas, como normalmente faria. Em vez disso, deu um passo para o lado e fez sinal, com
a mo e o pulso alvos feito giz, para que a menina entrasse.
        -        S vim buscar a roupa suja - disse Liesel, com o sangue empedrado nas veias. Ele desmoronou. A menina quase se desfez em pedaos na escada.
        Foi quando a mulher lhe disse as primeiras palavras. Estendeu a mo, com os dedos frios, e disse:
        -        Warte. Espere.
        Quando teve certeza de que a menina se reequilibrara, virou-se e voltou s pressas para dentro.
        -        Graas a Deus - exalou Liesel. - Ela foi busc-la.
        O "la" era a roupa suja.
        Mas a coisa com que a mulher voltou no foi nada desse gnero.
        Quando voltou e parou, com uma firmeza incrivelmente frgil, ela segurava uma torre de livros encostados na barriga, do umbigo at o comeo dos seios. Parecia
muito vulnervel no monstruoso vo da porta. Clios compridos e claros, e o mais nfimo toque de expressividade. Uma sugesto.
        Que dizia: entre e olhe.
        Ela vai me torturar, decidiu Liesel. Vai me levar para dentro, acender a lareira e me jogar l dentro, com os livros e tudo. Ou ento, vai me trancar no
poro, sem comida.
        Por alguma razo, porm - mais provavelmente, a atrao dos livros -, ela se descobriu entrando. O guinchar de seus sapatos nas tbuas de madeira a fez encolher-se
e, ao atingir um ponto sensvel, que induziu a madeira a gemer, a menina quase parou. A mulher do prefeito no se deteve. S deu uma rpida olhada para trs e continuou
andando, at uma porta de cor castanha. Foi quando seu rosto formulou uma pergunta.
        Est pronta?
        Liesel inclinou um pouco o pescoo, como se pudesse enxergar por cima da porta em seu caminho. Claramente, foi a dica para que ela se abrisse.
        - Jesus, Maria...
         Ela o disse em voz alta, com as palavras distribudas por uma sala repleta de ar frio e livros. Livros por toda parte! Cada parede era provida de estantes
apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver a tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de
toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger j tinha visto.
        Deslumbrada, ela sorriu.
        A existncia de uma sala daquelas!
        Mesmo quando tentou apagar o sorriso com o brao, percebeu no mesmo instante que era um exerccio intil. A menina sentiu os olhos da mulher percorrendo
seu corpo e, quando olhou para ela, haviam pousado em seu rosto.
        O silncio foi maior do que Liesel jamais imaginara possvel. Esticou-se como um elstico, prestes a se romper. A menina o quebrou.
        -        Posso?
        A palavra ecoou entre acres e acres de terra deserta, com um piso de madeira. Os livros estavam a quilmetros de distncia. A mulher fez que sim com a cabea.
Sim, pode.
          
        A sala foi encolhendo sem parar, at que a menina que roubava livros pde tocar nas estantes, a poucos passinhos de distncia. Correu o dorso da mo pela
primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de ps em correria.
Ela usou as duas mos. Passou-as correndo. Uma estante encostada em outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada
no meio do cmodo, passou vrios minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras.
        Em quantos livros tinha tocado?
        Quantos havia sentido?
        Andou at o comeo e fez tudo de novo, dessa vez muito mais devagar, com a mo virada para frente, deixando a palma sentir o pequeno obstculo de cada livro.
Parecia magia, parecia beleza, enquanto as linhas vivas de luz brilhavam de um lustre. Em vrios momentos, Liesel quase puxou um ttulo do lugar, mas no se atreveu
a perturb-los. Eram perfeitos demais.
        A sua esquerda, tornou a ver a mulher, parada junto a uma grande escrivaninha, ainda segurando a torrezinha contra o tronco. Estava entortada de um jeito
encantador. Um sorriso parecia ter-lhe paralisado os lbios.
        -        A senhora quer que eu..,?
        No terminou a pergunta, mas fez efetivamente o que ia perguntar, aproximando-se e tirando delicadamente os livros dos braos da mulher. Em seguida, colocou-os
no pedao que faltava numa prateleira, perto da janela entreaberta. O frio l de fora escoava para dentro.
        Por um momento, Liesel considerou a idia de fech-la, mas pensou melhor. No era a sua casa, e no se podia brincar com aquela situao. Em vez disso, retornou
 mulher s suas costas, cujo sorriso tinha agora a aparncia de um machucado e cujos braos pendiam, magros, dos lados do corpo. Feito braos de menina.
        E agora?
        Um constrangimento infiltrou-se na sala e Liesel deu uma ltima olhadela fugaz nas paredes de livros. Na boca, as palavras ficaram irrequietas, mas saram
numa correria.
        -        Tenho que ir embora.
        Precisou de trs tentativas para sair.
        Esperou uns minutos no corredor, mas a mulher no veio e, ao voltar  entrada da sala, Liesel a viu sentada  escrivaninha, olhando fixamente para um dos
livros. Optou por no perturb-la. No corredor, pegou a roupa para lavar.
        Dessa vez, evitou o ponto sensvel nas tbuas do piso, ao andar pela longa extenso do corredor, preferindo a parede da esquerda. Quando fechou a porta atrs
de si, um tilintar de bronze soou em seus ouvidos e, com o saco de roupas do lado, ela afagou a carne da madeira.
        -        Trate de andar - disse a si mesma.
        No comeo, foi andando zonza para casa.
        A experincia surreal da sala repleta de livros, com a mulher perplexa e alquebrada, caminhou a seu lado. Liesel podia v-la nos prdios, como uma brincadeira.
Talvez fosse algo parecido com a maneira como papai tivera sua revelao sobre o Mein Kampf. Para onde quer que olhasse, Liesel via a mulher do prefeito com os livros
empilhados nos braos. Ao dobrar as esquinas, ouvia o tamborilar de suas prprias mos, perturbando as estantes. Via a janela aberta, o lustre com a luz encantadora,
e via a si mesma indo embora, sem sequer uma palavra de agradecimento.
        Em pouco tempo, seu estado de sedao transformou-se em tormentos e autodepreciao. Ela comeou a se repreender.
        -        Voc no disse nada - e sacudia vigorosamente a cabea, em meio aos passos apressados. - Nem um "at logo". Nem um "obrigada". Nem um "isso  a
coisa mais linda que eu j vi". Nada!
        No h dvida de que ela era uma roubadora de livros, mas isso no queria dizer que no devesse ter modos. No significava que no pudesse ser educada.
        Andou por uns bons minutos, lutando com a indeciso.
        Na Rua Munique, a dvida chegou ao fim.
        No exato momento em que pde discernir a tabuleta que dizia STEINER - SCHNEIDERMEISTER, a Alfaiataria Steiner, deu meia-volta e saiu correndo.
        Dessa vez, no houve hesitao.
        Bateu com fora na porta, mandando um eco de bronze pela madeira,
         - Scheisse! No foi a mulher do prefeito, mas o prprio prefeito quem se postou diante dela. Na pressa, Liesel no havia reparado no carro parado em frente,
na rua. De bigode e terno preto, o homem falou.
        -        Em que posso ajud-la?
        Liesel no conseguiu dizer nada. Ainda no. Estava dobrada para frente, sem flego, e, por sorte, a mulher chegou quando ela se havia recuperado, pelo menos
em parte. Ilsa Hermann parou atrs do marido, meio de lado.
        -        Eu me esqueci - disse Liesel. Levantou o saco de roupas e se dirigiu  mulher do prefeito. Apesar do grande esforo de respirao, conseguiu inserir
as palavras pela brecha do vo da porta - entre o prefeito e a moldura - em direo  mulher. Tamanho era seu esforo para respirar, que as palavras s escaparam
aos pouquinhos de cada vez:
        -        Esqueci... quero dizer, eu s... queria... lhe agradecer - soltou.
        A mulher do prefeito assumiu de novo o sorriso machucado. Avanando, ficou ao lado do marido, fez um aceno levssimo com a cabea, esperou e fechou a porta.
Liesel precisou de mais ou menos um minuto para ir embora. Sorriu para a escada.


ENTRA O LUTADOR
        Agora, uma mudana de cena.
        Foi tudo muito fcil para ns dois at aqui, meu amigo ou amiga, no acha? Que tal esquecermos de Molching por um ou dois minutos?
        Isso nos far bem.
        Alm disso,  importante para a histria.
        Viajaremos um pouquinho at um depsito secreto, e veremos o que virmos.
 UMA TURN GUIADA PELO SOFRIMENTO 
 sua esquerda,
talvez  sua direita,
ou at direto em frente,
voc encontrar um quartinho escuro.
Nele est sentado um judeu.
Ele  a escria.
Est morrendo de fome.
Sente medo.
Por favor, procure no desviar os olhos.
        Algumas centenas de quilmetros a noroeste, em Stuttgart, longe de ladres de livros, de mulheres de prefeitos e da Rua Himmel, havia um homem sentado no
escuro. Era o melhor lugar, tinham resolvido.  mais difcil achar um judeu no escuro.
        Ele estava sentado em sua mala, esperando. Quantos dias j fazia?
         S havia comido o gosto ftido de seu prprio hlito faminto, no que pareciam ter sido semanas, e, mesmo assim, nada. De quando em quando, vozes passavam
vagando, e s vezes ele desejava que batessem na porta, abrissem-na e o arrastassem para fora, para a luz insuportvel. Por ora, s lhe restava sentar-se em sua
mala-sof, com as mos embaixo do queixo e os cotovelos a lhe queimar as coxas.
        Havia o sono, o sono esfaimado, e a irritao de ficar semi-adormecido, e o castigo do cho.
        Esquea a comicho nos ps.
        No coce as solas.
        E no se mexa muito.
        S deixe tudo como est, haja o que houver. Pode ser que logo chegue a hora de ir embora. Leve como uma arma. Explosiva nos olhos. Talvez esteja na hora
de ir. Talvez esteja na hora, portanto, acorde. Acorde agora, diabos! Acorde.
        A porta abriu e fechou, e havia uma figura agachada, curvando-se sobre ele. A mo espalmada sobre as ondas de frio de sua roupa e as correntes imundas por
baixo. Detrs dela desceu uma voz.
        -        Max - sussurrou. - Max, acorde.
        Seus olhos no fizeram nada do que o susto normalmente descreve. Nada de fechar bruscamente, nada de plpebras batendo, nenhum sobressalto. Essas coisas
acontecem quando se acorda de um sonho ruim, no quando se acorda dentro dele. No, seus olhos abriram-se num movimento arrastado, da escurido para a penumbra.
Seu corpo foi que reagiu, levantando-se encolhido e estendendo um brao para agarrar o ar.
        A voz o acalmou.
        -        Desculpe ter demorado tanto. Acho que havia gente me vigiando. E o homem da carteira de identidade demorou mais do que eu imaginava, mas... - houve
uma pausa - agora ela  sua. No tem grande qualidade, mas esperemos que seja boa o bastante para lev-lo at l, se a coisa chegar a esse ponto.
        O homem se agachou e acenou para a mala. Na outra mo, segurava alguma coisa pesada e chata.
        -        Ande, vamos.
        Max obedeceu, ficando de p e se coando. Sentia os ossos se apertarem.
        -        A carteira est a dentro - apontou. Era um livro. - Voc deve pr o mapa a dentro tambm, e as instrues sobre o caminho. E h uma chave... est
colada com fita adesiva na parte interna da capa.
        Destrancou a caixa o mais silenciosamente que pde, e plantou o livro como uma bomba.
        -        Volto daqui a uns dias.
        Deixou um saquinho cheio de po, gordura e trs cenouras pequenas. Ao lado havia uma garrafa d'gua. Nenhum pedido de desculpas.
        -        Foi o melhor que consegui arranjar.
        Porta aberta, porta fechada.
        Sozinho outra vez.
        O que lhe chegou de imediato, nesse momento, foi o som.
        Era tudo desesperadamente ruidoso no escuro, quando ele ficava s. Toda vez que Max se mexia, vinha o som de uma dobra. Ele se sentia como um homem usando
um terno de papel.
        A comida.
        Max dividiu o po em trs partes e ps duas de lado. Mergulhou na que estava em sua mo, mastigando e engolindo, empurrando-a para baixo pelo corredor ressequido
da garganta. A gordura estava dura e fria, descendo em etapas, s vezes ficando presa. Os goles grandes arrancavam tudo e o empurravam para baixo.
        Depois, as cenouras.
        Mais uma vez, ps duas de lado e devorou a terceira. O barulho foi estarrecedor. Sem dvida, o prprio Fhrer poderia ouvir o som da triturao alaranjada
em sua boca. Ela lhe quebrava os dentes a cada mordida. Quando bebeu gua, Max teve certeza de que os estava engolindo. Da prxima vez, aconselhou a si mesmo, beba
primeiro.
        Depois, para seu alvio, quando os ecos o abandonaram e ele arranjou coragem para fazer uma verificao com os dedos, descobriu que todos os dentes ainda
estavam l, intactos. Tentou um sorriso, mas ele no veio. S conseguia imaginar uma tentativa mansa e uma boca cheia de dentes quebrados. Passou horas a apalp-los.
        Abriu a mala e pegou o livro.
        No conseguiu ler o ttulo no escuro, e o perigo de riscar um fsforo pareceu-lhe grande demais nesse momento.
        Quando falou, teve um gosto de sussurro.
        -        Por favor - disse. - Por favor.
        Dirigia-se a um homem que nunca tinha visto. Alm de alguns outros detalhes importantes, sabia o nome dele. Hans Hubermann. Mais uma vez, dirigiu-se a ele,
ao estranho distante. Implorou.
        -        Por favor.

        OS ATRIBUTOS DO VERO
        Portanto,  isso a.
        Voc j sabe muito bem o que estava prestes a chegar  Rua Himmel no fim de 1940.
        Eu sei.
        Voc sabe.
        Liesel Meminger, no entanto, no pode ser includa nessa categoria.
        Para a menina que roubava livros, o vero daquele ano tinha sido simples. Compunha-se de quatro elementos ou atributos principais. De vez em quando, ela
se perguntava qual deles era o mais poderoso.

 E OS INDICADOS SO. . . 
1. Avanar por O Dar de Ombros todas as noites.
2. Ler no cho da biblioteca do prefeito.
3. Jogar futebol na Rua Himmel.
4. Aproveitar uma oportunidade diferente de roubar.

        O Dar de Ombros, ela decidiu, era excelente. Toda noite, quando se acalmava do pesadelo, logo se sentia contente por estar acordada e poder ler. "Algumas
pginas?", perguntava papai, e Liesel fazia que sim. s vezes, eles terminavam um captulo na tarde seguinte, no poro.
        O problema das autoridades com o livro era bvio. O protagonista era judeu, e era apresentado sob um prisma favorvel. Imperdovel. Era um homem rico que
se cansara de deixar a vida passar - cansara-se daquilo a que se referia com O Dar de Ombros para os problemas e prazeres do tempo de uma pessoa na Terra.
        Na primeira parte do vero, em Molching, enquanto Liesel e o pai avanavam pelo livro, esse homem viajava a negcios para Amsterd e a neve era arrepiante
l fora. A menina adorou isso - a neve arrepiante. " exatamente o que ela faz quando cai", disse a Hans Hubermann. Sentados juntos na cama, o pai semi-adormecido,
a menina inteiramente desperta.
        De quando em quando, ela observava o pai dormindo, sabendo mais e menos sobre ele do que qualquer dos dois se apercebia. Muitas vezes, ouvia o pai e a me
discutindo sobre o desemprego dele, ou falando com desnimo sobre Hans ter procurado ver o filho, s para descobrir que o rapaz j sara de seu alojamento e, muito
provavelmente, j estava a caminho da guerra.
        -        Schlaf gut, papai - dizia a menina, nessas ocasies. "Durma bem", e deslizava em volta dele, saindo da cama para apagar a luz.
        O atributo seguinte, como j mencionei, era a biblioteca do prefeito.
        Para exemplificar essa situao especfica, podemos considerar um dia fresco no fim de junho. Rudy, para usar de um eufemismo, estava enfurecido.
        Quem  que Liesel Meminger pensava que era, a lhe dizer que tinha que ir sozinha levar a roupa lavada e passada nesse dia? Ele no era bom o bastante para
andar na rua com ela?
        -        Pare de reclamar, Saukerl - repreendeu a menina. -  s que eu me sinto mal.
        - Voc vai perder o jogo.
        Ele olhou por cima do ombro.
        -        Bom, se  assim que voc diz - e veio um Schmunzel, um sorriso. - Dane-se a sua roupa lavada.
        Saiu correndo e no tardou a se juntar a um time. Quando Liesel chegou ao alto da Rua Himmel, olhou para trs, bem a tempo de v-lo parado em frente  baliza
improvisada mais prxima. Estava acenando.
        -        Saukerl - riu a menina, e, ao levantar a mo, soube perfeitamente que, ao mesmo tempo, ele a chamava de Saumensch. Acho que isso  o mximo que
as crianas de onze anos podem se aproximar do amor.
        Liesel comeou a correr, em direo  Grande Strasse e  casa do prefeito.
        E claro que havia suor e arquejos amarfanhados de respirao estendidos diante dela.
        Mas Liesel estava lendo.
        A mulher do prefeito, depois de deixar a menina entrar pela quarta vez, sentou-se  escrivaninha, simplesmente olhando para os livros. Na segunda visita,
dera permisso para que Liesel tirasse um deles da estante e o folheasse, o que levara a outro e mais outros, at que havia uma dzia de livros grudados nela, ou
presos embaixo de um brao, ou na pilha que subia cada vez mais na mo restante.
        Nessa ocasio, enquanto Liesel estava parada no ambiente frio da sala, seu estmago roncou, mas no houve nenhuma reao da mulher muda e avariada. Ela estava
outra vez de roupo de banho e, embora observasse a menina vrias vezes nunca era por muito tempo. Costumava prestar mais ateno ao que estava junto dela, a alguma
coisa que faltava. A janela continuava escancarada - uma boca quadrada e fresca, com baforadas de vento ocasionais.
        Liesel sentou-se no cho. Os livros espalharam-se  sua volta.
        Passados quarenta minutos, foi embora. Todos os livros foram devolvidos a seus lugares.
        -        At logo, Frau Hermann - disse. As palavras sempre vinham como um choque. - Obrigada.
        Depois disso, a mulher lhe pagou e ela se foi. Cada movimento seu tinha que ser explicado, e a menina que roubava livros correu para casa.
        A medida que o vero se instalou, a sala repleta de livros foi ficando mais quente e, a cada busca ou entrega da roupa, o cho se tornava menos incmodo.
Liesel sentava-se com uma pequena pilha de livros a seu lado e lia alguns pargrafos de cada um, tentando decorar as palavras que no conhecia, para perguntar ao
pai quando chegasse em casa. Mais tarde, quando adolescente, ao escrever sobre esses livros, Liesel j no se lembraria dos ttulos. Nem mesmo de um. Talvez, se
os houvesse roubado, tivesse ficado mais bem equipada.
        O que recordou foi que um dos livros ilustrados tinha um nome, escrito com letra desajeitada, na parte interna da capa.

 O NOME DE UM MENINO 
Johann Hermann

        Liesel mordeu o lbio, mas no pde resistir por muito tempo. Do cho, virou-se e olhou para a mulher de roupo, e soltou a pergunta:
        -        Johann Hermann - disse. - Quem  esse?
        A mulher olhou para seu lado, em algum ponto prximo dos joelhos da menina. Liesel se desculpou.
        -        Sinto muito. Eu no devia perguntar essas coisas...
        Deixou a frase morrer de morte natural.
        O rosto da mulher no se alterou, mas, de algum modo, ela conseguiu falar.
        -        Agora ele no  mais nada neste mundo - explicou. - Era meu...

 OS ARQUIVOS DA MEMRIA 
Ah, sim, decididamente, eu me lembro dele.
O cu estava pesado e fundo feito areia movedia.
Havia um rapaz embrulhado em arame farpado,
como uma gigantesca coroa de espinhos. Desenredei-o
e o levei embora. Bem acima da terra, camos juntos de joelhos.

        -        Afora todo o resto, ele morreu congelado - disse ela. Brincou com as mos por um momento e repetiu: - Morreu congelado, tenho certeza.
        A mulher do prefeito era apenas uma numa brigada mundial. Voc j a viu antes, tenho certeza. Em suas histrias, seus poemas, nos filmes a que gosta de assistir.
Elas esto em toda parte, ento, por que no aqui? Por que no numa bela colina de uma cidadezinha alem? E um lugar to bom quanto qualquer outro para sofrer.
        A questo  que Ilsa Hermann tinha resolvido fazer do sofrimento sua vitria. Quando a dor se recusou a larg-la, a mulher sucumbiu a ela. Abraou-a.
        Podia ter-se matado com um tiro, ter-se arranhado ou se entregado a outras formas de automutilao, mas escolheu a que provavelmente achava ser a opo mais
fraca - ao menos suportar o desconforto do clima. Ao que Liesel soubesse, ela rezava por dias de vero que fossem frios e midos. Na maior parte do tempo, morava
no lugar certo.
        Quando Liesel se foi nesse dia, disse uma coisa com grande constrangimento. Na traduo, lutou com duas palavras gigantescas, carregou-as no ombro e as largou
como um par atamancado aos ps de Ilsa Hermann. Elas caram de banda, quando a menina deu uma guinada e no pde mais suportar o peso. Juntas, as duas ficaram no
cho, grandes, altas e canhestras.

 DUAS PALAVRAS GIGANTESCAS 
Sinto muito.

        De novo, a mulher do prefeito olhou para o espao a seu lado. Um rosto de pgina em branco.
        -        Por qu? - perguntou, mas o momento j havia passado. A menina j estava longe da sala. Quase chegara  porta da frente. Ao ouvir a pergunta, parou,
mas optou por no voltar, preferindo sair da casa e descer a escada sem fazer barulho.
        Olhou para a paisagem de Molching, antes de descer e desaparecer nela, e sentiu pena da mulher do prefeito por um bom tempo.
        Vez ou outra Liesel se perguntava se deveria simplesmente deixar a mulher em paz, mas Ilsa Hermann era muito interessante e a atrao dos livros era forte
demais. Um dia, as palavras haviam inutilizado Liesel, mas agora, quando se sentava no cho, com a mulher do prefeito sentada  escrivaninha do marido, ela experimentava
uma sensao inata de poder. Acontecia toda vez que decifrava uma palavra nova ou formava uma frase.
        Ela era uma menina.
        Na Alemanha nazista.
        Como era apropriado que descobrisse o poder das palavras!
         E como seria terrvel (mas revigorante!), muitos meses depois, o momento em que ela desencadearia o poder dessa descoberta recente, no instante exato em
que a mulher do prefeito a decepcionasse. Com que rapidez a compaixo a deixaria, e com que rapidez espirraria para uma coisa completamente diferente...
        Nesse momento, porm, no vero de 1940, Liesel no tinha como saber o que o futuro reservava, em mais de um sentido. Era apenas testemunha de uma mulher
pesarosa, com uma sala cheia de livros que ela gostava de visitar. Apenas isso. Era a parte dois de sua vida naquele vero.
        A parte trs, graas a Deus, era um pouco mais despreocupada - o futebol na Rua Himmel.
        Deixe-me pintar-lhe um quadro:
        Ps roando o cho.
        O mpeto do flego juvenil.
        Palavras gritadas: "Pr c! Por aqui! Scheisse!"
        O quicar rude da bola na rua.
        Estavam todos presentes na Rua Himmel, alm do som dos pedidos de desculpas, enquanto o vero se intensificava ainda mais.
        As desculpas eram de Liesel Meminger.
        Dirigiram-se a Tommy Mller.
        No comeo de julho, ela finalmente conseguiu convenc-lo de que no o mataria. Desde a surra que lhe dera, em novembro do ano anterior, Tommy ainda tinha
pavor de ficar perto dela. Nas reunies do futebol da Rua Himmel, mantinha-se bem afastado.
        -        A gente nunca sabe quando ela pode perder a estribeira - confidenciou a Rudy, meio fazendo caretas espsticas, meio falando.
        Em defesa de Liesel, cabe dizer que ela nunca desistiu de tentar deix-lo  vontade. Para a menina, era uma decepo ter feito as pazes to bem com Ludwig
Schmeikl e no com o inocente Tommy Mller, que ainda se encolhia ligeiramente toda vez que a via.
        -        Como  que eu podia saber que voc estava sorrindo pr mim naquele dia? - perguntava, repetidamente.
        Chegou inclusive a passar uns perodos servindo de goleira para ele, at todos os outros jogadores do time implorarem para Tommy voltar.
        -        Volte pr l! - finalmente ordenou-lhe um garoto chamado Harald Mollenhauer.
        -        Voc  um intil.
        Isso foi depois de Tommy derrub-lo quando ele estava prestes a marcar um gol. Harald teria conseguido um pnalti a seu favor, no fosse o fato de os dois
estarem no mesmo time, Liesel saiu do gol e, de algum modo, sempre acabava jogando contra Rudy. Os dois driblavam e derrubavam um ao outro, trocando xingamentos.
Rudy comentava:
        -        Ela no vai conseguir passar por ele desta vez, aquela Saumensch Arschgrobbler  idiota. No tem a menor chance.
        Rudy parecia gostar de chamar Liesel de coadora de bunda. Era uma das alegrias da infncia.
        Outra alegria,  claro, era roubar. Parte quatro, vero de 1940.
        Para ser imparcial, eram muitas as coisas que uniam Rudy e Liesel, mas foi o roubo que cimentou por completo sua amizade. Ele foi trazido por uma oportunidade
e movido por uma fora inescapvel - a fome de Rudy. O menino vivia permanentemente morto de vontade de comer alguma coisa.
        Alm da situao de racionamento, o negcio de seu pai no ia muito bem nos ltimos tempos (a ameaa da concorrncia judaica tinha sido afastada, mas o mesmo
se dera com os clientes judeus). Os Steiner andavam raspando o fundo do tacho para se arranjar. Como muitas outras pessoas do lado da cidade em que ficava a Rua
Himmel, precisavam do comrcio. De bom grado Liesel daria a Rudy um pouco de comida de sua casa, mas l tambm no havia uma abundncia. Em geral, Rosa fazia sopa
de ervilha. Cozinhava-a nas noites de domingo - e no s o bastante para uma ou duas repeties. Preparava sopa de ervilha suficiente para durar at o sbado seguinte.
Depois, no domingo, fazia outra. Sopa de ervilha, po, s vezes uma pequena poro de batata ou carne. A pessoa comia e no pedia mais, e no reclamava.
        No comeo, os dois faziam coisas para tentar esquecer.
        Rudy no sentia fome quando eles jogavam futebol na rua. Ou quando pegavam as bicicletas do irmo e da irm dele e iam  loja de Alex Steiner, ou visitavam
o pai de Liesel, se ele estivesse trabalhando nesse dia. Hans Hubermann sentava-se com eles e contava piadas  ltima luz do entardecer.
        Com a chegada de uns dias de calor, outra distrao era aprender a nadar no Rio Amper. A gua ainda estava meio fria demais, mas eles iam assim mesmo.
        -        Vem - persuadiu-a Rudy. - s at aqui. Aqui no  muito fundo.
        Liesel no viu o buraco gigantesco em que estava entrando e foi direto para o fundo. Nadar cachorrinho salvou-lhe a vida, embora ela quase sufocasse com
o tanto de gua que engoliu.
        -        Seu Saukerl - acusou-o, ao desabar na margem do rio.
        Rudy certificou-se de ficar bem longe. Tinha visto o que ela fizera com Ludwig Schmeikl.
        -        Agora voc sabe nadar, no ?
        O que no a animou particularmente enquanto se afastava, pisando duro. Tinha o cabelo grudado num lado do rosto e muco escorrendo do nariz. Rudy gritou de
longe:
        -        Isso quer dizer que eu no ganho um beijo por lhe ensinar a nadar?
        Que petulncia dele!

        Foi inevitvel.
        A deprimente sopa de ervilha e a fome de Rudy acabaram por impeli-los ao furto. Isso inspirou sua ligao com um grupo de meninos mais velhos que roubavam
dos lavradores. Ladres de frutas. Depois de um jogo de futebol, Liesel e Rudy aprenderam as vantagens de ficar de olho aberto. Sentados na escada frontal da casa
de Rudy, notaram Fritz Hammer - um de seus colegas mais antigos - comendo uma ma. Era do tipo Klar, que amadurece em julho e agosto, e parecia magnfica na mo
dele. Outras trs ou quatro formavam claras protuberncias nos bolsos de seu casaco. Rudy e Liesel foram chegando mais perto.
        - Onde voc arranjou isso? - perguntou Rudy.
        No comeo, o menino apenas sorriu. - Pssiu - e parou. Depois, tirou uma ma do bolso e comeou a jog-la. - S olhem pra ela - advertiu-os. - No comam.
        Na vez seguinte em que viram o mesmo menino, usando o mesmo casaco, num dia quente demais para ele, resolveram segui-lo. Ele os levou para a parte alta do
Rio Amper. Perto de onde Liesel s vezes lia com o pai, nos primeiros tempos de aprendizagem.
        Um grupo de cinco meninos, uns altos, magros e desengonados, outros baixotes e magrelas, estava esperando.
        Havia um punhado desses grupos em Molching, na poca, alguns com membros de apenas seis anos. O lder dessa organizao especfica era um agradvel criminoso
de quinze anos, chamado Arthur Berg. Ele deu uma olhada em volta e viu as duas crianas de onze anos rondando ao fundo.
        - Und? - perguntou. "E a?"
        - Estou morrendo de fome - respondeu Rudy.
        - E ele  rpido - disse Liesel. Berg olhou para a menina.
        - No me lembro de ter pedido sua opinio.
        Era um adolescente alto, de pescoo comprido. Havia espinhas reunidas em grupos de pares em seu rosto.
        - Mas gosto de voc - acrescentou. Era amistoso, com um jeito adolescente atrevido. - No foi essa que bateu no seu irmo, Anderl?
        A notcia com certeza havia circulado. Uma boa surra transcende as divises etrias. Outro menino - um dos baixos e magros -, de cabelo louro desabado e
pele cor de gelo, deu uma olhadela.
        - Acho que sim. Rudy confirmou:
        -  ela.
        Andy Schmeikl aproximou-se e estudou-a, de cima a baixo, com ar pensativo, antes de abrir um largo sorriso.
        -        Grande trabalho, garota - comentou. Chegou at a lhe dar um tapinha entre os ossos das costas, batendo numa omoplata pontiaguda. - Eu teria levado
uma surra de chicote se fizesse aquilo.
        Arthur tinha-se aproximado de Rudy.
        -        E voc  o tal do Jesse Owens, no ? Rudy fez que sim.
        -        E claro que  um idiota - disse Arthur -, mas  o nosso tipo de idiota. Vamos. Estavam aceitos.
        Quando chegaram  fazenda, algum jogou uma saca para Liesel e Rudy. Arthur Berg segurou seu prprio saco de aniagem. Passou a mo pelos fios macios do cabelo.
        -        Algum de vocs j roubou?
        -         claro - atestou Rudy. - O tempo todo. No soou muito convincente.
        Liesel foi mais especfica: - Roubei dois livros -, ao que Arthur riu, em trs roncos breves. Suas espinhas mudaram de lugar.
        -        No se pode comer livro, benzinho.
        Dali, todos examinaram as macieiras, perfiladas em fileiras compridas e tortas. Arthur Berg deu as ordens:
        -        Um - disse. - No fiquem presos na cerca. Quem ficar preso na cerca vai ser deixado pr trs. Entendido?
        Todos assentiram com a cabea ou disseram que sim.
        -        Dois. E um na rvore, um embaixo. Algum tem que recolher - e esfregou as mos. Estava gostando daquilo. - Trs. Se virem algum chegando, vocs
gritam numa altura que d para acordar os mortos, e todo o mundo sai correndo. Richtig?
        -        Richtig - veio o coro.

 DOIS DEBUTANTES NO FURTO DE MAS 
COCHICHANDO
-        Liesel, tem certeza? Ainda quer fazer isso?
- Olhe pro arame farpado, Rudy. E muito alto.
- No, no, olhe: voc joga o saco em cima. Est vendo? Como eles.
- Est bem. - Ento, vamos!
-        No posso! - hesitou ela. - Rudy, eu...
- Anda logo, Saumensch!
        Empurrou-a para a cerca, jogou o saco vazio no arame e os dois pularam, correndo em direo aos outros. Rudy abriu caminho para a rvore mais prxima e comeou
a derrubar as mas. Liesel ficou embaixo, pondo-as no saco. Quando ele ficou cheio, houve um outro problema.
        - Como  que vamos pular a cerca de volta?
        A resposta veio quando notaram que Arthur Berg a escalava o mais perto possvel de uma estaca.
        - Ali o arame  mais forte - apontou Rudy.
        Jogou o saco por cima da cerca, fez Liesel subir primeiro e, em seguida, desceu junto dela do outro lado, entre as frutas que tinham rolado do saco.
        Perto deles, as pernas compridas de Arthur Berg vigiavam, divertidas.
        - Nada mau - veio a voz l de cima. - Nada mau mesmo.
        Quando regressaram ao rio, escondendo-se entre as rvores, Arthur pegou o saco e deu a Liesel e Rudy uma dzia de mas, ao todo.
        -        Bom trabalho - foi seu ltimo comentrio.
        Naquela tarde, antes de voltarem para casa, Liesel e Rudy comeram seis mas cada um, no intervalo de meia hora. No comeo, pensaram em dividir as frutas
em suas respectivas casas, mas isso implicava um perigo considervel. Os dois no ficaram especialmente encantados com a oportunidade de explicar exatamente de onde
tinham vindo as frutas. Liesel chegou at a pensar que talvez se safasse, se contasse apenas ao pai, mas no queria que ele achasse que tinha uma criminosa compulsiva
nas mos. Assim, comeu.
        Na margem do rio em que ela aprendera a nadar, todas as mas foram consumidas. Pouco acostumados a esses luxos, eles sabiam ser provvel que ficassem enjoados.
        Mas comeram assim mesmo.
        -        Saumensch! - xingou sua me naquela noite. - Por que est vomitando tanto?
        -        Vai ver que  a sopa de ervilha - sugeriu Liesel.
        -         isso - ecoou o pai, de novo debruado  janela. - Deve ser. Eu mesmo ando meio enjoado.
        -        Quem foi que lhe perguntou, Saukerl? - e se virou depressa para a Saumensch que vomitava. - E ento? O que h? O que foi, sua porca imunda?
        E Liesel?
        No disse palavra.
        As mas, pensou, alegremente. As mas; e vomitou mais uma vez, para dar sorte.

        A LOJISTA ARIANA
        Pararam do lado de fora da loja de Frau Diller, encostados na parede caiada.
        Havia um pedao de bala na boca de Liesel.
        O sol batia em seus olhos.
        Apesar dessas dificuldades, ela ainda conseguiu falar e discutir.
 OUTRA CONVERSA 
ENTRE RUDY E LIESEL
- Ande logo, Saumensch, j foram dez.
- No foram, foram s oito, ainda tenho mais duas.
- Bom, ento ande depressa.
Eu disse que a gente devia ter pegado uma faca e cortado ela ao meio...
Ande, j foram duas.
- Est bem. Tome. E no engula.
- Eu lhe pareo idiota?
[Uma pequena pausa]
- E o mximo, no ?
- Com certeza, Saumensch.
        No fim de agosto e do vero, eles acharam um fnigue no cho. Pura empolgao.
        Estava cado na terra, meio estragado, no trajeto da roupa para lavar e passar. Uma moeda solitria e corroda.
        - Olhe s pr isso!
        Rudy a arrebatou. A animao chegou quase a espetar, enquanto os dois voltaram correndo para a loja de Frau Diller, sem sequer considerar que um nico fnigue
talvez no fosse o preo certo. Irromperam porta adentro e pararam diante da lojista ariana, que os olhou com desdm.
        -        Estou esperando - disse ela. Usava o cabelo preso para trs e um vestido preto que lhe sufocava o corpo. A foto emoldurada do Fhrer vigiava na
parede.
        -        Heil Hitler - fez Rudy.
        -        Heil Hitler - ela respondeu, empertigando-se mais, atrs do balco. - E voc? - disse, lanando um olhar furioso para Liesel, que lhe ofereceu prontamente
seu "heil Hitler".
        Rudy no demorou a tirar a moeda do bolso e coloc-la com firmeza no balco. Olhou diretamente para os olhos de Frau Diller, cobertos pelos culos, e disse:
        -        Balas mistas, por favor.
        Frau Diller sorriu. Seus dentes se acotovelavam para arranjar espao na boca, e sua gentileza inesperada fez com que Rudy e Liesel tambm sorrissem. Por
pouco tempo. Ela se inclinou, procurou alguma coisa e reergueu o corpo.
        -        Pronto - disse, jogando uma nica bala no balco. - Misture voc.
        Do lado de fora, eles a desembrulharam e tentaram parti-la ao meio com os dentes, mas o acar estava duro feito vidro. Duro demais, at para as presas animalescas
de Rudy. Em vez disso, tiveram que alternar chupadelas at a bala acabar. Dez chupadelas para Rudy. Dez para Liesel. Para l e para c.
        -        Isso  que  boa vida - anunciou Rudy, a horas tantas, com um sorriso de apreciador de doces - e Liesel no discordou. Quando terminaram, os dois
tinham um tom vermelho exagerado na boca e, ao caminharem para casa, lembraram um ao outro de ficar de olho aberto, para o caso de acharem mais uma moeda.
        Naturalmente, no acharam nada. No se pode ter uma sorte dessas duas vezes num ano, que dir numa nica tarde.
        Mesmo assim, de lnguas e dentes vermelhos, os dois desceram a Rua Himmel, vasculhando alegremente o cho na passagem.
        Tinha sido um dia genial, e a Alemanha nazista era um lugar maravilhoso.

        O LUTADOR, CONTINUAO
        Agora vamos adiante, at uma luta numa noite fria. Deixaremos que a roubadora de livros nos alcance depois.
        Era dia 3 de novembro, e o piso do trem grudava-se a seus ps. Segurando o livro diante d rosto, ele lia o exemplar de Mein Kampf. Seu salvador. O suor
lhe brotava das mos. As marcas dos dedos agarravam o livro.
 A PRODUTORA ROUBADORA DE LIVROS 
apresenta oficialmente
Mein Kampf
(Minha luta)
de Adolf Hitler
        Atrs de Max Vandenburg, a cidade de Stuttgart abria os braos, zombeteira.
        O rapaz no era bem-vindo nela e procurou no olhar para trs enquanto o po dormido se desintegrava em seu estmago. Em alguns momentos, tornou a mudar
de posio e viu as luzes se transformarem num simples punhado, depois desaparecerem por completo.
        - Assuma um ar orgulhoso, aconselhou-se. Voc no pode parecer amedrontado. Leia o livro. Sorria para ele.  um grande livro - o melhor que voc j leu.
Ignore a mulher do outro lado. Ela est dormindo; de qualquer modo. Vamos, Max, faltam apenas algumas horas.
        Como se constatou, a nova visita prometida ao quarto das trevas no tinha levado dias, mas uma semana e meia. Depois, outra semana at a seguinte, e mais
outra, at ele perder toda a noo da passagem dos dias e das horas. Max fora deslocado mais uma vez, para outro pequeno depsito em que houvera mais luz, mais visitas
e mais comida. O tempo, entretanto, ia-se esgotando.
        -        Logo estarei de partida - disse seu amigo Walter Kugler. - Sabe como , o exercito.
        -        Sinto muito, Walter.
        Walter Kugler, amigo de infncia de Max, ps a mo no ombro do judeu.
        -        Podia ser pior - e olhou o amigo nos olhos judaicos. - Podia ser voc.
        Era o ltimo encontro dos dois. Um derradeiro pacote foi deixado num canto e, dessa vez, havia um bilhete. Walter abriu o Mein Kampf e o enfiou l dentro,
junto com o mapa que ele mesmo trouxera com o livro.
        -        Pgina treze - sorriu.- Para dar sorte, sim?
        -        Para dar sorte - e os dois se abraaram.
        Quando a porta se fechou, Max abriu o livro e examinou o bilhete. Stuttgart-Munique-Pasing. Partiria em dois dias,  noite, bem a tempo de fazer a ltima
conexo. De l, seguiria a p. O mapa j estava em sua cabea, dobrado em quatro. A chave continuava presa com fita adesiva  parte interna da capa.
        Max passou meia hora sentado, antes de andar at a mala e abri-la. Afora a comida, havia alguns outros objetos l dentro.
 O CONTEDO ADICIONAL DO 
PRESENTE DE WALTER KUGLER
Uma lmina pequena,
Uma colher - o que havia de mais prximo de um espelho.
Creme de barbear.
Uma tesoura.
        Quando Max o deixou, o depsito estava vazio, a no ser pelo cho.
        -        Adeus - murmurou.
        A ltima coisa que viu foi o montinho de cabelo, descuidadamente encostado na parede.
        Adeus.
        Com o rosto escanhoado e o cabelo meio torto, mas bem penteado, ele saiu do prdio como um novo homem. Na verdade, saiu alemo. Espere um minuto, ele era
alemo. Ou, melhor dizendo, tinha sido.
        No estmago havia uma combinao eltrica de comida e nusea,
        Dirigiu-se  estao,
         Mostrou o bilhete e a carteira de identidade, e agora estava sentado numa pequena cabine do trem, diretamente sob o refletor do perigo.
        - Documentos.
        Era o que ele temia ouvir.
        J fora ruim o bastante ao parar na plataforma. Ele sabia que no suportaria aquilo duas vezes.
        As mos trmulas.
        O cheiro - no, o fedor - da culpa.
        Simplesmente no o suportaria de novo.
        Por sorte, eles passaram cedo e s pediram o bilhete, e agora restavam apenas uma janela de cidadezinhas, os aglomerados de luz e a mulher que roncava no
outro banco da cabine.
        Durante a maior parte da viagem, ele avanou pelo livro, procurando nunca erguer os olhos.
        As palavras refestelavam-se em sua boca,  medida que as lia.
        Estranhamente, ao virar as pginas e progredir na leitura dos captulos, foram s duas as palavras que Max provou.
        Mein Kampf, Minha luta...
        O ttulo, que se repetia sem parar enquanto o trem balbuciava adiante, de uma cidade alem para outra.
        Mein Kampf.
        Justo essa, de todas as coisas que poderiam salv-lo.

        TRAPACEIROS
        Voc poderia dizer que as coisas foram fceis para Liesel Meminger. E foram mesmo, em comparao com Max Vandenburg.  claro, o irmo praticamente morrera
em seus braos. A me a havia abandonado. Mas qualquer coisa era melhor do que ser judeu.
        No perodo que antecedeu a chegada de Max, perdeu-se mais um fregus da lavagem de roupas, dessa vez os Weingartner. O Schimpferei, o xingamento obrigatrio,
ocorreu na cozinha, e Liesel se acalmou com o fato de ainda restarem dois e, melhor ainda, de um deles ser o prefeito, a mulher, os livros.
        Quanto s demais atividades de Liesel, ela continuava a fazer estragos com Rudy Steiner. Eu sugeriria at que os dois estavam aprimorando suas travessuras.
        Fizeram mais umas sadas com Arthur Berg e seus amigos, ansiosos por provar seu valor e ampliar seu repertrio de furtos. Tiraram batatas de uma fazenda
e cebolas de outra. Sua maior vitria, porm, eles obtiveram sozinhos.
        Como j foi testemunhado, uma das vantagens de andar pela cidade era a perspectiva de achar coisas no cho. Outra era observar pessoas, ou, mais importante,
as mesmas pessoas, fazendo coisas idnticas, semana aps semana.
        Um garoto da escola, Otto Sturm, era uma dessas pessoas. Toda sexta-feira,  tarde, ele ia de bicicleta at a igreja, levando mantimentos para os padres.
        Durante um ms os dois o observaram, enquanto o bom tempo ia ficando ruim, e Rudy, em particular, tinha resolvido que, numa sexta-feira, numa semana anormalmente
fria de outubro, Otto no chegaria a seu destino.
        -        Aqueles padres todos - explicou Rudy, enquanto andavam pela cidade.
        - Esto todos muito gordos, de qualquer jeito. Podem ficar sem comida por uma semana, ou coisa assim.
        Liesel s podia concordar. Para comear, no era catlica. Segundo, ela mesma andava com muita fome. Como sempre, estava carregando a roupa. Rudy levava
dois baldes de gua fria, ou, como disse, dois baldes de gelo futuro.
        Pouco antes das duas horas, ele se dedicou ao trabalho.
        Sem a menor hesitao, derramou a gua na rua, no ponto exato em que Otto pedalaria ao dobrar a esquina.
        Liesel teve que admitir.
        No comeo, houve uma parcelinha de culpa, mas o plano era perfeito, ou, pelo menos, to prximo da perfeio quanto possvel. Pouco depois das duas horas,
toda sexta-feira, Otto Sturm virava na Rua Munique com os mantimentos na cesta da frente, presa ao guidom. Nessa sexta-feira especfica, seria s a esse ponto que
ele chegaria.
        A rua j estava mesmo gelada, mas Rudy ps a camada extra, mal conseguindo conter o sorriso. Ele lhe atravessava o rosto feito um patim.
        -        Vamos para aquela moita ali - disse.
        Passados aproximadamente quinze minutos, o plano diablico deu frutos, por assim dizer.
        Rudy apontou o dedo para uma abertura na moita:
        -        L vem ele.
        Otto dobrou a esquina, bobo feito um carneiro.
        No demorou a perder o controle da bicicleta, derrapando no gelo e caindo de cara no cho.
        Quando no se mexeu, Rudy olhou para Liesel, assustado.
        -        Jesus crucificado - disse -, acho que  capaz de a gente ter matado ele! Esgueirou-se para fora da moita, pegou a cesta e os dois partiram em fuga.
        -        Ele estava respirando? - perguntou Liesel, mais adiante na rua.
        -        Keine Ahnung - respondeu Rudy, agarrado  cesta. No fazia idia.
        De longe, ladeira abaixo, os dois viram Otto levantar-se, coar a cabea, coar a virilha e procurar a cesta em toda parte.
        - Scheisskopf idiota - riu Rudy, e ambos examinaram o butim. Po, ovos quebrados e o melhor de tudo, Speck. Rudy levou o presunto gorduroso ao nariz e inalou
o perfume glorioso. - Beleza!
        Por maior que fosse a tentao de guardar a vitria para si, eles foram dominados pelo sentimento de lealdade a Arthur Berg. Andaram at suas acomodaes
miserveis na Kempf Strasse e lhe mostraram os mantimentos. Arthur mal pde conter a aprovao.
        - De quem vocs roubaram isso?
        Foi Rudy quem respondeu:
        -        De Otto Sturm.
        -        Bem - fez Arthur, balanando a cabea - seja ele quem for, tem minha gratido.
        Entrou e voltou com uma faca de po, uma frigideira e um palet, e os trs ladres andaram pelo corredor de apartamentos.
        -        Vamos chamar os outros - declarou Arthur Berg, ao chegarem do lado de fora. - Podemos ser criminosos, mas no somos totalmente imorais.
        Assim como a menina que roubava livros, pelo menos ele traava um limite em ALGUM lugar.
        Bateram em mais algumas portas. Nomes foram chamados da rua para os apartamentos e, em pouco tempo, todo o conglomerado do bando de ladres de frutas de
Arthur Berg ps-se a caminho do Amper. Na clareira do lado oposto, acendeu-se uma fogueira e o que restara dos ovos foi resgatado e frito. O po e o Speck foram
cortados. Com mos e facas, toda a entrega de Otto Sturm foi devorada at o ltimo pedao. Nenhum padre  vista.
        S no fim  que surgiu uma discusso, concernente  cesta. A maioria da garotada queria queim-la. Fritz Hammer e Andy Schmeikl queriam guard-la, mas Arthur
Berg, mostrando sua incongruente aptido moral, teve uma idia melhor.
        -        Vocs dois - disse a Rudy e Liesel. - Talvez vocs devam lev-la de volta para o tal de Sturm. Eu diria que o pobre coitado provavelmente o merece.
        -        Ora, vamos, Arthur.
        -        No quero saber, Andy.
        -        Cristo!
        -        Ele tambm no quer saber.
        O grupo riu e Rudy Steiner pegou a cesta.
        -        Vou levar de volta e penduro na caixa do correio deles.
        S tinha andado uns vinte metros quando a menina o alcanou. Chegaria em casa tarde demais para o que lhe convinha, mas estava perfeitamente cnscia de que
tinha que acompanhar Rudy Steiner pela cidade, at a fazenda de Sturm, l do outro lado.
        Durante muito tempo, os dois caminharam em silncio.
        - Voc se sentiu mal? - acabou perguntando Liesel. J estavam no trajeto de casa.
        - Com qu?
        - Voc sabe.
        -  claro que sim, mas no estou mais com fome, e aposto que ele tambm no est com fome. No pense nem por um segundo que os padres ganhariam comida, se
eles no tivessem o suficiente em casa.
        -         s que ele bateu no cho com muita fora.

        -        Nem me lembre.
        Mas Rudy Steiner no pde resistir a um sorriso. Em anos vindouros, ele seria um doador de po, no um ladro - mais uma prova de como o ser humano  contraditrio.
Um punhado de bem, um punhado de mal. E s misturar com gua.
        Cinco dias depois da pequena vitria agridoce, Arthur Berg tornou a aparecer e os convidou para seu projeto seguinte de furto. Os dois esbarraram nele na
Rua Munique, ao voltarem da escola numa quarta-feira. Arthur j estava de uniforme da Juventude Hitlerista.
        -        Vamos de novo amanh  tarde. Esto interessados? Eles no conseguiam evitar.
        -        Onde?
        -        Ao lugar das batatas.
        Vinte e quatro horas depois, Liesel e Rudy enfrentaram mais uma vez a cerca de arame farpado e encheram o saco de aniagem.
        O problema surgiu quando iam fugindo.
        - Nossa! - gritou Arthur. - O fazendeiro!
        Porm o que mais assustou foi sua palavra seguinte. Arthur a gritou como se ela j o tivesse atacado. Sua boca escancarou-se. A palavra saiu voando, e a
palavra era machado.
        E com certeza, quando eles viraram para trs, o fazendeiro vinha correndo em sua direo, erguendo a arma acima da cabea.
        O grupo todo correu para a cerca e a pulou. Rudy, o que estava mais longe, alcanou-os depressa, mas no depressa o bastante para deixar de ser o ltimo.
Quando levantou a perna, ficou preso.
        - Ei!
        O som dos enrascados.
        O grupo parou.
        Instintivamente, Liesel voltou correndo.
        -        Depressa! - gritou Arthur. Sua voz estava muito longe, como se ele a houvesse engolido antes de ela lhe sair da boca.
        Cu branco. Os outros correram.
        Liesel chegou e comeou a puxar o tecido das calas de Rudy. Ele tinha os olhos arregalados de medo.
        -        Depressa - disse - ele est vindo.
        Ao longe, os dois ainda ouviam os ps em fuga, quando uma outra mo agarrou o arame e o arrancou das calas de Rudy Steiner. Ficou um pedao no n metlico.
        - Agora, mexam-se - recomendou Arthur, no muito antes de o fazendeiro chegar, xingando e lutando para recobrar o flego. O machado pendia com fora nesse
momento, junto a sua perna, E o homem gritou as palavras inteis dos roubados:
        -        Vou mandar prender vocs! Eu os encontro! Vou descobrir quem vocs so!
        Foi nessa hora que Arthur Berg respondeu.
        -        O nome  Owens! - e saiu andando a passos largos, at alcanar Liesel e Rudy. - Jesse Owens!
        Ao chegarem a um local seguro, lutando para inalar o ar e lev-lo aos pulmes, os dois se sentaram e Arthur Berg se aproximou. Rudy no queria olhar para
ele.
        -        J aconteceu com todos ns - disse Arthur, intuindo a decepo.
        Estaria mentindo? Eles no podiam ter certeza, e nunca descobririam.
        Semanas depois, Arthur Berg mudou-se para Colnia.
        Os dois o viram mais uma vez, numa das rondas de Liesel para entregar a roupa. Numa viela que saa da Rua Munique, o rapazinho entregou a Liesel um saco
de papel pardo com uma dzia de castanhas. Deu um riso maroto:
        -        Um contato na indstria de torrefao.
        Depois de inform-los de sua partida, conseguiu oferecer um ltimo sorriso espinhento e dar um tapinha na testa de cada um.
        -        Tratem de no comer esses troos todos de uma vez - e os dois nunca mais viram Arthur Berg.
        Quanto a mim, posso lhe dizer que definitivamente o vi.

 UM PEQUENO TRIBUTO A ARTHUR BERG 
AINDA VIVO
O cu de Colnia estava amarelo e ptrido,
descascando nas bordas.
Ele se sentou, encostado numa parede, com
uma criana no colo. Sua irm.
Quando a menina parou de respirar, ele ficou a seu lado,
e senti que a seguraria durante horas.
Havia duas mas roubadas em seu bolso.

        Dessa vez, eles foram mais espertos. Cada um comeu uma castanha, depois venderam o resto de porta em porta.
        -        Se a senhora puder dispensar uns fnigues - dizia Liesel em cada casa -, eu tenho castanhas.
        Acabaram com dezesseis moedas.
        -        E agora - sorriu Rudy - a vingana.
         -        Balas mistas de novo? - schmunzelou a mulher, ao que os dois fizeram que sim. O dinheiro espalhou-se sobre o balco, e o sorriso de Frau Diller
ficou ligeiramente boquiaberto.
        -        Sim, Frau Diller - disseram em unssono. - Balas mistas, por favor.
        O Fhrer emoldurado olhou-os com orgulho.
        A vitria antes da tempestade.

        O LUTADOR, CONCLUSO
        Agora os malabarismos chegam ao fim, mas no a luta. Tenho Liesel Meminger numa das mos e Max Vandenburg na outra. Daqui a pouco, baterei palmas com eles.
E s me dar umas pginas.
        O lutador:
        Se o matassem nessa noite, pelo menos ele morreria vivo.
        A viagem de trem j ia muito longe, e a roncadora provavelmente se encolhia no vago que transformara em sua cama, seguindo viagem. Agora s havia passos
entre Max e a sobrevivncia. Passos e pensamentos, e dvidas.
        Ele seguiu o mapa que levava na cabea, de Pasing a Molching. Era tarde quando avistou a cidade. Suas pernas doam terrivelmente, mas ele estava quase l
- o lugar mais perigoso para estar. To perto que seria possvel toc-lo.
        Tal como lhe fora descrita, ele encontrou a Rua Munique e seguiu pela calada.
        Tudo se enrijeceu.
        Poas reluzentes dos postes de iluminao.
        Prdios escuros, passivos.
        O edifcio da prefeitura erguia-se como um jovem gigantesco e sem graa, grande demais para a idade. A igreja desaparecia na escurido, quanto mais os olhos
subiam pela torre.
        Tudo o vigiava.
        Max estremeceu,
        Avisou a si mesmo:
        - Fique de olhos abertos.
        (Havia crianas alems  procura de moedas perdidas. Os judeus alemes atentavam para a possvel captura.)
        Em consonncia com o uso do treze para dar sorte, Max contou os passos em grupos desse nmero. S treze passos, dizia a si mesmo. Vamos, s mais treze. Numa
estimativa, completou noventa conjuntos, at parar na esquina da Rua Himmel.
        Numa das mos segurava a mala.
        A outra continuava segurando Mein Kampf.
        Os dois eram pesados, e ambos eram manejados com uma delicada secreo de suor.
        Max entrou na minha, dirigindo-se ao nmero 33 e resistindo  nsia de sorrir, resistindo  nsia de soluar, ou at de imaginar a segurana que talvez o
aguardasse. Lembrou a si mesmo que no era hora de esperana. Sem dvida, quase podia toc-la. Podia senti-la em algum lugar, ligeiramente fora do alcance. Em vez
de reconhec-la, tratou de decidir mais uma vez o que faria, se fosse apanhado no ltimo instante, ou se, por mero acaso, a pessoa errada o esperasse l dentro.
        E claro, havia tambm a sensao pruriente de pecado.
        Como podia fazer uma coisa dessas?
        Como podia aparecer e pedir a pessoas que arriscassem suas vidas por ele? Como podia ser to egosta?
        Trinta e trs. Entreolharam-se.
          
        A casa era plida, de aparncia quase doentia, com um porto de ferro e uma porta marrom, manchada de cuspe.
        Do bolso ele tirou a chave. Que no reluziu, mas ficou em sua mo, opaca e, frouxa. Por um instante, Max a apertou, como que esperando v-la vazar para seu
pulso. No vazou. O metal era duro e plano, com um conjunto saudvel de dentes, e ele o apertou at que lhe perfurasse a mo.
        E ento, devagar, o lutador inclinou-se, encostou o rosto na madeira e tirou a chave do punho cerrado.

     PARTE QUATRO
        O VIGIADOR
        APRESENTANDO:
        o acordeonista
        um cumpridor de promessas
        uma boa menina
        um lutador judeu
        a ira de rosa
        uma preleo
        um dorminhoco
        a troca de pesadelos
        e algumas pginas do poro

        O ACORDEONISTA
        (A vida secreta de Hans Hubermann)
        Havia um rapaz parado na cozinha. A chave em sua mo parecia enferrujar-se em sua palma. Ele no disse nada parecido com ol, nem por favor, me ajude, nem
qualquer outra dessas frases esperveis. Fez duas perguntas.

 PERGUNTA UM 
Hans Hubermann?
 PERGUNTA DOIS 
O senhor ainda toca acordeo?
        Enquanto o rapaz olhava, constrangido, para a forma humana  sua frente, sua voz foi raspada e entregue na escurido, como se fosse tudo que restava dele.
        O pai, atento e consternado, aproximou-se mais.
        Dirigindo-se  cozinha, murmurou:
        -  claro que sim.
        Tudo remontava a muitos anos antes,  Primeira Guerra Mundial.
        So estranhas essas guerras.
        Cheias de sangue e violncia - mas tambm cheias de histrias igualmente difceis de esquadrinhar. " verdade", murmuram as pessoas. "No me importa se voc
no acreditar. Foi aquela raposa que me salvou a vida", ou, ento, "Eles dois morreram, um de cada lado de mim, e fiquei l de p, o nico que no levou um tiro
entre os olhos. Por que eu? Por que eu e no eles?".
        A histria de Hans Hubermann era desse tipo. Quando a achei, nas palavras da menina que roubava livros, percebi que ele e eu j nos tnhamos cruzado, aqui
e ali, durante aquele perodo, embora nenhum de ns houvesse marcado um encontro. Pessoalmente, eu tinha muito trabalho a fazer. Quanto a Hans, acho que ele fazia
todo o possvel para me evitar.
        A primeira vez que estivemos nas imediaes um do outro, Hans tinha vinte e dois anos e combatia na Frana. A maioria dos rapazes de seu peloto estava ansiosa
por lutar. Hans no tinha tanta certeza. Eu tinha levado alguns deles pelo caminho, mas pode-se dizer que nunca chegara nem perto de encostar em Hans Hubermann.
Ou ele tinha muita sorte, ou merecia viver, ou havia uma boa razo para que vivesse.
        No exrcito, ele no se destacava num extremo nem no outro. Corria medianamente, escalava medianamente e era capaz de atirar com pontaria suficiente para
no afrontar seus superiores. E no se destacava o bastante para ser um dos primeiros escolhidos a correr direto para mim.


 UMA OBSERVAO PEQUENA 
PORM DIGNA DE NOTA
Ao longo dos anos,
vi inmeros rapazes que pensam
estar correndo para outros rapazes.
No esto.
Eles correm para mim.
        Fazia quase seis meses que ele estava na guerra quando foi parar na Frana, onde,  primeira vista, um estranho acontecimento salvou sua vida. Outra perspectiva
sugeriria que, no contra-senso da guerra, aquilo fez perfeito sentido.
        Grosso modo, seu perodo na Grande Guerra o deixara atnito, desde o momento em que entrara no exrcito. Parecia um seriado. Dia aps dia aps dia. Aps
dia.
        A conversa dos projteis.
        Homens descansando.
        As melhores piadas obscenas do mundo.
        Suor frio - o amiguinho maligno - ultrapassando os limites da hospitalidade, nas axilas e nas calas.
        O que ele mais gostava era dos jogos de baralho, seguidos pelas poucas partidas de xadrez, embora fosse absolutamente ridculo em todos. E da msica. Sempre
a msica.
        Foi um homem um ano mais velho que ele - um judeu alemo chamado Erik Vandenburg - quem lhe ensinou a tocar acordeo. Aos poucos, os dois tornaram-se amigos,
graas ao fato de que nenhum deles estava terrivelmente interessado em combater. Preferiam enrolar cigarros a se enrolar na neve e na lama. Preferiam lanar dados
a lanar projteis. Uma slida amizade alicerou-se no jogo, no fumo e na msica, para no falar no desejo comum de sobrevivncia. O nico problema foi que, mais
tarde, Erik Vandenburg seria encontrado em vrios pedaos numa colina cheia de relva. Tinha os olhos abertos e sua aliana de casamento fora roubada. Recolhi sua
alma junto com as outras e fomos embora. O horizonte estava cor de leite. Frio e fresco. Derramado entre os corpos.
        Tudo que restou de Erik Vandenburg, na verdade, foram alguns objetos pessoais e o acordeo muito manuseado. Tudo, menos o instrumento, foi mandado para sua
casa. O acordeo foi considerado grande demais. Quase com autocensura, ficou parado na cama improvisada do dono, no acampamento da base, e foi dado ao amigo dele,
Hans Hubermann, que alis foi o nico a sobreviver.

 ELE SOBREVIVEU ASSIM 
No entrou em combate nesse dia.

        E tinha que agradecer a Erik Vandenburg por isso. Ou, para ser mais exata, a Erik Vandenburg e  escova de dentes do sargento.
        Naquela manh em particular, no muito antes de eles sarem, o sargento Stephan Schneider entrou no dormitrio e ps todos em posio de sentido. Era benquisto
entre os soldados, por seu senso de humor e pelas peas que pregava, mas principalmente pelo fato de nunca ir atrs de ningum para a linha de fogo. Sempre ia na
frente.
        Em certos dias, ele tendia a entrar no cmodo em que os homens descansavam e dizer alguma coisa do tipo "Quem  de Pasing?", ou "Quem  bom em matemtica?",
ou ento, no caso fatdico de Hans Hubermann, "Quem tem a letra bonita?".
        Ningum jamais se oferecia como voluntrio, no depois da primeira vez em que o sargento fez isso. Nesse dia, um jovem soldado ansioso, de nome Philipp Schlink,
levantou-se orgulhosamente e disse:
        -        Sim, senhor, eu sou de Pasing.
        Recebeu na mesma hora uma escova de dentes e a ordem de limpar as latrinas.
        Quando o sargento perguntou quem tinha a melhor caligrafia, voc com certeza h de entender porque ningum fez questo de se apresentar. Cada um achou que
poderia ser o primeiro a receber uma inspeo higinica completa, ou a lustrar as bolas sujas de coc de um tenente excntrico, antes de sair.
        -        Ora, vamos - Schneider brincou. Achatado de leo, seu cabelo brilhava, embora uma pequena mecha ficasse sempre em p e vigilante no cocuruto. -
Pelo menos um de vocs, seus cretinos inteis, deve saber escrever direito.
         distncia, ouvia-se o tiroteio. Aquilo desencadeou uma reao.
        -        Olhem - disse Schneider - desta vez no  como nas outras. Levar a manh inteira, talvez mais - e no pde resistir a um sorriso. - O Schlink ficou
polindo aquela latrina enquanto o resto de vocs jogava cartas, mas, desta vez, vocs estaro l fora.
        A vida ou o orgulho.
        Ele claramente esperava que um de seus homens tivesse a inteligncia de escolher a vida.
        Erik Vandenburg e Hans Hubermann se entreolharam. Se algum desse um passo  frente naquele momento, o peloto lhe transformaria a vida num inferno pelo
resto do tempo que passassem juntos. Ningum gosta de covardes. Por outro lado, se algum fosse indicado...
        Nada ainda de voluntrios, mas uma voz saiu agachada e se encaminhou a furta-passo para o sargento. Sentou-se a seus ps,  espera de um bom chute. A voz
disse:
        -        Hubermann, senhor.
        A voz pertencia a Erik Vandenburg. Obviamente, ele achou que esse dia no era o momento apropriado para seu amigo morrer.
        O sargento andou de um lado para outro pelo corredor entre os soldados,
        -        Quem disse isso?
        Era soberbo para andar, esse Stephan Schneider - um homem mido, que falava, se deslocava e agia s pressas. Enquanto ele percorria as duas fileiras, para
l e para c, Hans observou,  espera da notcia. Talvez uma das enfermeiras estivesse doente e eles precisassem de algum para cortar e substituir ataduras nos
membros infeccionados dos soldados feridos. Talvez fosse preciso lamber e selar mil envelopes, e mand-los para casa com notcias de falecimento.
        Nesse momento, a voz se manifestou de novo, levando algumas outras a se fazerem ouvir.
        -        Hubermann - disseram em eco. Erik chegou at a dizer: - Uma caligrafia impecvel, senhor, impecvel.
        -        Ento, est resolvido - disse o sargento. Houve um sorriso circular na boca pequena. -- Hubermann,  voc.
        O soldado jovem e desengonado deu um passo  frente e perguntou qual seria sua tarefa.
        O sargento suspirou.
        -        O capito precisa que umas doze cartas sejam escritas por ele. Est com um reumatismo terrvel nos dedos. Ou artrite. Voc as escrever para ele.
        No era hora de discutir, principalmente quando Schlink tivera ordens de limpar as privadas e o outro, Pflegger, quase se matara de tanto lamber envelopes.
Sua lngua ficara azul-infeco.
         - Sim, senhor - assentiu Hans, e acabou-se a histria. Sua capacidade de redao era dbia, para dizer o mnimo, mas ele se considerou afortunado. Escreveu
as cartas o melhor que pde, enquanto o resto dos homens entrava em combate. Nenhum deles voltou.
        Essa foi a primeira vez que Hans escapou de mim. Na Grande Guerra.
        Uma segunda fuga ainda estava por vir, em 1943, em Essen.
        Duas guerras para duas fugas.
        Uma vez jovem, outra na meia-idade.
        No so muitos os homens que tm a sorte de me tapear duas vezes.
        Ele carregou consigo o acordeo durante toda a guerra.
        Quando localizou a famlia de Erik Vandenburg em Stuttgart, ao regressar, a viva lhe informou que ele podia ficar com o instrumento. Seu apartamento estava
cheio deles, e a mulher ficava perturbada demais ao olhar especificamente para aquele. Os outros j eram um lembrete suficiente, assim como sua profisso, antes
compartilhada com o marido, de ensin-lo.
        - Ele me ensinou a tocar - informou-lhe Hans, como se isso ajudasse.
        Talvez tenha ajudado, porque a mulher arrasada perguntou se ele tocaria para ele, e chorou em silncio enquanto Hans apertava os botes e as teclas de uma
desabalada "Valsa do Danbio Azul". Era a favorita de seu marido.
        - Sabe - explicou-lhe Hans -, ele salvou minha vida.
        A luz do cmodo era fraca e o ar, restrito.
        - Ele... se algum dia houver alguma coisa de que a senhora precise... - e fez deslizar pela mesa um pedao de papel com seu nome e endereo. - Sou pintor
profissional. Pinto o seu apartamento de graa, quando a senhora quiser.
        Sabia que era uma compensao intil, mas ofereceu, assim mesmo.
        A mulher pegou o papel e, no muito depois, um garotinho entrou e se sentou em seu colo.
        -        Este  o Max - fez ela, mas o menino era pequeno e tmido demais para dizer alguma coisa. Era magrelo, de cabelo macio, e seus olhos densos e escuros
observaram enquanto o estranho tocava mais uma cano na sala pesada. De um rosto para outro, ficou olhando enquanto o homem tocava e a mulher chorava. As diferentes
notas mexiam com os olhos dela. Muita tristeza.
        Hans se foi.
        -        Voc nunca me contou - censurou ele, dirigindo-se a um Erik Vandenburg morto e  silhueta dos prdios de Stuttgart. - Nunca me disse que tinha um
filho.
        Depois de uma parada momentnea, com a cabea abalada, Hans regressou a Munique, esperando nunca mais ouvir falar daquelas pessoas. O que no sabia  que
sua ajuda seria definitivamente necessria, mas no pela pintura, e no por mais uns vinte anos.
         Passaram-se algumas semanas antes de ele comear a pintar. Nos meses de bom tempo, trabalhava com vigor e, mesmo no inverno, muitas vezes dizia a Rosa que
talvez no chovesse trabalho, mas pelo menos haveria uma garoa de vez em quando.
        Durante mais de uma dcada, tudo funcionou.
        Nasceram Hans Jnior e Trudy. Que cresceram fazendo visitas ao pai no trabalho, jogando tinta nas paredes e limpando pincis.
        Quando Hitler chegou ao poder, no entanto, em 1933, o trabalho de pintura deu ligeiramente errado. Hans no se filiou ao NSDAP, como fez a maioria das pessoas.
Pensou muito nessa deciso.

 O PROCESSO DE RACIOCNIO 
DE HANS HUBERMANN
Ele no era muito instrudo nem politizado,
porm, que mais no fosse, era um homem
que apreciava a justia. Um judeu salvara sua
vida, uma vez, e ele no podia esquecer isso.
No podia filiar-se a um partido que antagonizava
as pessoas daquele jeito. Alm disso, tal como
Alex Steiner, alguns de seus fregueses mais fiis
eram judeus. Como muitos judeus acreditavam,
Hans achava que o dio no podia durar, e a
deciso de no seguir Hitler foi consciente.
Em muitos nveis, foi desastrosa.

        Uma vez iniciada a perseguio, seu trabalho esgotou-se aos poucos. No comeo no foi muito ruim, mas ele logo comeou a perder clientela. Punhados de pedidos
de oramento pareceram desaparecer no crescente ar nazista.
        Hans abordou um antigo cliente fiel, chamado Herbert Bollinger - um homem de cintura hemisfrica que falava Hochdeutsch (era de Hamburgo) -, ao v-lo na
Rua Munique. A princpio, o homem olhou para baixo, para o cho, passando pela barriga, mas, quando seus olhos voltaram ao pintor, a pergunta claramente o constrangeu.
No havia razo para Hans perguntar, mas ele perguntou.
        -        Que est havendo, Herbert? Tenho perdido fregueses mais depressa do que consigo contar.
        Bollinger no tornou a se encolher. Empertigando-se, exps o fato como uma Pergunta de sua prpria lavra.
        -        Bem, Hans, voc  membro?
        -        De qu?
        Mas Hans Hubermann sabia exatamente de que o homem estava falando.
        -        Ora, vamos, Hansi - insistiu Bollinger. - No me faa soletrar.
        O pintor alto acenou-lhe um adeus e seguiu em frente.
         Com o correr dos anos, os judeus passaram a ser aleatoriamente aterrorizados en todo o pas e, na primavera de 1937, quase envergonhado, Hans Hubermann
final mente se submeteu. Fez umas indagaes e pediu para se filiar ao Partido.
        Depois de entregar seu formulrio na sede do Partido Nazista, na Rua Munique, Viu quatro homens atirarem vrios tijolos numa loja de roupas chamada Kleinmann.
Era uma das poucas lojas judaicas ainda em funcionamento em Molching. L dentro, um homem mido gaguejava de um lado para outro, esmagando vidro quebrado com os
ps enquanto fazia a limpeza. Havia uma estrela cor de mostarda borrada na porta. Com letra desleixada, as palavras IMUNDCIE JUDAICA escorriam pelas bordas. O movimento
no interior da loja minguou de apressado para melanclico, depois cessou por completo.
        Hans aproximou-se e enfiou a cabea do lado de dentro.
        - Precisa de ajuda?
        O Sr. Kleinmann ergueu os olhos. Uma vassoura prendia-se, impotente, a sua mo.
        - No, Hans. Por favor. V embora.
        Hans tinha pintado a casa de Joel Kleinmann no ano anterior. Lembrava-se de seus trs filhos. Via seus rostos, embora no conseguisse lembrar de seus nomes.
        - Eu venho amanh - insistiu - para repintar a sua porta.
        Dito e feito.
        Foi o segundo de dois erros.
        O primeiro ocorreu imediatamente aps o incidente.
        Ele retornou ao local de onde viera e deu um murro na porta e, em seguida, na Janela do NSDAP. A vidraa chacoalhou, mas ningum respondeu. Todos tinham
encerrado o expediente e ido para casa. Um ltimo membro andava na direo oposta. Quando ouviu o chacoalhar do vidro, notou o pintor.
        Voltou e perguntou qual era o problema.
        - No posso mais me filiar - declarou Hans.
        O homem ficou chocado.
        - Por que no?
        Hans olhou para os ns dos dedos da mo direita e engoliu em seco. J sentia o gosto do erro, como um comprimido de metal na boca.
        -        Deixe para l.
        Deu meia-volta e foi para casa. s palavras o seguiram.
        -        Pense nisso, Herr Hubermann. E nos informe a sua deciso.
        Ele fingiu no ter ouvido.
        Na manh seguinte, conforme o prometido, levantou-se mais cedo que de hbito. Mas no cedo o bastante. A porta da Roupas Kleinmann ainda estava mida de
orvalho. Hans secou-a. Conseguiu igualar a cor, tanto quanto era humanamente possvel, e lhe aplicou uma slida demo.
        Inocuamente, um homem passou.
        -        Heil Hitler - disse.
        -        Heil Hitler - respondeu Hans.

 TRS FATOS PEQUENOS 
MAS IMPORTANTES
1. O homem que passou era Rolf Fischer, um dos maiores nazistas de Molching.
2.        Uma nova afronta foi pintada na porta,
em menos de dezesseis horas.
3.        No se concedeu a Hans Hubermann a
filiao no Partido Nazista.
        Pelo menos, ainda no.
        Durante o ano seguinte, Hans teve sorte de no haver cancelado oficialmente seu pedido de filiao. Enquanto muitas pessoas eram instantaneamente aprovadas,
ele foi acrescentado a uma lista de espera, visto com desconfiana. No fim de 1938, quando os judeus foram completamente expulsos, depois da Noite dos Cristais,
a Gestapo fez-lhe uma visita. Revistou a casa e, quando no se encontrou nada nem ningum suspeito, Hans Hubermann foi um dos afortunados.
        Permitiram-lhe que ficasse.
        Provavelmente, o que o salvou foi que as pessoas sabiam que, pelo menos, ele estava  espera da aprovao de seu pedido. Por isso foi tolerado, embora no
endossado como o pintor competente que era.
        Depois, havia seu outro salvador.
        Foi o acordeo, muito provavelmente, que o salvou do ostracismo total. Pintores havia, provenientes de todas as partes de Munique, mas, depois dos breves
ensinamentos de Erik Vandenburg e de quase duas dcadas de sua prpria prtica sistemtica, no havia em Molching ningum capaz de tocar exatamente como Hans. No
era um estilo de perfeio, mas de calor humano. At nos erros havia uma sensao agradvel.
        Ele dizia "heil Hitler" quando lhe pediam e tremulava a bandeira nos dias certos. No havia nenhum problema visvel.
        Depois, no dia 16 de junho de 1939 (a data parecia cimento, quela altura), decorridos pouco mais de seis meses desde a chegada de Liesel  Rua Himmel, houve
um acontecimento que alterou irreversivelmente a vida de Hans Hubermann.
        Foi num dia em que ele teve trabalho.
        Saiu de casa s sete da manh, em ponto.
        Foi puxando sua carroa de tintas, sem se dar conta de estar sendo seguido.
        Quando chegou ao local da obra, um jovem estranho aproximou-se. Era louro, alto e srio.
        O par se entreolhou.
        -        O senhor seria Hans Hubermann?
        Hans deu-lhe um simples aceno de cabea. Procurava uma broxa.
        -        Sim, seria.
        -        O senhor por acaso toca acordeo?
        Dessa vez, Hans parou, deixando o pincel onde estava. Tornou a fazer um aceno. O estranho esfregou o queixo, olhou em volta e disse, com grande calma, porm
com toda a clareza:
        -        O senhor  um homem que goste de cumprir promessas?
        Hans pegou duas latas de tinta e o convidou a sentar numa delas. Antes de aceitar o convite, o rapaz lhe estendeu a mo e se apresentou.
        -        Meu nome  Kugler. Walter. Venho de Stuttgart.
        Sentaram-se e passaram uns quinze minutos conversando baixinho, combinando um encontro para mais tarde,  noite.


UMA BOA MENINA
        Em novembro de 1940, quando Max Vandenburg chegou  cozinha da Rua Himmel, nmero 33, tinha vinte e quatro anos. Sua roupa parecia verg-lo com o peso e
seu cansao era tamanho, que uma coceira poderia parti-lo ao meio. Ele parou no vo da porta, trmulo e abalado.
        -        O senhor ainda toca acordeo?
         claro que a pergunta, na verdade, era: - O senhor ainda est disposto a me ajudar?
        O pai de Liesel andou at a porta da frente e a abriu. Com cautela, olhou para fora, de um lado e do outro, e voltou. O veredicto foi "nada".
        Max Vandenburg, o judeu, fechou os olhos e se curvou um pouco mais para a segurana. A prpria idia era ridcula, mas ele a aceitou assim mesmo.
        Hans certificou-se de que as cortinas estavam bem fechadas. No poderia aparecer nem uma fresta. Enquanto ele o fazia, Max no agentou mais. Agachou-se
e cruzou as mos.
        A escurido o atingiu.
        Seus dedos cheiravam a mala, metal, Mein Kampf e sobrevivncia.
        S quando ergueu a cabea foi que a luz tnue do corredor chegou a seus olhos. Notou a menina de pijama, parada ali, em plena vista.
        -        Papai?
        Max levantou-se, como um fsforo riscado. A escurido inflou-se a seu redor.
        -        Est tudo bem, Liesel - disse o pai. - Volte para a cama.
         Quando parou e furtou uma ltima olhadela para o estranho na cozinha, decifrou o contorno de um livro sobre a mesa.
        - No tenha medo - ouviu o pai cochichar. - Ela  uma boa menina.
        Durante a hora seguinte, a boa menina ficou acordada na cama, escutando o gaguejar baixinho de frases na cozinha.
        Ainda faltava jogar um curinga.

        BREVE HISTRIA DO LUTADOR JUDEU
        Max Vandenburg nasceu em 1916.
        Cresceu em Stuttgart.
        Quando era garoto, passou a gostar, mais do que tudo, de uma boa troca de socos.
        Teve sua primeira briga quando era um menino de onze anos, e magro como um cabo de vassoura.
        Wenzel Gruber.
        Foi com esse que ele brigou.
        Tinha a boca suja, o tal garoto Gruber, e o cabelo encaracolado feito arame. O parquinho local exigiu que eles brigassem, e nenhum dos dois estava disposto
a discutir.
        Lutaram feito campees.
        Por um minuto.
        Justo quando ia ficando interessante, ambos foram afastados pelo colarinho. Um pai vigilante.
        Um filete de sangue pingava da boca de Max.
        Ele o provou, e o gosto era bom.
          
        No muita gente vinda do seu bairro era de briga e, quando era, no o fazia com os punhos. Naqueles tempos, diziam que os judeus preferiam simplesmente ficar
parados e agentar as coisas. Suportar calados as ofensas e, em seguida, trabalhar at voltar ao topo. Obviamente, nem todo judeu  igual.
        Ele tinha quase dois anos quando seu pai morreu, despedaado pelos tiros numa colina relvada.
        Quando chegou aos nove, sua me estava completamente falida. Ela vendeu o estdio musical que tambm lhes servia de apartamento, e os dois se mudaram para
a casa do tio. L ele cresceu com seis primos, que o surravam, chateavam e amavam. As brigas com o mais velho, Isaac, foram o campo de treinamento para suas lutas
de socos. Max levava uma esfrega quase todas as noites.
        Aos treze anos, a tragdia voltou a se abater, com a morte de seu tio.
        Como sugeririam as percentagens, o tio no era esquentado como Max. Era o tipo de pessoa que trabalhava em silncio, por uma recompensa muito pequena. Vivia
no seu canto e sacrificava tudo pela famlia - e morreu de uma coisa que lhe cresceu na barriga. Uma coisa parecida com uma bola de boliche envenenada.
        Como muitas vezes acontece, a famlia postou-se ao redor da cama e assistiu  sua capitulao.
        De alguma forma, entre a tristeza e o luto, Max Vandenburg, j ento um adolescente de mos duras, olhos escuros e dor de dente, tambm ficou meio decepcionado.
At desgostoso. Ao ver o tio afundar lentamente na cama, decidiu que nunca se permitiria morrer daquele jeito.
        O rosto do homem era resignado demais.
        Muito amarelo e tranqilo, apesar da arquitetura violenta de seu crnio - do queixo interminvel, que se estendia por milhas, das mas do rosto protuberantes
e dos olhos encovados. To sereno, que deu no menino a vontade de perguntar uma coisa.
        - Cad a briga?, matutou.
        - Cad a vontade de persistir?
         claro que, aos treze anos, ele era meio exagerado em seu rigor. No tinha ficado cara a cara com uma coisa como eu. Ainda no.
        Junto com os outros, ficou em volta da cama e viu o homem morrer - uma fuso sem riscos entre a vida e a morte. A luz na janela era cinza e laranja, da cor
da pele do vero, e seu tio pareceu aliviado quando sua respirao desapareceu por completo.
        - Quando a morte me pegar - jurou o menino -, vai sentir meu punho na cara.
        Pessoalmente, gosto disso. Desse herosmo idiota.
        .
        Gosto muito disso.
        Daquele momento em diante, ele comeou a lutar com mais regularidade. Um grupo de amigos e inimigos fanticos juntava-se num terreninho baldio da Rua Steber
e lutava ao cair da noite. Alemes arquetpicos, o judeu inusitado, os garotos da zona leste. No tinha importncia. No havia nada como uma boa briga para soltar
n energia adolescente. At os inimigos ficavam a um centmetro da amizade.
        Ele gostava dos crculos compactos e do desconhecido.
        Da agridoura da incerteza.
        De ganhar ou perder.
        Era uma sensao na barriga, que se agitava at ele achar que no podia mais toler-la. O nico remdio era dar um passo  frente e soltar murros. Max no
era o tipo de menino dado a morrer pensando no assunto.
          
        Sua briga favorita, agora que pensava nisso, fora a Luta Nmero Cinco, contra um garoto alto, duro e esguio, chamado Walter Kugler. Os dois tinham quinze
anos. Walter vencera todos os quatro embates anteriores, mas, dessa vez, Max sentia uma coisa diferente. Havia nele um sangue novo - o sangue da vitria - que tinha
a capacidade de assustar e empolgar.
        Como sempre, havia um crculo compacto ao redor deles. Havia o terreno sujo. Havia sorrisos, praticamente amarrados nos rostos dos espectadores. O dinheiro
era segurado em dedos imundos, e os gritos e exclamaes eram cheios de tamanha vitalidade, que no havia nada melhor do que aquilo.
        Nossa, era tanta alegria e medo ali, tanta comoo brilhante!
        Os dois contendores agarraram-se com a intensidade do momento, os rostos carregados de expresso, exagerada pela tenso da coisa. Aquela concentrao de
olhos arregalados.
        Depois de mais ou menos um minuto testando um ao outro, comearam a se aproximar e a se arriscar mais. Afinal, era uma briga de rua, no uma luta de uma
hora pelo ttulo. Eles no tinham o dia inteiro.
        - Anda, Max! - gritou um de seus amigos. No houve respirao entre as palavras. - Anda, Mxi Txi, agora voc pegou ele, voc pegou ele, judeuzinho, voc
pegou ele, pegou ele!
        Mido, com mechas macias de cabelo, nariz quebrado e olhos alagadios, Max era uma boa cabea menor do que o adversrio. Seu estilo de combate era sumamente
desgracioso, todo recurvado, avanando aos bocadinhos, desferindo socos rpidos no rosto de Kugler. O outro menino, claramente mais forte e mais habilidoso, mantinha-se
erecto, lanando jabes que desciam constantemente sobre as faces e o queixo de Max.
        Max continuou a avanar.
        Mesmo com a absoro pesada dos murros e do castigo, continuou a avanar. O sangue descoloria seus lbios. No tardaria a secar em seus dentes.
        Houve um grande rugido quando ele foi derrubado. O dinheiro quase trocou de mos.
         Foi derrubado mais uma vez antes de mudar de ttica, atraindo Walter Kugler para um pouco mais perto do que ele queria chegar. Quando Walter ficou nessa
posio, Max pde desferir um jabe curto e contundente em seu rosto. Pegou. Exatamente no nariz.
        Subitamente cego, Kugler recuou e Max aproveitou a chance. Seguiu-o pela direita, deu-lhe outro jabe e abriu sua guarda com um soco que o atingiu nas costelas.
A direita que acabou com ele aterrissou em seu queixo. Walter Kugler ficou no cho, com o cabelo louro salpicado de terra. As pernas afastaram-se num V. Lgrimas
parecidas com cristal escorriam por sua pele, apesar de ele no estar chorando. As lgrimas tinham-lhe sido arrancadas a socos.
        O crculo fez a contagem.
        Sempre contava, pelo sim, pelo no. Vozes e nmeros.
        O costume, depois de uma luta, era o perdedor levantar a mo do vencedor. Quando Kugler finalmente se ps de p, dirigiu-se emburrado a Max Vandenburg e
ergueu seu brao no ar.
        -        Obrigado - disse Max. Kugler deu um aviso:
        -        Da prxima vez, eu mato voc.
        Ao todo, nos anos seguintes, Max Vandenburg e Walter Kugler lutaram treze vezes. Walter estava sempre procurando vingar-se daquela primeira vitria que Max
lhe arrancara, e Max procurava reproduzir seu momento de glria. No fim, o escore ficou em 10 X 3 para Walter.
        Os dois se enfrentaram at 1933, quando chegaram aos dezessete anos. O respeito relutante transformou-se numa amizade sincera, e a nsia de lutar os abandonou.
Os dois se empregaram na Fbrica de Mquinas Jedermann at Max ser despedido, junto com o resto dos judeus, em 1935. Isso foi pouco depois de entrarem em vigor as
Leis de Nuremberg, que proibiram os judeus de ter a cidadania alem e proibiram o casamento entre alemes e judeus.
        -        Nossa! - exclamou Walter, uma noite, quando os dois se encontraram no terreninho de esquina em que costumavam lutar. - Bons tempos aqueles, no
?
        - No havia nada disso - e deu um tapinha com o dorso da mo na estrela da manga de Max. - Nunca poderamos lutar daquele jeito agora.
        Max discordou:
        -        Poderamos, sim. No se pode casar com um judeu, mas no h nenhuma lei contra lutar com um.
        Walter sorriu.
        -        Provavelmente, h uma lei que recompensa isso... desde que voc vena.
        Nos anos seguintes, os dois se viram esporadicamente, se tanto. Max, com o resto dos judeus, foi sistematicamente rejeitado e repetidamente humilhado, enquanto
Walter desapareceu em seu emprego. Uma grfica.
        Se voc  do tipo que se interessa, sim, houve algumas garotas naqueles anos. Uma chamada Tnia, outra, Hildi. Nenhuma das duas durou. No havia tempo, muito
provavelmente por causa da insegurana e da presso crescente. Max tinha que batalhar por trabalho. Que poderia oferecer quelas moas? Em 1938, era difcil imaginar
que a vida pudesse tornar-se mais difcil.
        E ento veio o dia 9 de novembro. Kristallnacht. A noite das vidraas quebradas.
        Foi justamente esse incidente que destruiu inmeros de seus conterrneos judeus, mas se revelou o momento de fuga de Max Vandenburg. Ele tinha vinte e dois
anos.
        Muitos estabelecimentos judaicos estavam sendo cirurgicamente destroados e saqueados, quando houve um bater de ns dos dedos na porta do apartamento. Com
a tia, a me, os primos e os filhos destes, Max estava amontoado na sala de visitas.
        -        Aufmachen!
        A famlia se entreolhou. Houve uma grande tentao de se dispersarem pelos outros cmodos, mas a apreenso  o que existe de mais esquisito. Ningum conseguiu
se mexer.
        De novo:
        -        Abram!
        Isaac levantou-se e foi at a porta. A madeira estava viva, ainda ressoando com as pancadas que acabara de receber. Ele se virou, olhou para os rostos carregados
de medo, girou a chave e abriu a porta.
        Como se esperava, era um nazista. De uniforme.
        -        Nunca.
        Foi a primeira resposta de Max.
        Agarrou-se  mo da me e  de Sarah, a mais prxima das primas.
        -        No vou embora. Se no pudermos ir todos, tambm no irei.
        Estava mentindo.
        Ao ser empurrado pelo resto da famlia, o alvio debatia-se dentro dele como uma obscenidade. Era algo que ele no queria sentir, mas, ainda assim, sentia-o
com tanta intensidade que tinha vontade de vomitar. Como poderia? Como poderia?
        Mas pde.
        -        No traga nada - disse-lhe Walter. - s a roupa do corpo. Eu lhe dou o resto.
        -        Max - era a me chamando.
        De uma gaveta, ela tirou um antigo pedao de papel e o enfiou no bolso do palet do filho.
        -        Se um dia... - e o segurou pela ltima vez, pelos cotovelos. - Essa pode ser a sua ltima esperana.
        Max olhou para o rosto envelhecido da me e a beijou, com muita fora, nos lbios.
        -        Vamos - puxou-o Walter, enquanto o resto da famlia se despedia e lhe dava dinheiro.
         Saram sem olhar para trs. Aquilo o torturou.
        Se ao menos tivesse olhado para trs, para ver sua famlia pela ltima vez, ao sair do apartamento. Talvez, ento, a culpa no fosse to pesada. Nem um ltimo
adeus. Nenhum reter final dos olhos. Nada seno a partida.
        Nos dois anos seguintes, Max permaneceu escondido, num depsito vazio. Ficava num prdio em que Walter havia trabalhado em anos anteriores. A comida era
pouqussima. Havia muita desconfiana. Os judeus endinheirados que restavam no bairro estavam emigrando. Os judeus sem dinheiro tambm tentavam faz-lo, mas sem
grande sucesso. A famlia de Max inclua-se nesta ltima categoria. Walter ia v-los ocasionalmente, da maneira mais inconspcua possvel. Uma tarde, quando foi
visit-los, outra pessoa abriu a porta.
        Quando Max ouviu a notcia, foi como se seu corpo se enroscasse numa bola, feito uma pgina cheia de erros. Feito lixo.
        No entanto, dia aps dia, ele conseguia se desamassar e se esticar, enojado e agradecido. Arrasado, mas, de algum modo, no desfeito em pedaos.
        Em meados de 1939, pouco mais de seis meses depois de iniciado seu perodo de escondimento, os dois resolveram que era preciso adotar outro curso de ao.
Examinaram o pedao de papel que Max havia recebido ao desertar. Isso mesmo
        -        Desertar, no apenas fugir. Era assim que ele via a coisa, em meio ao carter grotesco de seu alvio. J sabemos o que estava escrito no pedao
de papel:
         UM NOME, UM ENDEREO 
        Hans Hubermann Rua Himmel 33, Molching
        -        A coisa est piorando - disse Walter a Max. - Agora, eles podem nos descobrir a qualquer momento - completou. Havia muitos gestos encurvados na
escurido.
        -        No sabemos o que pode acontecer. Posso ser apanhado. Talvez voc precise encontrar aquele lugar... Tenho medo demais para pedir ajuda a algum
daqui. Pode ser que me prendam - fez Walter. S havia uma soluo. - Vou at l procurar esse homem. Se ele tiver virado nazista, o que  muito provvel, dou meia-volta
e pronto. Pelo menos ficaremos sabendo, richtig?
        Max deu-lhe at seu ltimo fnigue para a viagem e, dias depois, quando Walter regressou, os dois se abraaram e ele prendeu o flego:
        -        E ento?
         -        O cara  bom. Ainda toca aquele acordeo de que a sua me lhe falou, o do seu pai. No  filiado ao partido. Ele me deu dinheiro.
        Nessa etapa, Hans Hubermann era apenas um registro.
        -        Ele  bem pobre,  casado, e h uma criana. Isso despertou ainda mais a ateno de Max.
        -        De quantos anos?
        -        Dez. No se pode ter tudo.
        -        Sim. As crianas so boquirrotas.
        -        J temos sorte do jeito que est.
        Sentaram-se em silncio por um tempo. Foi Max quem o quebrou.
        -        Ele j deve me odiar, hein?
        -        Acho que no. Ele me deu o dinheiro, no foi? Disse que promessa  dvida. Uma semana depois, chegou uma carta. Hans informou a Walter Kugler que
tentaria mandar coisas para ajudar, sempre que possvel. Havia um mapa composto de uma pgina, mostrando Molching e a Grande Munique, alm de uma rota direta de
Pasing (a estao de trem mais confivel) at sua porta. Na carta, suas ltimas palavras foram bvias. Tome cuidado.
        Em meados de maio de 1940, chegou Mein Kampf, com uma chave presa com fita adesiva  parte interna da capa.
        O homem  um gnio, decidiu Max, mas ainda houve um calafrio quando pensou na viagem para Munique. Claramente, junto com as outras partes implicadas, desejava
que ela no tivesse que ser feita.
        Nem sempre se consegue o que se deseja.
        Especialmente na Alemanha nazista.
        De novo, o tempo passou.
        A guerra expandiu-se.
        Max continuou escondido do mundo, em mais um cmodo vazio.
        At o inevitvel. Walter foi informado de que seria enviado  Polnia, para dar continuidade  afirmao da autoridade nazista, tanto sobre os poloneses
quanto sobre os judeus. Um no era muito melhor do que outro. Era chegado o momento.
        Max seguiu para Munique e Molching, e agora estava sentado na cozinha de um estranho, pedindo a ajuda por que ansiava e sofrendo a condenao que sentia
merecer.
        Hans Hubermann apertou-lhe a mo e se apresentou.
        Fez caf para ele no escuro.
        Fazia algum tempo que a menina se fora, mas outros passos aproximaram-se da chegada. O curinga.
        Na escurido, os trs estavam completamente isolados. Todos olhavam fixo. S.

        A IRA DE ROSA
        Liesel tornara a mergulhar no sono quando a voz inconfundvel de Rosa Hubermann entrou na cozinha. Acordou-a num susto.
        -        Was ist los?
        Nessa hora, ela foi vencida pela curiosidade, ao imaginar uma descompostura proferida pela ira de Rosa. Houve um movimento claro e um arrastar de cadeiras.
        Aps dez minutos de excruciante disciplina, Liesel esgueirou-se at o corredor, e o que viu deixou-a francamente admirada, porque Rosa Hubermann estava junto
ao ombro de Max Vandenburg, vendo-o engolir sua famigerada sopa de ervilha.
        Mame tinha um ar grave.
        Seu corpo gorducho luzia de preocupao.
        Mas, de algum modo, havia tambm um ar de triunfo em seu rosto, e no era o triunfo por ter salvo outro ser humano da perseguio, Era algo mais nos moldes
de "Viu s? Pelo menos, ele no est reclamando". Ela olhava da sopa para o judeu para a sopa.
        Quando tornou a falar, perguntou apenas se ele queria mais.
        Max declinou, preferindo, em vez disso, correr para a pia e vomitar. Com as costas convulsas e os braos bem afastados. Seus dedos agarravam o metal.
        -        Jesus, Maria, Jos - resmungou Rosa. - Mais um.
        Virando-se para ela, Max pediu desculpas. Suas palavras eram escorregadias e midas, subjugadas pela acidez.
        -        Sinto muito. Acho que comi demais. Meu estmago, sabe, faz tanto tempo que... Acho que no consigo segurar tanta...
        -        Saia - ordenou-lhe Rosa. E comeou a limpar.
         Quando terminou, ela deparou com o rapaz  mesa da cozinha, profundamente taciturno. Hans sentava-se em frente a ele, com as mos recurvadas sobre a lmina
de madeira.
        Do corredor, Liesel viu o rosto contrado do estranho e, atrs dele, a expresso inquieta que se rabiscava confusamente na me.
        Olhou para seus pais de criao.
        Quem era aquela gente?

        UMA PRELEO PARA LIESEL
        Exatamente que tipo de gente eram Hans e Rosa Hubermann no era o problema mais simples de resolver. Gente boa? Gente ridiculamente ignorante? Gente de sanidade
questionvel?
        O mais fcil de definir era o apuro em que estavam.
         A SITUAO DE HANS E 
        ROSA HUBERMANN
        Aflitiva como o qu. Na verdade, assustadoramente aflitiva.
        Quando um judeu aparece no seu local de residncia nas primeiras horas da madrugada, bem na ptria do nazismo,  provvel que voc experimente nveis extremos
de incmodo. Angstia, incredulidade, parania. Cada uma desempenha seu papel, e cada uma leva a suspeita furtiva de que uma conseqncia no propriamente paradisaca
lhe est reservada no futuro. O medo reluz. Implacvel, nos olhos.
        O surpreendente a assinalar  que, apesar desse medo iridescente, brilhando como brilhava na escurido, de algum modo eles resistiram  nsia da histeria.
        A me mandou Liesel embora.
        -        Bett, Saumensch.
        A voz foi calma, porm firme. Sumamente incomum.
        O pai entrou, minutos depois, e tirou as cobertas da cama vazia.
        -        Alles gut, Liesel? Tudo bem?
        -        Sim, papai,
        -        Como voc pode ver, temos visita.
        Ela mal conseguia discernir a silhueta de Hans Hubermann no escuro.
        -        Ele dormir aqui esta noite.
        - Sim, papai.
        Minutos depois, Max Vandenburg estava no quarto, silencioso e opaco. O homem no respirava. No se mexia. Mas, de algum modo, deslocou-se da porta para a
cama e ficou embaixo das cobertas.
        -        Tudo bem?
        Era o pai outra vez, agora falando com Max.
        A resposta saiu flutuando de sua boca e se moldou no teto feito mancha, tamanha era sua sensao de vergonha.
        -        Sim. Obrigado.
        Disse-o de novo, quando papai assumiu sua posio costumeira na poltrona ao lado da cama de Liesel: - Obrigado.
        Passou-se mais uma hora antes de Liesel adormecer. Dormiu pesado, por muito tempo.
        A mo a despertou pouco depois das oito e meia da manh seguinte.
        A voz na ponta da mo informou-lhe que ela no iria  escola nesse dia. Ao que parece, estava doente.
        Quando despertou por completo, a menina observou o estranho na cama em frente. O cobertor mostrava s um ninho de cabelo meio inclinado no alto, e no havia
nenhum som, como se ele se houvesse treinado at mesmo a dormir mais silenciosamente. Com enorme cuidado, Liesel passou ao longo do corpo do homem, acompanhando
o pai em direo ao corredor.
        Pela primeira vez na vida, a cozinha e a me dormiam. Era uma espcie de silncio inaugural perplexo. Para alvio de Liesel, s durou alguns minutos.
        Vieram a comida e o som da mastigao.
        A me anunciou a prioridade do dia. Sentou-se  mesa e disse:
        -        Agora escute, Liesel. Hoje o papai vai lhe dizer uma coisa.
        Aquilo era srio - ela nem sequer dissera Saumensch. Era uma faanha pessoal de abstinncia.
        -        Ele vai falar com voc e voc tem que ouvir. Est claro? A menina continuava a engolir em seco.
        -        Est claro, Saumensch?
        Desse jeito era melhor.
        Liesel fez que sim com a cabea.
        Quando entrou novamente no quarto para buscar a roupa, o corpo na cama em frente tinha-se virado e enroscado. J no era uma tora comprida, mas uma espcie
de Z, que se estendia em diagonal de um canto ao outro. Zigue-zagueando a cama.
        Nessa hora ela pde ver-lhe o rosto, sob a luz cansada. A boca estava aberta e a pele era cor de casca de ovo. Havia plos cobrindo os maxilares e o queixo,
e as orelhas eram duras e achatadas. Ele tinha o nariz pequeno, mas meio torto.
        -        Liesel!
        Ela se virou.
        -        Ande logo!
        Andou, em direo ao banheiro.
        Depois de trocar a roupa e chegar ao corredor, ela percebeu que no iria longe. O pai estava parado em frente  porta do poro. Deu um sorriso muito leve,
acendeu a lmpada e a conduziu para baixo.
        Em meio s pilhas de mantas para proteger dos respingos e ao cheiro de tinta, o pai lhe disse que se pusesse  vontade. Acenderam-se nas paredes as palavras
pintadas, aprendidas no passado.
        -        Preciso lhe dizer umas coisas.
        Liesel sentou-se no topo de uma pilha de mantas de um metro de altura, e o pai, muna lata de tinta de quinze litros. Por alguns minutos, ele procurou as
palavras. Quando as encontrou, levantou-se para entreg-las. Esfregou os olhos.
        -        Liesel - disse, baixinho - nunca tive muita certeza de que isso viesse a acontecer, de modo que nunca lhe contei. Sobre mim. Sobre o homem que est
l em cima.
        Andou de uma ponta  outra do poro, com a luz da lmpada ampliando sua sombra. Ela o transformava num gigante na parede, andando para l e para c.
        Quando Hans parou de andar, a sombra ficou pairando s suas costas, observando. Havia sempre algum observando.
        -        Sabe o meu acordeo? - perguntou o pai, e ali comeou a histria.
        Hans explicou a Primeira Guerra Mundial e Erik Vandenburg, e depois a visita  viva do soldado cado.
         - O menino que entrou na sala naquele dia  o homem que est l em cima. Verstehst? Entendeu?
        A roubadora de livros ficou sentada, ouvindo a histria de Hans Hubermann. Durou uma boa hora, at o momento da verdade, que implicou uma preleo muito
bvia e necessria.
        -        Liesel, voc precisa escutar.
        O pai a fez ficar de p e lhe segurou a mo.
        Estavam de frente para a parede. Sombras escuras e o exerccio das palavras.
        -        Lembra-se do aniversrio do Fhrer, quando voltamos para casa naquela noite, depois da fogueira? Lembra-se do que voc me prometeu?
        A menina fez que sim. Fitando a parede, disse:
        -        Que eu guardaria um segredo.
        -        Isso mesmo.
        Entre as sombras de mos dadas, as palavras pintadas se espalhavam, empoleiradas em seus ombros, apoiadas em suas cabeas e penduradas em seus braos.
        -        Liesel, se voc falar com algum sobre o homem que est l em cima, estaremos todos muito encrencados.
        Hans percorreu a linha delicada entre apavor-la a ponto de deix-la insensvel e relax-la o bastante para deix-la calma. Servia-lhe as frases e observava,
com seus olhos metlicos. Desespero e placidez.
        -        No mnimo, mame e eu seremos levados embora.
        Ele tinha a clara preocupao de estar prestes a assust-la em demasia, mas calculou o risco, preferindo errar pelo excesso de medo que pelo medo insuficiente.
A obedincia da menina tinha que ser uma realidade absoluta, imutvel.
        J no final, Hans Hubermann olhou para Liesel Meminger e se certificou de que ela estava concentrada.
        Deu-lhe uma lista de conseqncias.
        -        Se voc falar com algum sobre esse homem...
        Com a professora.
        Com Rudy.
        No importava com quem.
        O importante era que todos seriam passveis de castigo.
        -        Para comear, pegarei cada um dos seus livros, todos eles, e porei fogo - disse o pai. Impassvel. - Vou jog-los no fogo ou na lareira - continuou.
Certamente agia como um tirano, mas era necessrio. - Entendeu?
        O susto cavou um buraco em Liesel, muito ntido, muito preciso. Os olhos encheram-se de lgrimas.
        -        Sim, papai.
        -        Prxima: - ele tinha que se manter duro, e precisou se esforar para isso - Tiraro voc de mim. Voc quer isso?
        Agora Liesel chorava, aflita.
        -        Nein.
        -        timo - e aumentou o aperto nas mos da menina. - Eles levaro aquele homem para longe daqui, e talvez mame e eu tambm, e nunca mais, nunca mais
voltaremos.
        E foi o quanto bastou.
        A menina comeou a soluar de um modo to incontrolvel, que o pai morreu de vontade de pux-la para si e abra-la apertado. No o fez. Em vez disso, agachou-se
e a fitou diretamente nos olhos. Soltou suas palavras mais mansas at ento:
        -        Verstehst du mich? Est me entendendo?
        A menina fez que sim. Chorou e, nessa hora, derrotado, abatido, o pai a abraou em meio ao ar de tinta e  luz de querosene.
        -        Eu entendo, papai, entendo.
        Sua voz foi abafada contra o corpo do pai, e os dois ficaram assim por alguns minutos, Liesel com a respirao achatada e o pai a lhe afagar as costas.
        L em cima, ao voltarem, encontraram a me sentada na cozinha, s e pensativa. Ao v-los, ela se levantou e fez sinal para que Liesel se aproximasse, notando
as lgrimas secas que lhe riscavam o rosto. Puxou a menina para si e lhe plantou um abrao tipicamente rude em torno do corpo.
        -        Alies gut, Saumensch?
        No precisou de resposta.
        Estava tudo bem.
        Mas tambm era terrvel.

        O DORMINHOCO
        Max Vandenburg dormiu trs dias.
        Em alguns trechos desse sono, Liesel o observou. Pode-se dizer que, no terceiro dia, tornou-se uma obsesso examin-lo, ver se ele ainda respirava. Agora
a menina j sabia interpretar seus sinais de vida, desde o movimento dos lbios at a barba crescida e os tufos de cabelo que se mexiam muito de leve, quando a cabea
estremecia no estado onrico.
        Muitas vezes, quando o velava, vinha-lhe a idia mortificante de que ele teria acabado de acordar e abriria os olhos para ela - e ento a espiaria espiando.
A idia de ser flagrada a atormentava e entusiasmava ao mesmo tempo. Liesel a temia. E a convidava. S quando a me a chamava  que conseguia arrastar-se dali, simultaneamente
calma e decepcionada, por talvez no estar presente quando ele acordasse.
        Em alguns momentos, quase no fim da maratona de sono, ele falou.
        Foi um recital de nomes murmurados. Uma lista de verificao.
        Isaac. Tia Ruth. Sarah. Mame. Walter. Hitler.
        Famlia, amigo, inimigo.
        Estavam todos embaixo das cobertas com ele e, a certa altura, Max pareceu lutar consigo mesmo. "Nein", murmurou. Aquilo foi repetido sete vezes. "No."
        Liesel, no ato de observar, j notava as semelhanas entre esse estranho e ela. Ambos haviam chegado em estado de agitao  Rua Himmel. Ambos tinham pesadelos.
        Quando chegou a hora, ele acordou com o alvoroo incmodo da desorientao, Sua boca abriu-se, um instante depois dos olhos, e ele se sentou, em angulo reto.
        - Ai!
        Um fio de voz escapou-lhe da boca.
        Ao ver o rosto invertido de uma menina acima dele, vieram o momento inquieto da falta de familiaridade e o esforo de recordar - de decodificar exatamente
onde e quando ele estava sentado. Aps alguns segundos, Max conseguiu coar a cabea (um farfalhar de gravetos) e olhou para Liesel. Seus gestos eram fragmentados
e, agora que estavam abertos, os olhos eram midos e castanhos. Densos e pesados.
        Num ato reflexo, Liesel recuou.
        Foi lenta demais.
        O estranho estendeu a mo quente da cama e a segurou pelo brao.
        -        Por favor.
        A voz tambm a segurou, como se tivesse unhas. Ele a enfiou em sua carne.
        -        Papai! - alto.
        - Por favor! - baixinho.
        Era um fim de tarde cinzento e reluzente, mas s uma luz de cor suja tinha permisso de entrar no quarto. Era tudo que o tecido das cortinas permitia. Se
voc for otimista, pense nela como bronze.
        Quando o pai entrou, parou primeiro no vo da porta e notou os dedos apertados de Max Vandenburg e seu rosto desesperado. Os dois se agarravam ao brao de
Liesel.
        -        Vejo que vocs j se conheceram - disse.
        Os dedos de Max comearam a esfriar.

        A TROCA DE PESADELOS
        Max Vandenburg prometeu que nunca mais dormiria no quarto de Liesel. Que  que estava pensando naquela primeira noite? A simples idia o mortificou.
        Racionalizou que, na chegada, sua perplexidade fora tanta que ele havia permitido uma coisa dessas. O poro era o nico lugar apropriado para ele, no que
lhe dizia respeito. Nem pensar em frio e solido. Ele era judeu e, se havia um lugar em que estava destinado a existir, tratava-se de um poro, ou qualquer outro
desses lugares ocultos de sobrevivncia.
        -        Sinto muito - confessou a Hans e Rosa na escada do poro.
        - De agora em diante, ficarei aqui embaixo. Vocs no me escutaro. No farei o menor som.
        Hans e Rosa, imbudos do desespero da situao, no argumentaram, nem mesmo em relao ao frio. Carregaram cobertores para baixo e encheram a lamparina de
querosene. Rosa admitiu que no poderia haver muita comida, ao que Max lhe pediu fervorosamente que s lhe levasse sobras, mesmo assim s quando ningum mais as
quisesse.
        -        Na, na - assegurou-lhe Rosa. - Voc ser alimentado, da melhor maneira que eu puder.
        Tambm levaram para baixo o colcho da cama sobressalente do quarto de Liesel, substituindo-o por mantas de proteo contra respingos de tinta - uma excelente
troca.
          
        No poro, Hans e Max puseram o colcho embaixo da escada e construram do lado uma parede de mantas de proteo. As mantas eram to altas que cobriam toda
a entrada triangular e, que mais no fosse, eram fceis de mover, se Max tivesse uma necessidade aflitiva de mais ar. O pai se desculpou:
        -         mesmo lamentvel, eu reconheo.
        -         melhor do que nada - assegurou-lhe Max. - Melhor do que eu mereo, obrigado.
        Com algumas latas de tinta bem posicionadas, Hans teve de admitir que aquilo parecia simplesmente uma coleo de tralhas reunidas num canto, de qualquer
jeito, para ficar fora do caminho. O nico problema era que bastaria uma pessoa afastar algumas latas e tirar uma ou duas mantas para farejar o judeu.
        -        Esperemos que seja suficiente - disse Hans.
        -        Tem que ser - respondeu Max, rastejando para dentro. E, mais uma vez, repetiu: - Obrigado.
        Obrigado.
        Para Max Vandenburg, essa era a palavra mais lastimvel que ele podia dizer, s encontrando rival em Desculpe. Havia uma nsia constante de proferir as duas,
instigada pela aflio da culpa.
        Quantas vezes, nessas primeiras horas desperto, ele sentiu vontade de sair do poro e se retirar completamente da casa? Devem ter sido centenas.
        A cada vez, porm, era s uma ferroada.
        O que tornava a coisa ainda pior.
        Ele queria sair - santo Deus, como queria (ou, pelo menos, queria querer)! -, mas sabia que no o faria. Era exatamente como no dia em que deixara a famlia
em Stuttgart, sob um vu de falsa lealdade.
        Viver.
        Viver era ficar vivo.
        O preo era a culpa, aliada  vergonha.
          
        Nos primeiros dias no poro, Liesel no quis nada com ele. Negou sua existncia. Seu cabelo farfalhante, seus dedos frios e escorregadios. Sua presena torturada.
        Mame e papai.
        Havia um enorme peso entre os dois, e uma poro de decises fracassadas.
        Eles consideraram se poderiam mud-lo de lugar.
        -        Mas para onde?
        Sem resposta.
        Nessa situao, estavam sem amigos e paralisados. No havia outro lugar para onde Max Vandenburg pudesse ir. Eram eles. Hans e Rosa Hubermann. Liesel nunca
os vira olharem tanto um para o outro, nem com tanta solenidade.
         Eram eles que levavam a comida l embaixo, e separaram uma lata vazia de tinta para os excrementos de Max. O contedo seria despejado por Hans, com toda
a prudncia possvel. Rosa tambm lhe levou uns baldes de gua quente para se lavar. O judeu estava imundo.
        Do lado de fora, uma montanha do frio ar de novembro esperava  porta de entrada, toda vez que Liesel saa de casa. A chuva fina caa s bateladas. Havia
folhas mortas derrubadas na rua.
        Em pouco tempo, chegou a vez de a roubadora de livros visitar o poro. Eles a obrigaram.
        A menina desceu hesitantemente a escada, sabendo que no havia necessidade de palavras. O arrastar de seus ps era o bastante para despert-lo.
        No meio do poro, ela parou e esperou, sentindo-se mais como se estivesse no centro de um grande campo ensombrecido. O sol se punha atrs de uma safra de
mantas de proteo colhidas.
        Quando Max saiu, segurava o Mein Kampf. Na chegada, oferecera-o de volta a Hans Hubermann, mas ouvira que podia ficar com ele.
        Naturalmente, enquanto segurava o jantar, Liesel no conseguia tirar os olhos do livro. J o vira algumas vezes na BDM, mas ele no fora lido nem diretamente
usado nas atividades das meninas. Houvera referncias ocasionais a sua grandeza, alm de promessas de que haveria uma oportunidade de estud-lo em anos vindouros,
 medida que elas avanassem para uma diviso mais velha da Juventude Hitlerista.
        Max, seguindo a ateno de Liesel, tambm examinou o livro.
        -        ? - sussurrou a menina.
        Havia um filamento curioso em sua voz, aplainado e enroscado em sua boca. O judeu apenas aproximou um pouco mais a cabea.
        -        Bitte? Como?
        Liesel entregou-lhe a sopa de ervilha e voltou para cima, vermelha, apressada e boba.
        -         bom esse livro?
        Ficou praticando no banheiro o que queria dizer, diante do espelhinho. O cheiro de urina ainda a envolvia, visto que Max tinha acabado de usar a lata de
tinta antes de ela descer. S ein G'schtank, pensara Liesel. Que fedor.
        Nenhuma urina tem um cheiro to bom quanto a nossa.
        Os dias foram manquejando.
        Toda noite, antes de cair no sono, Liesel ouvia a me e o pai na cozinha, discutindo o que fora feito, o que eles estavam criavam fazendo e o que precisava
acontecer a seguir.
        O tempo todo, uma imagem de Max pairava junto dela. Eram sempre a expresso ferida e grata de seu rosto e os olhos alagadios.
        S uma vez houve uma exploso na cozinha.
        Papai.
        -        Eu sei!
        Sua voz era abrasiva, mas ele a reconduziu s pressas a um sussurro abafado.
        -        Mas tenho que continuar a ir, pelo menos algumas vezes por semana. No posso ficar aqui o tempo todo. Precisamos do dinheiro e, se eu parar de tocar
l, vo ficar desconfiados. Talvez se perguntem por que parei. Eu disse a eles que voc estava doente, na semana passada, mas agora temos que fazer tudo como sempre
fizemos.
        Era a que residia o problema.
        A vida se alterara da maneira mais louca possvel, porm era imperativo que eles agissem como se no tivesse acontecido absolutamente nada.
        Imagine sorrir depois de levar um tapa na cara. Agora, imagine faz-lo vinte e quatro horas por dia.
        Era essa a tarefa de esconder um judeu.
         medida que os dias se transformaram em semanas, passou a haver, que mais no fosse, uma aceitao sitiada do ocorrido - tudo resultante da guerra, de um
cumpridor de promessas e de um acordeo. Alm disso, no espao de pouco mais de um semestre, os Hubermann tinham perdido um filho e ganhado um substituto de propores
epicamente perigosas.
        O que mais chocava Liesel era a mudana em sua mame. Fosse na maneira calculada pela qual ela dividia a comida, fosse no considervel amordaamento de sua
boca famigerada, ou at na expresso mais delicada de seu rosto de papelo, uma coisa ia ficando clara.
         UM ATRIBUTO DE ROSA HUBERMANN 
        Ela era uma boa mulher nas horas de crise.
        Mesmo quando a artrtica Helena Schmidt cancelou o servio de lavagem e passagem de roupa, um ms depois de Max debutar na Rua Himmel, ela simplesmente sentou-se
 mesa e aproximou de si a tigela.
        -        Hoje a sopa est boa.
        A sopa estava terrvel.
        Toda manh, quando Liesel saa para a escola, ou nos dias em que se aventurava a jogar futebol, ou a completar o que restava da ronda da roupa lavada, Rosa
lhe falava baixinho.
        -        E lembre-se, Liesel... - apontando para a boca, mais nada. Quando a menina acenava que sim, Rosa dizia: - Voc  uma boa menina, Saumensch. Agora,
v andando.

        Fiel s palavras do pai, e at s da me, nesse momento, ela era uma boa menina. Ficava de boca fechada em todos os lugares aonde ia. O segredo estava profundamente
enterrado.
        Liesel andava pela cidade com Rudy, como sempre fizera, e ouvia sua tagarelice. Vez por outra, eles comparavam observaes sobre suas respectivas divises
da Juventude Hitlerista, e Rudy mencionou pela primeira vez um jovem lder sdico, chamado Franz Deutscher. Quando no falava do jeito entusistico de Deutscher,
Rudy tocava seu disco quebrado de praxe, oferecendo tradues e recriaes do ltimo gol que havia marcado no estdio de futebol da Rua Himmel.
        -        Eu sei - assegurava Liesel. - Eu estava l.
        - E da?
        - Da que eu vi, Saukerl.
        -        Como  que eu vou saber? Ao que eu saiba, provavelmente voc estava em algum lugar do cho, lambendo a lama que deixei pra trs quando fiz o gol.
        Talvez fosse Rudy quem a mantinha s, com a idiotice de sua falao, seu cabelo encharcado no limo e sua presuno insolente.
        Ele parecia reverberar uma espcie de confiana em que a vida continuava a no passar de uma piada - uma sucesso interminvel de gols e trapaas, e um repertrio
constante de tagarelice sem sentido.
        E havia tambm a mulher do prefeito, e a leitura na biblioteca de seu marido. Agora fazia frio l, mais frio a cada visita, mas Liesel continuava incapaz
de se afastar. Escolhia um punhado de livros e lia pequenos segmentos de cada um, at que, uma tarde, encontrou um que no conseguiu pr de lado. Chamava-se O Assobiador.
Originalmente, sentira-se atrada por ele por ver esporadicamente o assobiador da Rua Himmel - Pfiffikus. Havia a lembrana dele, recurvado com seu casaco, e seu
aparecimento na fogueira no aniversrio de Hitler.
        O primeiro acontecimento do livro era um assassinato. Um esfaqueamento. Uma rua de Viena. No muito longe do Stephansdom - a catedral da praa principal.
         UM PEQUENO EXCERTO DE 
         O ASSOBIADOR
        Ela ficou l, assustada, numa poa de sangue,
        com uma estranha melodia a lhe soar no ouvido.
        Relembrou a faca, entrando e saindo, e um sorriso.
        Como sempre, o assobiador sorrira,
        ao fugir para a noite escura e homicida...
        Liesel no soube ao certo se tinham sido as palavras ou a janela aberta que a fizeram tremer. Toda vez que buscava ou entregava roupa na casa do prefeito,
ela lia trs pginas e estremecia, mas no podia ficar l para sempre.
        Similarmente, Max Vandenburg no poderia suportar muito mais o poro. No se queixava - no tinha esse direito -, mas, aos poucos, sentiu que deteriorava
no frio. Como se veio a constatar, sua salvao deveu-se a um pouco de leitura e redao, e a um livro chamado O Dar de Ombros.
        -        Liesel - disse Hans, uma noite. - Venha.
        Desde a chegada de Max, tinha havido um hiato considervel nos exerccios de leitura de Liesel e seu papai. Claramente, ele achou que esse era um bom momento
para recomear.
        -        Na, komm - disse-lhe. - No quero que voc relaxe. V buscar um de seus livros. Que tal O Dar de Ombros?
        O fator inquietante nisso tudo foi que, quando ela voltou, com o livro na mo, o pai fez sinal para que o acompanhasse  antiga sala de exerccios dos dois.
O poro.
        -        Mas, papai - tentou dizer Liesel. - A gente no pode...
        -        O que ? H algum monstro l embaixo?
        Era comeo de dezembro e o dia tinha sido gelado. O poro tornava-se mais inspito a cada degrau de concreto.
        -        Est muito frio, papai.
        -        Isso nunca a incomodou antes.
        -        , mas nunca ficou frio assim...
        Quando os dois chegaram l embaixo, o pai sussurrou para Max:
        -        Podemos pegar emprestada a lamparina, por favor?
        Com apreenso, as mantas e latas foram afastadas e a luz foi entregue, trocando de mos. Olhando para a chama, Hans balanou a cabea e acompanhou o gesto
com algumas palavras.
        -        Es ist j Wahnsinn, net? Isto  maluquice, no?
        Antes que a mo do lado de dentro reposicionasse as mantas, Hans a pegou.
        -        Venha voc tambm. Por favor, Max.
        Aos poucos, as mantas foram arrastadas para um lado e o corpo e o rosto emaciados de Max Vandenburg apareceram. A luz mida, ele ficou imvel, com um incmodo
mgico. Estremeceu.
        Hans tocou-lhe o brao, para faz-lo aproximar-se mais.
        -        Jesus, Maria e Jos! Voc no pode ficar aqui embaixo. Vai morrer congelado.
        Voltou-se para a menina:
        -        Liesel, encha a banheira. No muito quente. Deixe assim como quando a gua comea a esfriar.
        Liesel subiu correndo.
        -        Jesus, Maria e Jos.
        Foi o que ela tornou a ouvir, ao chegar ao corredor.
        Enquanto Max estava na banheira mnima, Liesel ficou escutando  porta do banheiro, imaginando a gua morna a se transformar em vapor, ao aquecer o corpo
de iceberg do rapaz. Mame e papai estavam no auge do debate no cmodo que combinava o quarto e a sala, com suas vozes baixas aprisionadas entre as paredes do corredor.
        -        Ele vai morrer l embaixo, eu juro.
        -        Mas, e se algum olhar c para dentro?
        -        No, no, ele sobe s  noite. De dia, deixamos tudo aberto. Nada a esconder. E usamos este cmodo, em vez da cozinha.  melhor ficar longe da porta
de entrada.
        Silncio. Depois, a me:
        -        Est bem... , voc tem razo.
        -        Se vamos apostar num judeu - disse o pai, logo depois -, prefiro apostar num judeu vivo.
        E, desse momento em diante, nasceu uma nova rotina.
        Toda noite, acendia-se a lareira no quarto de mame e papai, e Max aparecia silenciosamente. Sentava-se num canto, encolhido e perplexo, muito provavelmente
com a bondade daquelas pessoas, a tortura da sobrevivncia e, superando aquilo tudo, o brilho do calor.
        Com as cortinas bem cerradas, ele dormia no cho, com uma almofada sob a cabea, enquanto o fogo ia apagando e se transformava em cinzas.
        De manh, voltava para o poro.
        Um ser humano sem voz.
        O rato judeu, de volta a sua toca.
        O Natal veio e se foi, com o cheiro de um perigo a mais. Como se esperava, Hans Jnior no apareceu em casa (uma bno e uma ominosa decepo), mas Trudy
chegou como de hbito e, felizmente, as coisas correram com serenidade.
         AS QUALIDADES DA SERENIDADE 
        Max ficou no poro. Trudy veio e se foi sem nenhuma suspeita.
          
        Resolveu-se que, apesar de sua ndole gentil, no se podia confiar em Trudy.
        -        S confiamos nas pessoas em quem temos de confiar - afirmou o pai - e isso somos ns trs.
        Houve comida extra e um pedido de desculpas a Max por essa no ser a sua religio, mas era um ritual, de qualquer modo. Ele no se queixou, Que base tinha
para reclamar?
         Explicou que era judeu por criao e pelo sangue, mas tambm que o judasmo, agora, era mais do que nunca um rtulo - um exemplo desastroso do azar mais
idiota que havia.
        Foi nesse momento que tambm aproveitou o ensejo para dizer que lamentava que o filho dos Hubermann no tivessem ido para casa. Em resposta, Hans lhe disse
que essas coisas fugiam ao controle deles.
        -        Afinal - comentou - voc mesmo deve saber: um rapaz ainda  um menino, e os meninos s vezes tm o direito de ser teimosos.
        Deixaram o assunto nesse p.
        Nas primeiras semanas em frente  lareira, Max ficou mudo. Agora que vinha tomando um banho adequado uma vez por semana, Liesel notou que seu cabelo j no
era um ninho de gravetos, mas uma coletnea de plumas que se agitavam em volta de sua cabea. Ainda tmida diante do estranho, ela cochichou com o pai:
        -        O cabelo dele parece de penas.
        -        Como? - fez o pai. A lareira havia distorcido as palavras.
        -        Eu disse - voltou ela a cochichar, chegando mais perto - que o cabelo dele parece ser de penas...
        Hans Hubermann olhou e fez um aceno de cabea, concordando. Tenho certeza de que gostaria de ter os olhos da menina. Eles no perceberam que Max tinha ouvido
tudo.
        Ocasionalmente, o rapaz levava o exemplar de Mein Kampf e o lia junto s chamas, enfurecido com o contedo. Na terceira vez que o levou, Liesel enfim tomou
coragem para fazer sua pergunta.
        -        Ele ... bom?
        Max ergueu os olhos das pginas, fechou os punhos e tornou a abrir os dedos. Afastando a raiva, sorriu para a menina. Levantou a franja emplumada e deixou-a
cair nos olhos.
        -         o melhor livro que existe - disse. Olhou para Hans, depois novamente para Liesel. -Salvou minha vida.
        A menina remexeu-se um pouco e cruzou as pernas. Baixinho, perguntou.
        -        Como?
        Assim comeou uma espcie de fase de contar histrias na sala, todas as noites. Eram narradas num tom que mal se fazia ouvir. Os pedaos de um quebra-cabea
judaico de lutas foram-se montando diante de todos.
        Vez por outra, havia humor na voz de Max Vandenburg, embora sua qualidade fsica lembrasse o atrito - como uma pedra delicadamente esfregada numa rocha grande.
Era profunda em alguns pontos e arranhada em outros, s vezes se interrompendo por completo. Atingia sua gravidade mxima no arrependimento e se interrompia ao final
de uma pilhria ou de uma afirmao autodepreciativa.
         "Cristo crucificado!", era essa a reao mais comum s histrias de Max Vandenburg, em geral seguida por uma pergunta.
         PERGUNTAS DO TIPO 
        Quanto tempo voc ficou naquele quarto?
        Onde est Walter Kugler agora?
        Voc sabe o que aconteceu com a sua famlia?
        Para onde estava viajando a roncadora?
        Um escore de derrotas de 10X3!
        Por que voc quis continuar lutando com ele?
        Quando Liesel rememorou os acontecimentos de sua vida, aquelas noites na sala foram algumas de suas lembranas mais vividas. Ela reviu a luz ardente no rosto
de casca de ovo de Max e chegou at a provar o sabor humano de suas palavras. O curso da sobrevivncia do rapaz foi relatado aos bocadinhos, como se ele recortasse
de si cada pedao e o oferecesse numa bandeja.
        -        Sou muito egosta.
        Ao diz-lo, ele usou o brao para proteger o rosto.
        -        Deixar as pessoas para trs. Vir para c. Pr todos vocs em perigo...
        Foi tudo saindo dele, e o rapaz comeou a lhes fazer splicas. O arrependimento e a desolao esbofeteavam-lhe o rosto.
        -        Eu lamento. Acreditam em mim? Eu sinto muito, sinto muito, sinto...
        Seu brao encostou no fogo e ele o afastou num reflexo.
        Todos o fitaram, em silncio, at que o pai levantou e se aproximou. Sentou-se ao lado de Max.
        -        Queimou o cotovelo?
        Uma noite, Hans, Max e Liesel sentavam-se diante da lareira. A me estava na cozinha. Max lia Mein Kampf outra vez.
        -        Sabe de uma coisa? - disse Hans. Inclinou-se para o fogo. - A Liesel aqui  mesmo uma boa leitorinha - ao que Max baixou o livro. - E tem mais coisas
em comum com voc do que se poderia supor. E - certificou-se de que Rosa no estava chegando - ela tambm gosta de uma boa briga.
        -        Papai!
        Liesel, quase chegando aos doze anos e ainda magra feito um ancinho, encostada na parede, sentiu-se arrasada.
        -        Nunca entrei numa brigai
        -        Psssiu! - riu o pai, Fez sinal para que ela falasse baixo e tornou a se inclinar, dessa vez em direo  menina. - Bem, que tal a surra que voc
deu no Ludwig Schmeikl, hein?
         -        Eu nunca... - mas ela fora apanhada. Continuar negando seria intil.
        - Como foi que voc descobriu isso?
        - Estive com o pai dele no Knoller.
        Liesel cobriu o rosto com as mos. Quando o descobriu, foi para fazer a pergunta crucial:
        -        Contou  mame?
        -        Est brincando? - fez Hans. Piscou para Max e segredou para a menina: - Voc ainda est viva, no ?
        Aquela noite tambm foi a primeira vez em meses que o pai tocou seu acordeo em casa. Durou mais ou menos meia hora, at ele fazer uma pergunta a Max:
        -        Voc o estudou?
        O rosto no canto observava as chamas.
        -        Estudei - e fez uma pausa considervel. - At os nove anos. Nessa idade, mame vendeu o estdio de msica e parou de lecionar. S guardou um instrumento,
mas desistiu de mim, no muito depois de eu resistir a estudar. Foi uma bobagem.
        -        No - disse Hans. - Voc era menino.
        Durante as madrugadas, Liesel Meminger e Max Vandenburg lidavam com sua outra semelhana. Em cmodos separados, tinham seus pesadelos e acordavam, uma com
um grito em meio a lenis sufocantes, outro com a respirao ofegante junto a uma lareira fumarenta.
        s vezes, quando Liesel lia com o pai, perto das trs horas da manh, os dois ouviam o momento de despertar de Max. "Ele sonha como voc", dizia o pai, e,
numa ocasio, agitada com o som da angstia de Max, Liesel resolveu sair da cama. Por ter ouvido a histria dele, a menina fazia uma boa idia do que o rapaz via
naqueles sonhos, se no a parte exata da histria que o visitava a cada noite.
        Andou em silncio pelo corredor e entrou na sala-e-quarto.
        -        Max?
        O murmrio foi baixinho, envolto pela garganta do sono. No comeo, no houve som de resposta, mas ele logo se sentou e perscrutou a escurido.
        Com o pai ainda na cama, Liesel sentou-se do outro lado da lareira, em frente a Max. Atrs deles, Rosa dormia ruidosamente. Superava de longe a roncadora
do trem.
        Agora o fogo j no passava de um funeral de fumaa, a um tempo morto e agonizante. Nessa madrugada especfica, tambm houve vozes.
         A TROCA DE PESADELOS 
        A menina: Diga, o que voc v quando sonha assim?
        O judeu: ...Eu me vejo virando as costas e dando adeus,
        A menina: Tambm tenho pesadelos.
        O judeu: O que voc v?
        A menina: Um trem, e meu irmo morto.
        O judeu: Seu irmo?
        A menina: Ele morreu quando eu me mudei para c, no caminho.
        A menina e o judeu, juntos: Ja - sim.
        Seria bom dizer que, depois desse pequeno avano, nem Liesel nem Max Voltaram a sonhar com suas vises ruins. Seria bom, mas falso. Os pesadelos continuaram
a chegar como sempre, como faz o melhor jogador do time adversrio, quando a gente ouve boatos de que estaria machucado ou doente - mas l est ele, fazendo o aquecimento
com todos os demais, pronto para entrar em campo. Ou como um trem de hora marcada que chega toda noite a uma plataforma, rebocando as lembranas numa corda. Muito
arrastar. Muitos rebotes desajeitados.
        A nica coisa a mudar foi que Liesel disse ao pai que agora j devia ter idade suficiente para enfrentar os sonhos sozinha. Por um momento, ele pareceu meio
magoado, mas, como sempre acontecia com o pai, fez o melhor possvel para dizer a coisa certa.
        -        Bem, graas a Deus - com um meio sorriso. - Pelo menos agora posso dormir direito. Aquela cadeira estava me matando.
        Ps o brao nos ombros da menina e os dois foram para a cozinha.
        Com o correr do tempo, desenvolveu-se uma clara distino entre dois mundos - o mundo no interior do nmero 33 da Rua Himmel e o que residia e girava em
torno deste. O xis da questo era mant-los separados.
        No mundo externo, Liesel vinha aprendendo a descobrir mais algumas utilidades. Uma tarde, quando voltava para casa com um saco de roupas vazio, notou um
jornal que ressaa de uma lata de lixo. A edio semanal do Expresso de Molching, tirou-o da lata e o levou para casa, onde o deu de presente a Max.
        -        Achei que voc gostaria de fazer as palavras cruzadas para passar o tempo - disse.
        Max agradeceu o gesto e, para justificar o fato de Liesel o ter levado para casa, leu o jornal de ponta a ponta e, horas depois, mostrou-lhe as palavras
cruzadas completas, faltando s uma palavra.
        -        Miservel esse dezessete vertical - disse.
        Em fevereiro de 1941, em seu dcimo segundo aniversrio, Liesel ganhou outro livro usado e ficou grata. Chamava-se Os homens de Lama e era sobre um pai e
um filho muito estranhos. Ela abraou a me e o pai, enquanto Max ficava constrangido num canto.
        -        Alies gute zum Geburtstag - sorriu ele, timidamente. "Tudo de bom no seu aniversrio." Estava com as mos nos bolsos. - Eu no sabia, seno teria
dado alguma coisa a voc.
        Era uma mentira flagrante - Max no tinha nada para dar, exceto, talvez, o Mein Kampf, e de jeito nenhum daria aquela propaganda a uma menininha alem. Seria
como o cordeiro entregando uma faca ao aougueiro.
        Houve um silncio incmodo.
        Ela havia abraado mame e papai.
        Max parecia muito sozinho.
        Liesel engoliu em seco.
        E foi at ele e o abraou pela primeira vez.
        - Obrigada, Max.
        A princpio, ele apenas ficou parado, mas, enquanto ela o abraava, aos poucos levantou as mos e as pressionou delicadamente sobre as omoplatas da menina.
        S depois ela descobriria o sentido da expresso de desamparo no rosto de Max Vandenburg. Descobriria tambm que, naquele momento, ele havia decidido retribuir-lhe
alguma coisa. Muitas vezes o imagino deitado, acordado durante aquela noite inteira, ponderando sobre o que poderia oferecer.
        Como se constatou, o presente foi entregue em papel, pouco mais de uma semana depois.
        Max o levaria  menina nas primeiras horas da manh, antes de tornar a descer a escada de concreto para o que agora gostava de chamar de sua casa.

        PGINAS DO PORO
        Durante uma semana, Liesel foi impedida a todo custo de descer ao poro. Mame e papai  que se certificavam de levar a comida de Max.
        - No, Saumensch - dizia a me, toda vez que ela se oferecia. Havia sempre um novo pretexto. - Que tal voc fazer alguma coisa de til aqui, para variar,
como acabar de passar a roupa? Voc acha que carreg-la pela cidade  muito especial? Experimente pass-la!
        Pode-se fazer toda sorte de coisas boas disfaradas, quando se tem uma reputao custica. Funcionou.
        Nessa semana, Max recortou uma coletnea de pginas de Mein Kampf e as pintou de branco. Depois, pendurou-as com pregadores numa corda, de uma ponta  outra
do poro. Quando estavam todas secas, comeou a parte difcil. Ele tinha instruo suficiente para se arranjar, mas com certeza no era escritor nem pintor de quadros.
Apesar disso, formulou as palavras na cabea at conseguir cont-las sem erro. S ento, no papel empolado e arqueado pela presso da tinta ao secar, comeou a escrever
a histria. O que fez com um pincelzinho preto.
        O Vigiador.
        Max calculou que precisaria de treze pginas, e por isso pintou quarenta, na expectativa de pelo menos duas vezes mais erros que acertos, Houve verses de
exerccio nas pginas do Expresso de Molching, at ele aperfeioar seu trabalho artstico elementar e desajeitado num nvel que lhe parecesse aceitvel. Enquanto
trabalhava, ele ouvia as palavras sussurradas de uma menina. "O cabelo dele", dissera Liesel, "parece ser de penas."
        Ao terminar, Max usou uma faca para furar as pginas e amarr-las com barbante. O resultado foi um livreto de treze pginas, que dizia assim:



      "toda minha vida tive medo de homens velando sobre mim.





      Suponho que o primeiro homem a velar sobre mim foi meu pai
      Mas ele sumiu antes que eu pudesse record-Los.







      Por alguma razo, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes eu perdia. Outro menino, s vezes com sangue pingando do nariz, erguia-se
acima de mim.



      Muitos anos depois precisei me esconder. Procurei no dormir porque tinha medo de quem estaria l quando acordasse.
      Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.


       Quando estava escondido, eu sonhava com um certo homem. O mais difcil foi quando viajei para ir ao encontro dele.


      Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui.



      Fiquei dormindo l por muito tempo. Trs dias, disseram-me..
      E o que eu encontrei ao acordar? No um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar.



Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tnhamos coisas em comum.
Trem
Sonhos
Punhos




      Mas h uma coisa estranha.
      A menina diz que eu pareo outra coisa.


      Agora moro num poro.
      Os sonhos ruins ainda vivem no meu sonho.
      Uma noite, aps meu pesadelo habitual, uma sombra ergueu-se sobre mim. - Conte-me o que voc sonha. E eu contei.



Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus prprios sonhos.


      Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversrio, foi ela quem deu um presente a mim.
      Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci no  um homem...

      Valioso
      Valioso
      Valioso (desenho do abrao no "o")
      Movimento da gua
      Luz do dia
      Luz do dia

        No fim de fevereiro, quando Liesel acordou nas primeiras horas da manh, uma figura entrou em seu quarto. Como era tpico de Max, foi o mais prximo possvel
de uma sombra sem som.
        Perscrutando a escurido, Liesel s pde sentir vagamente o homem que se aproximava.
        -        Ol?
        Nenhuma resposta.
        Nada alm do quase silncio de seus ps, quando ele chegou mais perto da caiu e ps as pginas no cho, junto as meias da menina. As pginas estalaram. S
um pouquinho. Uma de suas bordas recurvou-se no cho.
        - Ol?
        Dessa vez, houve uma resposta.
        Liesel no soube dizer exatamente de onde vinham as palavras. O importante foi que chegaram at ela. Chegaram e se ajoelharam junto  cama.
        -        Um presente de aniversrio atrasado. Olhe de manh. Boa noite.
        Por algum tempo, ela vagou para dentro e para fora do sono, j no sabendo ao certo se havia sonhado com a entrada de Max.
        De manh, ao acordar e se virar na cama, viu as pginas descansando no cho. Estendeu a mo e pegou-as, escutando o papel encrespar-se em suas mos de manhzinha.
        Toda a minha vida, tive medo de homens velando sobre mim...
        Ao vir-las, as pginas eram barulhentas, feito esttica em volta da histria escrita.
        Trs dias, disseram-me... E o que encontrei ao acordar?
        L estavam as pginas apagadas de Mein Kampf, amordaadas, sufocando sob a tinta enquanto eram viradas.
        Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci...
        Liesel leu e examinou o presente de Max Vandenburg trs vezes, notando um trao ou uma palavra diferente do pincel a cada uma. Terminada a terceira leitura,
saiu da cama, da maneira mais silenciosa que pde, e foi ao quarto de papai e mame. O espao reservado junto  lareira estava vazio.
        Pensando bem, ela se deu conta de que seria mesmo apropriado - ou, melhor at, perfeito - que lhe agradecesse onde as pginas tinham sido produzidas.
        Desceu a escada do poro. Viu uma fotografia emoldurada imaginria infiltrar-se na parede - um segredo silenciosamente risonho.
        Embora no passasse de alguns metros, foi uma longa caminhada at as mantas de proteo contra respingos e o sortimento de latas de tinta que escudavam Max
Vandenburg. Ela afastou as mantas mais prximas da parede, at haver um pequeno corredor por onde olhar.
         A primeira parte que viu dele foi o ombro e, pela fenda estreita, devagarzinho, dolorosamente, enfiou a mo at apoi-la nele. A roupa estava fria. Max
no acordou.
        A menina sentiu a respirao e o ombro dele, movendo-se bem de leve, para cima e para baixo. Observou-o por algum tempo. Depois, sentou-se e se reclinou.
        O ar sonolento parecia t-la seguido.
        As palavras rabiscadas dos exerccios expunham-se magnificamente na parede ao lado da escada, irregulares, infantis e doces. Ficaram olhando enquanto os
dois dormiam, o judeu escondido e a menina, mo e ombro.
        Os dois respiravam.
        Pulmes alemes e judeus.
        Junto  parede ficou O Vigiador, entorpecido e satisfeito, como um belo anseio aos ps de Liesel Meminger.
     PARTE CINCO
        O ASSOBIADOR
        A P R E S E N T A N D O:
        um livro flutuante
        os jogadores
        um fantasminha
        dois cortes de cabelo
        a juventude de rudy
        azarados e desenhos
        um assobiador e alguns sapatos
        trs atos de estupidez
        e um garoto assustado de pernas geladas

        O LIVRO FLUTUANTE (Parte I)
        Um livro desceu flutuando pelo Rio Amper.
        Um menino pulou na gua, alcanou-o e o segurou com a mo direita. Sorriu.
        Estava afundado at a cintura na glida gua dezembrina.
        - Que tal um beijo, Saumensch?, -- disse.
        O ar em volta era de um frio encantador, fantstico, nauseante, para no falar na dor concreta da gua, que o endurecia dos ps aos quadris.
        Que tal um beijo?
        Que tal um beijo?
        Pobre Rudy.
         PEQUENO AVISO 
        SOBRE RUDY STEINER
        Ele no merecia morrer como morreu.
        Em suas vises, voc v as bordas empapadas do papel, ainda grudadas em seus dedos. V uma franja loura tremendo. E conclui antecipadamente, como faria eu,
que Rudy morreu nesse mesmo dia, de hipotermia. Pois no morreu. Esse tipo de recordao s me faz lembrar que ele no merecia o destino que teve, pouco menos de
dois anos depois.
        Em muitos sentidos, levar um menino como Rudy foi um roubo - tanta vida, tanta coisa por que viver -, mas, de algum modo, tenho certeza de que ele teria
adorado ver os escombros assustadores e a inclinao do cu na noite em que se foi. Teria gritado, rodopiado e sorrido, se ao menos pudesse ver a roubadora de livros
apoiada nas mos e nos joelhos, junto a seu corpo dizimado. Teria ficado contente em v-la beijar seus lbios poeirentos, atingidos pela bomba.
        E, eu sei.
        Na escurido de meu corao tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza.
        Viu?
        At a morte tem corao.

        OS JOGADORES
        (um dado de sete lados)

         claro que estou sendo grosseira. Estragando o fim no apenas do livro inteiro, mas desse seu pedao em particular. Dei a voc dois acontecimentos de antemo
porque no tenho muito interesse em construir mistrios. O mistrio me entedia. D trabalho. Sei o que acontece, e voc tambm. As maquinaes que nos levam at
l  que me irritam, me deixam perplexa, me interessam e me estarrecem.
        H muitas coisas em que pensar.
        Muitas histrias.
        H, com certeza, um livro chamado O Assobiador, que realmente precisamos discutir, alm de saber exatamente como ele veio a flutuar rio abaixo no Amper,
no perodo que conduziu ao Natal de 1941, Devemos lidar com tudo isso primeiro, no acha?
        Ento, est resolvido. Lidaremos.
        Comeou com um jogo. Role um dado, escondendo um judeu, e  assim que voc vive.  desse jeito.

      O CORTE DE CABELO: MEADOS DE ABRIL DE 1941

        A vida ao menos comeava a imitar a normalidade com mais fora: Hans e Rosa Hubermann discutiam na sala, ainda que a briga fosse muito mais sussurrada do
que costumava ser. Liesel, como era tpico, fazia a espectadora.
        A briga se originara na noite anterior, no poro, onde Hans e Max sentavam-se com latas de tinta, palavras e mantas de proteo contra respingos. Max havia
perguntado se, em algum momento, Rosa poderia cortar-lhe o cabelo. "Est entrando em meus olhos", dissera, ao que Hans tinha respondido: "Verei o que posso fazer."
        Agora, Rosa vasculhava as gavetas. Suas palavras eram jogadas no marido, junto com o resto da tralha.
        -        Onde est aquela maldita tesoura?
        -        No est na gaveta de baixo?
        -        Essa eu j examinei.
        -        Talvez voc no a tenha visto.
        -        Eu tenho cara de cega? - disse Rosa, que levantou a cabea e gritou: - Liesel!
        - Estou bem aqui.
        Hans se encolheu:
        -        Droga, mulher, por que no me deixa logo surdo?
        -        Calado, Saukerl - e Rosa continuou a vasculhar, dirigindo-se  menina: - Liesel, onde est a tesoura?
        Mas Liesel tambm no fazia idia.
        -        Saumensch, voc  mesmo uma intil, no?
        -        Deixe-a fora disso.
        Mais palavras foram trocadas de um lado para outro, da mulher de cabelos de elstico para o homem de olhos prateados, at Rosa bater a gaveta com fora.
        -        O provvel  que eu faa mesmo tudo errado com ele.
        -        Errado?
        0 pai, quela altura, parecia prestes a arrancar os prprios cabelos, mas manteve a voz num sussurro quase inaudvel.
        -        E quem  que vai v-lo?
        Ele fez que ia falar de novo, mas foi distrado pelo aparecimento plumoso de Max Vandenburg, que, constrangido, parou educadamente no vo da porta. Trazia
sua prpria tesoura e se aproximou, entregando-a no a Hans nem a Rosa, mas  menina de doze anos. Ela era a opo mais calma. Sua boca tremeu por um instante, antes
de ele dizer:
        -        Voc pode?
        Liesel pegou a tesoura e a abriu. Estava enferrujada e brilhosa em reas diferentes. Ela se virou para o pai e, quando este acenou que sim, acompanhou Max
at o poro.
        O judeu sentou-se numa lata de tinta. Ps-se uma pequena manta de proteo contra respingos em seu ombro.
        -        Cometa quantos erros quiser - disse ele.
        0 pai acomodou-se na escada.
        Liesel levantou os primeiros tufos do cabelo de Max Vandenburg.
        Enquanto ia cortando os fios plumosos, estranhou o som da tesoura. No o barulho do corte, mas o rangido de cada lmina de metal ao desbastar cada grupo
de fibras.
         Terminado o trabalho, meio drstico nuns pontos, meio torto em outros, ela subiu com o cabelo nas mos e o jogou no fogo. Riscou um fsforo e observou
o montinho encolher-se e afundar, laranja e vermelho.
        Max estava de novo  porta, dessa vez no alto da escada do poro.
        -        Obrigado, Liesel.
        Sua voz soou alta e rouca, trazendo como que embutido um sorriso oculto. Mal falou, ele tornou a desaparecer, de volta ao subterrneo.

       O JORNAL: INCIO DE MAIO

        -        H um judeu no meu poro.
        -        H um judeu. No meu poro.
        Sentada no piso da sala repleta de livros do prefeito, Liesel Meminger ouviu essas palavras. A seu lado havia um saco de roupa para lavar, e a figura fantasmagrica
da mulher do prefeito sentava-se  escrivaninha, recurvada como um bbado. A sua frente, Liesel lia O Assobiador, pginas 22 e 23. Olhou para cima. Imaginou-se andando
at l, afastando delicadamente para o lado o cabelo fofo e murmurando no ouvido da mulher:
        - H um judeu no meu poro.
        Enquanto o livro tremia em seu colo, o segredo sentou-se em sua boca. Acomodou-se. Cruzou as pernas.
        -        Est na hora de eu ir para casa.
        Dessa vez, ela falou de verdade. Suas mos tremiam. Apesar de um vestgio de sol ao longe, uma brisa suave soprava pela janela aberta, aliada  chuva, que
entrava feito serragem.
        Quando Liesel reps o livro em seu lugar, a cadeira da mulher arranhou o cho e ela se aproximou. Era sempre assim, no final. Os anis delicados de rugas
pesarosas alargaram-se por um instante, quando ela estendeu a mo e tornou a pegar o livro.
        Ofereceu-o  menina.
        Liesel recuou, tmida.
        -        No, obrigada - disse. - Tenho livros que cheguem em casa. Talvez noutra ocasio. Estou relendo uma coisa com meu pai. A senhora sabe, o que roubei
da fogueira naquela noite.
        A mulher do prefeito assentiu com a cabea. Se havia uma coisa a dizer sobre Liesel Meminger, era que seus roubos no eram gratuitos. Ela s furtava livros
com base no que sentia ser uma necessidade de t-los. Nessa ocasio, tinha um nmero suficiente. J lera quatro vezes Os homens de lama e vinha desfrutando de seu
reencontro com O Dar de Ombros. Alm disso, toda noite, antes de dormir, abria um guia infalvel para a escavao de sepulturas. Enterrado em suas profundezas residia
O Vigiador. Liesel enunciava as palavras em silncio e tocava nos pssaros. Virava as pginas barulhentas, devagar.
        -        At logo, Frau Hermann.
        Saiu da biblioteca, percorreu o corredor de tbuas e cruzou a monstruosa porta de entrada. Como era seu hbito, deteve-se por alguns momentos nos degraus,
olhando para Molching, l embaixo. Nessa tarde, a cidade estava coberta de uma neblina amarela, que afagava os telhados como se fossem animais de estimao e enchia
as ruas feito um banho.
        Ao chegar  Rua Munique, a menina que roubava livros desviou-se dos homens e mulheres de guarda-chuvas - uma garota de capa de chuva que abria caminho de
uma lata de lixo para outra, sem a menor vergonha. Com a regularidade de um relgio.
        -        Achei!
        Riu para as nuvens acobreadas, comemorando, antes de estender a mo e pegar o jornal mutilado. Embora a primeira e a ltima pginas estivessem riscadas de
negras lgrimas de tinta, ela o dobrou ao meio com cuidado e o enfiou embaixo do brao. Tinha sido assim toda quinta-feira, nos ltimos meses.
        Agora, a quinta-feira era o nico dia de entrega que restava a Liesel Meminger e, em geral, ele fornecia algum tipo de dividendo. Ela no conseguia empanar
a sensao de vitria, toda vez que encontrava um Expresso de Molching, ou qualquer outra publicao. Achar um jornal era um bom dia. Se era um jornal em que no
tinham feito as palavras cruzadas, era um grande dia. A menina voltava para casa, fechava a porta e o levava l embaixo para Max Vandenburg.
        -        E as palavras cruzadas? - perguntava ele.
        -        Vazias.
        -        Excelente.
        O judeu sorria ao aceitar o pacote de papel e comeava a l-lo,  luz racionada do poro. Muitas vezes, Liesel o observava concentrado na leitura do jornal,
fazendo as palavras cruzadas e comeando a rel-lo, de trs para frente.
        Com o tempo mais quente, Max ficava no subsolo o tempo todo. Durante o dia, a porta do poro ficava aberta, para que a pequena rstia de luz do corredor
pudesse alcan-lo. O corredor em si no era exatamente ensolarado, mas, em certas situaes, a gente aceita o que consegue. A luz tristonha era melhor do que nenhuma,
e eles precisavam ser frugais. O querosene ainda no se aproximara de um nvel perigosamente baixo, mas era melhor reduzir seu uso ao mnimo.
        Liesel costumava sentar-se em mantas de proteo. Ficava lendo enquanto Max terminava as palavras cruzadas. Sentavam-se a poucos metros de distncia, falando
muito raramente, e s havia mesmo o barulho das pginas virando. Muitas vezes, ela tambm deixava seus livros para Max ler, no horrio em que ia  escola. Enquanto,
em ltima instncia, Hans Hubermann e Erik Vandenburg tinham-se unido pela msica, Max e Liesel eram unidos pela reunio silenciosa de palavras.
        -        Oi, Max.
        -        Oi, Liesel,
        Eles sentavam e liam.
        Vez por outra, ela o observava. Decidiu que a melhor maneira de resumi-lo era como uma imagem de plida concentrao. Pele de tom bege. Um pntano em cada
olho. E respirava feito um fugitivo. Desesperado, mas mudo. S o peito  que o denunciava como um ser vivo.
        Cada vez mais, Liesel fechava os olhos e pedia a Max que lhe fizesse perguntas sobre as palavras que ela errava continuamente, e xingava quando estas ainda
lhe escapavam. Depois, punha-se de p e pintava essas palavras na parede, em qualquer lugar, at doze vezes. Juntos, Max Vandenburg e Liesel Meminger aspiravam o
odor de tinta e cimento.
        -        Tchau, Max.
        -        Tchau, Liesel.
        Na cama, ela ficava acordada, a imagin-lo l embaixo no poro. Em suas vises noturnas, ele sempre estava inteiramente vestido, inclusive de sapatos, para
o caso de precisar fugir de novo. Dormia com um olho aberto.




      A METEOROLOGISTA: MEADOS DE MAIO

         Liesel abriu a porta e a boca, simultaneamente.
        Na Rua Himmel, seu time havia arrasado o de Rudy por 6 X 1 e, triunfante, ela irrompeu na cozinha, contando tudo  me e ao pai sobre o gol que havia marcado.
Em seguida, desceu correndo ao poro para descrev-lo passe a passe a Max, que baixou o jornal, ouviu atentamente e riu com a menina.
        Concluda a histria do gol, fez-se silncio por uns bons minutos, at Max levantar lentamente os olhos.
        -        Quer fazer uma coisa para mim, Liesel?
        Ainda empolgada com seu gol na Rua Himmel, a menina pulou das mantas de proteo. No o disse, mas seu movimento deixou clara a sua inteno de fornecer
exatamente o que ele quisesse.
        -        Voc me contou tudo sobre o gol - disse Max - mas no sei que tipo de dia est fazendo l em cima. No sei se voc fez o gol ao sol, ou se as nuvens
cobriam tudo.
        Passou a mo pelo cabelo  escovinha, e seus olhos alagadios imploraram a mais simples das coisas:
        -        Voc pode subir e me dizer como est o tempo?
        Naturalmente, Liesel subiu a escada correndo. Parou perto da porta manchada de cuspe e se virou ali mesmo, observando o cu. Ao voltar para o poro, contou-lhe:
        -        Hoje o cu est azul, Max, e tem uma nuvem grande e comprida, espichada feito uma corda. Na ponta dela, o sol parece um buraco amarelo...
        Naquele momento, Max soube que s uma criana seria capaz de lhe fornecer um boletim meteorolgico desses. Na parede, pintou uma corda comprida e cheia de
ns, com um sol amarelo e gotejante na ponta, como se fosse possvel mergulhar dentro dele. Na nuvem encordoada, desenhou duas figuras - uma menina magra e um judeu
murcho -, e os dois caminhavam, equilibrando os braos, em direo ao sol gotejante. Sob o desenho, Max escreveu esta frase:
         AS PALAVRAS DE MAX VANDENBURG 
        ESCRITAS NA PAREDE
        Era segunda-feira, e eles andavam na corda bamba em direo ao sol.


        O BOXEADOR: FIM DE MAIO
        Para Max Vandenburg, havia o cimento frio e muito tempo para passar com ele.
        Os minutos eram cruis.
        As horas eram um castigo.
        Erguendo-se sobre ele, em todos os momentos de viglia, havia a mo do tempo, que no hesitava em atorment-lo. Sorria, apertava e o deixava viver. Que grande
maldade podia haver em se deixar uma coisa viva!
        Pelo menos uma vez por dia, Hans Hubermann descia a escada do poro e partilhava uma conversa. Vez por outra, Rosa levava uma sobra de crosta de po. Mas
era na hora que Liesel descia que Max tornava a se descobrir mais interessado na vida. A princpio, tentou resistir, mas foi ficando mais difcil a cada dia que
a menina aparecia, sempre com um novo boletim meteorolgico, fosse de cu azul puro e nuvens de papelo, fosse de um sol que havia irrompido como Deus empanzinado,
sentando-se depois de ter comido demais no jantar.
        Quando Max ficava s, sua sensao mais clara era a de estar desaparecendo. Todas as suas roupas eram cinzentas - houvessem ou no comeado assim -, desde
as calas at o suter de l e o palet, que agora escorria dele feito gua. O rapaz verificava com freqncia se sua pele estava escamando, pois era como se ele
estivesse em processo de dissoluo.
        O que precisava era de uma srie de projetos novos. O primeiro foi o exerccio. Ele comeou pelas flexes, deitando de bruos no piso frio do poro e iando
o corpo para cima. Seus braos pareciam estalar em cada cotovelo, e ele imaginou o corao a lhe escoar do corpo e cair pateticamente no cho. Quando adolescente,
em Stuttgart, Max era capaz de fazer cinqenta flexes de cada vez. Agora, aos vinte e quatro anos e talvez uns sete quilos abaixo de seu peso normal, mal conseguia
chegar a dez. Passada uma semana, j completava trs conjuntos de dezesseis flexes e vinte e duas abdominais. Ao terminar, sentava-se encostado na parede do poro,
com seus amigos feitos de latas de tinta, sentindo a pulsao nos dentes. Seus msculos pareciam uma crosta.
         s vezes ele se perguntava se valia mesmo a pena forar-se daquela maneira. Noutras, porm, quando seus batimentos cardacos se normalizavam e seu corpo
voltava a ser funcional, ele apagava a lamparina e ficava de p nas brumas do poro.
        Max tinha vinte e quatro anos, mas ainda era capaz de fantasiar.
        -        No canto azul - comentava baixinho -, temos o campeo do mundo, a obra-prima ariana: o Fhrer.
        Respirava fundo e se virava.
        -        E, no canto vermelho, temos o desafiante judeu com cara de rato: Max Vandenburg.
        A sua volta, tudo se materializava.
        A luz branca baixava sobre o ringue de boxe e a multido se punha a murmurar - aquele som mgico de muitas pessoas, todas falando ao mesmo tempo. Como podiam
as pessoas ter tanto a dizer ao mesmo tempo? O ringue em si era perfeito.
        Lona perfeita, cordas encantadoras. At os fios soltos de cada corda grossa eram impecveis, cintilando  luz branca e dura. O salo cheirava a cigarros
e cerveja.
        Na diagonal, Adolf Hitler postou-se num canto com seus auxiliares. Suas pernas protuberavam de um roupo vermelho e branco, com uma sustica negra gravada
nas costas. O bigode era bordado em seu rosto. Algumas palavras lhe foram murmuradas por seu treinador, Goebbels. Ele saltitou de um p para o outro e sorriu. Sorriu
ainda mais quando o locutor do ringue listou suas muitas realizaes, todas vociferantemente aplaudidas pela multido adoradora.
        -        Invicto! - proclamou o mestre-de-cerimnias no ringue. - Contra muitos judeus e contra qualquer outra ameaa ao ideal alemo! Herr Fhrer, ns o
saudamos! - concluiu. Na multido: tumulto.
        Em seguida, quando todos se haviam acalmado, veio o desafiante.
        O apresentador virou-se para Max, sozinho no canto do desafiante. Nada de roupo. Nada de auxiliares. Apenas um jovem judeu solitrio de respirao maculada,
peito nu, ps e mos cansados. Naturalmente, seu calo era cinza. Tambm ele se mexeu de um p para o outro, mas o mnimo possvel, para conservar a energia. Havia
suado muito no ginsio para chegar ao peso certo.
        -        O desafiante! - disse o mestre-de-cerimnias. - De - e fez uma pausa, para dar mais efeito - sangue judaico.
        A multido apupou, como vampiros humanos.
        -        Pesando...
        O resto da fala no se fez ouvir. Foi abafado pelos insultos da platia, e Max viu seu adversrio tirar o roupo e se encaminhar para o centro do ringue,
para ouvir as regras e trocar um aperto de mos.
        -        Guten Tag, Herr Hitler - disse Max, com um aceno de cabea, mas o Fhrer apenas lhe mostrou os cientes amarelos, depois tornou a cobri-los com os
lbios.
        -        Senhores - comeou um rbitro robusto, de calas pretas e camisa azul. Uma gravata-borboleta grudava-se em sua garganta. - Em primeiro lugar, queremos
uma luta boa e limpa - e se dirigiu ao Fhrer. - A menos,  claro, Herr Hitler, que o senhor comece a perder. Caso isso ocorra, estarei perfeitamente disposto a
fechar os olhos para qualquer ttica inescrupulosa que o senhor queira empregar para triturar na lona esse fedor e imundcie judaicos - e baixou a cabea, com grande
cortesia. - Est claro?
        O Fhrer disse ento sua primeira palavra. - Cristalino.
        A Max o rbitro fez uma advertncia:
        - Quanto a voc, meu amiguinho judeu, eu agiria com muita cautela, no seu lugar. Muita cautela mesmo - e os dois foram mandados de volta para seus respectivos
cantos.
        Seguiu-se um breve silncio.
        O gongo.
        O primeiro a avanar foi o Fhrer, de pernas desajeitadas e ossudo, correndo para Max e dando-lhe um jabe firme no rosto. A multido vibrou, com o gongo
ainda soando em seus ouvidos, e seus sorrisos satisfeitos pularam as cordas. O hlito enfumaado de Hitler saiu em vapor de sua boca, enquanto suas mos esmurravam
o rosto de Max, atingindo-o vrias vezes, na boca, no nariz, no queixo - e Max ainda nem se arriscara a sair de seu canto. Para absorver o castigo, ele levantou
as mos, mas ento o Fhrer mirou em suas costelas, seus rins, seus pulmes. Ah, os olhos, os olhos do Fhrer. Eram to deliciosamente castanhos - como olhos de
judeus - e to determinados, que at Max ficou hipnotizado por um instante, ao avist-los por entre o borro saudvel das luvas que batiam.
        Houve apenas um assalto, que durou horas, e, em sua maior parte, nada mudou.
        0 Fhrer foi esmurrando o judeu-saco-de-pancada.
        Havia sangue judaico em toda parte.
        Como nuvens vermelhas de chuva sobre a lona branco-celeste a seus ps.
        Por fim, os joelhos de Max comearam a dobrar-se, suas mas do rosto gemeram em silncio, e o rosto encantado do Fhrer continuou a triturar, triturar,
at que, esgotado, surrado e alquebrado, o judeu desabou no cho.
        Primeiro, um bramido. I Depois, silncio.  O rbitro contou. Tinha um dente de ouro e uma pletora de plos no nariz.
        Aos poucos, Max Vandenburg, o judeu, ps-se de p e ficou ereto. Sua voz vacilou. Um convite. - Venha, Fhrer - disse, e, dessa vez, quando Adolf Hitler
partiu para seu adversrio judaico, Max se esquivou e o fez mergulhar no canto. Esmurrou-o vrias vezes, sempre visando uma coisa s.
        O bigode.
        No stimo soco, errou. Foi o queixo do Fhrer que recebeu o golpe. No mesmo instante, Hitler bateu nas cordas e vergou o corpo, arriando de joelhos. Dessa
vez, no houve contagem. O rbitro encolheu-se num canto. A platia desanimou-se, voltando para sua cerveja. De joelhos, o Fhrer verificou se estava sangrando e
endireitou o cabelo, da direita para a esquerda. Quando se reps de p, para grande aprovao da multido de milhares de pessoas, deu um passinho  frente e fez
uma coisa muito estranha. Virou de costas para o judeu e tirou as luvas dos punhos.
        O pblico ficou perplexo.
        -        Ele desistiu - murmurou algum, mas, momentos depois, Adolf Hitler estava em p nas cordas, dirigindo-se  platia.
        -        Meus compatriotas - chamou - vocs esto vendo algo aqui esta noite, no ?
        De peito  mostra e vitria no olhar, apontou para Max.
        -        Esto vendo que enfrentamos algo muito mais sinistro e poderoso do que jamais imaginamos. Vocs enxergam isso?
        -        Sim, Fhrer - veio a resposta.
        -        Percebem que esse inimigo encontrou maneiras, suas maneiras desprezveis, de penetrar em nossa couraa, e que obviamente no posso ficar aqui e
combat-lo sozinho?
        As palavras eram visveis. Caam de sua boca feito pedras preciosas.
        -        Olhem para ele! Dem uma boa olhada! - e todos olharam. Para o ensangentado Max Vandenburg. - Enquanto falamos, ele arquiteta planos para entrar
em seu bairro. Muda-se para a casa ao lado. Infesta vocs com a famlia dele e est prestes a domin-los. Ele - e Hitler o fitou por um instante, enojado - ele logo
ser dono de vocs, at ser ele a ficar no no balco de sua mercearia, mas sentado nos fundos, fumando seu cachimbo. Quando menos esperarem, vocs estaro trabalhando
para ele pelo salrio mnimo, enquanto ele mal conseguir andar, por causa do peso nos bolsos. Vocs vo ficar parados a, simplesmente, e deixar que ele faa isso?
Ficaro olhando, como fizeram seus lderes no passado, quando deram as terras de vocs a todo o mundo, quando venderam seu pas por um punhado de assinaturas? Vocs
vo ficar a, impotentes? Ou - e, nesse momento, subiu para uma corda mais alta - entraro aqui neste ringue comigo?
        Max estremeceu. O horror gaguejou em seu estmago. Adolf acabou com ele.
        -        Vo subir aqui, para podermos derrotar juntos esse inimigo?
        No poro do nmero 33 da Rua Himmel, Max Vandenburg sentiu os punhos de uma nao inteira. Um por um, eles subiram no ringue e o espancaram. Fizeram-no sangrar.
Deixaram que sofresse. Milhes deles - at que, pela ltima vez, quando juntou foras para ficar de p...
        Viu a pessoa seguinte atravessar as cordas. Era uma menina, e, quando ela cruzou devagar a lona, Max notou uma lgrima a lhe rasgar a face esquerda. Na mo
direita havia um jornal.
        -        As palavras cruzadas - disse ela, delicadamente: - esto em branco - e estendeu o jornal a Max.
        Escurido.
        Agora, nada alm de escurido.
        Apenas poro. Apenas judeu,

      O NOVO SONHO: ALGUMAS NOITES DEPOIS

        Era de tarde. Liesel desceu a escada do poro. Max j fizera metade de suas flexes. Ela observou um pouco, sem que ele soubesse, e, quando se aproximou
e sentou a seu lado, o rapaz se levantou e se encostou na parede.
        -        J lhe contei - perguntou ele - que tenho tido um novo sonho, ultimamente?
        Liesel mudou um pouco de posio, para ver o rosto de Max.
        - Mas esse eu sonho quando estou acordado - e fez sinal para a lamparina de querosene sem brilho. - s vezes, apago a luz. E ento fico aqui e espero.
        -        O qu? Max a corrigiu.
        -        No o qu. Quem.
        Por alguns instantes, Liesel ficou calada. Era uma daquelas conversas que precisam que um tempo se escoe entre um dito e outro.
        -        Quem voc espera? Max no se mexeu.
        -        O Fhrer - disse, em tom muito displicente. - E para isso que estou treinando.
        -        As flexes?
        -        Isso mesmo.
        Andou at a escada de concreto.
        -        Toda noite, espero no escuro e o Fhrer desce essa escada. Vem at aqui, e ele e eu lutamos por horas.
        Agora Liesel estava de p.
        - Quem ganha?
        Primeiro, ele ia dizer que ningum ganhava, mas ento notou as latas de tinta, as mantas de proteo contra respingos e a pilha crescente de jornais na periferia
de sua viso. Observou as palavras, a nuvem comprida e os desenhos na parede.
        -        Sou eu - disse.
        Voltou como se lhe tivesse aberto a palma da mo, posto as palavras dentro dela e tornado a fech-la.
        No subsolo, em Molching, na Alemanha, duas pessoas paradas conversavam num poro. Parece o comeo de uma piada:
        -        Um judeu e uma alem esto parados num poro, certo?...
        Mas aquilo no era piada.

       OS PINTORES: COMEO DE JUNHO
        Outro projeto de Max era o restante de Mein Kampf. Cada pgina era delicadamente arrancada do livro e estendida no cho, para receber uma camada de tinta.
Depois, era pendurada para secar e reposta entre a primeira e a ltima capas. Um dia, quando desceu ao voltar da escola, Liesel encontrou Max, Rosa e o pai, todos
pintando vrias pginas. Muitas delas j estavam penduradas numa corda esticada, presas por pregadores, como devia ter acontecido com O Vigiador. Os trs levantaram
os olhos e falaram.
        -        Oi, Liesel.
        -        Tome um pincel, Liesel.
        -        J estava na hora, Saumensch. Onde foi que demorou tanto?
        Ao comear a pintar, Liesel pensou em Max Vandenburg lutando com o Fhrer, exatamente como ele havia explicado.
         VISES DO PORO, JUNHO DE 1941 
        Desferem-se socos, a multido salta das paredes.
        Max e o Fhrer lutam pela vida, ambos recuando da escada.
        H sangue no bigode do Fhrer, assim como
        no repartido do cabelo, do lado direito da cabea.
        - Venha, Fhrer - diz o judeu. Faz sinal para que ele avance. - Venha, Fhrer.
        Quando as vises se dissiparam e ela terminou a primeira pgina, o pai deu-lhe uma piscadela. A me a repreendeu por ter exagerado na tinta. Max examinou
cada uma das pginas, talvez observando o que planejava produzir nelas. Passados muitos meses, tambm pintaria a capa do livro e lhe daria um novo ttulo, baseado
numa das histrias que escreveria e ilustraria nele.
        Nessa tarde, no piso secreto abaixo do nmero 33 da Rua Himmel, os Hubermann, Liesel Meminger e Max Vandenburg prepararam as pginas de A Sacudidora de Palavras.
        Era bom ser pintor.

       A HORA DA VERDADE: 24 DE JUNHO


        Ento veio a stima face do dado. Dois dias depois de a Alemanha invadir a Rssia. Trs dias antes de a Gr-Bretanha e os soviticos unirem foras.
        Sete.
        Voc o joga e o v chegando, e percebe com clareza que no se trata de um dado comum. Diz que foi azar, mas sabia o tempo todo que ele teria que vir. Voc
o introduziu na sala. A mesa farejou-o em seu hlito. O judeu projetava-se de seu bolso desde o comeo. Sujou sua lapela e, no momento de jogar, voc sabe que 
um sete - a nica coisa que, de algum modo, encontra um jeito de feri-lo. O dado cai. Fita voc nos dois olhos,, miraculoso e repugnante, e voc desvia o olhar enquanto
ele lhe devora o peito.
        Um simples azar.
          o que voc diz.
        Sem a menor importncia.
         nisso que voc se faz acreditar - porque, no fundo, sabe que essa pequena mudana da sorte  um sinal das coisas que esto por vir. Voc esconde um judeu.
Voc paga. De um modo ou de outro, tem que pagar.
        Olhando para trs, Liesel disse a si mesma que no foi to importante assim. Talvez tenha sido porque aconteceram muitas outras coisas na poca em que ela
escreveu sua histria no poro. No esquema geral das coisas, ela ponderou que o fato de Rosa ser despedida pelo prefeito e sua mulher no teve nada de azar. No
teve nada a ver com esconder judeus. Teve tudo a ver com o contexto maior da guerra. Na poca, entretanto, decididamente houve uma sensao de castigo.
        O comeo, na verdade, foi cerca de uma semana antes de 24 de junho. Liesel catou um jornal para Max Vandenburg, como sempre fazia. Vasculhou uma lata de
lixo pertinho da Rua Munique e o enfiou embaixo do brao. Depois que o entregou a Max e ele iniciou sua primeira leitura, o rapaz a olhou e apontou para uma fotografia
na primeira pgina.
        -        No  para esse que voc entrega a roupa lavada e passada?
        Liesel afastou-se da parede. Estivera escrevendo seis vezes a palavra argumento, ao lado do desenho que Max fizera da nuvem encordoada e do sol gotejante.
Max entregou-lhe o jornal e a menina confirmou.
        -         ele.
        Quando ela leu o artigo, o texto informava que Heinz Hermann, o prefeito, tinha dito que, embora a guerra estivesse progredindo esplendidamente, o povo de
Molching, como todos os alemes responsveis, devia tomar providncias adequadas e se preparar para a possibilidade de tempos mais difceis. "Nunca se sabe", declarou
ele, "o que nossos inimigos esto pensando, ou como tentaro nos debilitar."
        Uma semana depois, as palavras do prefeito frutificaram de forma execrvel. Como sempre fazia, Liesel apareceu na Grande Strasse e leu O Assobiador no cho
da biblioteca do prefeito. A mulher do prefeito no deu nenhum sinal de anormalidade (ou, sejamos francos, nenhum sinal a mais), at a hora da partida.
        Dessa vez, ao oferecer O Assobiador a Liesel, insistiu em que a menina o aceitasse.
        -        Por favor.
        Quase implorou. O livro era segurado por um punho apertado, comedido.
        -        Leve-o. Por favor, leve-o.
        Comovida pela estranheza da mulher, Liesel no suportou decepcion-la mais uma vez. O livro de capa cinza e pginas amareladas passou para sua mo, e ela
comeou a percorrer o corredor. Quando estava prestes a perguntar pela roupa suja, a mulher do prefeito deu-lhe um ltimo olhar de arrependimento envolto em roupo.
Abriu uma gaveta da cmoda e tirou um envelope. Sua voz, encaroada pela falta de uso, tossiu as palavras.
        -        Sinto muito.  para a sua mame.
        Liesel parou de respirar.
        Sbito, percebeu a sensao de vazio em seus ps, dentro das meias. Alguma coisa exps sua garganta ao ridculo. Ela tremeu. Quando enfim estendeu a mo
e apossou da carta, notou o som do relgio da biblioteca. Sombriamente, apercebeu de que os relgios nem de longe produziam um som que se assemelhasse a um tique-taque.
Era mais um som de martelo invertido, batendo metodicamente na terra. Um som de sepultura. Ah, se a minha estivesse pronta agora!, pensou - porque, nesse momento,
Liesel Meminger teve vontade de morrer. Quando os outros haviam cancelado o servio, no tinha dodo tanto. Ainda restavam o prefeito, sua biblioteca e ligao de
Liesel com a mulher dele. Alm disso, esse era o ltimo fregus, a ltima esperana, acabada. Dessa vez, a sensao foi a da pior das traies.
        Como  que ela iria enfrentar a me?
        Para Rosa, aqueles poucos retalhos de dinheiro ainda haviam ajudado em vrios apertos. Um punhado a mais de farinha. Um pedao de gordura.
        Agora, a prpria Ilsa Hermann morria... de vontade de se livrar dela. Liesel sentiu isso em algum lugar, no modo como a mulher apertou um pouco mais o roupo.
O acanhamento do pesar ainda a mantinha a uma pequena distncia, mas estava claro que ela queria acabar com aquilo.
        -        Diga a sua mame - tornou a falar. Agora sua voz se adaptava,  medida que uma frase se transformava em duas - que ns lamentamos.
        E comeou a conduzir a menina at a porta.
        Foi quando Liesel a sentiu nos ombros.
        A dor, o impacto da rejeio final.
         assim?, perguntou-se, internamente. A senhora s me d um pontap?
        Com vagar, pegou o saco vazio e andou lentamente para a porta. Do lado de for; virou-se e fitou a mulher do prefeito pela penltima vez naquele dia. Olhou-a
nos olhos, com um jeito quase selvagem de orgulho.
        -        Danke schn - disse, e Ilsa Hermann deu-lhe um sorriso intil, desolado.
        -        Se um dia voc quiser vir aqui s para ler - mentiu a mulher (ou, pelo menos em seu estado de choque e tristeza, a menina o percebeu como uma mentira)
-, ser muito bem-vinda.
        Nesse momento, Liesel admirou-se com a largura do vo da porta. Um espao enorme me. Por que as pessoas precisavam de tanto espao para cruzar uma porta?
Se Rudy estivesse ali, t-la-ia chamado de idiota - era para levar todas as coisas deles para dentro.
        -        Adeus - disse a menina, e devagar, com grande tristeza, a porta se fechou.
        Liesel no foi embora.
        Durante muito tempo, sentou-se num degrau da escada e observou Molching.
         No fazia calor nem frio, e a cidade estava lmpida e imvel. Molching jazia dentro de um frasco.
        A menina abriu a carta. Nela, o prefeito Heinz Hermann resumia, em termos diplomticos, a razo exata por que tinha de dispensar os servios de Rosa Hubermann.
Basicamente, explicou que ele seria hipcrita se mantivesse seus prprios pequenos luxos, enquanto aconselhava os outros a se prepararem para tempos mais difceis.
        Quando enfim Liesel se levantou e foi andando para casa, seu momento de reao veio mais uma vez, ao ver a tabuleta STEINER - SCHNEIDERMEISTER na Rua Munique.
A tristeza a abandonou e ela foi tomada de raiva.
        -        Aquele prefeito patife - resmungou. - Aquela mulher pattica.
        A aproximao de tempos difceis era, com certeza, a melhor razo para manter Rosa empregada, mas no, eles a haviam despedido. De qualquer modo, decidiu
Liesel, eles que lavassem e passassem a porcaria da sua roupa, feito as pessoas normais. Feito os pobres.
        Em sua mo, O Assobiador ficou mais apertado.
        -        Quer dizer que a senhora me d o livro - disse a menina - por pena, para se sentir melhor...
        O fato de o livro tambm ter-lhe sido oferecido antes tinha pouca importncia.
        Ela fez meia-volta, como j acontecera uma vez, e marchou para o nmero 8 da Grande Strasse. A tentao de correr era imensa, mas Liesel se conteve, para
ter bastante flego de reserva para as palavras.
        Quando chegou, decepcionou-se com o fato de o prprio prefeito no estar em casa. No havia um carro cuidadosamente estacionado no acostamento, o que talvez
tenha sido bom. Se estivesse ali, no h como dizer o que Liesel teria feito com ele, nesse momento de ricos contra pobres.
        Dois degraus de cada vez, ela chegou  porta e bateu com tanta fora que chegou a doer. E gostou dos pequenos fragmentos de dor.
        E evidente que a mulher do prefeito ficou chocada ao rev-la. Seu cabelo fofo estava ligeiramente molhado e suas rugas se alargaram, quando ela notou a fria
bvia no rosto comumente plido de Liesel. Ilsa Hermann abriu a boca, porm no saiu nada, o que foi conveniente, na verdade, porque a fala era de Liesel.
        -        A senhora acha que pode me comprar com este livro? -- disse a menina. Sua voz, embora abalada, agarrou-se ao pescoo da mulher. A raiva cintilante
era espessa e desanimadora, mas Liesel batalhou. Agitou-se ainda mais, a ponto de precisar enxugar as lgrimas dos olhos.
        -        A senhora me d essa Saumensch de livro e acha que ficar tudo bem, quando eu disser a minha me que acabamos de perder nossa ltima freguesa? Enquanto
a senhora fica aqui sentada na sua manso?
        Os braos da mulher do prefeito.
        Penderam.
        Seu rosto despencou.
        Mas Liesel no se curvou. Borrifou as palavras diretamente nos olhos da mulher.
        -        A senhora e seu marido. Sentados aqui no alto.
        Nessa hora, tornou-se vingativa. Mais vingativa e perversa do que se imaginava capaz. A ofensa das palavras. Sim, a brutalidade das palavras.
        Ela as pegou de algum lugar que s nesse momento reconheceu e atirou-as em Ilsa Hermann.
        -        J est mesmo na hora - informou-a - de a senhora lavar a porcaria da sua roupa. Est na hora de enfrentar o fato de que o seu filho est morto.
Ele morreu! Foi estrangulado e retalhado h mais de vinte anos! Ou ser que morreu congelado? De qualquer jeito, ele est morto! Est morto e  ridculo a senhora
ficar aqui sentada, tremendo dentro de casa, para sofrer por causa disso. A senhora pensa que  a nica?
        Imediatamente.
        O irmo postou-se ao lado dela.
        Sussurrou para que Liesel parasse, mas tambm ele estava morto, e no valia a pena dar-lhe ouvidos. Ele morreu num trem. Foi enterrado na neve.
        Liesel deu-lhe uma olhadela, mas no conseguiu fazer-se parar. Ainda no.
        -        Este livro - continuou. Empurrou o menino escada abaixo, fazendo-o cair. - No o quero.
        As palavras estavam mais baixas, mas ainda acaloradas como antes. Liesel atirou O Assobiador nos ps da mulher, metidos em chinelas, e ouviu seu baque quando
ele bateu no cimento.
        -        No quero o infeliz do seu livro...
        E ento conseguiu. Calou-se.
        Agora, tinha a garganta estril. Sem nenhuma palavra em quilmetros.
        Seu irmo, segurando o joelho, desapareceu.
        Aps uma pausa abortada, a mulher do prefeito deu um passinho  frente e apanhou o livro. Estava machucada e abatida, e no por sorrir, dessa vez. Liesel
pde v-lo em seu rosto. Havia sangue a lhe escorrer do nariz e lhe empastar os lbios. Seus olhos tinham-se arroxeado. Cortes se abriram e uma srie de ferimentos
aflorou  superfcie da pele. Tudo por causa das palavras. Das palavras de Liesel.
        De livro na mo e levantando do agachamento para uma postura encurvada, Ilsa Hermann reiniciou o processo de pedir desculpas, mas a frase no conseguiu sair.
        Bata-me, pensou Liesel. Ande, me d uma bofetada.
        Ilsa Hermann no a esbofeteou. Meramente recuou para o ar pesado de sua linda casa, e Liesel, mais uma vez, ficou sozinha, agarrada aos degraus. Sentiu medo
de se virar, porque sabia que, quando o fizesse, a redoma de Molching estaria estilhaada, e ela se alegraria com isso,

        Como sua ltima tarefa, ela leu a carta mais uma vez e, ao chegar perto do porto, amassou-a com toda a fora que tinha e a atirou na porta, como se fosse
uma pedra. No fao idia do que esperava a menina que roubava livros, mas a bola de papel atingiu a slida folha de madeira e voltou tremelicando escada abaixo.
Parou a seus ps.
        -         tpico - disse Liesel, chutando-a na grama. - Intil.
        A caminho de casa, dessa vez, imaginou o destino daquele papel na prxima chuva, quando a estufa remendada de Molching virasse de pernas para o ar. J podia
ver as palavras se dissolvendo, letra a letra, at no sobrar mais nada. S papel. Apenas terra.
        Em casa, quis a sorte que, quando Liesel cruzou a porta, Rosa estivesse na cozinha.
        -        E ento? - perguntou. - Onde est a roupa?
        -        Hoje no tem roupa - disse Liesel.
        Rosa foi sentar-se  mesa da cozinha. Ela sabia. De repente, pareceu muito mais velha. Liesel imaginou que aparncia teria se soltasse o coque e deixasse
o cabelo cair sobre os ombros. Uma toalha cinzenta de cabelo elstico.
        -        Que foi que voc fez l, sua Saumenschzinha?
        A frase soou desanimada. Rosa no conseguiu temper-la com o veneno habitual.
        -        Foi minha culpa - respondeu Liesel. - Completamente. Insultei a mulher do prefeito e mandei ela parar de chorar o filho morto. Chamei-a de ridcula.
Foi nessa hora que eles despediram voc. Tome - acrescentou. Dirigiu-se s colheres de pau, pegou um punhado delas e as colocou diante de Rosa. - E s escolher.
        Rosa pegou uma delas, mas no a brandiu.
        -        No acredito em voc.
        Liesel sentiu-se dilacerar entre a aflio e a completa perplexidade. Na nica vez em que queria desesperadamente uma Watschen, no a conseguia!
        -        A culpa  minha.
        -        No  sua culpa - disse a me, que at se levantou e afagou o cabelo lustroso e sem lavar de Liesel. - Sei que voc no diria essas coisas.
        -        Mas eu disse!
        -        Est bem, voc disse.
        Ao sair da cozinha, Liesel ouviu as colheres de pau clicarem de volta no lugar, no pote de metal que as guardava. Quando chegou ao quarto, o lote inteiro,
inclusive o pote, foi atirado no cho.
        Mais tarde, ela desceu ao poro, onde Max estava de p no escuro, provavelmente boxeando com o Fhrer.
        -        Max?
        A luz aumentou um pouco - uma moeda vermelha flutuando no canto. -- Pode me ensinar a fazer flexes?
        Max mostrou-lhe como era e, em alguns momentos, levantou o tronco de Liesel para ajudar, mas, apesar da aparncia ossuda, ela era forte e sustentava bem
o peso do corpo. No contou quantas conseguiu fazer, mas, naquela noite, na luz plida de poro, a roubadora de livros fez flexes suficientes para ficar dolorida
por vrios dias Mesmo quando Max lhe avisou que ela j fizera demais, a menina continuou.
        Na cama, leu com o pai, que percebeu haver algo errado. Era a primeira vez que se sentava com ela em um ms, e isso a consolou, nem que fosse um tantinho.
De algum modo, Hans Hubermann sempre sabia o que dizer, quando ficar e quando deix-la sozinha. Talvez Liesel fosse a nica coisa em que ele era realmente perito.
        -        Foi a roupa para lavar? - perguntou Hans.
        Liesel balanou a cabea.
        Fazia alguns dias que o pai no se barbeava, e a cada dois ou trs minutos esfregava os plos prudentes. Seus olhos de prata estavam foscos e calmos, levemente
calorosos, como sempre ficavam quando se tratava de Liesel.
        Terminada a leitura, o pai adormeceu. Foi ento que Liesel falou o que Tivera vontade de dizer o tempo todo.
        -        Papai - murmurou --, acho que eu vou para o inferno.
        As pernas dela estavam quentes. Os joelhos, frios.
        Ela se lembrou das noites em que havia urinado na cama e o pai lavara os lenis e lhe ensinara as letras do alfabeto. Agora, a respirao dele soprava o
cobertor e a menina beijou-lhe o rosto que arranhava.
        -        Voc precisa fazer a barba - disse-lhe.
        -        E voc no vai para o inferno - respondeu o pai.
        Por alguns momentos, ela observou seu rosto. Depois, tornou a se deitar, encostou-se nele e, juntos, os dois dormiram, bem nos arredores de Munique, mas
em algum ponto da stima face do dado da Alemanha.

        A JUVENTUDE DE RUDY
        No fim, ela teve que dar a mo  palmatria. Ele sabia representar.
         RETRATO DE RUDY STEINER: 
        JULHO DE 1941
        Fios de lama grudam-se em seu rosto.
        Sua gravata  um pndulo, morto h muito no relgio.
        Seu cabelo cor de limo, iluminado pela lamparina,
         desgrenhado, e ele exibe um absurdo sorriso tristonho.
        O menino parou a alguns metros do degrau e falou com grande convico, grande alegria.
        - Alies ist Scheisse - anunciou.  tudo uma merda.
        No primeiro semestre de 1941, enquanto Liesel tratava de esconder Max Vandenburg, furtar jornais e desancar mulheres de prefeitos, Rudy suportava sua prpria
vida nova na Juventude Hitlerista. Desde o comeo de fevereiro, voltava das reunies em estado consideravelmente pior do que havia entrado. Em muitos desses trajetos
de volta, Tommy Mller vinha a seu lado, nas mesmas condies. O problema tinha trs componentes.
         UM PROBLEMA TRPLICE 
        1. Os ouvidos de Tommy Mller.
        2. Franz Deutscher, o irado guia da Juventude Hitlerista.
        3. A incapacidade de Rudy de ficar fora das confuses.
        Ah, se Tommy Mller no tivesse sumido por sete horas num dos dias mais frios da histria de Munique, seis anos antes! Suas infeces auditivas e sua leso
no nervo continuavam a deturpar o padro de marcha da Juventude Hitlerista, o que, posso lhe assegurar, no era uma coisa positiva.
        A princpio, o declnio do entusiasmo foi gradativo, mas, com o correr dos meses, Tommy passou a colher sistematicamente a ira dos guias da Juventude Hitlerista,
especialmente quando se tratava de marchar. Lembra-se do aniversrio de Hitler no ano anterior? Por algum tempo, as infeces no ouvido pioraram. Chegaram a um ponto
em que Tommy ficou com autnticos problemas auditivos. No conseguia entender os comandos gritados para o grupo, ao marchar enfileirado. No fazia diferena se era
no salo ou ao ar livre, na neve ou na lama, ou sob a fustigao da chuva.
        O objetivo era sempre o de todos fazerem alto ao mesmo tempo.
        -        Um nico clique! - diziam-lhes. - E s isso que o Fhrer quer ouvir. Todos unidos. Todos juntos, como um s!
        E Tommy.
        Era seu ouvido esquerdo, eu acho. Esse era o mais problemtico dos dois e, quando o grito penetrante de "Alto!" feria os ouvidos de todos os demais, Tommy
continuava a marchar, cmica e desatentamente. Era capaz de transformar uma fileira em marcha numa barafunda, num piscar de olhos.
        Em determinado sbado, no comeo de julho, pouco depois das trs e meia e de uma sucesso de tentativas fracassadas de marchar, inspiradas em Tommy, Franz
Deutscher (o supremo sobrenome para o supremo adolescente nazista) perdeu completamente a pacincia.           - Mller, du Affe!- gritou. Sua densa cabeleira loura
massageava-lhe a cabea, enquanto suas palavras manipulavam o rosto de Tommy. - Seu macaco, qual  o seu problema?
        Tommy encurvou-se, temeroso, mas sua bochecha esquerda ainda conseguiu repuxar-se numa contoro manaca e animada. Ele parecia no apenas rir um risinho
triunfal de chacota, como aceitar o caro com alegria. E Franz Deutscher no estava disposto a nada daquilo. Seus olhos plidos estraalharam Tommy.
        -        Bem? - perguntou. - O que voc tem a dizer a seu favor?
        O tique de Tommy s fez aumentar, em rapidez e profundidade.
        -        Est zombando de mim?
        -        Heil - contorceu-se Tommy, numa tentativa desesperada de obter aprovao, mas no conseguiu chegar ao "Hitler".
        Foi ento que Rudy se adiantou. Enfrentou Franz Deutscher, erguendo os olhos para ele.
        -        Ele tem um problema, senhor...
        -        Isso eu estou vendo!
        -        ...nos ouvidos - concluiu Rudy. - Ele no...
        -        Est bem, j chega - fez Deutscher, esfregando as mos. - Vocs dois: seis voltas no campo.
        Eles obedeceram, mas no com rapidez suficiente.
        -        Schnell! - perseguiu-os a voz de Deutscher.
        Completadas as seis voltas, os dois receberam ordens de fazer uma srie de exerccios, do tipo correr, agachar, levantar e agachar de novo e, aps quinze
longussimos minutos, ouviram a ordem de ir para o cho, pelo que deveria ser a ltima vez.
        Rudy olhou para baixo.
        Um crculo torto de lama lhe sorriu.
        Para que  que est olhando?, parecia perguntar.
        -        No cho! - ordenou Franz.
        Naturalmente, Rudy saltou por cima dela e caiu de bruos.
        -        De p! - sorriu Franz. - Um passo atrs - e obedeceram. - No cho!
        Agora a mensagem estava clara, e Rudy a aceitou. Mergulhou na lama e prendeu, respirao e, nesse momento, com a orelha na terra encharcada, o exerccio
acabou;
        -        Vielen Dank, meine Herren - disse Franz Deutscher, polidamente. Muito obrigado, meus senhores.
        Rudy ps-se de joelhos, escavacou um pouco a orelha e olhou para Tommy. Tommy fechou os olhos e careteou.
        Quando os dois voltaram para a Rua Himmel nesse dia, Liesel pulava amarelinha com algumas crianas menores, ainda usando seu uniforme da BDM. Pelo canto
do olho, ela viu as duas figuras melanclicas andando em sua direo. Uma delas a chamou.
        Encontraram-se na escada da frente da casa dos Steiner, aquela caixa de sapatos de concreto, e Rudy lhe contou tudo sobre o episdio do dia.
        Aps dez minutos, Liesel sentou-se.
        Aps onze minutos, sentado ao lado dela, Tommy disse:
        -        Foi tudo culpa minha - mas Rudy descartou-o com um gesto, num ponto qualquer entre a frase e o sorriso, cortando pela metade uma tira de lama. -
Foi mi... - tentou Tommy outra vez, mas Rudy interrompeu a frase por completo e lhe apontou um dedo.
        -        Tommy, por favor.
        Havia uma expresso peculiar de contentamento no rosto de Rudy. Liesel Nunca tinha visto ningum to infeliz, mas to completamente vivo.
        -        Fique sentadinho a e... faa uma careta ou qualquer coisa - e continuou a histria.
        Andou de um lado para outro.
        Brigou com a gravata,
        As palavras foram lanadas em Liesel, caindo em algum ponto do degrau de concreto.
        -        Aquele tal de Deutscher - resumiu, animado. - Ele nos pegou, hein. Tommy?
        Tommy assentiu com a cabea, fez outro espasmo e falou, no necessariamente nessa ordem:
        -        Foi por minha causa.
        -        Tommy, que foi que eu disse?
        -        Quando?
        -        Agora! Fique quieto.
        -         claro, Rudy.
        Quando Tommy voltou sorumbtico para casa, um pouco depois, Rudy experimentou o que parecia ser uma nova ttica magistral.
        A piedade.
        Na escada, investigou a lama que secara como uma crosta sobre o uniforme e lanou um olhar desamparado a Liesel.
        -        Que tal, Saumensch?
        -        Que tal o qu?
        -        Voc sabe...
        Liesel reagiu da maneira usual.
        -        Saukerl - riu, e percorreu o pequeno trajeto para casa. Uma mescla desconcertante de lama e piedade era uma coisa, mas beijar Rudy Steiner era outra,
inteiramente diferente.
        Com um sorriso tristonho na escada, ele gritou para a menina, enfiando a mo pelo cabelo:
        -        Um dia - alertou-a. - Um dia, Liesel!
        No poro, pouco mais de dois anos depois, s vezes Liesel doa de vontade de ir  casa ao lado e v-lo, mesmo quando escrevia nas primeiras horas da madrugada.
Tambm se deu conta de que, provavelmente, aqueles dias encharcados na Juventude Hitlerista  que haviam alimentado o desejo de cometer crimes de Rudy e, posteriormente,
o dela.
        Por fim, a despeito das chuvaradas de praxe, o vero comeou a chegar como convinha. As mas Klar deviam estar amadurecendo. Havia mais furtos a praticar.

        OS AZARADOS
        Em matria de furto, Liesel e Rudy encasquetaram primeiro a idia de que a segurana estava na quantidade. Andy Schmeikl os convidou para uma reunio  margem
do rio. Entre outras coisas, estaria em pauta uma estratgia para roubar frutas.
        -        Quer dizer que, agora,  voc o chefe? - perguntou Rudy, mas Andy abanou a cabea, carregado de decepo. Estava claro que gostaria de ter cacife
para isso.
        -        No - disse, e sua voz fria tinha um calor inusitado. Mal pensado. - H uma outra pessoa.
         O NOVO ARTHUR BERG 
        Ele tinha cabelos esvoaantes e olhos enevoados,
        e era o tipo de delinqente que
        no tinha outra razo para roubar,
        exceto o fato de que gostava disso.
        Seu nome era Viktor Chemmel.
        Ao contrrio da maioria das pessoas dedicadas s vrias artes da ladroagem, Viktor Chemmel tinha tudo. Morava na melhor parte de Molching, no alto, numa
manso que fora fumigada depois de os judeus serem expulsos. Tinha dinheiro. Tinha cigarros. Porm, o que queria era mais.
        -        No  crime querer um pouquinho mais - afirmava, deitado de costas na grama, com uma patota de meninos a seu redor. - Querer mais  nosso direito
fundamental, como alemes. Que diz o nosso Fhrer? perguntava, e respondia a sua prpria retrica: - Devemos tomar o que  nosso por direito.
        A primeira vista, Viktor Chemmel era, claramente, o tpico adolescente cheio de conversa fiada. Infelizmente, quando se dispunha a revel-lo, possua tambm
um certo carisma, uma espcie de siga-me.
        Quando Liesel e Rudy se aproximaram do grupo  margem do rio, ela o ouviu fazer outra pergunta:
        -        E onde esto os dois desviantes de que voc anda se gabando? J so quatro e dez.
        -        No no meu relgio - respondeu Rudy.
        Viktor Chemmel apoiou-se num dos cotovelos.
        -        Voc no est de relgio.
        -        Eu estaria aqui, se fosse rico o bastante pra ter um relgio?
        O novo chefe acabou de sentar-se e sorriu, com uma fileira de dentes brancos. Em seguida, voltou seu foco displicente para a menina.
        -        E quem  a putinha?
        Muito acostumada aos insultos verbais, Liesel apenas observou a textura nublada dos olhos de Viktor.
        -        Ano passado - listou ela - roubei pelo menos trezentas mas e dezenas de batatas. No tenho dificuldade com cercas de arame farpado e posso ficar
 altura de qualquer um aqui.
        -         mesmo?
        -        .
        Ela no se encolheu nem se afastou.
        -        S peo uma pequena parte do que pegarmos. Uma dzia de mas aqui ou ali. Umas sobras para mim e meu amigo.
        -        Bem, acho que isso pode se arranjar - disse Viktor. Acendeu um cigarro e o levou  boca. Fez um esforo deliberado para soprar a tragada seguinte
no rosto de Liesel.
        Ela no tossiu.
        Era o mesmo grupo do ano anterior, com a nica exceo do chefe. Liesel se perguntou por que nenhum dos outros meninos havia assumido o comando, mas, olhando
de um rosto para outro, percebeu que nenhum deles levava jeito. Eles no tinham escrpulos de roubar, mas precisavam ser mandados. Gostavam de ser mandados, e Viktor
Chemmel gostava de mandar. Era um belo microcosmo.
        Por um momento, Liesel ansiou pelo ressurgimento de Arthur Berg. Ou ser que tambm ele se submeteria  liderana de Chemmel? No tinha importncia. Liesel
s sabia  que no havia um nico osso tirnico no corpo de Arthur Berg, ao passo que o novo chefe tinha centenas deles. No ano anterior, ela soubera que, se ficasse
presa numa rvore, Arthur voltaria para busc-la, mesmo dizendo que no. Nesse ano, em comparao, soube instantaneamente que Viktor Chemmel nem se incomodaria em
olhar para trs.
         Chemmel ficou ali, olhando para o menino desengonado e a menina de aparncia desnutrida.
        -        Quer dizer que vocs querem roubar comigo?
        Que tinham a perder? Fizeram que sim.
        Ele chegou mais perto e segurou o cabelo de Rudy:
        -        Eu quero ouvir.
        -        Decididamente - disse Rudy, antes de ser empurrado de volta pela franja.
        -        E voc?
        -         claro.
        Liesel foi rpida o bastante para evitar o mesmo tratamento. Viktor sorriu. Pisoteou o cigarro, respirou fundo e coou o peito.
        -        Meus senhores, minha cadela, parece que  hora de irmos s compras.
        Quando o grupo saiu andando, Liesel e Rudy ficaram para trs, como sempre tinham feito no passado.
        -        Voc gostou dele? - murmurou Rudy.
        -        E voc?
        Rudy fez uma breve pausa.
        -        Acho que ele  um perfeito cretino.
        -        Eu tambm.
        O grupo j se afastava.
        -        Vamos - disse Rudy. - Estamos ficando para trs.
        Aps alguns quilmetros, chegaram  primeira fazenda. O que os recebeu foi um choque. As rvores, que eles haviam imaginado carregadas de frutas, eram frgeis
e tinham uma aparncia machucada, apenas com um punhadinho de mas miserveis pendendo de cada galho. A fazenda seguinte foi a mesma coisa. Talvez fosse uma estao
ruim, ou eles no tivessem acertado o momento.
        No fim da tarde, ao ser distribudo o produto do roubo, Liesel e Rudy receberam uma ma diminuta para dividir. Com toda a justia, os lucros tinham sido
incrivelmente precrios, mas Viktor Chemmel tambm tinha a mo mais fechada.
        -        Que nome eu dou a isso? - perguntou Rudy, com a ma pousada na palma da mo.
        Viktor nem se virou.
        -        O que lhe parece?
        As palavras foram jogadas por cima do ombro.
        -        Uma porcaria de ma?
        -        Tome - e outra ma, parcialmente comida, tambm foi jogada na direo deles, caindo na terra com a parte comida para baixo. - Vocs tambm podem
ficar com essa.
        Rudy enfureceu-se.
        -        Pro diabo com isso! No andamos quinze quilmetros por uma ma esqueltica e meia, no , Liesel?
        Liesel no respondeu.
        No teve tempo, porque Viktor Chemmel montou em Rudy antes que ela conseguisse proferir uma palavra. Seus joelhos imobilizaram os braos do menino e ele
lhe ps as mos no pescoo. As mas foram catadas por ningum menos do que Andy Schmeikl, a pedido de Viktor.
        -        Voc est machucando ele - disse Liesel.
        -        Estou? - e Viktor voltou a sorrir.
        Ela odiava aquele sorriso.
        -        Ele no est me machucando - precipitaram-se as palavras de Rudy, cujo rosto se avermelhava com o esforo. Seu nariz comeou a sangrar.
        Aps um ou dois instantes de aumento da presso, Viktor o soltou e saiu de cima dele, dando alguns passos descuidados.
        -        Levante, garoto - disse, e Rudy, fazendo a opo sensata, obedeceu.
        Viktor aproximou-se de novo, com displicncia, e o encarou. Deu-lhe uma esfregada de leve no brao. E um sussurro:
        -        A no ser que queira que eu transforme esse sangue numa fonte, sugiro que voc v embora, garotinho.
        Olhou para Liesel:
        -        E leve a putinha com voc. Ningum se mexeu.
        -        Bom, o que esto esperando?
        Liesel pegou a mo de Rudy e os dois se foram, no sem que Rudy se virasse pela ltima vez e cuspisse sangue e saliva nos ps de Viktor Chemmel. O que provocou
um ltimo comentrio.
         UMA PEQUENA AMEAA DE 
        VIKTOR CHEMMEL A RUDY STEINER
        - Voc pagar por isso depois, meu amigo.
        Digam o que disserem de Viktor Chemmel, ele com certeza tinha pacincia e boa memria. Levou aproximadamente cinco meses para transformar sua afirmao em
realidade.

        DESENHOS
        Se o vero de 1941 estava erigindo muros ao redor de gente como Rudy e Liesel, ele se escreveu e se pintou na vida de Max Vandenburg. Em seus momentos mais
solitrios no poro, as palavras comearam a se amontoar a seu redor. As vises comearam a jorrar e cair e, vez por outra, a sair coxeando de suas mos.
        Max dispunha do que chamava de apenas uma raozinha de instrumentos:
        Um livro pintado
        Um punhado de lpis.
        Uma cabea cheia de idias.
        Como um simples quebra-cabea, juntou-as.
        Originalmente, Max havia pretendido escrever sua histria.
        A idia era escrever sobre tudo que lhe acontecera - tudo que o tinha levado a um poro na Rua Himmel -, mas no foi isso que saiu. O exlio de Max produziu
algo inteiramente diverso. Era uma coleo de idias ao acaso, e ele escolheu abra-las. Soavam verdadeiras. Eram mais reais do que as cartas que ele escrevia aos
familiares e a seu amigo Walter Kugler, sabendo perfeitamente que nunca poderia envi-las. As pginas profanadas de Mein Kampf foram-se transformando numa srie
de desenhos, pgina aps pgina, que resumiam, para ele, os acontecimentos que haviam trocado sua vida anterior por outra. Alguns levaram minutos. Outros, horas.
Ele resolveu que, quando terminasse o livro, iria d-lo a Liesel, quando ela tivesse idade suficiente e quando, ao que Max esperava, todo aquele absurdo houvesse
acabado.
         A partir do momento em que testou os lpis na primeira pgina pintada, o judeu manteve o livro permanentemente fechado. Muitas vezes, ele ficava junto de
Max, ou ainda em suas mos quando o rapaz dormia.
        Uma tarde, depois das flexes e abdominais, ele adormeceu, encostado na parede do poro. Quando Liesel desceu, encontrou o livro pousado ao lado dele, inclinado
sobre sua coxa esquerda, e foi vencida pela curiosidade. Inclinou-se e o pegou, esperando que Max se mexesse. No se mexeu. Estava sentado com a cabea e os ombros
encostados na parede. Liesel mal pde discernir o som de sua respirao, deslizando para dentro e para fora dele, quando abriu o livro e vislumbrou algumas pginas
ao acaso...









        Assustada com o que viu, Liesel reps o livro no lugar, exatamente como o encontrara, encostado na perna de Max. Uma voz a assustou.
        -        Danke schn - disse a voz, e, quando a menina olhou, seguindo o rastro do som at seu dono, havia um pequeno toque de satisfao nos lbios do judeu.
        -        Nossa! - arquejou a menina. - Voc me assustou, Max.
        Ele voltou a dormir e, ao subir a escada, Liesel arrastou consigo a mesma idia. Voc me assustou, Max.

        O ASSOBIADOR E  OS  SAPATOS
        O mesmo padro se manteve at o fim do vero e em boa parte do outono. Rudy fez o melhor que pde para sobreviver  Juventude Hitlerista. Max fez flexes
e desenhos. Liesel encontrou jornais e escreveu palavras na parede do poro.
        Tambm vale a pena mencionar que todo padro tem ao menos um pequeno vis, que um dia se inclina ou cai de uma pgina para outra. Nesse caso, o fator dominante
foi Rudy. Ou, pelo menos, Rudy e um campo de esportes recm-adubado.
        No fim de outubro, tudo parecia o de praxe. Um menino imundo descia a Rua Himmel. Em poucos minutos, a famlia aguardaria a sua chegada e ele mentiria, dizendo
que todos em sua diviso da Juventude Hitlerista tinham feito exerccios extras no campo. Seus pais at esperariam algumas risadas. Que no viriam.
        Nesse dia, Rudy havia esgotado inteiramente os risos e mentiras.
        Nessa exata quarta-feira, ao olhar mais de perto, Liesel percebeu que Rudy Steiner estava sem camisa. E furioso.
        -        Que aconteceu? - perguntou-lhe, quando ele passou se arrastando. Rudy retrocedeu e lhe estendeu a camisa.
        -        Cheire - disse.
        -        O qu?
        -        Voc est surda? Eu disse para cheirar.
        Relutante, Liesel se inclinou e captou um bafejo pavoroso cla camisa parda.
        -        Jesus, Maria e Jos! Isso ...?
        O menino acenou que sim,
         -        Tambm est no meu queixo. No meu queixo! Foi sorte eu no t-lo engolido!
        -        Jesus, Maria e Jos.
        -        O campo da Juventude Hitlerista acabou de ser adubado.
        Rudy fez outra avaliao desanimada e enojada da camisa:
        -         estrume de boi, eu acho.
        -        Aquele tal de, como se chama, Deutscher, sabia do estrume?
        -        Disse que no. Mas estava rindo.
        -        Jesus, Maria e...
        -        Quer parar de dizer isso?!
        O que Rudy precisava, quela altura, era de uma vitria. Sara perdendo no trato com Viktor Chemmel. Suportara um problema aps outro na Juventude Hitlerista.
Tudo que queria era uma nesguinha de triunfo, e estava determinado a consegui-la.
        Continuou a andar para casa, mas, ao chegar ao degrau de concreto, mudou de idia e voltou para a menina, devagar e deliberadamente.
        Com cuidado e baixinho, falou:
        -        Sabe o que me animaria?
        Liesel encolheu-se.
        -        Se est pensando que eu vou... nesse estado...
        Rudy pareceu desapontado com ela.
        -        No, no  isso - suspirou, chegando mais perto. -  outra coisa.
        Aps um momento de reflexo, levantou a cabea, s um tantinho.
        -        Olhe para mim. Estou imundo. Fedendo a coc de boi, ou coc de cachorro, conforme a sua opinio, e, como de praxe, estou absolutamente morto de
fome - e fez uma pausa. - Preciso de uma vitria, Liesel. Sinceramente.
        Liesel sabia.
        Teria chegado mais perto, no fosse o cheiro dele.
        Roubar.
        Eles tinham que roubar alguma coisa.
        No.
        Tinham que roubar de volta alguma coisa. No importava o qu. Mas precisava ser logo.
        -        S voc e eu, desta vez - sugeriu Rudy. - Nada de Chemmels nem Schmeikls. S voc e eu.
        A menina no pde resistir.
        Suas mos comichavam, seu pulso disparou e sua boca sorriu, tudo ao mesmo tempo.
        -        Boa idia.
        -        Ento, est combinado - e, embora tentasse evitar, Rudy no conseguiu esconder o sorriso adubado que se alargou em seu rosto. - Amanh?
        Liesel fez que sim.
        -        Amanh.
        O plano era perfeito, exceto por um detalhe:
        Eles no tinham idia de onde comear.
        As frutas estavam fora de questo. Rudy torceu o nariz para as cebolas e as batatas, e os dois barraram a idia de outro assalto a Otto Sturm e sua bicicleta
de mantimentos. Uma vez era imoral. Duas eram uma completa canalhice.
        -        Ento, pr onde diabos ns vamos? - perguntou Rudy.
        -        Como  que eu vou saber? A idia foi sua, no foi?
        -        Isso no significa que voc tambm no deva pensar um pouquinho. No posso pensar em tudo.
        -        Voc mal consegue pensar em alguma coisa...
        Os dois continuaram a discutir enquanto percorriam a cidade. Nos arredores, observaram a primeira fazenda e as rvores que pareciam esttuas emaciadas. Os
galhos eram cinzentos e, quando eles olharam para cima, no havia nada alm de membros esfarrapados e um cu vazio.
        Rudy cuspiu.
        Tornaram a cruzar Molching, fazendo sugestes:
        -        Que tal Frau Diller?
        -        O que tem ela?
        -        Talvez, se dissermos "heil Hitler" e a roubarmos alguma coisa, d tudo certo.
        Depois de vagarem pela Rua Munique durante cerca de uma hora, a luz do dia comeou a esmaecer e eles estavam prestes a desistir.
        -        No adianta - disse Rudy - e estou com mais fome do que nunca. Estou morrendo de fome, pelo amor de Deus.
        Deu mais doze passos antes de parar e virar para trs.
        -        Que h com voc?
         que Liesel estava completamente imvel, e havia um instante de reconhecimento amarrado em seu rosto.
        Por que no havia pensado nisso antes?
        -        O que foi? - insistiu Rudy, impacientando-se. - Saumensch, que est havendo?
        Nesse exato momento, Liesel viu-se diante de uma deciso. Poderia de fato levar a cabo aquilo em que estava pensando? Seria mesmo capaz de se vingar de uma
pessoa desse jeito? Era possvel que desprezasse algum tanto assim?
        Comeou a andar na direo oposta. Quando Rudy a alcanou, ela diminuiu um pouco o passo, na v esperana de enxergar comum pouco mais de clareza. Afinal,
a culpa j estava presente. Era mida. A semente j desabrochava numa flor de folhas escuras. Ela ponderou se realmente conseguiria levar aquilo a cabo. Num cruzamento,
parou.
        -        Sei de um lugar.
        Encaminharam-se para o rio e subiram a colina.
        Na Grande Strasse, absorveram o esplendor das casas. As portas de entrada reluziam, polidas, e as telhas nos telhados acomodavam-se feito perucas, penteadas
 perfeio. As paredes e janelas eram manicuradas, e as chamins quase exalavam anis de fumaa. Rudy fincou os ps.
        -        A casa do prefeito?
        Liesel acenou com a cabea, a srio. Pausa.
        -        Eles despediram minha me.
        Ao dobrarem a esquina em direo  casa, Rudy perguntou como iriam entrar, em nome de Deus, mas Liesel sabia.
        -        Conhecimento do local - respondeu ela. - Conhec...
        Mas ento conseguiram enxergar a janela da biblioteca, no extremo oposto da casa, e Liesel foi saudada por um choque. A janela estava fechada.
        -        E a? - perguntou Rudy.
        Liesel fez meia-volta devagar e saiu correndo.
        -        Hoje no - disse. Rudy riu.
        -        Eu sabia - comentou, alcanando-a. - Eu sabia, sua Saumensch nojenta. Voc no conseguiria entrar l nem que tivesse a chave.
        -        Quer dar licena? - disse ela. Apertou ainda mais o passo e descartou o comentrio de Rudy. - S temos que esperar a oportunidade certa.
        Internamente, procurou livrar-se de uma espcie de alegria pelo fato de a janela estar fechada. Censurou-se com aspereza. Por qu, Liesel?, perguntou a si
mesma. Por que voc tinha que explodir quando despediram a mame? Por que no podia ficar com essa sua matraca fechada? Ao que voc saiba, agora a mulher do prefeito
est completamente reformada, depois de voc gritar e berrar com ela. Talvez tenha se aprumado, tenha se recuperado. Pode ser que nunca mais se permita ficar tremendo
naquela casa e que a janela permanea fechada para sempre... Sua Saumensch idiota!
        Uma semana depois, entretanto, na quinta visita  parte alta de Molching, l estava ela.
        A janela aberta, inspirando uma fatia de ar fresco. Era o quanto bastava.
        Foi Rudy quem parou primeiro. Cutucou Liesel nas costelas, com o dorso da mo.
        -        Aquela janela est aberta? - murmurou. A ansiedade em sua voz pendeu-lhe da boca, como um brao no ombro de Liesel.
        -        Jawohl - respondeu. Com certeza.
        E como seu corao comeou a esquentar!
          
        Em cada uma das ocasies anteriores, ao depararem com a janela firmemente trancada, a decepo aparente de Liesel havia mascarado um alvio feroz. Teria
mesmo peito para entrar? E para quem e por que entraria, na verdade? Para Rudy? Para procurar comida?
        No. A verdade repugnante era esta:
        Liesel no se incomodava com a comida. Rudy, por mais que ela tentasse resistir  idia, era secundrio em seu plano. Era o livro que ela queria. O Assobiador.
No suportaria que ele lhe fosse dado por uma velha solitria e pattica. Roub-lo, por outro lado, parecia um pouco mais aceitvel. Roub-lo, em certo sentido doentio,
era como merec-lo.
        A luz ia mudando em blocos de sombras.
        O par se aproximou da casa macia e imaculada. Sussurrou seus pensamentos.
        -        Est com fome? - perguntou Rudy.
        -        Faminta - fez Liesel. Por um livro.
        -        Olhe, acabou de acender uma luz l em cima.
        -        Estou vendo.
        -        Continua faminta, Saumensch?
        Deram uma risada nervosa por um instante, antes de entrarem na discusso sobre quem deveria entrar e quem deveria vigiar. Como homem da operao, Rudy claramente
achava que devia ser ele o agressor, mas era bvio que Liesel conhecia o lugar. Ela  que entraria. Sabia o que havia do outro lado da janela.
        E foi o que disse.
        -        Tenho que ser eu.
        Liesel fechou os olhos. Com fora.
        Obrigou-se a lembrar, a visualizar o prefeito e sua mulher. Fitou a amizade feita com Ilsa Hermann e se certificou de lhe dar um chute nas canelas e deix-la
 beira da estrada. Funcionou. Ela detestava os dois.
        Eles examinaram a rua e atravessaram o ptio em silncio. Agacharam-se embaixo da fresta da janela do trreo. O som de sua respirao aumentou.
        -        D seus sapatos aqui - disse Rudy. - Voc far menos barulho.
        Sem reclamar, Liesel desatou os surrados cadaros pretos e deixou os sapatos no cho. Levantou-se e Rudy abriu suavemente a janela, apenas o bastante para
que a menina a pulasse. O barulho passou sobre suas cabeas como um avio voando baixo.
        Liesel soergueu-se no parapeito e pelejou at conseguir entrar. Tirar os sapatos, percebeu, tinha sido uma idia brilhante, j que ela aterrissou no piso
de madeira com muito mais peso do que havia previsto. As solas dos ps expandiram-se dolorosamente, pressionando as bordas internas das meias.
        A sala em si estava como sempre fora.
        Na penumbra empoeirada, Liesel ps de lado o sentimento de saudade. Avanou furtivamente e deixou seus olhos se adaptarem.
        -        Que est havendo? - veio o sussurro forte de Rudy do lado de fora, mas ela o descartou com um gesto que significava Halt's Maul. Cale a boca.
        -        A comida - lembrou-lhe o menino. - Ache a comida. E cigarros, se puder.
        Mas esses dois artigos eram as ltimas coisas na cabea de Liesel. Ela estava  vontade, entre os livros de toda cor e descrio pertencentes ao prefeito,
com suas letras prateadas e douradas. Sentia o cheiro das pginas. Quase conseguia provar as palavras empilhadas a seu redor. Seus ps a levaram  parede da direita.
Ela sabia qual livro queria - sua posio exata -, mas, ao chegar ao lugar costumeiro do Assobiador na prateleira, ele no estava l. Em seu lugar havia um espao
estreito.
        L em cima, Liesel ouviu passos.
        -        A luz! - sussurrou Rudy. As palavras foram atiradas pela janela aberta. - Apagou!
        -        Scheisse.
        -        Esto descendo.
        Veio ento a durao gigantesca de um momento, a eternidade de uma deciso em frao de segundo. Os olhos da menina vasculharam a sala e ela viu O Assobiador,
descansando pacientemente na escrivaninha do prefeito.
        -        Depressa! - alertou Rudy. Com muita calma e preciso, no entanto, Liesel foi at a escrivaninha, pegou o livro e se encaminhou com cautela para
a sada. De ponta-cabea, pulou a janela e conseguiu novamente aterrissar de p, voltando a sentir a pontada de dor, dessa vez nos tornozelos.
        - Ande - implorou Rudy. - Corra, corra. Schnell!
        Uma vez dobrada a esquina, na estrada que descia em direo ao rio e  Rua Munique, ela parou para se curvar e recobrar o flego. Ficou com o corpo dobrado
ao meio, o ar semicongelado na boca e o corao badalando nos ouvidos.
        Foi o mesmo com Rudy.
        Ao olh-la, ele viu o livro embaixo do brao de Liesel. Esforou-se para falar.
        -        Qual  - perguntou, lutando com as palavras - a do livro?
        Agora a escurido se adensava de verdade. Liesel arfou, enquanto o ar em sua garganta descongelava.
        -        Foi s o que eu consegui achar.
        Infelizmente, Rudy farejou tudo. A mentira. Inclinou a cabea e declarou o que julgava ser a realidade.
        -        Voc no entrou para pegar comida, no foi? Conseguiu o que queria...
        Liesel endireitou o corpo e se sentiu tomada pelo mal-estar de outra descoberta.
        Os sapatos.
        Olhou para os ps de Rudy, depois para suas mos e para o cho em volta dele.
        -        O qu? - perguntou ele. - O que foi?
        -        Saukerl! - acusou-o Liesel. - Cad meus sapatos?
        O rosto de Rudy empalideceu, o que no lhe deixou nenhuma dvida.
        -        Ficaram na casa - sugeriu a menina -, no foi?
        Rudy procurou desesperadamente a seu redor, implorando, contra toda a realidade, que os tivesse carregado. Imaginou-se apanhando-os, torcendo para que fosse
verdade - mas os sapatos no estavam l. Descansavam inutilmente - ou, o que cru muito pior, incriminadoramente - junto  parede do nmero 8 da Grande Strasse.
        -        Dummkopf! - repreendeu-se o menino, dando um tapa no ouvido. Baixou os olhos, envergonhado,  viso soturna das meias de Liesel. - Idiota! - e no
levou muito tempo para tomar a deciso de consertar as coisas. Compenetrado, disse: - Espere a - e voltou correndo, dobrando a esquina.
        -        No se deixe apanhar! - gritou Liesel, mas ele no ouviu.
        Foram pesados os minutos de sua ausncia.
        A escurido j era completa e Liesel teve certeza da grande probabilidade de uma Watschen, reservada para quando chegasse em casa. - Depressa - murmurou,
mas nada ainda de Rudy. Imaginou o som de uma sirene da polcia lanando-se no ar e se puxando de volta. Recolhendo-se.
        E nada.
        S quando ela voltou para o cruzamento das duas ruas, com suas meias midas e sujas, foi que o viu. O rosto triunfante de Rudy estava bem erguido, enquanto
ele avanava com passos saltitantes em sua direo. Os dentes rangiam num sorriso e os sapatos lhe pendiam da mo.
        -        Quase me mataram - disse Rudy -, mas consegui.
        Depois que os dois atravessaram o rio, entregou os sapatos a Liesel, que os deixou cair.
        Sentando-se no cho, ergueu os olhos para seu melhor amigo.
        -        Danke -- disse. Obrigada.
        Rudy fez uma mesura: - O prazer  meu - e arriscou um pouco mais: - Nem adianta perguntar se ganho um beijo por isso, no ?
        -        Por buscar meus sapatos, que voc largou l?
        -         justo - assentiu ele. Levantou as mos e continuou a falar enquanto caminhavam, e Liesel fez um esforo deliberado para ignor-lo. S ouviu a
ltima parte.
        -        Provavelmente, eu no ia mesmo querer beijar voc, no se o seu hlito for parecido com os seus sapatos.
        -        Voc me enoja - informou-lhe a menina, e torceu para que ele no visse os primrdios fugidios de um sorriso que lhe caa da boca.
        Na Rua Himmel, Rudy pegou o livro. Sob um poste de luz, leu o ttulo em voz, alta e perguntou sobre que seria.
        Com ar sonhador, Liesel respondeu.
        -         s um assassino.
        -        S isso?
        -        Tem tambm um policial que tenta peg-lo.
        Rudy devolveu o livro.
         -        Por falar nisso, acho que ns dois estamos meio fritos quando chegarmos em casa. Especialmente voc.
        -        Por que eu?
        -        Voc sabe... a sua me.
        -  Que  que tem ela?
        Liesel exercia o direito flagrante da pessoa que um dia fez parte de uma famlia. Est muito bem que essa pessoa resmungue e se lamurie e critique seus familiares,
mas no permite que ningum mais o faa. E nessa hora que voc empertiga a coluna e demonstra lealdade.
        -        Por acaso tem alguma coisa errada com ela?
        Rudy recuou.
        -        Desculpe, Saumensch. No tive a inteno de ofender.
        Mesmo  noite, Liesel podia perceber que Rudy estava crescendo. O rosto ia ficando mais comprido. A cabeleira loura escurecia s um tantinho e as feies
pareciam estar mudando de forma. Porm havia uma coisa que nunca mudaria. Era impossvel ficar zangada com ele por muito tempo.
        - Alguma coisa boa pra comer na sua casa, hoje? - perguntou Rudy.
        -        Duvido.
        -        Eu tambm.  uma pena a gente no poder comer livros. O Arthur Berg disse uma coisa assim daquela vez. Lembra-se?
        Os dois rememoraram os bons tempos no resto do caminho, e Liesel olhou vrias vezes para O Assobiador, com sua capa cinza e o ttulo impresso em tinta preta.
        Antes que entrassem em suas respectivas casas, Rudy parou por um instante e disse:
        -        At logo, Saumensch - e riu. - Boa noite, roubadora de livros.
        Era a primeira vez que Liesel se via marcada por seu ttulo, e no pde esconder que isso lhe agradou muito. Como ns dois sabemos, ela j tinha furtado
livros, mas, no fim de outubro de 1941, a coisa se tornou oficial. Nessa noite, Liesel Meminger transformou-se verdadeiramente na menina que roubava livros.

        TRS ATOS DE ESTUPIDEZ DE RUDY STEINER
         RUDY STEINER, PURO GNIO 
        1. Roubou a maior batata da loja de Mamer, o merceeiro local.
        2. Enfrentou Franz Deutscher
        na Rua Munique.
        3. Faltou a todas as reunies
        da Juventude Hitlerista.
        O problema do primeiro ato de Rudy foi a gula. Era uma tarde tipicamente enfadonha de meados de novembro de 1941.
        Mais cedo, ele havia costurado brilhantemente por entre as mulheres com seus cupons, eu quase diria que com um toque de genialidade criminal. Por pouco no
passou inteiramente despercebido.
        Por mais inconspcuo que fosse, no entanto, conseguiu apoderar-se da maior batata do lote - a mesmssima que vrias pessoas na fila andavam vigiando. Todas
viram quando um punho de treze anos se ergueu e a agarrou. Um coro de Helgas pesadonas apontou para ele, e Thomas Mamer partiu esbaforido em direo ao fruto maculado.
        -        Meine Erdpfel - disse ele. Minhas batatas.
        A batata ainda estava nas mos de Rudy (que no conseguia segur-la com uma s) e as mulheres juntaram-se em volta dele como um bando de lutadores. Fazia-se
necessria uma fala rpida.
        -        Minha famlia - Explicou Rudy. Um fluxo conveniente de lquido transparente comeou a lhe escorrer do nariz. Ele fez questo de no sec-lo. - Estamos
todos passando fome. Minha irm precisa de um casaco novo. O ltimo foi roubado.
        Mamer no era bobo. Ainda segurando Rudy pelo colarinho, perguntou:
        -        E voc est planejando vesti-la com uma batata?
        - No, senhor - disse o menino, olhando em diagonal para o olho que conseguia ver de seu captor. Mamer era uma pipa de gordo, com dois buraquinhos de bala
por onde enxergar. Tinha os dentes feito uma platia de futebol, apinhados na boca. - Ns trocamos todos os cupons que tnhamos pelo casaco, h trs semanas, e agora
no temos nada para comer.
        O merceeiro segurava Rudy com uma das mos e a batata com a outra. Disse a palavra temida  sua mulher:
        -        Polizei.
        -        No, por favor - implorou Rudy. Mais tarde, diria a Liesel que no sentira o menor medo, mas, naquele momento, tenho certeza de que seu corao
estava prestes a explodir. - A polcia, no. Por favor, a polcia, no.
        -        Polizei - repetiu Mamer, sem se deixar comover, enquanto o menino se debatia e dava socos no ar.
        Quem tambm estava na fila nessa tarde era um professor, Herr Link. Fazia parte da percentagem de professores da escola que no eram padres nem freiras.
Rudy o localizou e o abordou com o olhar.
        -        Herr Link - chamou. Era sua ltima chance. - Herr Link, conte a ele, por favor. Diga a ele como sou pobre.
        O merceeiro olhou para o professor com ar indagativo. Herr Link aproximou-se e disse:
        -        Sim, Herr Mamer. Esse menino  pobre.  da Rua Himmel.
        Nesse momento, a multido, predominantemente composta de mulheres, conferenciou, ciente de que a Rua Himmel no era exatamente o eptome da vida idlica
em Molching. Era bem conhecida como de um bairro relativamente pobre.
        -        Ele tem oito irmos.
        Oito!
        Rudy teve que prender o riso, embora ainda no estivesse livre. Pelo menos, agora fizera o professor mentir. De algum modo, Herr Link havia conseguido acrescentar
mais trs filhos  famlia Steiner.
        -        Muitas vezes, ele chega  escola sem o caf-da-manh - prosseguiu, e a multido de mulheres voltou a conferenciar. Parecia uma demo de tinta sobre
a situao, acrescentando um pouquinho mais de potncia e clima.
        -        E isso significa que ele deve ter permisso para roubar minhas batatas?
        -        A maior de todas! - exclamou uma das mulheres.
        -        Fique quieta, Frau Metzing - alertou-a Mamer, e ela se acalmou rapidamente.
        No comeo, todas as atenes concentraram-se em Rudy e seu cangote. Em seguida, deslocaram se de um lado para outro, do menino para a batata e para Mamer
- da aparncia melhor para a pior - e exatamente o que foi que levou o merceeiro a decidir a favor de Rudy ficaria para sempre sem resposta.
        Teria sido a natureza pattica do menino?
        A dignidade de Herr Link?
        A chatice de Frau Metzing?
        Fosse o que fosse, Mamer reps a batata na pilha e arrastou Rudy para fora de sua loja. Deu-lhe um bom pontap com a bota direita e disse:
        -        No volte aqui.
        De fora, Rudy ficou observando Mamer voltar ao balco e servir mantimentos e sarcasmo a sua freguesa seguinte:
        -        Eu me pergunto que batata a senhora vai pedir - disse ele, ainda com um olho no menino.
        Para Rudy, foi mais um fracasso.
          
        O segundo ato de estupidez foi igualmente perigoso, mas por razes diferentes.
        Rudy terminaria essa altercao especfica com um olho roxo, umas costelas quebradas e um corte de cabelo.
        Mais uma vez, nas reunies da Juventude Hitlerista, Tommy Mller vinha tendo seus problemas, e Franz Deutscher s estava  espera de que Rudy se metesse.
No demorou muito.
        Rudy e Tommy receberam outra sesso completa de exerccios, enquanto os demais entravam para aprender ttica. Ao correrem na friagem, eles viam pelas janelas
as cabeas e ombros aquecidos. Mesmo quando se juntaram ao resto do grupo, os exerccios no acabaram propriamente. Assim que Rudy desabou num canto e salpicou lama
de sua manga na janela, Franz disparou-lhe a pergunta predileta da Juventude Hitlerista.
        -        Em que dia nasceu o nosso Fhrer, Adolf Hitler? Rudy ergueu os olhos:
        -        Perdo?
        A pergunta foi repetida e o estupidssimo Rudy Steiner, que sabia perfeitamente que tinha sido em 20 de abril de 1889, respondeu com a data de nascimento
de Cristo. Incluiu at Belm, de quebra, como uma informao adicional.
        Franz esfregou as mos.
        Pssimo sinal.
        Aproximou-se de Rudy e o mandou de volta l para fora, para mais algumas voltas ao redor do campo.
        Rudy as deu sozinha e, aps cada volta, foi-lhe indagada novamente a data de aniversrio do Fhrer. Ele deu sete voltas antes de acertar a resposta.
         O problema principal ocorreu dias depois da reunio.
        Na Rua Munique, Rudy avistou Deutscher andando pela calada com uns amigos e sentiu necessidade de lhe atirar uma pedra. Voc pode muito bem perguntar que
diabo ele estava pensando. A resposta : provavelmente, nada. Provavelmente, ele diria que estava exercendo seu sagrado direito  estupidez. Ou isso, ou a simples
viso de Franz Deutscher provocou-lhe uma nsia de se destruir.
        A pedra atingiu o alvo na espinha, embora no com tanta fora quanto Rudy teria esperado. Franz Deutscher girou nos calcanhares e fez uma expresso satisfeita
ao v-lo parado l, com Liesel, Tommy e a irmzinha de Tommy, Kristina.
        -        Vamos correr - recomendou Liesel, com insistncia, mas Rudy no arredou p.
        -        No estamos na Juventude Hitlerista - informou-lhe. Os meninos maiores j tinham chegado. Liesel ficou parada ao lado do amigo, assim como o careteiro
Tommy e a delicada Kristina.
        -        Sr. Steiner - declarou Franz, antes de levant-lo e atir-lo na calada.
        Quando Rudy se levantou, isso s serviu para enfurecer Deutscher ainda mais.
        Ele o derrubou no cho pela segunda vez, acompanhando o gesto com uma joelhada na caixa torcica.
        Mais uma vez, Rudy levantou-se e, nessa hora, o grupo de meninos mais velhos riu para o amigo. Aquilo no era a melhor notcia para Rudy.
        -        Voc no consegue faz-lo sentir nada? - perguntou o mais alto. Seus olhos eram azuis e frios como o cu, e as palavras foram todo o incentivo de
que Franz precisava. Ele estava determinado a derrubar Rudy no cho e faz-lo ficar l.
        Uma multido maior os cercou quando Rudy desferiu um murro na barriga de Deutscher, errando completamente o alvo. No mesmo instante, experimentou a sensao
ardente de um punho em seu olho esquerdo. Ela chegou acompanhada de fascas, e o menino prostrou-se no cho antes mesmo que se desse conta disso. Tornou a levar
um murro no mesmo lugar e sentiu o machucado ficar amarelo, azul e roxo, tudo ao mesmo tempo. Trs camadas de dor revigorante.
        A multido que crescia aproximou-se e espiou, para ver se Rudy se levantaria de novo. No se levantou. Dessa vez, permaneceu no cho frio e mido, sentindo-o
subir por sua roupa e se espalhar.
        As fagulhas continuavam em seus olhos e era tarde demais quando Rudy notou que agora Franz se erguia sobre ele, com um canivete novo em folha, prestes a
se abaixar e cort-lo.
        -        No! - protestou Liesel, mas o garoto alto a segurou. No ouvido da menina, as palavras dele foram graves e antigas.
        -        No se preocupe - garantiu o garoto. - Ele no vai fazer isso. No tem peito.
        Estava errado.
        Franz ps-se de joelhos, inclinou-se mais para Rudy e sussurrou:
        -        Em que dia nasceu o nosso Fhrer?
        Cada palavra foi cuidadosamente fabricada e introduzida no ouvido do menino.
        -        Vamos, Rudy, em que dia ele nasceu? Voc pode me dizer, est tudo bem, no tenha medo.
        E Rudy?
        Que resposta deu ele?
        Ser que respondeu com prudncia, ou deixou sua estupidez afund-lo ai mais na lama?
        Ele fitou alegremente os plidos olhos azuis de Franz Deutscher e murmuro
        -        Na segunda-feira de Pscoa.
        Em poucos segundos, o canivete foi aplicado a seu cabelo. Foi o corte de cabelo nmero dois nesse trecho da vida de Liesel. O cabelo de um judeu fora cortado
e uma tesoura enferrujada. O de seu melhor amigo foi ceifado com uma lmina reluzente. Ela no conhecia ningum que realmente pagasse por um corte de cabelo
        Quanto a Rudy, at ali, nesse ano, ele havia engolido lama, tomado banho de fertilizante, sido parcialmente estrangulado por um criminoso em desenvolvimento
agora recebia algo que pelo menos se aproximava da chave de ouro - a humilhai, pblica na Rua Munique.
        Em sua maior parte, a franja foi livremente fatiada, mas, a cada golpe, sempre havia uns fios de cabelo que lutavam pela vida e eram completamente arrancado
Ao arrancar de cada um deles, Rudy estremecia, com o olho roxo latejando e costelas dando fisgadas de dor.
        -        Vinte de abril de mil oitocentos e oitenta e nove! - ensinou-lhe Franz, quando se afastou, liderando seus comandados, a platia se dispersou, deixando
apenas Liesel, Tommy e Kristina com o amigo.
        Isso nos deixa apenas o ato de estupidez nmero trs - faltar s reunies Juventude Hitlerista.
        Rudy no parou de freqent-las de imediato, s para mostrar a Deutscher que no tinha medo dele, mas, passadas algumas semanas, abandonou por completo o
seu envolvimento.
        Orgulhosamente trajado com seu uniforme, ele saa da Rua Himmel e ia andando tendo ao lado seu sdito leal, Tommy.
        Em vez de irem para a Juventude Hitlerista, os dois saam da cidade e margeavam o Rio Amper, saltando pedras, atirando outras enormes na gua e, de um modo
geral, no fazendo nada que prestasse. Rudy certificava-se de sujar bastante o uniforme, para enganar a me, pelo menos at a chegada da primeira carta. Foi quando
ele ouviu o chamado temvel da cozinha.
        Primeiro, os pais o ameaaram. Ele no compareceu.
        Imploraram-lhe que fosse. Ele se recusou.
        No fim, foi a oportunidade de se ligar a uma diviso diferente que ps Rudy no caminho certo. E foi seu no-comparecimento. Seu irmo mais velho, Kurt, fez
indagaes para saber se Rudy poderia entrar na Flieger, que se especializara no ensino sobre aeronaves e pilotagem. Basicamente, os meninos construam aeromodelos,
e no havia nenhum Franz Deutscher. Rudy aceitou e Tommy tambm se inscreveu. Foi a nica vez na vida em que seu comportamento idiota lhe trouxe resultados benficos.
        Na nova diviso, toda vez que lhe faziam a famosa pergunta sobre o Fhrer, ele sorria e respondia "20 de abril de 1889", e depois, dirigindo-se a Tommy,
murmurava uma data diferente, como o aniversrio de Beethoven, Mozart ou Strauss. Os dois estavam estudando os compositores na escola, onde, apesar de sua evidente
burrice, Rudy se destacava.

        O LIVRO FLUTUANTE (Parte II)
        No incio de dezembro, a vitria finalmente chegou para Rudy Steiner, embora no de maneira tpica.
        Era um dia frio, mas muito sereno. Quase havia nevado.
        Depois da escola, Rudy e Liesel pararam na loja de Alex Steiner e, quando andavam para casa, viram o velho amigo de Rudy, Franz Deutscher, dobrando a esquina.
Liesel, como era seu hbito nesses dias, carregava O Assobiador. Gostava de senti-lo em suas mos. Ou a lombada macia, ou as bordas speras do papel. Foi ela a primeira
a ver Franz.
        -        Olhe - apontou. Deutscher marchava pomposamente na direo deles, em companhia de outro guia da Juventude Hitlerista.
        Rudy encolheu-se. Apalpou o olho cicatrizado.
        -        Dessa vez, no - disse. Vasculhou as ruas. - Se passarmos pela igreja, podemos seguir o rio e voltar por l.
        Sem outras palavras, Liesel o acompanhou e os dois evitaram com xito o torturador de Rudy - para cair direto no caminho de outro.
        No comeo, eles no deram importncia.
        O grupo que atravessava a ponte e fumava cigarros podia ser qualquer um, e foi tarde demais para dar meia-volta quando os dois se reconheceram.
        -        Ah, no, eles nos viram.
        Viktor Chemmel sorriu.
        Falou com muita amabilidade. O que s podia significar que estava no auge de sua periculosidade.
         -        Ora, ora, se no so Rudy Steiner e sua putinha - e, muito afvel, aproximou-se e arrancou O Assobiador da mo de Liesel. - Que  que voc est
lendo?
        -        Isto  entre ns dois - tentou ponderar Rudy. - No tem nada a ver com ela. Ande, devolva o livro.
        -        O Assobiador - dirigiu-se Viktor a Liesel. -  bom?
        Ela pigarreou.
        -        Nada mau.
        Infelizmente, a menina se entregou. Pelos olhos. Eles estavam agitados. Liesel percebeu o momento exato em que Viktor Chemmel determinou que o livro era
um bem precioso.
        -         o seguinte - disse ele: - Por cinqenta marcos, voc pode t-lo de volta.
        -        Cinqenta marcos! - foi a exclamao de Andy Schmeikl. - Ora, Viktor, voc pode comprar mil livros com isso!
        -        Eu lhe pedi para falar?
        Andy calou-se. Sua boca pareceu trancar-se de repente. Liesel tentou fazer uma expresso de pquer.
        -        Ento, pode ficar com ele. Eu j li.
        -        E o que acontece no fim?
        Droga!
        Ela ainda no havia chegado a esse pedao.
        Hesitou, e Viktor Chemmel decifrou o blefe no mesmo instante.
        Nessa hora, Rudy precipitou-se para ele.
        -        Ande, Viktor, no faa isso com ela.  atrs de mim que voc est. Eu fao o que voc quiser.
        O garoto mais velho apenas o afastou com um tapa, segurando o livro no alto. E o corrigiu.
        -        No - disse. - Eu  que farei o que eu quiser - e se encaminhou para o rio. Todos o seguiram, acelerando para alcan-lo. Meio andando, meio correndo.
        Alguns protestaram. Outros o instigaram a ir em frente.
        Foi muito rpido e tranqilo. Houve uma pergunta e uma voz amistosa e zombeteira.
        -        Digam-me - disse Viktor. - Quem foi o ltimo campeo olmpico do disco em Berlim? - e se virou para encar-los. Aqueceu o brao. - Quem foi? Droga,
estou com o nome na ponta da lngua. Foi aquele americano, no foi? Carpenter, ou coisa parecida...
        -        Por favor! - fez Rudy.
        A gua foi abaixo.
        Viktor Chemmel fez o arremesso.
        O livro soltou-se gloriosamente de sua mo. Abriu-se e esvoaou, com as pginas chacoalhando enquanto ele perfazia a distncia no ar, Mais abruptamente do
que seria espervel, parou e pareceu ser sugado pela gua. Fechou-se ao bater na superfcie e comeou a flutuar correnteza abaixo. Viktor abanou a cabea.
        -        Sem altura suficiente. Um arremesso ruim - e tornou a sorrir. - Mas ainda foi bom o bastante para ganhar, hein?
        Liesel e Rudy no ficaram por perto para ouvir as risadas.
        Rudy, em particular, havia partido pela margem do rio, tentando localizar o livro.
        -        Voc consegue v-lo? - gritou Liesel.
        Rudy correu.
        Continuou descendo  beira da gua, mostrando a localizao do livro.
        -        Est ali!
        Parou, apontou e correu mais, para ultrapass-lo. Logo em seguida, tirou o casaco e pulou na gua, chapinhando at o meio do rio.
        Liesel, que reduzira a velocidade  marcha, sentia a dor de cada passo. O frio doloroso.
        Quando se aproximou o bastante, viu o livro passar por Rudy, mas ele logo o alcanou. Sua mo se esticou e pegou o que era, quela altura, um bloco encharcado
de papelo e papel.
        -        O Assobiador! - gritou o menino. Era o nico livro flutuando no Rio Amper naquele dia, mas, mesmo assim, ele sentiu necessidade de anunci-lo.
        Outra nota interessante  que Rudy no tentou sair da gua, devastadoramente fria, assim que pegou o livro. Por um bom minuto, mais ou menos, ficou l dentro.
Nunca explicou isso a Liesel, mas acho que ela soube muito bem que as razes eram duas.
         OS MOTIVOS CONGELADOS 
        DE RUDY STEINER
        1. Aps meses de fracasso, esse momento era
        sua nica chance de se comprazer com uma vitria.
        2. Essa postura de desprendimento era uma
        boa ocasio para pedir a Liesel o favor habitual
        Como  que ela poderia recus-lo?
        -        Que tal um beijo, Saumensch?
        Ficou parado mais alguns instantes, com gua pela cintura, antes de sair do rio e lhe entregar o livro. Tinha as calas grudadas no corpo e no parou de
andar. Na verdade, acho que ele sentiu medo. Rudy Steiner ficou com medo do beijo da menina que roubava livros. Devia ter ansiado muito por ele. Devia am-la com
uma intensidade incrvel. Tanto que nunca mais tornaria a lhe pedir seus lbios, e iria para sua sepultura sem eles.

     PARTE SEIS
        O CARREGADOR DE SONHOS
        APRESENTANDO :
        o dirio da morte
        o boneco de neve
        treze presentes
        o livro seguinte
        o pesadelo de um cadver judeu
        cu de jornal
        uma visita
        um schmunzeler
        e um ltimo beijo em faces envenenadas

DIRIO DA MORTE: 1942
        Foi um ano para ficar na histria, como 79 ou 1346, para citar apenas alguns. Esquea a foice, diabos, eu precisava era de uma vassoura ou um rodo. E precisava
de umas frias.
         UMA VERDADEZINHA 
        Eu no carrego gadanha nem foice.
        s uso um manto preto com capuz quando faz frio.
        E no tenho aquelas feies de caveira que vocs
        parecem gostar de me atribuir  distncia.
        Quer saber a minha verdadeira aparncia?
        Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.

        Na verdade, sinto-me muito complacente comigo mesma neste momento, a lhe contar tudo a respeito de mim, mim, mim. Minhas viagens, o que eu vi em '42. Por
outro lado, voc  um ser humano - deve entender dessa obsesso consigo mesmo. A questo  que h uma razo para eu explicar o que vi naquela poca. Muito daquilo
teria repercusses para Liesel Meminger. Fez a guerra chegar mais perto Da Rua Himmel, e me arrastou de carona.
        Certamente houve muitas rondas a fazer naquele ano, da Polnia  Rssia  frica, ida e volta. Talvez voc argumente que eu fao a ronda em qualquer ano,
mas s vezes a raa humana gosta de acelerar um pouquinho as coisas. Aumenta a produo de corpos e das almas que escapam. Umas tantas bombas costumam resolver a
questo. Ou umas cmaras de gs ou a conversinha de canhes distantes. Quando nada disso conclui os procedimentos, pelo menos despoja as pessoas de seus meios de
subsistncia, e passo a ver gente sem teto por toda parte. E comum eles virem atrs de mim quando vago pelas ruas das cidades violentadas. Imploram que eu os leve,
sem perceber que j estou atarefada demais. "A sua hora chegar", eu os conveno, e procuro no olhar para trs. Vez por outra, gostaria de dizer algo como "No
v que j estou com as mos cheias?", mas nunca o fao. Reclamo internamente enquanto vou fazendo meu trabalho, e h anos em que as almas e os corpos no se somam,
multiplicam-se.
         CHAMADA ABREVIADA DE 1942 
        1. Os judeus desesperados - seus espritos no meu colo,
        ao nos sentarmos no telhado, junto s chamins fumegantes.
        2. Os soldados russos - que s carregam pequenas quantidades
        de munio, contando com os tombados para arranjar o resto.
        3. Os corpos encharcados de um litoral francs
        - encalhados nos seixos e na areia.
          
        Eu poderia prosseguir, mas resolvi que, por ora, esses trs exemplos bastam. Trs exemplos, que mais no seja, deixaro em sua boca o gosto de cinza que
definiu minha existncia durante aquele ano.
        Muitos seres humanos. Muitas cores.
        So disparadores dentro de mim. Torturam minha memria. Vejo-os em suas pilhas altas, todos trepados uns por cima dos outros. O ar parece feito de plstico,
um horizonte como cola poente.. Existem cus fabricados pelas pessoas, perfurados e vazantes, e h nuvens macias, cor de carvo, que pulsam como coraes negros.
        E depois.
        Vem a morte.
        Abrindo caminho por aquilo tudo.
        Na superfcie, imperturbvel, resoluta.
        Por baixo, abatida, desatada, desfeita.
        Com toda a franqueza (e sei que agora estou reclamando demais), eu ainda estava me refazendo de Stalin, na Rssia. Da chamada segunda revoluo - o assassinato
de seu prprio povo.
        E ento veio Hitler.
        Dizem que a guerra  a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra  como aquele novo chefe
que espera o impossvel. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: "Apronte logo isso, apronte logo isso." E a a gente aumenta o trabalho.
Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe no agradece. Pede mais.
        Muitas vezes, tento lembrar-me dos retalhos de beleza que tambm vi naqueles tempos. Revolvo minha biblioteca de histrias.
        Na verdade, estou pegando uma agora.
        Creio que voc j sabe metade dela e, se vier comigo, eu lhe mostro o resto. Mostro-lhe a segunda metade de uma menina que roubava livros.
        Sem saber, ela aguarda inmeras coisas a que aludi h pouco, mas tambm espera por voc.
        Est carregando neve para um poro, imagine s.
        Punhados de neve congelada so capazes de fazer quase qualquer um sorrir, mas no nos podem fazer esquecer.
        L vem ela.

        O BONECO DE NEVE
        Para Liesel Meminger, os primeiros estgios de 1942 poderiam ser resumidos assim:
        Ela completou treze anos. Ainda tinha o peito chato. No havia menstruado. O rapaz do poro estava agora em sua cama.
         PERGUNTA/RESPOSTA 
        Como  que Max Vandenburg
        foi parar na cama de Liesel?
        Ele caiu.
        As opinies variaram, mas Rosa Hubermann afirmou que as sementes tinham sido plantadas no Natal do ano anterior.
        O dia 24 de dezembro fora de fome e frio, mas houve uma grande vantagem - nada de visitas prolongadas. Hans Jnior estava simultaneamente atirando nos russos
e dando continuidade a sua greve de interaes familiares. Trudy s poderia dar uma passada no fim de semana anterior ao Natal, por algumas horas. Ia viajar com
a famlia para a qual trabalhava. Frias para uma classe muito diferente da Alemanha.
        Na noite de Natal, Liesel levou de presente para Max um punhado duplo de neve.
        -        Feche os olhos - disse. - Estenda as mos.
        Assim que a neve foi transferida, Max estremeceu e riu, mas continuou sem abrir os olhos. S fez dar uma provadinha rpida na neve, deixando-a derreter em
seus lbios.
        -        Este  o boletim meteorolgico de hoje?
        Liesel parou a seu lado. Tocou-lhe delicadamente o brao. Ele tornou a levar a neve  boca.
        -        Obrigado, Liesel.
        Foi o comeo do melhor de todos os Natais. Pouca comida. Nenhum presente. Mas houve um boneco de neve no poro.
        Depois de entregar os primeiros punhados de neve, Liesel se certificou de que no havia ningum do lado de fora e tratou de levar para l todos os baldes
e panelas que pde. Encheu-os com os montes de neve e gelo que cobriam a pequena tira de mundo que era a Rua Himmel. Depois de cheios, levou-os para dentro e os
carregou para o poro.
        A bem da justia, primeiro ela jogou uma bola de neve em Max e recebeu o troco na barriga. Max chegou at a atirar uma em Hans Hubermann quando ele descia
a escada do poro.
        -        Arschloch! - gritou o pai. - Liesel, me d um bocado dessa neve. Um balde inteiro!
        Durante alguns minutos, todos se esqueceram. No houve mais gritos nem nomes sendo chamados, mas eles no puderam conter os pequenos frouxos de riso. Eram
apenas humanos, brincando na neve dentro de casa.
        O pai olhou para as panelas cheias de neve.
        -        Que vamos fazer com o resto?
        -        Um boneco de neve - respondeu Liesel. - Temos que fazer um boneco de neve.
        O pai chamou Rosa.
        A voz distante de praxe arremessou-se de volta.
        -        O que  agora, Saukerl?
        -        Venha aqui embaixo, sim?
        Quando sua mulher apareceu, Hans Hubermann ps a vida em risco, atirando-lhe uma esplndida bolada de neve. Errando por pouco, a bola desintegrou-se ao bater
na parede, e a me teve uma desculpa para xingar por um longo tempo, sem nem parar para respirar. Depois que se recuperou, desceu para ajud-los. Foi inclusive buscar
botes para os olhos e o nariz e um pedao de barbante para fazer um sorriso de boneco de neve. E at um cachecol e um chapu foram providenciados para o que era,
na verdade, apenas um homem de neve de sessenta centmetros.
        -        Um ano - disse Max.
        -        O que a gente faz quando ele derreter? - perguntou Liesel. Rosa tinha a resposta.
        -        Voc seca com o esfrego, Saumensch, e depressa.
        O pai discordou.
        -        No vai derreter - e esfregou as mos, soprando-as. - Est de enregelar aqui embaixo.
        Derreter, derreteu, mas, em algum lugar dentro deles, aquele homem de neve continuou de p. Deve ler sido a ltima coisa que eles viram naquela vspera Natal,
quando enfim adormeceram. Tinham um acordeo nos ouvidos, um boneco de neve nos olhos e, para Liesel, a lembrana das ltimas palavras de Max, antes de ela o deixar
junto  lareira.
         AS SAUDAES NATALINAS DE 
        MAX VANDENBURG
        - Muitas vezes, Liesel, eu gostaria que isso
         tudo acabasse, mas a, de algum modo,
        voc faz uma coisa como descer ao
        poro carregando um boneco de neve.

        Infelizmente, essa noite assinalou um severo declnio da sade de Max. Os primeiros sinais foram bastante inocentes, e tpicos. O frio constante. As mos
nadando em suor. O aumento das vises do boxe com o Fhrer. S quando ele no conseguiu mais se aquecer, depois das flexes e das abdominais, foi que a coisa comeou
realmente a preocup-lo. Por mais perto do fogo que se sentasse, ele no consegui; elevar-se a nenhum grau de sade relativa. Dia aps dia, o peso comeou a IHE
despencar do corpo. Seu regime de exerccios cambaleou e se desfez, com o rosto encostado no piso spero do poro.
        Durante todo o ms de janeiro, ele conseguiu se agentar, mas, no comeo de fevereiro, Max estava numa forma preocupante. Fazia fora para acordar junto
 lareira, mas, em vez disso, dormia boa parte da manh, com a boca torta e as mas do rosto comeando a inchar. Quando lhe perguntavam, dizia que estava timo.
        Em meados de fevereiro, dias antes de Liesel fazer treze anos, ele se aproximou da lareira,  beira do colapso. Quase caiu no fogo.
        -        Hans - murmurou, e seu rosto pareceu contorcer-se. As pernas cederam e a cabea bateu na caixa do acordeo.
        No mesmo instante, uma colher de pau caiu na sopa e Rosa Hubermann ps-se ao lado dele. Segurou a cabea de Max e berrou para Liesel, do outro lado do cmodo:
        -        No fique a parada, v buscar mais cobertores. Leve-os para sua cama. E voc - era a vez do marido - me ajude a peg-lo e carreg-lo para o quarto
de Liesel. Schnell!
        O rosto de Hans ficou tenso de apreenso. Seus olhos cinzentos tilintaram e ele pegou Max sozinho. O rapaz era leve como uma criana.
        -        No podemos deix-lo aqui, na nossa cama?
        Rosa j havia considerado a idia.
        -        No. Ns temos que deixar essas cortinas abertas de dia, seno fica parecendo suspeito.
        -        Bem pensado - disse Hans, e carregou o rapaz.
        Com os cobertores na mo, Liesel observava.
         Ps moles e cabelos pendentes no corredor. Um sapato cado do p.
        -        Mexa-se.
        A me marchou atrs deles, com seu gingado de pata.
        Uma vez posto Max na cama, os cobertores foram empilhados sobre ele e presos em volta de seu corpo.
        -        Mame?
        Liesel no conseguiu dizer mais nada.
        -        Que foi?
        O coque no cabelo de Rosa Hubermann estava to apertado que, por trs, chegava a assustar. Pareceu apertar-se ainda mais quando ela repetiu a pergunta.
        -        Que , Liesel?
        A menina se aproximou, com medo da resposta.
        -        Ele est vivo?
        O coque fez que sim.
        Ento, Rosa virou-se e falou com grande segurana.
        -        Escute aqui, Liesel. No recebi esse homem na minha casa para v-lo morrer. Entendeu?
        Liesel acenou com a cabea.
        -        Agora, v embora.
        No corredor, o pai a abraou.
        Liesel precisava disso, desesperadamente.
        Mais tarde, ouviu Hans e Rosa conversarem na madrugada. Rosa a fizera dormir no quarto dos dois, e ela estava ao lado da cama, no cho, no colcho que tinham
trazido do poro. (Houvera uma certa preocupao de que ele pudesse estar infectado, mas os dois concluram que essas idias no tinham fundamento. No era de nenhum
vrus que Max estava sofrendo, de modo que eles subiram o colcho e trocaram o lenol.)
        Imaginando que a menina dormia, a me externou sua opinio.
        -        Aquela droga de boneco de neve - sussurrou. - Aposto que comeou com o boneco de neve... brincar com gelo e neve, naquele frio l embaixo.
        O pai foi mais filosfico.
        -        Rosa, comeou com Adolf - e se levantou. - Precisamos ficar de olho nele.
        No decorrer daquela noite, Max recebeu sete visitas.
         A FOLHA DE VISITANTES 
        E MAX VANDENBURG
        Hans Hubermann: 2
        Rosa Hubermann: 2
        Liesel Meminger: 3

        Pela manh, Liesel levou-lhe o caderno de desenhos do poro e o colocou na mesa de cabeceira. Sentia-se pssima por t-lo olhado no ano anterior e, dessa
vez, manteve-o firmemente fechado, por respeito.
        Quando o pai entrou, ela no se virou para olh-lo, mas dirigiu-se  parede, por cima de Max Vandenburg.
        -Por que  que eu tinha que levar toda aquela neve l para baixo? - perguntou.
        -        Eu comecei tudo isso, no foi, papai? - e juntou as mos, como quem rezasse.
        -        Por que  que eu tinha de construir aquele boneco de neve?
        O pai, reconhea-se o seu mrito permanente, foi categrico: - Liesel, voc tinha que fazer aquilo.
        Durante horas, a menina sentava-se ao lado de Max, enquanto ele tremia e dormia. - No morra - segredava. - Por favor, Max, no morra. Ele era o segundo
boneco de neve a derreter diante de seus olhos, s que esse era diferente. Era um paradoxo.
        Quanto mais frio ficava, mais derretia.

        TREZE PRESENTES
        Foi a chegada de Max revisitada.
        As plumas voltaram a se transformar em gravetos. O rosto liso tornou-se spero. A prova de que Liesel precisava era aquela. Ele estava vivo.
        Nos primeiros dias, ela se sentou e conversou com Max. No dia do aniversrio, contou-lhe que havia um bolo enorme esperando na cozinha, se ele quisesse acordar.
        No houve acordar.
        Nem havia bolo.

         UM EXCERTO DE ALTA MADRUGADA 
        Muito tempo depois, dei-me conta de que havia
        realmente visitado a Rua Himmel, 33, durante aquele
        perodo. Deve ter sido num dos poucos momentos
        em que a menina no estava com ele, pois s o que
        vi foi um homem na cama. Preparei-me para enfiar
        as mos por dentro dos cobertores. Ento, houve uma
        ressurgncia - uma luta imensa contra o meu peso.
        Recuei e, com tanto trabalho pela frente, foi bom
        que me combatessem naquele quartinho escuro.
        Cheguei at a conseguir uma breve pausa de serenidade,
        de olhos fechados, antes de me retirar.
        No quinto dia, houve um grande alvoroo quando Max abriu os olhos, mesmo por apenas alguns instantes. O que ele viu, predominantemente (e que verso assustadora
deve ter sido, vista de perto), foi Rosa Hubermann, praticamente a lhe enfiar uma braada de sopa boca adentro.
        -        Engula - aconselhou-o. - No pense. S engula.
        Assim que a me lhe devolveu a tigela, Liesel tentou rever o rosto dele, mas l estavam as costas de uma doadora de sopa no caminho.
        -        Ele ainda est acordado?
        Quando se virou, Rosa no precisou responder.
        Aps quase uma semana, Max acordou pela segunda vez, agora com Liesel e o pai no quarto. Os dois observavam o corpo estirado na cama quando houve um pequeno
grunhido. Se  que isso  possvel, o pai caiu para o alto, saltando da cadeira.
        -        Olhe - disse Liesel, com a voz entrecortada. - Fique acordado, Max, fique acordado.
        O rapaz a olhou brevemente, mas no houve reconhecimento. Os olhos a estudaram como se ela fosse um enigma. E depois se foram outra vez.
        -        Papai, que aconteceu?
        Hans desabou, voltando  cadeira.
        Mas tarde, sugeriu que talvez ela devesse ler para Max.
        -        Vamos, Liesel, voc l to bem hoje em dia... mesmo que seja um mistrio para todos ns de onde veio aquele livro.
        -        Eu lhe disse, papai. Foi uma das freiras da escola que me deu.
        O pai levantou as mos, num simulacro de protesto.
        -        Eu sei, eu sei - disse das alturas. - s... - e escolheu aos poucos as palavras - no se deixe apanhar.
        Isso dito por um homem que havia roubado um judeu.
        Desse dia em diante, Liesel leu O Assobiador para Max em voz alta, durante o tempo em que ele ocupou sua cama. A nica frustrao era ser forada a pular
captulos inteiros, porque muitas pginas tinham ficado grudadas. O livro no havia secado bem. Mesmo assim, ela ia batalhando, a ponto de j ter percorrido quase
trs quartos do texto. O livro tinha 396 pginas.
        No mundo externo, Liesel voltava apressada da escola todos os dias, na esperana de que Max houvesse melhorado.
        -        Ele acordou? Ele comeu?
        -        Volte l para fora - implorava-lhe a me. - Voc est cavando um buraco no meu estmago com toda essa falao. V. Saia e v jogar futebol, pelo
amor de Deus.
        -        Sim, mame.
        Liesel estava prestes a abrir a porta:
        -        Mas voc vai me buscar se ele acordar, no vai? Invente qualquer coisa. Grite, como se eu tivesse feito alguma coisa errada. Comece a me xingar.
Todo o mundo vai acreditar, no se preocupe.
         At Rosa teve que sorrir diante disso. Ps as mos nas cadeiras e explicou que Liesel ainda no estava velha demais para evitar uma Watschen, por falar
daquele jeito.
        -        E trate de fazer um gol - ameaou -, seno  melhor no vir para casa.
        -         claro, mame.
        -        Faa dois gols, Saumensch!
        -        Sim, mame.
        -        E pare de me responder!
        Liesel considerou, mas saiu correndo l para fora, para ser adversria de Rudy na rua enlameada e escorregadia.
        -        J era hora, sua coadora de rabo - acolheu-a Rudy, no jeito costumeiro de os dois disputarem a bola. - Onde  que voc andava?
        Meia hora depois, quando a bola foi esborrachada pela rara passagem de um carro na Rua Himmel, Liesel descobriu seu primeiro presente para Max Vandenburg.
Depois de julg-la sem conserto, a garotada toda foi embora, desgostosa, e deixou a bola estrebuchando na rua fria e embolotada. Liesel e Rudy ficaram agachados
sobre a carcaa. Havia um enorme buraco numa parte da bola, feito uma boca.
        -        Voc quer ela? - perguntou Liesel.
        Rudy encolheu os ombros.
        -        Pr que  que eu quero essa titica de monte esborrachado de bola? No tem mais jeito de ench-la de ar, tem?
        -        Voc quer ou no quer?
        -        No, obrigado.
        Rudy cutucou a bola cautelosamente com o p, como se fosse um animal morto. Ou um animal que talvez estivesse morto.
        Quando Rudy voltou para casa, Liesel pegou a bola e a ps embaixo do brao. Ainda o ouviu chamar.
        -        Ei, Saumensch! Esperou.
        -        Saumensch! Ela cedeu.
        -        Que ?
        -        Aqui tambm tem uma bicicleta sem rodas, se voc quiser.
        -        Enfie a sua bicicleta...
        Do lugar em que estava na rua, a ltima coisa que Liesel ouviu foi a risada daquele Saukerl do Rudy Steiner.
        Em casa, ela se dirigiu ao quarto. Levou a bola para Max e a colocou na extremidade da cama.
        -        Desculpe - disse-lhe - no  grande coisa. Mas, quando voc acordar, eu lhe conto tudo sobre ela. Eu conto que foi a tarde mais cinzenta que voc
pode imaginar, e a um carro com os faris apagados passou bem em cima da bola. E a o homem desceu e gritou com a gente. E depois pediu informaes sobre o caminho.
Que descaramento...!
        Acorde!, ela queria gritar.
        Ou ento sacudi-lo.
        No fez uma coisa nem outra.
        Tudo que Liesel conseguiu foi ficar olhando para a bola, com sua pele pisoteada e descascada. Era o primeiro de muitos presentes.
                PRESENTES 2 A 5 
        Uma fita, uma pinha. Um boto, uma pedra.
        A bola de futebol lhe dera uma idia.
        Agora, toda vez que ia e voltava da escola, Liesel ficava  procura de objetos descartados que pudessem ser valiosos para um homem agonizante. No comeo,
perguntou-se por que aquilo tinha tanta importncia. Como podia uma coisa aparentemente to insignificante consolar algum? Uma fita na sarjeta. Uma pinha na rua.
Um boto descuidadamente encostado numa parede da sala de aulas. Uma pedrinha chata e redonda do rio. Que mais no fosse, isso mostrava que ela se importava, e talvez
lhes desse um assunto para conversar quando Max acordasse.
        Quando se achava s, ela conduzia essas conversas.
        -        E o que  isso tudo? - diria Max. - Que  toda essa porcaria?
        -        Porcaria? - retrucaria Liesel. Mentalmente, estaria sentada ao lado da cama. - No  s porcaria, Max. Foi isso que fez voc acordar.
                PRESENTES 6 A 9 
        Uma pena, dois jornais. Um invlucro de bala.
        Uma nuvem.
        A pena era linda e estava presa na dobradia da porta da igreja, na Rua Munique. Projetava-se para fora, meio torta, e Liesel se apressou a resgat-la. As
fibras estavam achatadas do lado esquerdo, mas o direito era feito de bordas delicadas e setores de tringulos irregulares. No havia outro jeito de descrev-la.
        Os jornais saram das profundezas frias de uma lata de lixo ( o quanto basta dizer) e o invlucro de bala era liso e desbotado. Ela o achou perto da escola
e o segurou contra a luz. Continha uma colagem de marcas de sapatos.
        Depois, a nuvem.
        Como se d a algum um pedao de cu?
        No fim de fevereiro, ela parou na Rua Munique e observou uma nuvem gigantesca aproximar-se por sobre as colinas, como um monstro branco. Escalou as montanhas.
O sol foi eclipsado e, em lugar dele, uma fera branca de corao cinzento vigiou a cidade.
        -        Ollie s para aquilo! - disse ela ao pai.
        Hans inclinou a cabea e declarou o que lhe pareceu bvio.
        -        Voc devia d-la ao Max, Liesel. Veja se consegue deix-la na mesa de cabeceira, como todas as outras coisas.
        Liesel o fitou como se ele houvesse enlouquecido.
        -        Mas como?
        Ele lhe deu um piparote de leve na cabea.
        -        Decore-a. Depois, escreva-a para ele.
        -        ...parecia uma grande fera branca -disse a menina, em sua viglia seguinte junto ao leito - e veio por cima das montanhas.
        Quando a frase foi concluda, com vrios ajustes e acrscimos diferentes, Liesel achou que havia conseguido. Imaginou a viso da nuvem passando de sua mo
para ele, atravs dos cobertores, e a escreveu num pedao de papel, colocando a pedrinha em cima.
         PRESENTES 10 A 13 
        Um soldadinho de brinquedo.
        Uma folha milagrosa.
        Um assobiador terminado.
        Uma nesga de tristeza.
        O soldado estava enterrado no cho, no muito longe da casa de Tommy Mller. Estava arranhado e pisoteado, o que, para Liesel, era justamente o importante.
Mesmo machucado, ele ainda conseguia ficar de p.
        A folha era de bordo e ela a encontrou no armrio de vassouras da escola, entre os baldes e os espanadores. A porta estava entreaberta. A folha era seca
e dura, feito po torrado, e havia colinas e vales em toda a sua pele. No se sabe como, havia percorrido o corredor da escola e entrado naquele armrio. Como metade
de uma estrela com um cabo. Liesel a pegou e a girou entre os dedos.
        Ao contrrio dos outros objetos, ela no ps a folha na mesa de cabeceira. Prendeu-a na cortina fechada, pouco antes de ler as ltimas trinta e quatro pginas
de O Assobiador.
        Nesse fim de tarde, no jantou nem foi ao banheiro. No bebeu nada. Durante o dia inteiro, na escola, prometera a si mesma que terminaria de ler o livro
nesse dia, e Max Vandenburg escutaria. Ele ia acordar.
        Papai sentou-se no cho, num canto, desempregado como sempre. Por sorte, logo iria para o Knoller com seu acordeo. Com o queixo apoiado nos joelhos, ouviu
a menina a quem lutara para ensinar o alfabeto. Lendo orgulhosamente, ela despejou as ultimas palavras aterradoras do livro em Max Vandenburg.

         OS LTIMOS RESTOS DE  O ASSOBIADOR
        ...O ar vienense embaava as janelas do trem naquela manh e,
        enquanto as pessoas seguiam distradas para o trabalho, um
        assassino assobiava sua alegre melodia. Comprou o bilhete.
        Houve trocas educadas de cumprimentos com outros passageiros
        e com o condutor. Ele at ofereceu seu lugar a uma senhora
        idosa, e conversou polidamente com um jogador que lhe falou de
        cavalos norte-americanos. Afinal, o assobiador adorava conversar.
        Conversava com as pessoas e as iludia, fazendo-as gostar dele,
        confiar nele. Conversava com elas ao mat-las, enquanto as torturava
        e girava a faca. s quando no havia ningum com quem falar 
        que ele assobiava, razo por que o fazia depois dos assassinatos...
        - Ento, o senhor acha que a pista ser boa para o nmero sete, ?
        - E claro - sorriu o jogador. A confiana j
        se fizera presente. - Ele vir de trs e vai acabar
        com todos eles! - gritou, por cima do barulho do trem.
        - Se o senhor insiste... O assobiador deu um risinho de mofa
        e pensou durante muito tempo em quando encontrariam
        o corpo do inspetor, naquele BMW novo em folha.
        -        Jesus, Maria e Jos! - exclamou Hans, sem poder resistir a um tom incrdulo. - Foi uma freira que lhe deu isso? - e se levantou. Aproximou-se e
beijou-a na testa. - Tchau, Liesel, o Knoller me espera.
        -        At logo, papai.
        -        Liesel!
        Ela ignorou o chamado.
        -        Venha comer alguma coisa!
        Dessa vez, respondeu:
        -        Estou indo, mame.
        Na verdade, dirigiu essas palavras a Max, ao chegar mais perto e pr o livro terminado na mesa de cabeceira, com todo o resto. Ao se debruar sobre ele,
no pde evitar.
        -        Anda, Max! - murmurou, e nem mesmo a chegada da me s suas costas impediu-a de chorar baixinho. No a impediu de tirar um pouco de gua salgada
do olho e coloc-la no rosto de Max Vandenburg.
        A me a levou.
        Seus braos a engoliram.
        -        Eu sei - disse Rosa.
        Ela sabia.

        AR PURO, UM ANTIGO PESADELO E O QUE FAZER COM UM CADVER JUDAICO
        Eles estavam  margem do Amper e Liesel acabara de dizer a Rudy que estava interessada em obter outro livro na casa do prefeito. Em vez de O Assobiador,
lera vrias vezes O Vigiador junto ao leito de Max Esse s levava alguns minutos para ler. Tambm havia tentado O Dar de Ombros e at O Manual do Coveiro, mas nenhum
deles parecia muito adequado. Quero uma coisa nova, pensara consigo mesma.
        -        Mas voc pelo menos j leu o ltimo?
        -         claro que sim.
        Rudy atirou uma pedra na gua.
        -        E prestava?
        -         claro que prestava.
        -         claro que sim,  claro que prestava - remedou-a Rudy.
        Tentou arrancar outra pedra do cho, mas cortou o dedo.
        -        Bem feito.
        -        Saumensch.
        Quando a ltima resposta de uma pessoa era Saumensch, Saukerl ou Arschloch, a gente sabia que a tinha derrotado.
          
        Em termos de furto, as condies eram perfeitas. Era uma tarde sombria do incio de maro, poucos graus acima do congelamento o que  sempre mais incmodo
do que dez graus abaixo. Havia pouqussima gente na rua. E chuva, feito aparas de lpis cinza.
        -        Ns vamos?
        -        Bicicletas - disse Rudy. - Voc pode usar uma das nossas.
        Nessa ocasio, Rudy mostrou-se consideravelmente mais entusiasmado com a idia de ser ele o entrante.
        -        Hoje  minha vez - disse, enquanto os dedos de ambos congelavam nos guides das bicicletas.
        Liesel pensou ligeiro.
        -        Talvez voc no deva, Rudy. L tem coisas espalhadas por todo canto. E  escuro.  fatal que um idiota como voc tropece ou esbarre em alguma coisa.
        -        Muito obrigado.
        Nesse estado de nimo, Rudy era difcil de conter.
        -        E tem tambm a altura. O pulo  mais alto do que voc pensa.
        -        Est me dizendo que acha que eu no consigo?
        Liesel ficou em p nos pedais.
        -        De jeito nenhum.
        Os dois cruzaram a ponte e serpentearam ladeira acima at a Grande Strasse. A janela estava aberta.
        Como na vez anterior, inspecionaram a casa. Conseguiam enxergar vagamente o interior, at o ponto em que havia uma luz acesa embaixo, provavelmente no que
seria a cozinha. Uma sombra movia-se de um lado para outro.
        -        A gente vai s dar a volta no quarteiro umas vezes - disse Rudy. - Foi sorte termos vindo de bicicleta, hein?
        -        S trate de se lembrar de levar a sua para casa.
        -        Muito engraado, Saumensch. Ela  um pouquinho maior do que os seus sapatos nojentos.
        Circularam por uns quinze minutos,, talvez, e a mulher do prefeito continuava no trreo, meio perto demais para ser conveniente. Como  que se atrevia a
ocupar a cozinha com tamanha vigilncia? Para Rudy, a cozinha era, sem sombra de dvida, a verdadeira meta. Ele entraria, roubaria tanta comida quanto fosse fisicamente
possvel, e se (e somente se) dispusesse de um ltimo minuto de sobra, enfiaria um livro nas calas, na sada. Qualquer livro serviria.
        Mas a fraqueza de Rudy era a impacincia.
        -        Est ficando tarde - disse, e comeou a se afastar. - Voc vem?
        Liesel no foi.
        No havia nada que decidir. Ela arrastara aquela bicicleta enferrujada at l e no estava disposta a sair sem um livro. Encostou o guidom na sarjeta, olhou
em volta  procura de vizinhos e se encaminhou para a janela. Foi em boa velocidade, mas sem pressa. Tirou os sapatos com os prprios ps, empurrando os saltos com
os dedos.
        Apertou a madeira com as mos ao pular para dentro.
        Dessa vez, nem que fosse um pouquinho, sentiu-se mais  vontade. Em poucos preciosos momentos, circulou pelo cmodo,  procura de um ttulo que a atrasse.
Em trs ou quatro ocasies, quase estendeu a mo. Chegou at a pensar em levar mais de um, mas, por outro lado, no quis abusar do que era uma espcie de sistema
Por ora, apenas um livro era necessrio. Ela estudou as estantes e aguardou.
        Uma escurido extra infiltrou-se pela janela, s suas costas. O cheiro de poeira e furto pairava ao fundo, e ela o viu.
        O livro era vermelho, com letras pretas na lombada. Der Traumtrger. O Carregador de Sonhos. Liesel pensou em Max Vandenburg e seus sonhos. Na culpa. Na
sobrevivncia. No abandono da famlia. Nas lutas com o Fhrer. Pensou tambm em seu prprio sonho - seu irmo, morto no trem, e o aparecimento dele na escada, logo
na esquina desse mesmo cmodo. A menina que roubava livros viu o joelho ensangentado do irmo na prpria investida de sua mo.
        Tirou o livro da prateleira, enfiou-o embaixo do brao, trepou no parapeito da janela e pulou para o lado de fora, tudo num movimento s.
        Rudy segurava seus sapatos. Tinha a bicicleta pronta. Uma vez calados os sapatos, os dois partiram.
        -        Jesus, Maria e Jos, Meminger! - e ele nunca a chamara de Meminger at ento. - Voc  uma luntica completa. Sabia disso?
        Liesel concordou, enquanto pedalava feito louca.
        -        Eu sei.
        Na ponte, Rudy resumiu os acontecimentos da tarde.
        -        Ou essa gente  completamente maluca, ou simplesmente gosta de ar puro.

         UMA PEQUENA SUGESTO 
        Ou talvez houvesse uma mulher na Grande Strasse
        que agora mantinha aberta a janela da biblioteca
        por outra razo - mas isso sou apenas eu sendo cnica,
        ou esperanosa. Ou ambas as coisas.

        Liesel ps O Carregador de Sonhos embaixo do casaco e comeou a l-lo no minuto em que voltou para casa. Na cadeira de madeira junto  cama, abriu livro
e murmurou:
        -        Este  novo, Max. S para voc - e comeou a ler. - Captulo um: Foi muito adequado que a cidade inteira estivesse adormecida quando o carregador
de sonhos nasceu...
        Todos os dias, Liesel lia dois captulos do livro. Um de manha, antes da aula um assim que voltava da escola. Em algumas noites, quando no conseguia dormir
ela tambm lia metade de um terceiro captulo. s vezes, adormecia dobrada para frente sobre a lateral da cama.
        Aquilo se tornou sua misso.
        Ela oferecia O Carregador de Sonhos a Max como se as simples palavras pudessem aliment-lo. Numa tera-feira, achou que tinha havido um movimento. Poderia
jurar que os olhos dele se abriram. Se era verdade, foi s por um instante, e o mais provvel e que tenham sido apenas sua imaginao e a racionalizao de seus
desejos.
        Em meados de maro, as fissuras comearam a aparecer.
        Rosa Hubermann - a que era boa nas crises - estava  beira de explodir, uma tarde, na cozinha. Elevou a voz e tornou a baix-la depressa. Liesel parou de
ler e foi em silencio para o corredor. Por mais perto que chegasse, mal conseguia discernir as palavras da me. Quando conseguiu ouvi-las, desejou no t-lo feito,
pois o que ouviu foi horripilante. Foi a realidade.

         O CONTEDO DA VOZ DA MAME 
        - E se ele no acordar?
        E se ele morrer aqui, Hansi?
        Diga-me, em nome de Deus, que vamos fazer com o corpo?
        No podemos deix-lo aqui, o cheiro vai nos matar...
        e tambm no podemos carreg-lo porta afora e
        arrast-lo pela rua. No podemos apenas dizer:
        "Voc no vai adivinhar o que achamos
        em nosso poro hoje de manh..." Vo nos mandar embora para sempre.
        Tinha absoluta razo.
        Um cadver judaico era um enorme problema. Os Hubermann precisavam ressuscitar Max Vandenburg, no apenas pelo bem dele, mas tambm pelo seu. At o pai,
que era sempre a suprema influncia tranqilizadora, sentia a presso.
        -        Escute - disse em voz baixa, mas pesada. - Se isso acontecer... se ele morrer... simplesmente teremos que descobrir um jeito.
        Liesel seria capaz de jurar que o ouviu engolir em seco. Uma engolida como um golpe na traquia.
        -        Minha carroa de tintas, umas mantas de proteo contra respingos...
        A menina entrou na cozinha.
        -        Agora no, Liesel.
        Foi o pai quem falou, embora no a olhasse. Fitava seu prprio rosto distorcido nas costas de uma colher. Tinha os cotovelos enterrados na mesa.
        A roubadora de livros no se retirou. Deu mais uns passos e sentou-se. Suas mos frias apalparam suas mangas e uma frase lhe caiu da boca.
        -        Ele ainda no morreu.
         As palavras pousaram na mesa e se posicionaram no meio. As trs pessoas ficaram a olh-las. As tnues esperanas no ousaram elevar-se mais do que isso.
Ele ainda no morreu. Ele ainda no morreu. Foi Rosa a primeira a falar.
        -        Quem est com fome?
        Possivelmente, a nica hora em que a doena de Max no afligia era a do jantar. No havia como neg-lo, quando os trs se sentavam  mesa da cozinha com
seu po extra e sua sopa ou batatas a mais. Todos pensavam nisso, mas ningum falava.
        De madrugada, algumas horas depois, Liesel acordou e se intrigou com a altura de seu corao. (Aprendera essa expresso em O Carregador de Sonhos, que era,
essencialmente, a completa anttese de O Assobiador - um livro sobre um menino abandonado que queria ser padre.) Sentou-se e inspirou fundo o ar da noite.
        -        Liesel? - rolou o pai na cama. - Que foi?
        -        Nada, papai, est tudo bem.
        Mas, no momento mesmo em que terminou a frase, ela soube exatamente o que tinha acontecido em seu sonho.
         UMA IMAGENZINHA 
        Na maior parte, era tudo idntico. O trem se movia com a mesma velocidade.
        Abundantemente, seu irmo tossia.
        Dessa vez, porm, Liesel no pde ver seu
        rosto fitando o cho. Inclinou-se devagar.
        Sua mo o ergueu com delicadeza, pelo queixo,
        e ali, diante dela, estava o rosto
        de olhos arregalados de Max Vandenburg.
        Ele a fitava. Uma pena caiu no cho.
        Agora o corpo era maior, combinando com
        o tamanho do rosto. O trem gritou.

        -        Liesel?
        -        Eu disse que est tudo bem.
        Trmula, ela saiu do colcho. Entorpecida de medo, foi pelo corredor at Max. Aps muitos minutos a seu lado, quando tudo ficou mais lento, tentou interpretar
o sonho. Seria uma premonio da morte de Max? Ou uma simples reao  conversa da tarde na cozinha? Teria Max substitudo seu irmo? E, se assim fosse, como poderia
ela desfazer-se de sua prpria carne e osso daquele jeito? Talvez fosse at um desejo profundo de que Max morresse. Afinal, se isso era suficientemente bom para
Werner, seu irmo, era suficientemente bom para esse judeu.
        -         isso que voc acha? - murmurou ela, erguendo-se ao lado da cama. - No.
        No conseguia acreditar. Sua resposta ficou suspensa, enquanto o torpor da escurido se desfazia e delineava as vrias formas, grandes e pequenas, na mesa
de cabeceira. Os presentes.
        -        Acorde - disse ela.
        Max no acordou.
        Por mais oito dias.
        Na escola, houve uma batida na porta.
        -        Entre - disse Frau Olendrich.
        A porta se abriu e toda a turma de crianas olhou, surpresa, para Rosa Hubermann, parada no vo. Uma ou duas sufocaram um grito ante a viso - um armariozinho
de mulher, com um sorriso escarninho de batom e olhos de cloro. Aquela. Era a lenda. Rosa usava sua melhor roupa, mas seu cabelo estava uma baguna, e era uma toalha
de mechas cinzentas elsticas.
        A professora ficou visivelmente amedrontada.
        -        Frau Hubermann...
        Seus gestos foram confusos. Ela vasculhou a turma.
        -        Liesel?
        Liesel olhou para Rudy, levantou-se e andou depressa at a porta, para acabar com o constrangimento o mais rpido possvel. Fechou-a ao sair, e ento se
viu a ss no corredor, com Rosa.
        Rosa desviou o olhar.
        -        Que foi, mame? Ela se virou.
        -        No me venha com 'o que foi, mame', sua Saumenschzinha!
        Liesel foi perfurada pela velocidade das palavras.
        -        Minha escova de cabelo!
        Um filete de risadas rolou por baixo da porta, mas foi prontamente puxado de volta.
        -        Mame?
        O rosto dela era severo, mas sorria.
        -        Que diabo voc fez com a minha escova, sua Saumensch idiota, sua ladrazinha? Eu j lhe disse mais de cem vezes para deix-la em paz, mas ser que
voc escuta?  claro que no!
        A espinafrao prosseguiu por mais um minuto, talvez, com Liesel fazendo uma ou duas sugestes desesperadas sobre a possvel localizao da referida escova.
E acabou de repente, quando Rosa a puxou para junto de si, apenas por alguns segundos. Seu cochicho foi quase inaudvel, mesmo com toda a proximidade.
        -        Voc me disse para gritar com voc. Disse que todo o mundo acreditaria - e olhou  esquerda e  direita, com a voz parecendo agulha e linha. - Ele
acordou, Liesel. Est acordado - e tirou do bolso o soldadinho de brinquedo, com o exterior arranhado. - Mandou eu lhe dar isso. Era o favorito dele.

        Rosa o entregou, esticando bem os braos, e sorriu. Antes que Liesel tivesse chance de responder, concluiu a bronca.
        -        E ento? Responda! Voc tem alguma outra idia de onde pode t-la deixado?
        Ele est vivo, pensou Liesel.
        -        ...No, mame. Desculpe, mame, eu...
        -        Bom, ento para que  que voc serve?
        Soltou a menina, fez-lhe um aceno de cabea e foi embora.
        Por alguns instantes, Liesel continuou imvel. O corredor era imenso. Examinou o soldado na palma da mo. O instinto lhe dizia para correr imediatamente
para casa, mas o bom senso no deixou. Em vez disso, ela ps o soldado maltrapilho no bolso e voltou para a sala de aulas.
        Todos esperavam.
        -        Vaca idiota - murmurou entre dentes.
        Mais uma vez, as crianas riram. Mas no Frau Olendrich.
        -        O que voc disse?
        Liesel estava to zonza que se sentia indestrutvel.
        -        Eu disse -, sorriu, radiante - vaca idiota - e no precisou esperar nem um instante para que a mo da professora a esbofeteasse.
        -        No fale assim de sua me - disse ela, mas surtiu pouco efeito. A menina s fez ficar parada, tentando conter o riso. Afinal, era capaz de levar
uma Watschen dos melhores deles.
        -        E agora, volte para o seu lugar.
        -        Sim, Frau Olendrich.
        A seu lado, Rudy no se atreveu a falar.
        -        Jesus, Maria e Jos - murmurou -, d para ver a mo dela no seu rosto. Uma manzorra vermelha. Cinco dedos!
        -        timo - respondeu Liesel, porque Max estava vivo.
        Quando chegou em casa,  tarde, ele estava sentado na cama, com a bola murcha de futebol no colo. A barba comichava e seus olhos alagadios lutavam para
ficar abertos. Havia uma tigela vazia de sopa ao lado dos presentes.
        No disseram ol.
        Foi mais pelas beiradas.
        A porta rangeu, a menina entrou e parou diante dele, olhando para a tigela.
        -        A mame est empurrando isso pela sua goela abaixo?
        Max fez que sim, contente, exausto.
        -        Mas estava tima.
        -        A sopa da mame?  mesmo?
        No foi um sorriso o que ele lhe deu.
        -        Obrigado pelos presentes.
        Foi mais um ligeiro rasgo da boca.
        -        Obrigado pela nuvem. Essa O seu pai explicou um pouco mais.
        -        No sabamos o que fazer se voc morresse, Max. Ns... Ele no demorou:
        -        Quer dizer, como se livrarem de mim?
        -        Desculpe.
        -        No - retrucou ele, sem se ofender. - Vocs tinham razo - concordou, brincando de leve com a bola. - Tinham razo em pensar assim. Na sua situao,
um judeu morto  to perigoso quanto um judeu vivo, se no for pior.
        -        Eu tambm sonhei.
        Em detalhe, Liesel explicou seu sonho, agarrada ao soldadinho. Estava prestes a pedir desculpas outra vez, quando Max interveio.
        -        Liesel - e a fez olhar para ele. - Nunca me pea desculpas. Eu  que devo me desculpar com voc - e olhou para tudo que a menina lhe levara. - Veja
isso tudo, esses presentes - segurando o boto. - E a Rosa me disse que voc lia para mim duas vezes por dia, s vezes trs.
        Nesse momento, fitou as cortinas, como se pudesse enxergar atravs delas. Sentou-se com o corpo um pouco mais ereto e fez uma pausa de umas doze frases silenciosas.
A inquietao invadiu-lhe o rosto, e ele fez uma confisso  menina.
        -        Liesel - disse, deslocando-se ligeiramente para a direita. - Estou com medo de pegar no sono de novo.
        A menina foi resoluta.
        -        Ento, vou ler para voc. E dou um tapa no seu rosto, se voc comear a cochilar. Fecho o livro e o sacudo at voc acordar.
        Nessa tarde e pela noite afora, Liesel leu para Max Vandenburg. O rapaz sentou-se na cama e absorveu as palavras, agora desperto, at pouco depois das dez
horas. Quando Liesel fez uma pequena pausa em O Carregador de Sonhos, olhou por cima do livro e Max havia adormecido. Nervosa, cutucou-o com o livro. Ele acordou.
        Adormeceu mais trs vezes. Em mais duas ela o despertou.
        Nos quatro dias seguintes, Max acordou todas as manhs na cama de Liesel, depois junto  lareira e, por fim, em meados de abril, no poro. Sua sade estava
melhor, a barba se fora e umas tirinhas de peso haviam voltado.
        No mundo interno de Liesel, houve grande alvio dessa vez. Do lado de fora, as coisas comeavam a parecer incertas. No fim de maro, um lugar chamado Lbeck
recebeu uma saraivada de bombas. O seguinte seria Colnia e, em pouco tempo, muitas outras cidades alems, inclusive Munique.
        E, o chefe estava no meu cangote.
        -        Apronte logo isso, apronte logo isso.
        As bombas estavam chegando - e eu tambm.

        DIRIO DA MORTE: COLONIA
        As horas mortas de 30 de maio.
        Tenho certeza de que Liesel Meminger dormia a sono solto quando mais de mil bombardeiros voaram para um lugar chamado Colonia Para mim, o resultado foram
umas quinhentas pessoas, por a. Outra cinqenta mil perambularam sem teto em volta das pilhas fantasmagricas de escombros, tentando descobrir o que era o que e
que lascas de casas destroadas pertenciam a quem.
        Quinhentas almas.
        Carreguei-as nos dedos, feito malas. Ou ento as jogava por cima do ombro. S as crianas foi que levei no colo.
        Quando terminei, o cu estava amarelo como jornal em chamas. olhasse de perto, eu podia ver as palavras, as manchetes das notcias comentando o progresso
da guerra e assim por diante. Como gostar de derrubar aquilo tudo, de amarrotar o cu de jornal e jog-lo foi Meus braos doam e eu no podia me dar ao luxo de
queimar os d dos. Ainda havia muito trabalho a fazer.
        Como voc poderia esperar, muitas pessoas tiveram morte instantnea. Outras levaram mais um tempo. Havia vrios outros lugares para i cus com que deparar
e almas a recolher e, quando voltei para Colonia mais tarde, no muito depois dos ltimos avies, consegui notar un coisa singularssima.
        Eu carregava a alma chamuscada de uma adolescente, quando olha gravemente para cima, para o que j ento era um cu sulfrico. Por perto havia um grupo de
meninas de dez anos. Uma delas exclamou:
        -        Que  aquilo?
        O brao se estendeu e o dedo apontou para o objeto preto e lento que caa do alto. Comeou como uma pluma negra, inclinando-se, flutuando. Ou como um pedao
de cinza. Depois, ficou maior. A mesma menina - uma ruiva com sardas em forma de pontos - tornou a falar, dessa vez com mais nfase.
        -        Que  aquilo?
        -         um corpo - sugeriu outra menina. Cabelo preto, rabo-de-cavalo e uma parte torta no meio.
        -        E outra bomba!
        Era lento demais para ser uma bomba.
        Com o esprito adolescente ainda ardendo de leve em meus braos, andei umas centenas de metros com o resto delas. Como as meninas, mantive-me concentrada
no cu. A ltima coisa que eu queria era baixar os olhos para o rosto perdido de minha adolescente. Uma menina bonita. Agora, tinha toda a morte pela frente.
        Como o resto delas, levei um susto quando uma voz gritou. Era um pai insatisfeito, mandando suas filhas entrarem. A ruiva reagiu. Suas sardas alongaram-se
em vrgulas.
        -        Mas, papai, olhe!
        O homem deu vrios passinhos e logo descobriu do que se tratava.
        -  o combustvel - disse.
        -        Como assim?
        -        O combustvel - repetiu ele. - O tanque.
        Era um homem calvo, com a roupa de dormir rasgada.
        -        Eles usaram todo o combustvel daquele e se livraram do tambor. Olhe, h mais um l.
        -        E l!
        Como criana  criana, todas saram numa busca frentica, a essa altura, tentando achar um tambor vazio de combustvel flutuando para o cho.
        O primeiro aterrissou com um baque surdo.
        -        Podemos ficar com ele, papai?
        -        No.
        Estava bombardeado e chocado esse pai, e claramente no se sentia no clima.
        -        No podemos ficar com ele.
        -        Por que no?
        -        Vou perguntar ao meu pai se eu posso ficar com ele - disse outra menina.
        -        Eu tambm.
        Logo depois dos destroos de Colnia, um grupo de crianas recolhia tambores vazios de combustvel, lanados por seus inimigos. Como de praxe, recolhi seres
humanos. Estava cansada. E o ano ainda nem havia chegado  metade.

        A VISITA
        Encontrara-se uma nova bola para o futebol da Rua Himmel. Essa foi a boa notcia. A notcia meio inquietante foi que uma diviso e NSDAP estava indo para
l.
        Eles tinham avanado por toda Molching, rua a rua, casa a casa, agora estavam na loja de Frau Diller, fazendo uma pausa rpida para um cigarro, antes de
darem continuidade a seu trabalho.
        J havia um pequeno numero de abrigos antiareos em Molching mas ficara decidido, pouco depois do bombardeio de Colnia, que mais alguns certamente no fariam
mal. O NSDAP estava inspecionando cada uma das casas, para verificar se o poro era um candidato adequado.
        De longe, a meninada observava.
        Via a fumaa que se erguia do grupo.
        Liesel havia acabado de sair e se aproximara de Rudy e Tommy - Que est acontecendo l?
        Rudy ps as mos nos bolsos.
        -        O partido - disse. Inspecionou o progresso do amigo com bola, na cerca em frente  casa de Frau Holtzapfel. - Esto examinando todas as casas e
prdios de apartamentos.
        Uma secura instantnea apossou-se do interior da boca de Liesel.
        -        Para qu?
        -        Voc no sabe nada, ? Diga a ela, Tommy. Tommy ficou perplexo.
        -        Bom, eu  que no sei.
        -        Vocs no tm jeito, vocs dois. Eles precisam de mais abrigos.
        O QUE: pores?
        - No, sto.  claro que so pores! Nossa, Liesel, voc  burra mesmo, hein?
        A bola estava de volta.
        - Rudy!
        Rudy comeou a jog-la e Liesel continuou parada. Como poderia voltar para dentro de casa, sem parecer suspeita demais? A fumaa na loja de Frau Diller j
desaparecia e o pequeno grupo de homens comeava a se dispersar. Foi dessa maneira terrvel que se gerou o pnico. Garganta e boca. O ar virou areia. Pense, pensou
ela. Ande, Liesel, pense, pense. Rudy fez um gol.
        Vozes distantes lhe deram parabns. Pense, Liesel... Descobriu.  isso, resolveu, mas tenho que fazer com que parea real.
        Enquanto os nazistas avanavam pela rua, pintando as letras LSR em algumas portas, a bola foi lanada pelo alto para um dos meninos maiores, Klaus Behrig.
         LSR 
        Luft Schutz Raum:
        Abrigo antiareo
        O menino girou com a bola, no exato momento em que Liesel chegou, e os dois se chocaram com tanta fora que o jogo parou automaticamente. Enquanto a bola
rolava para longe, os jogadores vieram correndo. Liesel segurava o joelho esfolado com uma das mos e a cabea com a outra. Klaus Behrig segurava apenas a canela
direita, fazendo caretas e xingando.
        -        Cad ela? - cuspiu. - Vou matar ela!
        No haveria morte nenhuma.
        Foi pior.
        Um membro gentil do partido vira o incidente e correu obsequiosamente para o grupo.
        -        Que houve aqui? - indagou.
        -        Ora, essa a  manaca - respondeu Klaus, apontando para Liesel, o que levou o homem a ajud-la a se levantar. Seu hlito de tabaco formou uma duna
de fumaa diante do rosto dela.
        -        Acho que voc no tem condio de continuar jogando, minha menina - disse o homem. - Onde mora?
        -        Eu estou bem - retrucou ela - estou mesmo. Posso me arranjar sozinha.
        Saia de cima de mim saia de cima de mim!
        Foi nessa hora que Rudy se meteu, o eterno intrometido.
         -        Eu ajudo voc a ir para casa.
        Por que ele no podia cuidar s da sua vida, para variar?
        -        De verdade - disse Liesel -, continue jogando, Rudy. Eu vou sozinha.
        -        No, no - e no havia como demov-lo. Ah, a teimosia dele! - s vai levar um ou dois minutos.
        Mais uma vez, Liesel tinha que pensar, e mais uma vez conseguiu. Com Rudy a segur-la, fez-se desabar de novo no cho, de costas.
        -        Meu pai - disse. O cu, ela notou, estava profundamente azul. Nem mesmo uma sugesto de nuvem. - Pode cham-lo, Rudy?
        -        Fique aqui - ordenou o menino. Virando-se para a direita, gritou: - Tommy, vigie ela, sim? No deixe ela se mexer.
        Tommy entrou em ao num estalo.
        -        Eu vigio, Rudy - e se ps a velar sobre Liesel, contorcendo o rosto e tentando no sorrir, enquanto ela ficava de olho no homem do partido.
        Um minuto depois, Hans Hubermann erguia-se calmamente ao lado dela.
        -        Oi, papai.
        Um sorriso decepcionado misturou-se com os lbios de Hans.
        -        Eu me perguntava quando isso ia acontecer.
        Pegou-a no colo e a levou para casa. O jogo continuou, e o nazista j batia  porta de uma moradia, algumas portas adiante. Ningum atendeu. Rudy tornou
a chamar:
        -        Precisa de ajuda, Herr Hubermann?
        -        No, no, continue jogando, Herr Steiner.
        Herr Steiner. A gente s podia adorar o papai de Liesel.
        Uma vez do lado de dentro, Liesel deu-lhe a informao. Tentou encontrar um meio-termo entre o silncio e o desespero.
        -        Papai.
        -        No fale.
        -        O partido - sussurrou ela. O pai parou. Lutou contra a nsia de abrir a porta e olhar a rua. - Eles esto examinando os pores para fazer abrigos.
        Hans a ps no cho.
        -        Menina esperta - disse, e chamou Rosa.
        Eles dispunham de um minuto para produzir um plano. Uma barafunda de idias.
        -         s a gente coloc-lo no quarto da Liesel - foi a sugesto da me. - Embaixo da cama.
        -        S isso? E se eles resolverem inspecionar nossos quartos tambm?
        -        Voc tem um plano melhor?
        Correo: eles no dispunham de um minuto..
        Uma batida em sete socos martelou a porta do nmero 33 da Rua Himmel, e era tarde demais para transferir qualquer pessoa para qualquer lugar.
         A voz.
        -        Abram!
        As batidas de seus coraes lutaram umas com as outras, numa atabalhoao de ritmos. Liesel tentou devorar as dela. O gosto de corao no era muito animador.
Rosa sussurrou:
        -        Jesus, Maria...
        Nesse dia, foi o pai quem se mostrou  altura do problema. Precipitou-se para a porta do poro e mandou um aviso escada abaixo. Quando voltou, falou depressa
e com fluncia.
        -        Escutem, no h tempo para truques. Poderamos distra-lo de cem maneiras diferentes, mas s existe uma soluo - e olhou para a porta, resumindo:
- Nada.
        No era a resposta que Rosa queria. Seus olhos se arregalaram.
        -        Nada? Voc est maluco?
        As batidas recomearam.
        O pai foi rigoroso.
        -- Nada. Nem vamos l embaixo. Sem a menor preocupao no mundo.
        Tudo ficou mais lento.
        Rosa aceitou.
        Apertada de aflio, balanou a cabea e tratou de atender a porta.
        -        Liesel - cortou-a a voz do pai - trate apenas de ficar calma, verstehst?
        -        Sim, papai.
        Tentou concentrar-se na perna que sangrava.
        -        Ah-ha!
        A porta, Rosa ainda perguntava qual era o significado daquela interrupo, quando o homem gentil do partido notou Liesel.
        -        A jogadora de futebol manaca! - sorriu. - Como est o joelho?
        A gente no costuma imaginar os nazistas muito alegrinhos, mas esse homem certamente o era. Entrou e foi se abaixando para examinar o machucado.
        Ser que ele sabe?, pensou Liesel. Ser que fareja que estamos escondendo um judeu?
        O pai veio da pia com uma toalha molhada e a ps no joelho de Liesel.
        -        Est ardendo?
        Seus olhos de prata eram atenciosos e calmos. O medo presente neles podia ser facilmente confundido com uma preocupao com o ferimento. Rosa falou, do outro
lado da cozinha.
        -        No h como arder demais. Pode ser que isso a faa aprender a lio. O homem do partido ergueu-se e riu.
        -        Acho que essa menina no anda aprendendo nenhuma lio, Frau...?
        -        Hubermann - contorceu-se o rosto de papelo.
        -        ...Frau Hubermann, eu acho que ela d lies - e sorriu para Liesel. - A todos aqueles meninos. Estou certo, mocinha?
         O pai enfiou a toalha no arranho e Liesel estremeceu, em vez de responder. Foi Hans quem falou. Um "desculpe" baixinho, dirigido  menina.
        Veio ento o incmodo do silncio, at que o homem do partido se lembrou de seu propsito.
        -        Se no se importam - explicou -, preciso inspecionar seu poro, s por um ou dois minutos, para ver se ele serve de abrigo.
        O pai deu uma ltima pancadinha no joelho de Liesel.
        -        Voc tambm vai ficar com uma bela mancha roxa a, Liesel - disse. Em tom despreocupado, respondeu ao homem que se erguia sobre eles. -  claro.
Primeira porta  direita. Desculpe a baguna, por favor.
        -        Eu no me preocuparia com isso... no pode ser pior do que uns outros que j vi hoje. ... esta?
        -         essa.
         OS TRS MINUTOS MAIS COMPRIDOS 
        DA HISTRIA DOS HUBERMANN
        O pai sentou-se  mesa. Rosa ficou rezando no canto, enunciando as palavras em silncio. Liesel sentia-se frita:
        o joelho, o peito, os msculos dos braos. Duvido que
        algum deles tenha tido a audcia de pensar no que faria
        se o poro fosse designado como abrigo.
        Primeiro, tinham que sobreviver  inspeo.

        Ouviram os passos do nazista no poro. Veio o som da fita mtrica. Liesel no pde evitar a idia de Max sentado embaixo da escada, encolhido com seu livro
de desenhos, apertando-o junto ao peito.
        O pai se levantou. Outra idia.
        Foi at o corredor e gritou:
        -        Tudo bem a embaixo?
        A resposta subiu a escada, por cima de Max Vandenburg.
        -        S mais um minuto, talvez!
        -        O senhor gostaria de um caf, um ch?
        -        No, obrigado.
        Ao voltar, Hans ordenou que Liesel pegasse um livro e Rosa comeasse a cozinhar. Resolveu que a ltima coisa que eles deviam fazer era ficar sentados, com
ar apreensivo.
        -        Bom, vamos l - disse em voz alta - ande logo, Liesel. No me interessa se o seu joelho est doendo. Voc tem que terminar aquele livro, como disse.
        Liesel tentou no perder o controle.
        -        Sim, papai.
        -        Que est esperando?
         Foi um esforo enorme dar-lhe uma piscadela, ela percebeu.
        No corredor, a menina quase se chocou com o homem do partido.
        - Problemas com o papai, hein? No se incomode. Tambm sou assim com os filhos.
        Seguiram seus rumos separados e, quando chegou ao quarto, Liesel fechou a porta e caiu de joelhos, apesar do aumento da dor. Primeiro ouviu a sentena dele:
o poro era raso demais, depois as despedidas, uma das quais foi mandada o corredor:
        - At logo, jogadora de futebol manaca!
        Ela se recomps:
        - Auf Wiedersehen! At logo! O Carregador de Sonhos fervia em suas mos.
        Segundo o pai, Rosa desmanchou-se junto ao fogo no instante em que o homem do partido se retirou. Os dois pegaram Liesel e desceram ao poro, afastando
as mantas de proteo e as latas de tinta bem arranjadas. Max Vandenburg sentava-se baixo da escada, segurando como uma faca sua tesoura enferrujada. Tinha as axilas
empapadas de suor, e as palavras saram-lhe da boca como xingamentos.
        - Eu no ia us-la - disse baixinho. - Eu...- e encostou as lminas enferrujadas na testa. - Eu sinto muito, muito, t-los feito passar por isso. Papai acendeu
um cigarro. Rosa pegou a tesoura.
        - Voc est vivo - disse ela. - Todos estamos. Era tarde demais para desculpas.

        O SCHMUNZELER
        Minutos depois, houve uma segunda batida na porta.
        -        Santo Deus, mais um!
        A preocupao recomeou de imediato.
        Max foi escondido.
        Rosa subiu com esforo a escada do poro, mas, ao abrir a porta dessa vez, no eram os nazistas. No era ningum menos do que Rudy Steiner. Postado ali,
de cabelo amarelo e cheio de boas intenes.
        -        S passei para ver como est a Liesel.
        Quando ouviu sua voz, Liesel comeou a subir a escada.
        -        Desse eu posso cuidar.
        -         o namorado dela - mencionou o pai, dirigindo-se s latas de tinta. Soltou outra baforada de fumaa.
        -        Ele no  meu namorado - protestou Liesel, mas no estava irritada. Isso seria impossvel, depois de uma escapada to difcil por um triz. - s
vou l em cima porque a mame vai comear a gritar a qualquer segundo.
        -        Liesel!
        Ela estava no quinto degrau.
        -Viu?
        Quando chegou  porta, Rudy mexia-se num p e no outro.
        -        S vim ver... - interrompeu-se. - Que cheiro  esse? - farejou. - Voc andou fumando aqui?
        -        Ah. Eu estava com o papai.
        -        Voc tem cigarros? Quem sabe a gente pode vender alguns.
        Liesel no estava com clima para isso. Falou baixo o bastante para que a me no ouvisse.
        - Eu no roubo do meu pai.
        - Mas rouba de uns outros lugares.
        - Que tal falar um pouquinho mais alto, no quer?
        Rudy schmunzelou.
        -        Est vendo no que d roubar? Voc est toda preocupada.
        -  Como se voc nunca tivesse roubado nada.
        -        , mas voc cheira a roubo - insistiu ele. Estava realmente esquentando as turbinas. - Vai ver que isso no  fumaa de cigarro, afinal - e chegou
mais perto, sorridente. - Estou  sentindo cheiro de uma criminosa. Voc devia tomar um banho.
        Voltando-se para a rua, gritou para Tommy Mller.
        - Ei, Tommy, voc devia vir aqui dar uma cheirada nisso!
        - O que voc disse? - fez Tommy. Com esse se podia contar. - No estou ouvindo!
        Rudy abanou a cabea em direo a Liesel:
        -  intil.
        Ela comeou a fechar a porta.
        -        Suma daqui, Saukerl, voc  a ltima coisa de que eu preciso agora.
        Muito satisfeito consigo mesmo, Rudy foi voltando para a rua. Junto  caixa do correio, pareceu lembrar-se do que tinha querido verificar, desde o comeo.
Retrocedeu alguns passos.
        -        Alies gut, Saumensch? Quero dizer, o machucado.
        Era junho. Era a Alemanha.
        As coisas estavam  beira da decadncia.
        Liesel no sabia disso. Para ela, o judeu em seu poro no fora descoberto. Seus pais de criao no tinham sido levados embora, e ela mesma contribura
enormemente para essas duas faanhas.
        -        Est tudo bem - respondeu, e no falava de nenhum tipo de machucado conseguido no futebol.
        Ela estava tima.

        DIRIO DA MORTE: OS PARISIENSES
        Veio o vero.
        Para a menina que roubava livros, tudo corria bem. Para mim, o cu era da cor dos judeus.
        Quando seus corpos acabavam de vasculhar a porta em busca de frestas, as almas subiam. Depois de suas unhas arranharem a madeira e, em alguns casos, ficarem
cravadas nela, pela pura fora do desespero, seus espritos vinham em minha direo, para meus braos, e galgvamos as instalaes daqueles chuveiros, escalvamos
o telhado e subamos para a largueza segura da eternidade. E continuavam a me alimentar. Minuto aps minuto. Chuveiro aps chuveiro.
        Nunca me esquecerei do primeiro dia em Auschwitz, da primeira vez em Mauthausen. Nesse segundo local, com o correr do tempo, tambm passei a peg-los no
fundo do grande penhasco, onde suas fugas acabavam terrivelmente mal. Havia corpos quebrados e meigos coraes mortos. Ainda assim, era melhor do que o gs. Alguns
deles eu apanhava ainda a meio caminho da descida. Salvei voc, pensava comigo mesma, segurando suas almas no ar, enquanto o resto de seu ser - suas carcaas fsicas
- despencava na terra. Eram todos leves, como cascas de nozes vazias. E um cu enfumaado nesses lugares. O cheiro fazia lembrar uma fornalha, mas ainda muito frio.
        Estremeo ao recordar - ao tentar desrealizar aquilo.
        Bafejo ar quente nas mos, para aquec-las.
        Mas  difcil mant-las aquecidas quando as almas ainda tiritam.
        Deus.
        Sempre pronuncio esse nome, ao pensar naquilo.
        Deus.
        Duas vezes, eu repito.
        Digo o nome d'Ele na v tentativa de compreender. "Mas no  sua funo compreender." Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Voc acha que  a nica
pessoa a quem Ele nunca responde? "Sua tarefa ..." E eu paro de me escutar, porque, para diz-lo curto e grosso, eu canso a mim mesma. Quando comeo a pensar desse
jeito, fico inteiramente exausta e no tenho o luxo de me entregar  fadiga. Sou obrigada a continuar, porque, embora isso no se aplique a todas as pessoas da Terra,
 verdade para a vasta maioria: a morte no espera por ningum - e, quando espera, em geral no  por muito tempo.
        Em 23 de junho de 1942, havia um grupo de judeus franceses numa priso alem, em solo polons. A primeira pessoa que peguei estava perto da porta, com a
mente em disparada, depois reduzida a passadas, depois mais lenta, mais lenta...
        Por favor, acredite quando lhe digo que, naquele dia, peguei cada alma como se fosse um recm-nascido. Cheguei at a beijar alguns rostos exaustos, envenenados.
Ouvi seus ltimos gritos entrecortados. Suas palavras evanescentes. Observei suas vises de amor e os libertei de seu medo.
        A todos levei embora e, se houve um momento em que precisei de distrao, foi esse. Em completa desolao, olhei para o mundo l em cima. Vi o cu transformar-se
de prata em cinza e em cor de chuva. At as nuvens tentavam fugir.
        Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo, sem sombra de dvida, que o Sol era louro e a atmosfera interminvel era um gigantesco
olho azul.
        Eles eram franceses, eram judeus, e eram voc.

     PARTE SETE
        O DICIONRIO
        E TESAURO DUDEN
        COMPLETO
        APRESENTANDO:
        champanhe e acordees
        uma trilogia
        algumas sirenes
        um ladro de cus
        uma oferta
        a longa caminhada para dachau
        paz
        um idiota e uns homens de sobretudo

        CHAMPANHE E ACORDEES
        No vero de 1942, a cidade de Molching preparava-se para o inevitvel. Ainda havia quem se recusasse a acreditar que essa cidadezinha dos arredores de Munique
pudesse constituir um alvo, mas a maioria da populao tinha plena conscincia de que no se tratava de se, mas de quando. Os abrigos foram mais claramente marcados,
havia janelas em processo de escurecimento para as horas noturnas, e todo o mundo sabia onde ficavam o poro ou a adega mais prximos.
        Para Hans Hubermann, esse incmodo desdobramento foi, na verdade, um ligeiro alvio. Numa poca desventurada, a sorte, de algum modo, descobriu o caminho
para seu ofcio de pintor. As pessoas que tinham venezianas ficaram to desesperadas que contrataram seus servios para pint-las. O problema de Hans foi que, normalmente,
a tinta preta era mais usada na composio de misturas, para escurecer outras cores, e logo se esgotou e se tornou difcil de achar. O que ele tinha era jeito para
ser bom negociante, e um bom negociante tem muitos truques. Ele pegou p de carvo e foi misturando, e cobrava barato por seu trabalho. Foram muitas as casas de
todas as regies de Molching em que ele confiscou dos olhos inimigos a luz das janelas.
        Em alguns de seus dias de trabalho, Liesel o acompanhava.
        Eles puxavam a carroa de tinta pela cidade, sentindo o cheiro da fome em algumas ruas e abanando a cabea para a riqueza de outras. Muitas vezes, na volta
para casa, mulheres que nada tinham alm de filhos pequenos e pobreza vinham correndo implorar a Hans que pintasse suas janelas.
        - Frau Hallah, desculpe, mas no me sobrou nenhuma tinta preta - dizia ele; logo adiante no caminho, entretanto, sempre parava.
         O homem alto e a rua comprida. - Amanh bem cedo - prometia, e, no alvorecer da manh seguinte, l estava ele, pintando as tais janelas por nada, ou por
um biscoito e uma xcara de ch quente. Na noite anterior, descobria outro jeito de transformar azul, verde ou bege em preto. Nunca dizia a essas pessoas que cobrissem
as janelas com seus cobertores sobressalentes, pois sabia que estes lhes seriam necessrios quando chegasse o inverno. Soube-se at que ele pintou janelas por metade
de um cigarro, sentando-se no degrau da frente desta ou daquela casa, e dividindo umas tragadas com seu ocupante. O riso e a fumaa erguiam-se da conversa, antes
de Hans e Liesel partirem para o trabalho seguinte.
        Quando chegou a hora de escrever, lembro-me com clareza do que Liesel Meminger teve a dizer sobre esse vero. Muitas palavras desbotaram no correr das dcadas.
O papel sofreu com o atrito do movimento em meu bolso, mas, apesar disso, muitas de suas frases foram impossveis de esquecer.
         PEQUENA AMOSTRA DE ALGUMAS *
        PALAVRAS ESCRITAS POR UMA MENINA
        Aquele vero foi um novo comeo, um novo fim.
        Quando olho para trs, lembro-me de
        minhas mos escorregadias de tinta e
        do som dos ps de papai na Rua Munique,
        e sei que um pedacinho do vero de 1942
        pertenceu a um homem s.
        Quem mais pintaria pelo preo de meio cigarro?
        Papai era assim, isso era tpico, e eu o adorava.
        Todos os dias em que trabalhavam juntos, ele contava a Liesel suas histrias. Havia a Grande Guerra e o modo como sua letra infame ajudara a lhe salvar a
vida, e o dia em que ele conhecera Rosa. Disse Hans que um dia ela fora bonita e que, na verdade, falava muito baixinho. "E difcil de acreditar, eu sei, mas  a
absoluta verdade." Todo dia havia uma histria, e Liesel o perdoava quando ele contava a mesma mais de uma vez.
        Em outras ocasies, quando ela se entregava a devaneios, o pai a borrava de leve com o pincel, bem no meio dos olhos. Quando errava o clculo e exagerava
a quantidade, uma trilhazinha de tinta escorria pelo lado do nariz de Liesel. A menina ria e tentava retribuir a gentileza, mas Hans Hubermann era um homem difcil
de apanhar, no trabalho. Era onde ele ficava mais vivo.
        Sempre que faziam um intervalo para comer ou beber alguma coisa, ele tocava acordeo, e era disso que Liesel mais lembrava. Toda manh, enquanto o pai empurrava
ou arrastava a carroa de tintas, ela carregava o instrumento. " melhor largarmos a tinta do que esquecermos a msica", dizia-lhe Hans. Quando paravam para comer,
ele cortava o po e espalhava o restinho de gelia que houvesse do ltimo carto de racionamento, Ou, ento, punha em cima uma fatiazinha de carne. Os dois comiam
juntos, sentados nas latas de tinta, e, com as ltimas dentadas ainda no estgios da mastigao, o pai limpava os dedos e desafivelava a caixa do acordeo.
        Vestgios de migalhas de po escondiam-se nas dobras do macaco de Hans. As mos salpicadas de tinta percorriam os botes e revolviam as teclas, ou sustentavam
uma nota por algum tempo. Os braos moviam os foles, dando ao instrumento o ar de que ele precisava para respirar.
        Liesel sentava-se todos os dias com as mos entre os joelhos, nas pernas comprida? da luz diurna. No queria que nenhum desses dias acabasse, e era sempre
com desapontamento que via avanarem as passadas da escurido.
        No que concernia  pintura em si,  provvel que o aspecto mais interessante para Liesel fosse a mistura. Como a maioria das pessoas, ela presumia que seu
pai simplesmente levava a carroa  loja de tintas ou  de ferragens, pedia a cor certa e ir embora. No se dava conta de que quase toda a tinta vinha em pedaos
que tinham ; forma de tijolos. Em seguida, era aberta feito massa de pastel, com uma garrafa vazia de champanhe. (As garrafas de champanhe, explicou Hans, eram ideais
para esse servio, porque seu vidro era ligeiramente mais grosso que o de uma garrafa comum de vinho.) Concluda essa operao, vinha o acrscimo de gua, giz e
cola, para no falar nas complexidades de uniformizar a cor certa.
        A cincia do ofcio do papai granjeava-lhe um nvel ainda maior de respeito Muito bem que eles compartilhassem o po e a msica, mas, para Liesel, era bom
saber que Hans tambm era mais do que competente em sua ocupao. A competncia era atraente.
        Uma tarde, dias depois da explicao do pai sobre a mistura, os dois estavam trabalhando numa das casas mais abastadas, logo  direita da Rua Munique. No
incio da tarde, o pai chamou Liesel para dentro. Estavam prestes a seguir para outro trabalho quando ela ouviu o volume inusitado da voz de Hans.
        Depois de entrar, foi conduzida  cozinha, onde duas senhoras mais idosas e un homem sentavam-se em cadeiras delicadas, altamente civilizadas. As mulheres
esta vam bem vestidas. O homem tinha cabelos brancos e costeletas que pareciam sebes. Havia taas altas na mesa. Cheias de um lquido borbulhante.
        -        Bem - disse o homem -, aqui vamos ns.
        Ergueu sua taa e exortou os outros a fazerem o mesmo.
        Tinha sido uma tarde quente. Liesel ficou meio perturbada com a fria temperatura de sua taa. Olhou para o pai, em busca de aprovao. Ele sorriu e disse:
        -        Prost, Mdel. Sade, menina.
        As taas se tocaram, tilintando, e, no instante em que levou a sua  boca, Liesel foi mordiscada pelo gosto efervescente e enjoativamente adocicado do champanhe
Seus reflexos obrigaram-na a cuspir direto no macaco do pai, vendo-o espuma e gotejar. Seguiu-se uma gargalhada de todos, e Hans a incentivou a fazer outra tentativa.
Na segunda vez, ela conseguiu engolir o lquido e desfrutar o sabor de uma gloriosa regra desrespeitada. Foi genial. As bolhas morderam-lhe a lngua. Pinicaram seu
estmago. Quando os dois andaram para o trabalho seguinte, ela ainda sentia o calor das alfinetadas e agulhadas dentro do corpo.
        Arrastando a carroa, o pai lhe contou que aquelas pessoas haviam afirmado no ter dinheiro.
        -        E a voc pediu champanhe?
        -        Por que no? - fez Hans. Olhou-a, e seus olhos nunca tinham sido to prateados. - Eu no queria que voc achasse que s se usavam garrafas de champanhe
para abrir massa de tinta - completou. - s no conte  mame - advertiu-a. - De acordo?
        -        Posso contar ao Max?
        -        Claro, pode contar ao Max.
        No poro, ao escrever sobre sua vida, Liesel jurou que nunca mais tomaria champanhe, pois ele nunca teria um sabor to gostoso quanto naquela tarde quente
de julho.
        O mesmo se deu com os acordees.
        Muitas vezes ela teve vontade de perguntar ao pai se ele lhe ensinaria a tocar, mas, por isto ou por aquilo, alguma coisa sempre a impedia. Talvez uma intuio
desconhecida lhe dissesse que ela jamais conseguiria toc-lo como Hans Hubermann. Com certeza, nem mesmo os maiores acordeonistas do mundo seriam comparveis. Jamais
conseguiriam equiparar-se  concentrao displicente do rosto de papai. Ou, ento, no haveria um cigarro trocado por um servio de pintura pendendo dos lbios do
msico. E eles nunca saberiam cometer um errinho com uma risada retrospectiva em trs notas. No do jeito que ele sabia.
        Vez ou outra, naquele poro, Liesel acordava saboreando o som do acordeo nos ouvidos. Sentia a queimao doce do champanhe na lngua.
        De quando em quando, sentava-se encostada na parede, desejando que o dedo morno de tinta passeasse s mais uma vez pelo lado de seu nariz, ou querendo ver
a textura de lixa das mos de seu pai.
        Se ao menos pudesse voltar a ser to distrada, a sentir tanto amor sem saber, tomando-o por engano pelo riso e pelo po com um levssimo cheiro de gelia
espalhado por cima.
        Foi a melhor poca de sua vida.
        Mas foi a preparao de um tapete de bombas. No se deixe iludir.
        Ousada e luminosa, a trilogia de felicidade perduraria por todo o vero e parte do outono. E ento seria levada a um fim abrupto, porque o resplendor iluminou
o caminho para o sofrimento.
         Tempos difceis estavam por vir. Como um desfile.
        SIGNIFICADO N 1 DO DICIONRIO DUDEN
        Zufriedenheit - Felicidade:
        Proveniente de feliz - que goza
        de prazer e contentamento.
        Vocbulos correlatos: jbilo, alegria,
        sentir-se afortunado ou prspero.

        A TRILOGIA
        Enquanto Liesel trabalhava, Rudy corria.
        Dava voltas no Oval Hubert, corria em torno do quarteiro e disputava com quase qualquer um, da ponta da Rua Himmel at a loja de Frau Diller, dando vantagens
variveis na partida.
        Em algumas ocasies, quando Liesel ajudava a me na cozinha, Rosa espiava pela janela e dizia:
        -        Que  que aquele Saukerlzinho est aprontando desta vez? Toda essa correria l fora.
        Liesel aproximava-se da janela.
        -        Pelo menos ele no se pintou de preto de novo.
        -        Bom, j  alguma coisa, no ?
         AS RAZES DE RUDY 
        Era meados de agosto haveria uma
        competio da Juventude Hitlerista, e
        Rudy fazia questo de vencer quatro provas;
        os 1.500, os 400, os 200 e,  claro, os 100 metros.
        Gostava de seus novos guias da Juventude Hitlerista
        e queria agradar-lhes, e queria mostrar uma ou duas
        coisinhas a seu velho amigo Franz Deutscher.
        - Quatro medalhas de ouro - disse a Liesel uma tarde, quando ela o acompanhou nas voltas pela pista do Oval Hubert. - Como o Jesse Owens, em '36,
         -        Voc no continua obcecado com ele, continua?
        Os ps de Rudy rimavam com sua respirao.
        -        Na verdade, no, mas seria bom, no ? Para mostrar a todos aqueles cretinos que disseram que eu era maluco. Eles iam ver que eu no era to idiota,
afinal.
        -        Mas voc pode mesmo ganhar todas as quatro provas?
        Diminuram o ritmo at parar, no fim da pista, e Rudy ps as mos nos quadris.
        -        Tenho que ganhar.
        Durante seis semanas, ele treinou, e, quando chegou o dia da competio, em meados de agosto, o cu estava quente de sol e sem uma nuvem. O gramado fervilhava
de jovens da Juventude Hitlerista, pais e uma profuso de guias de camisas pardas. Rudy Steiner estava no auge de sua forma.
        -        Olhe - apontou. - L est o Deutscher.
        Por entre os aglomerados de gente, o eptome louro dos padres da Juventude Hitlerista dava instrues a dois integrantes de sua diviso. Eles assentiam
com a cabea e se alongavam, de quando em quando. Um dos dois protegia os olhos do sol, como numa continncia.
        -        Quer ir at l dizer oi? - perguntou Liesel.
        -        No, obrigado. Fao isso depois.
        Quando eu tiver vencido.
        As palavras no foram ditas, mas decididamente estavam l, em algum ponto entre os olhos azuis de Rudy e as mos aconselhantes de Deutscher.
        Houve a marcha obrigatria pelo campo.
        O hino.
        Heil Hitler.
        S depois eles poderiam comear.
          
        Quando o grupo da faixa etria de Rudy foi chamado para os 1.500 metros, Liesel lhe desejou boa sorte em estilo tipicamente alemo.
        -        Hals und Beinbruch, Saukerl.
        Mandou-o quebrar o pescoo e a perna.
        Os meninos reuniram-se no extremo oposto do campo circular. Alguns se alongaram, outros se concentraram, e o resto ficou ali porque tinha de estar.
        Ao lado de Liesel, a me de Rudy, Barbara, sentava-se com os filhos menores. Uma esteira fina fervilhava de crianas e de grama solta.
        -        Vocs esto vendo o Rudy? - perguntou a me. - Ele  o da extrema esquerda.
        Barbara Steiner era uma mulher bondosa, cujo cabelo sempre parecia recm-penteado.
         -        Onde? - perguntou uma das meninas. Provavelmente Bettina, a caula. - No estou vendo nada dele.
        -         aquele ltimo. No, l no. L.
        Ainda estavam no processo de identificao quando o tiro de partida soltou sua fumaa e seu som. Os Steiner midos correram para a cerca.
        Durante a primeira volta, um grupo de sete meninos liderou a corrida. Na segunda, caiu para cinco e, na seguinte, para quatro. Rudy foi o quarto corredor
em todas as voltas, at a ltima. Um homem  direita dizia que o menino que vinha em segundo lugar parecia o melhor. Era o mais alto.
        -        Espere s - disse  sua esposa intrigada. - Quando faltarem duzentos, ele arranca.
        O homem estava enganado.
        Um oficial gargantuesco, de camisa parda, informou ao grupo que restava uma volta. Ele, com certeza, no vinha sofrendo com o sistema de racionamento. Gritou
quando a bateria da frente cruzou a linha, e no foi o segundo menino quem acelerou, mas o quarto. E partiu com duzentos metros de antecipao.
        Rudy correu.
        No olhou para trs em nenhum momento.
        Como uma corda elstica, espichou a vantagem at que qualquer idia de outro menino vencer arrebentou-se por completo. Ele avanou pela pista, enquanto os
trs corredores s suas costas lutavam entre si pelas sobras. Na reta final, no houve nada alm de cabelo louro e espao, e, quando cruzou a linha de chegada, Rudy
no parou. No levantou o brao. No houve nem mesmo um dobrar o corpo de alvio. Ele apenas andou mais vinte metros e finalmente deu uma olhada por cima do ombro,
para ver os outros cruzarem a linha.
        Ao voltar para os familiares, primeiro ele se encontrou com seus guias e, em seguida, com Franz Deutscher. Ambos acenaram com a cabea.
        -        Steiner.
        -        Deutscher.
        -        Parece que todas aquelas voltas que eu o fiz dar compensaram, hein?
        -        E o que parece.
        Rudy se recusava a sorrir, enquanto no vencesse todas as quatro.
         NOTA PARA REFERNCIA POSTERIOR 
        Agora Rudy era reconhecido no apenas como um bom aluno. Era tambm um atleta talentoso.

        Para Liesel, houve os 400 metros. Ela terminou em stimo, depois em quarto, na eliminatria dos 200. Tudo que conseguia enxergar mais adiante eram os tendes
e os rabos-de-cavalo balanantes das meninas que iam na frente. No salto, ela gostou mais da areia grudada em seus ps que de qualquer distncia, e o arremesso de
peso tambm no foi seu melhor momento. Esse dia, percebeu ela, era de Rudy.
         Na final dos 400 metros, ele liderou desde a reta de largada at o fim, e venceu os 200 por uma pequena vantagem.
        -        Est ficando cansado? - indagou Liesel. J era o comeo da tarde.
        -         claro que no - fez Rudy, com a respirao pesada e alongando as panturrilhas. - Do que voc est falando, Saumensch? Que diabo voc pode saber?
        Quando veio a chamada para as eliminatrias dos 100 metros, ele se ps de p devagar e seguiu a fileira de adolescentes em direo  pista. Liesel foi atrs.
        -        Ei, Rudy - puxou-o pela manga da camisa. - Boa sorte.
        -        No estou cansado - disse ele.
        -        Eu sei.
        Rudy deu-lhe uma piscadela. Estava cansado.
        Em sua eliminatria, Rudy reduziu o ritmo e terminou em segundo e, aps dez minutos de outras corridas, veio a chamada para a final. Outros dois meninos
tinham parecido notveis, e Liesel teve na barriga a sensao de que Rudy no conseguiria vencer essa. Tommy Mller, que terminara em penltimo lugar em sua eliminatria,
ficou com ela junto  cerca.
        -        Ele vai ganhar - informou-lhe.
        -        Eu sei.
        No, no vai.
        Quando os finalistas chegaram  largada, Rudy se ps de joelhos e comeou a escavar buracos de largada com as mos. Um camisa-parda meio calvo no tardou
a se aproximar e dizer que ele parasse com aquilo. Liesel observou o dedo adulto, apontando, e pde ver a terra caindo no cho quando Rudy esfregou as mos.
        Quando eles receberam ordem de tomar posio, Liesel apertou a cerca com mais fora. Um dos meninos queimou a largada; o revlver disparou duas vezes. Foi
Rudy. De novo, o oficial lhe dirigiu algumas palavras e o menino fez um aceno de cabea. Mais uma vez e ele estaria fora.
        Preparados pela segunda vez, Liesel os observou, concentrada, e, nos primeiros segundos, no pde acreditar no que via. Queimou-se de novo a largada, e foi
o mesmo atleta. A sua frente, ela havia criado uma corrida perfeita, na qual Rudy ficava para trs, mas acelerava para vencer nos ltimos dez metros. O que realmente
viu, porm, foi a desqualificao do amigo. Ele foi conduzido  lateral da pista e obrigado a ficar l parado, sozinho, enquanto o resto dos meninos dava um passo
 frente.
        Alinharam-se e correram.
        Um garoto de cabelo castanho enferrujado e passadas largas venceu por pelo menos cinco metros de vantagem.
        Rudy continuou parado.
        Mais tarde, concludo o dia e retirado o sol da Rua Himmel, Liesel sentou-se com o amigo na calada.
        Falaram de todas as outras coisas, desde a expresso de Franz Deutscher depois dos 1.500 metros at o acesso de raiva de uma menina de onze anos, depois
de perder a prova do disco.
        Antes de eles seguirem para suas respectivas casas, a voz de Rudy aproximou-se e entregou a verdade a Liesel. Esta passou um tempo sentada no ombro da menina,
mas, algumas idias depois, chegou a seu ouvido.
         A VOZ DE RUDY 
        - Eu fiz de propsito.
        Registrada a confisso, Liesel fez a nica pergunta disponvel:
        -        Mas, por qu, Rudy? Por que voc fez isso?
        Ele estava de p com uma das mos no quadril, e no respondeu. No houve nada alm de um sorriso de quem entende das coisas e um andar lento, que o levou
com indolncia para casa. Os dois nunca mais falaram do assunto.
        Por seu lado, Liesel perguntou-se muitas vezes qual teria sido a resposta de Rudy, se ela o houvesse pressionado. Talvez trs medalhas houvessem mostrado
o que ele queria mostrar, ou talvez ele temesse perder a ltima corrida. No fim, a nica explicao que ela se permitiu ouvir foi uma voz adolescente interna.
        -        Porque ele no  o Jesse Owens.
        S quando se levantou para ir embora foi que ela notou as trs medalhas de imitao de ouro, paradas a seu lado. Bateu na porta dos Steiner e as estendeu
a Rudy;
        -        Voc esqueceu isto.
        -        No, no esqueci.
        Fechou a porta e Liesel levou as medalhas para casa. Desceu com elas ao poro e falou com Max sobre seu amigo Rudy Steiner.
        -        Ele  mesmo um idiota - concluiu.
        -        Claramente - concordou Max, mas duvido que se tenha deixado enganar.
        E os dois se puseram a trabalhar, Max em seu caderno de desenho, Liesel em O Carregador de Sonhos. Ela estava nas etapas finais do romance, no momento em
que o jovem padre punha em dvida sua f, ao conhecer uma mulher estranha e elegante.
        Quando Liesel o ps no colo, virado para baixo, Max lhe perguntou quando ela achava que o terminaria.
        -        Dentro de uns dias, no mximo.
        -        E depois, um novo?
        A menina que roubava livros olhou para o teto do poro.
        -        Talvez, Max - respondeu, Fechou o livro e se recostou. - Se eu tiver sorte.

         O LIVRO SEGUINTE 
        No foi o Dicionrio e Tesauro Duden,
        como voc poderia esperar.
        No, o dicionrio vir no fim desta pequena trilogia, e esta  s a segunda parte.  o pedao em que Liesel termina O Carregador de Sonhos e rouba uma histria
chamada Uma Cano no Escuro. Como sempre, ela foi tirada da casa do prefeito. A nica diferena foi que a menina se dirigiu  parte alta da cidade sozinha. No
houve Rudy nesse dia.
        Era uma manh rica em sol e nuvens espumosas.
        Liesel parou na biblioteca do prefeito, com a cobia nos dedos e ttulos de livros nos lbios. Sentiu-se suficientemente  vontade, nessa ocasio, para percorrer
as prateleiras com os dedos - uma pequena reprise de sua visita original quele cmodo - e foi murmurando muitos ttulos ao avanar.
        Sob a Cerejeira.
        O Dcimo Tenente.
        Como era tpico, muitos ttulos foram tentadores, mas, depois de um bom minuto ou dois na sala, ela se decidiu por Uma Cano no Escuro, provavelmente porque
o livro era verde e ela ainda no tinha nenhum dessa cor. O texto gravado na capa era branco e havia uma insigniazinha em forma de flauta entre o ttulo e o nome
do autor. Liesel pulou da janela com ele, agradecendo na sada.
        Sem Rudy, sentiu uma boa dose de ausncia, mas, nessa manh em particular, por alguma razo, a menina que roubava livros ficou mais feliz sozinha. Executou
sua tarefa e foi ler o livro junto ao Rio Amper, bem longe da sede ocasional de Viktor Chemmel e do bando anterior de Arthur Berg. Ningum apareceu, ningum interrompeu,
e Liesel leu quatro dos captulos curtssimos de Uma Cano no Escuro, e ficou contente.
        Foram o prazer e a satisfao.
        De um bom furto.
        Uma semana depois, a trilogia da felicidade completou-se. Nos ltimos dias de agosto, um presente chegou, ou, a rigor, foi notado. Era fim de tarde. Liesel
estava vendo Kristina Mller pular corda na Rua Himmel. Rudy Steiner parou diante dela, derrapando na bicicleta do irmo.
        -        Voc tem um tempo livre? - perguntou-lhe.
        Liesel deu de ombros.
        -        Para qu?
        -        Acho melhor voc vir.
        Largou a bicicleta e foi buscar a outra em casa. A sua frente, Liesel observou o pedal girar.
        Seguiram para a Grande Strasse, onde Rudy parou e esperou,
         -        Bem - perguntou Liesel - o que ?
        Rudy apontou.
        -        Olhe com mais ateno.
        Aos poucos, os dois se colocaram numa posio melhor, atrs de uma pcea azul. Por entre os galhos espinhosos, Liesel notou a janela fechada e, em seguida,
o objeto encostado no vidro.
        -        Aquilo ...?
        Rudy fez que sim.
        Debateram o problema por vrios minutos, at concordarem em que era preciso faz-lo. Era bvio que o objeto fora intencionalmente colocado l e, mesmo que
fosse uma armadilha, valia a pena.
        Entre os galhos azuis pulverulentos, Liesel disse:
        - Um ladro de livros iria.
        Largou a bicicleta, observou a rua e atravessou o jardim. As sombras das nuvens enterravam-se por entre a grama escura. Seriam buracos em que cair, ou tiras
de escurido extra em que encontrar um esconderijo? Sua imaginao a fez escorregar por um desses buracos at as garras malficas do prprio prefeito. Que mais no
fosse, essas idias a distraram e ela chegou  janela ainda mais depressa do que havia esperado.
        Parecia uma repetio de O Assobiador.
        Os nervos da menina lamberam-lhe as palmas das mos.
        Gritinhos de suor ondulavam em suas axilas.
        Quando ela levantou a cabea, conseguiu ler o ttulo. Dicionrio e Tesauro Duden Completo. Voltou-se rapidamente para Rudy e moveu os lbios, pronunciando
as palavras.
        -         um dicionrio.
        Ele encolheu os ombros e estendeu os braos.
        Liesel trabalhou metodicamente, deslizando a janela para cima e pensando o que  que tudo aquilo pareceria, visto de dentro da casa. Imaginou a viso de
sua mo gatuna esticando-se para o alto e fazendo a janela subir, at derrubar o livro. El pareceu render-se devagar, como uma rvore que tombasse.
        Peguei.
        Mal chegou a haver um distrbio ou um som.
        O livro apenas se inclinou em sua direo e ela o pegou com a mo livre. Chego at a fechar a janela, bem devagarzinho, depois deu meia-volta e refez o percurso
pelos poos de nuvens.
        -        Legal - disse Rudy, entregando-lhe a bicicleta.
        -        Obrigada.
        Foram at a esquina, onde a importncia do dia os atingiu. Liesel soube. Foi de novo aquela sensao de ser observada. Uma voz pedalou dentro dela. Duas
voltas. Olhe para a janela, Olhe para a janela.
         Foi obrigada.
        Como uma comicho que exige uma unha, ela sentiu um desejo intenso de parar.
        Ps os ps no cho e se virou de frente para a casa do prefeito e a janela da biblioteca, e ento viu. Com certeza, deveria ter sabido que aquilo podia acontecer,
mas no teve como esconder o susto que lhe vagou por dentro ao ver a mulher do prefeito, parada atrs do vidro. Era transparente, mas estava l. O cabelo felpudo
era o de sempre, e os olhos, a boca e a expresso magoados exibiam-se para ser vistos.
        Bem devagar, ela ergueu a mo para a roubadora de livros na rua. Um aceno imvel.
        Em seu estado de choque, Liesel nada disse, nem a Rudy nem a si mesma. Apenas se equilibrou e levantou a mo, reconhecendo a presena da mulher do prefeito
 janela.
         SIGNIFICADO N 2 NO DICIONRIO DUDEN 
        Verzeihung - Perdo: Parar de sentir raiva, animosidade ou ressentimento. Vocbulos correlatos: absolvio, indulto, clemncia.
        A caminho de casa, eles pararam na ponte e inspecionaram o pesado livro preto. Ao folhear as pginas, Rudy chegou a uma carta. Pegou-a e olhou lentamente
para a menina que roubava livros.
        - Tem o seu nome aqui.
        O rio correu.
        Liesel pegou o papel.
         A CARTA 
        Cara Liesel,
        Sei que voc me acha ridcula e nauseabunda
        (consulte essa palavra, se no a conhecer),
        mas devo dizer-lhe que no sou to estpida
        que no veja suas pegadas na biblioteca.
        Quando notei a falta do primeiro livro,
        achei simplesmente que o pusera no lugar errado,
        mas depois vi os contornos de uns ps no cho,
        em algumas rstias de luz.
        Isso me fez sorrir.
        Fiquei contente por voc ter levado o que era seu por direito.
        Depois, cometi o erro de supor que aquilo seria o fim.
        Quando voc voltou, eu deveria ter-me zangado, mas no me zanguei.
        Pude ouvi-la, da ltima vez, mas resolvi deix-la em paz.
        Voc sempre leva apenas um livro, e sero necessrias mil visitas at
        que todos tenham sumido. Minha nica esperana  que, um dia, voc
        bata  porta da frente e entre na biblioteca da maneira mais civilizada.
        Mais uma vez, lamento no termos mais podido manter o emprego de
        sua me de criao. Por ltimo, espero que voc ache til
        este dicionrio e tesauro, ao ler seus livros furtados.
        Cordialmente,
        Ilsa Hermann
        -        E melhor a gente ir para casa - sugeriu Rudy, mas Liesel no foi.
        -        Voc pode esperar dez minutos aqui?
        -        E claro.
          
        Liesel galgou de volta a ladeira para o nmero 8 da Grande Strasse e se sentou no territrio conhecido da porta de entrada. O livro estava com Rudy, mas
ela segurava a carta e esfregava os dedos no papel dobrado,  medida que os degraus iam ficando mais pesados  sua volta. Tentou quatro vezes bater na pele atemorizante
da porta mas no conseguiu. O mximo que pde fazer foi colocar delicadamente os ns dos, dedos no calor da madeira.
        Mais uma vez, o irmo veio a seu encontro.
        Da base da escada, com o joelho cicatrizando bem, ele disse:
        -        Ande, Liesel, bata.
        Enquanto fugia pela segunda vez, ela no tardou a ver a figura distante de Rudy na ponte. O vento lhe inundava os cabelos. Os ps nadavam com os pedais.
        Liesel Meminger era uma criminosa.
        Mas no por ter furtado um punhado de livros por uma janela aberta.
        Voc devia ter batido, pensou, e, embora houvesse uma boa dose de culpa, havia tambm o vestgio juvenil do riso.
        Enquanto pedalava, ela tentou dizer uma coisa a si mesma.
        Voc no merece ser feliz assim, Liesel. No merece mesmo.
        Pode algum roubar a felicidade? Ou ser que ela  apenas mais um infernal truque interno dos humanos?
        Liesel deu de ombros, afastando-se de seus pensamentos. Cruzou a ponte e disse a Rudy para andar depressa e no esquecer o livro.
        E l se foram para casa nas bicicletas enferrujadas.
        Rodaram uns trs quilmetros, do vero para o outono e de um anoitecer sereno para o sopro barulhento do bombardeio de Munique.

        O SOM DAS SIRENES
        Com o pequeno punhado de dinheiro que havia ganhado no vero, Hans levou para casa um rdio de segunda mo.
        -        Assim - disse - poderemos saber quando os ataques areos chegarem, antes mesmo de comearem as sirenes. Eles fazem um barulho de cuco e anunciam
as regies que esto em perigo.
        Ps o rdio na mesa da cozinha e o ligou. Tambm tentaram faz-lo funcionar no poro, para Max, mas no saiu nada pelos alto-falantes alm de esttica e
vozes quebradas.
        Em setembro, no o escutaram enquanto dormiam.
        Ou o rdio j estava meio defeituoso, ou foi imediatamente tragado pelo som gritante das sirenes.
        Delicadamente, a mo empurrou o ombro de Liesel, adormecida. A voz do pai a seguiu, temerosa.
        -        Liesel, acorde. Temos que ir.
        Veio a desorientao do sono interrompido, e Liesel mal pde decifrar o contorno do rosto do pai. A nica coisa realmente visvel era sua voz.
          
        No corredor, pararam.
        -        Esperem - disse Rosa.
        Cortando a escurido, correram para o poro. A lamparina estava acesa.


        Max esgueirou-se de trs das latas de tinta e das mantas de proteo contra respingos. Tinha o rosto cansado e enganchava nervosamente os polegares nas calas.
        - Hora de ir, no ? Hans foi at ele.
        - Sim,  hora de ir - disse. Apertou-lhe a mo e deu um tapinha em seu brao. - Vemos voc quando voltarmos, certo?
        -  claro.
        Rosa o abraou, assim como Liesel.
        - At logo, Max.
        Semanas antes, eles haviam discutido se deveriam ficar todos juntos em seu prprio poro, ou se os trs deveriam descer a rua, at a casa de uma famlia
de sobrenome Fiedler. Max  que os tinha convencido.
        - Eles disseram que aqui no h profundidade suficiente. J expus vocs a perigos demais.
        Hans havia assentido.
        -  uma pena no podermos levar voc conosco. E uma vergonha.
        -  assim que .
        Do lado de fora, as sirenes uivavam para as casas e as pessoas saam correndo, trpegas e trmulas ao deixarem suas casas. A noite vigiava. Alguns a espreitavam
de volta, tentando localizar os avies destruidores que cruzavam os cus.
        A Rua Himmel tornou-se uma procisso de pessoas confusas, todas s voltas com seus bens mais preciosos. Em alguns casos, era um beb. Em outros, uma pilha
de lbuns de fotografias ou uma caixa de madeira. Liesel carregava seus livros entre os braos e as costelas. Frau Holtzapfel arquejava com sua mala, esforando-se
na calada, com seus olhos inchados e seus passinhos midos.
        Hans, que se esquecera de tudo - at do acordeo -, voltou correndo para ela e resgatou a mala de suas mos.
        - Jesus, Maria e Jos, que  que a senhora tem aqui?- perguntou. - Uma bigorna? Frau Holtzapfel caminhou a seu lado.
        - As necessidades.
        Os Fiedler moravam seis casas adiante. Eram uma famlia de quatro pessoas, todos com cabelos cor de trigo e bons olhos alemes. Mais importante, tinham um
belo poro profundo. Vinte e duas pessoas apinharam-se nele, inclusive a famlia Steiner, Frau Holtzapfel, Pfiffikus, um rapaz e uma famlia de sobrenome Jenson.
A bem da civilidade do ambiente, Rosa Hubermann e Frau Holtzapfel foram mantidas separadas, embora certas coisas ficassem acima das brigas mesquinhas.
        Um globo de luz pendia do teto e o aposento era mido e frio. As paredes de chapisco se projetavam e cutucavam as pessoas nas costas, enquanto elas conversavam,
paradas. O som abafado das sirenes vazava por algum lugar. As pessoas ouviam uma verso distorcida dele, que de algum modo se infiltrava. Embora isso criasse uma
apreenso considervel quanto  qualidade do abrigo, ao menos eles poderiam ouvir as trs sirenes que assinalariam o fim do bombardeio e a segurana. No precisariam
de um Luftschutzwart - um monitor de defesa antiarea.
        No demorou muito para que Rudy encontrasse Liesel e parasse a seu lado. Seu cabelo apontava para alguma coisa no teto.
        - Isso no  genial?
        A menina no pde resistir a um certo sarcasmo:
        -  encantador.
        - Ora, vamos, Liesel, no fique assim. Que  o pior que pode acontecer, afora sermos todos achatados ou fritos, ou seja l o que for que as bombas fazem?
        Liesel olhou em volta, avaliando os rostos. Comeou a compilar uma lista de quem estava mais amedrontado.
         A LISTA DOS VENCEDORES 
        1. Frau Holtzapfel
        2. Sr. Fiedler
        3. O rapaz
        4. Rosa Hubermann
        Os olhos de Frau Holtzapfel arregalavam-se, fixos. Seu corpo magro e rijo curvava-se para frente e a boca formava um crculo. Herr Fiedler ocupava-se perguntando
s pessoas, s vezes repetidamente, como estavam passando. O rapaz, Rolf Schultz, isolou-se num canto, falando silenciosamente com o ar a seu redor, censurando-o
com aspereza. Tinha as mos cimentadas nos bolsos. Rosa balanava o corpo bem de leve, para frente e para trs.
        - Liesel - sussurrou -, venha c.
        Abraou a menina por trs, apertando firme. Cantarolou uma cano, mas to baixo que Liesel no conseguiu distinguir qual era. As notas nasciam em sua respirao
e morriam em seus lbios. Ao lado delas, o pai permaneceu calado e imvel. A certa altura, ps a mo morna sobre o crnio frio de Liesel. Voc sobreviver, dizia
a mo, e estava certa.
        A esquerda deles ficaram Alex e Barbara Steiner, com as meninas mais novas, Emma e Bettina. As duas meninas agarravam-se  perna direita da me. O filho
mais velho, Kurt, olhava fixo para frente, numa perfeita postura da Juventude Hitlerista, segurando a mo de Karin, uma criana minscula at mesmo para seus sete
anos. A menina de dez anos, Anna-Marie, brincava com a superfcie grumosa da parede de cimento.
        Do outro lado dos Steiner estavam Pfiffikus e a famlia Jenson.
        Pfiffikus absteve-se de assobiar.
        O Sr. Jenson, barbudo, abraava apertado sua mulher, enquanto os dois filhos entravam e saam do silncio. De vez em quando, implicavam um com o outro, mas
se continham quando a coisa se aproximava do incio de uma briga de verdade.
        Passados cerca de dez minutos, o que mais se destacava no poro era uma espcie de no-movimento. Os corpos ficaram grudados, e apenas os ps trocavam de
posio ou de presso. A imobilidade se agrilhoava nos rostos. Eles se entreolhavam e aguardavam.

         SIGNIFICADO N 3 DO DICIONRIO DUDEN 
        Angst - Medo:
        Emoo desagradvel amide intensa, causada pelo
        pressentimento ou pelo reconhecimento do perigo.
        Vocbulos correlatos: terror, pavor, pnico, susto, sobressalto.
        De outros abrigos vieram histrias de gente cantando "Deutschland ber Alies" ou discutindo, em meio ao bafio de seu prprio hlito. Nada disso aconteceu
no abrigo dos Fiedler. Nesse local, houve apenas medo e apreenso, alm do canto mudo dos lbios de papelo de Rosa Hubermann.
        Pouco antes de as sirenes assinalarem o fim, Alex Steiner - o homem do impassvel rosto de madeira - persuadiu as meninas a soltarem as pernas de sua mulher.
Conseguiu estender um brao e agarrar a mo livre do filho. Kurt, ainda estico e de olhos fixos, segurou-a e apertou um pouquinho mais a mo da irm. Em pouco tempo,
todo o mundo no poro estava de mos dadas, e o grupo de alemes formava um crculo irregular. As mos frias derretiam-se nas quentes e, em alguns casos, a sensao
de outra pulsao humana era transportada. Atravessava as camadas de pele enrijecida e plida. Alguns fecharam os olhos,  espera da extino final, ou na esperana
de um sinal de que o bombardeio havia enfim terminado.
        Ser que essas pessoas mereciam algo melhor?
        Quantas delas haviam perseguido outras ativamente, seguindo o rastro do olhar de Hitler, repetindo suas frases, seus pargrafos, sua obra? Seria Rosa Hubermann
responsvel? Ela, que escondia um judeu? Ou Hans? Ser que todos mereciam morrer? As crianas?
        A resposta a cada uma dessas perguntas me interessa muito, embora eu no possa permitir que elas me seduzam. S sei que toda aquela gente deve ter intudo
minha presena nessa noite, excetuadas as crianas menores. Eu era a sugesto. Eu era o conselho, com meus ps imaginrios entrando na cozinha e descendo o corredor.
        Como tantas vezes acontece com os seres humanos, ao ler a seu respeito nas palavras da menina que roubava livros, senti pena deles, embora no tanta quanto
senti dos que recolhi em vrios campos nessa poca. Os alemes nos pores eram dignos de pena, sem dvida, mas ao menos tinham uma chance. Aquele poro no era um
banheiro. Eles no tinham sido mandados para l para tomar banho. Para essas pessoas, a vida ainda era alcanvel.
        No crculo desigual, os minutos se escoaram, pesados,
        Liesel segurava a mo de Rudy e a de sua mame.
        S um pensamento a entristecia.
        Max.
        Como sobreviveria Max, se as bombas chegassem  Rua Himmel?
        Olhando ao redor, ela examinou o poro dos Fiedler. Era muito mais slido e consideravelmente mais profundo que o da Rua Himmel, 33.
        Em silncio, ela fez a pergunta ao pai.
        Voc tambm est pensando nele?
        Tenha ou no registrado a pergunta muda, Hans fez um rpido aceno de cabea para a menina. Minutos depois, o aceno foi seguido pelas trs sirenes da paz
temporria.
        As pessoas da Rua Himmel, 45 arriaram de alvio.
        Algumas fecharam os olhos e tornaram a abri-los.
        Um cigarro passou de mo em mo.
        No instante em que estava a caminho dos lbios de Rudy Steiner, foi arrancado por seu pai.
        -        Voc no, Jesse Owens.
        As crianas abraaram seus pais, e levou muitos minutos para que todos se apercebessem plenamente de que estavam vivos, e de que continuariam vivos. s ento
foi que seus ps subiram a escada, em direo  cozinha de Herbert Fiedler.
        L fora, uma procisso caminhava em silncio pela rua. Muitos erguiam os olhos e agradeciam a Deus por sua vida.
        Ao chegarem em casa, os Hubermann rumaram diretamente para o poro, mas Max aparentemente no estava. A lamparina parecia pequena e laranja, e eles no conseguiram
v-lo nem ouvir uma resposta.
        -        Max?
        -        Ele sumiu.
        -        Max, voc est a?
        -        Estou aqui.
        Originalmente, os trs acharam que as palavras tinham vindo de trs das mantas de proteo e das latas de tinta, mas Liesel foi a primeira a v-lo  sua
frente. O rosto calejado de Max camuflara-se entre o material de pintura e os panos. Ele estava sentado ali, com olhos e lbios perplexos.
        Quando todos se aproximaram, voltou a falar.
        -        No pude evitar - disse.
        Foi Rosa quem respondeu. Agachou-se para fit-lo.
        -        De que voc est falando, Max?
        -        Eu... - lutou ele para responder. - Quando ficou tudo quieto, subi at o corredor, e havia uma frestinha aberta na cortina da sala... dava para
eu ver o lado de fora. Espiei, s por alguns segundos.
        Fazia vinte e dois meses que ele no via o mundo l fora.
        No houve raiva nem censuras.
        Foi o pai quem falou.
        - E o que lhe pareceu?
        Max levantou a cabea, com enorme tristeza e enorme assombro.
        - Havia estrelas - disse. - Elas queimaram meus olhos.
        Quatro deles.
        Duas pessoas de p. As outras duas permaneceram sentadas.
        Todas tinham visto uma ou duas coisas nessa noite.
        Aquele lugar era o verdadeiro poro. Aquele era o medo real. Max recomps-se e ficou de p, prestes a voltar para trs das mantas. Desejou-lhes boa noite,
mas no chegou a entrar embaixo da escada. Com a permisso da me, Liesel ficou com ele at de manh, lendo Uma Cano no Escuro, enquanto ele desenhava e escrevia
em seu caderno.
        Numa janela da Rua Himmel, escreveu Max, as estrelas puseram fogo em meus olhos.
        O LADRO DE CUS
        O primeiro bombardeio, como depois se constatou, no tinha sido bombardeio algum. Se as pessoas houvessem esperado para ver os avies, teriam ficado l a
noite inteira. Isso explicou o fato de no ter havido pio de cuco no rdio. O Expresso de Molching informou que um certo operador da torre de artilharia antiarea
ficara meio alvoroado demais. Jurara ter ouvido o ronco dos avies e t-los visto no horizonte. Ele  que tinha dado o aviso.
        -        Vai ver que ele fez de propsito - assinalou Hans Hubermann. - Voc gostaria de ficar sentado numa torre de artilharia antiarea, atirando em avies
carregados de bombas?
        E, com efeito, quando Max continuou a ler a reportagem no poro, informou-se que o homem de imaginao excntrica fora destitudo de sua funo original.
Seu destino mais provvel era algum tipo de servio noutro lugar.
        -        Boa sorte para ele - disse Max.
        Pareceu compreender, enquanto passava s palavras cruzadas.
        O bombardeio seguinte foi real.
        Na noite de 19 de setembro, houve um pio de cuco no rdio, seguido por uma voz informativa grave. Ela arrolou Molching como um alvo possvel.
        Mais uma vez, a Rua Himmel tornou-se uma trilha de pessoas e, mais uma vez, Hans deixou seu acordeo. Rosa lembrou-lhe de lev-lo, mas ele se recusou.
        -        No o levei da ltima vez - explicou - e ficamos vivos.
        A guerra, obviamente, embotava a distino entre superstio e lgica.
        Um ar sinistro os seguiu at o poro dos Fiedler.
        -        Acho que hoje  para valer - disse o Sr. Fiedler, e as crianas perceberam depressa que os pais estavam ainda mais amedrontados, dessa vez. Reagindo
da nica maneira que sabiam, as mais novas comearam a gritar e chorar, enquanto o cmodo parecia balanar.
        Mesmo do poro, eles ouviam vagamente a melodia das bombas. O ar fazia presso para baixo como se fosse um teto, como que para triturar a terra. Uma lasca
foi tirada das ruas desertas de Molching.
        Rosa agarrou-se furiosamente  mo de Liesel.
        O som das crianas chorando soltava pontaps e socos.
        At Rudy ficou completamente ereto, fingindo indiferena, retesando-se contra a tenso. Braos e cotovelos lutavam por espao. Alguns adultos tentaram acalmar
os pequeninos. Outros no conseguiam acalmar a si mesmos.
        -        Faam essa criana calar a boca! - clamou Frau Holtzapfel, mas sua frase foi apenas mais uma voz desafortunada no caos aquecido do abrigo. Lgrimas
encardidas soltavam-se dos olhos das crianas, e o cheiro do hlito noturno, do suor nas axilas e de roupas muito usadas foi mexido e ensopado no que era, quela
altura, um caldeiro nadando em seres humanos.
        Embora estivessem bem ao lado uma da outra, Liesel foi obrigada a gritar:
        -        Mame! - e de novo: - Mame, voc est esmigalhando minha mo!
        -        O qu?
        -        Minha mo!
        Rosa soltou-a e, para se reconfortar, para isolar a algazarra do poro, Liesel abriu um de seus livros e comeou a ler. O livro no topo da pilha era O Assobiador,
e ela falou em voz alta, para ajudar sua prpria concentrao. O pargrafo inicial entorpeceu-se em seus ouvidos.
        -        O que voc disse? - rugiu a me, mas Liesel a ignorou. Continuou concentrada na primeira pgina.
        Quando ela virou a pgina dois, foi Rudy quem notou. Atentou diretamente para o que Liesel estava lendo e deu um tapinha no irmo e nas irms, dizendo-lhe
para fazerem o mesmo. Hans Hubermann aproximou-se e convocou a todos e, em pouco tempo, uma quietude comeou a escoar pelo poro apinhado. Na pgina trs, todos
estavam calados, menos Liesel.
        A menina no se atreveu a levantar os olhos, mas sentiu os olhares assustados prenderem-se a ela, enquanto ia puxando as palavras e exalando-as. Uma voz
tocava as notas dentro dela. Este  o seu acordeo, dizia.
        O som da pgina virada cortou-os ao meio.
        Liesel continuou a ler.
        Durante pelo menos vinte minutos, foi entregando a histria. As crianas menores se acalmaram com sua voz, enquanto todos os outros tinham vises do assobiador
fugindo da cena do crime. No Liesel. A menina que roubava livros via apenas a mecnica das palavras - seus corpos presos ao papel, achatados para lhe permitir caminhar
sobre eles. Alm disso, em algum lugar, nos hiatos entre uma frase e a maiscula seguinte, tambm havia Max. Liesel lembrou-se de ter lido para ele quando o rapaz
estivera doente. Ser que ele est no poro?, pensou com seus botes. Ou estar roubando de novo um vislumbre do cu?
         UMA IDIA BONITA 
        Uma roubava livros. O outro roubava o cu.
          
        Todos esperavam o cho estremecer.
        Essa ainda era uma realidade imutvel, mas agora, ao menos eles estavam distrados com a menina e o livro. Um dos garotos menores pensou em chorar de novo,
mas, nesse momento, Liesel parou e imitou seu papai, ou at Rudy, alis. Deu-lhe uma piscadela e recomeou.
        S quando as sirenes tornaram a se infiltrar no poro foi que algum a interrompeu.
        -        Estamos salvos - disse o Sr. Jenson.
        -        Psiu! - fez Frau Holtzapfel.
        Liesel ergueu os olhos.
        -        S faltam dois pargrafos para o fim do captulo - disse, e continuou a ler, sem fanfarra nem aumento da velocidade. Apenas as palavras.
         SIGNIFICADO N 4 DO DICIONRIO DUDEN 
        Wort - Palavra:
        Unidade significativa de linguagem /promessa/
        breve comentrio, afirmao ou conversa.
        Vocbulos correlatos: termo, nome, expresso.
        Por respeito, os adultos permaneceram todos em silncio e Liesel terminou o captulo um de O Assobiador.
        Na subida da escada, as crianas passaram correndo por ela, mas muitas pessoas mais velhas - at Frau Holtzapfel, at Pfiffikus (o que era muito apropriado,
considerando-se o livro do qual ela lera um trecho) - agradeceram  menina pela distrao. Fizeram-no ao passar por ela e sair apressadamente da casa, para ver se
a Rua Himmel havia sofrido algum dano.
        A Rua Himmel estava intacta,
        O nico sinal de guerra era uma nuvem de poeira que migrava de leste para oeste, Olhava pelas janelas, tentando encontrar um jeito de entrar, e, enquanto
se tornava ao mesmo tempo mais densa e mais dispersa, ia transformando a fileira de seres humanos em aparies.
        No havia mais pessoas na rua.
        Havia rumores carregando sacos.
        Em casa, o pai contou tudo a Max.
        -        H neblina e cinzas... acho que nos deixaram sair cedo demais - disse. Olhou para Rosa. - Devo ir l fora, para ver se precisam de ajuda onde as
bombas caram?
        Rosa no se impressionou.
        -        No seja to idiota - retrucou. - Voc vai se engasgar com a poeira. No, no, Saukerl, voc fica aqui - e lhe ocorreu uma idia. Nesse momento,
olhou para Hans com muita seriedade. Na verdade, o orgulho se desenhava em creiom no seu rosto. - Fique aqui e conte a ele sobre a menina - sugeriu. Sua voz elevou-se,
s um pouquinho. - Sobre o livro.
        Max deu-lhe um pouco mais de ateno.
        -        O Assobiador - informou-lhe Rosa. - Captulo um - e explicou exatamente o que havia acontecido no abrigo.
        Com Liesel parada num canto do poro, Max a observou e passou a mo pelo queixo. Pessoalmente, acho que foi nesse momento que ele concebeu o trabalho seguinte
para seu caderno de desenho.
        A Sacudidora de Palavras.
        Imaginou a menina lendo no abrigo. Deve t-la visto literalmente distribuindo as palavras. Mas, como sempre, tambm deve ter visto a sombra de Hitler. E
provvel que j lhe ouvisse os passos, dirigindo-se  Rua Himmel e ao poro, mais tarde.
        Aps uma longa pausa, ele pareceu prestes a falar, mas Liesel se antecipou.
        -        Hoje voc viu o cu?
        -        No.
        Max olhou para a parede e apontou. Nela, todos viram as palavras e o desenho que ele havia pintado mais de um ano antes - a corda e o Sol gotejante.
        -        Hoje foi s este - e, da para frente, no se disse mais nada. Nada alm de pensamentos.
        De Max, Hans e Rosa, eu no posso dar conta, mas sei que Liesel Meminger pensou que, se um dia as bombas cassem na Rua Himmel, no s Max teria menos probabilidade
de sobreviver do que todos os outros, como estaria completamente sozinho.

        A OFERTA DE FRAU HOLTZAPFEL
        De manh inspecionaram-se os danos. Ningum morreu, mas dois prdios de apartamentos foram reduzidos a pirmides de escombros, v uma enorme tigela tinha
sido escavada no campo favorito de Rudy na Juventude Hitlerista. Metade da cidade postou-se em sua circunferncia. As pessoas avaliavam sua profundidade, para compar-la
com a de seus abrigos. Vrios meninos e meninas cuspiram no buraco.
        Rudy parou ao lado de Liesel.
        - Parece que vo ter que adubar de novo.
        Quando as semanas seguintes ficaram livres de bombardeios, a vida quase voltou ao normal. Porm, dois momentos marcantes estavam a caminho.
         OS DOIS EVENTOS DE OUTUBRO *
        As mos de Frau Holtzapfel
        O desfile de judeus.
        Suas rugas eram como calnias. Sua voz assemelhava-se a um; surra de pau.
        Na verdade, foi uma grande sorte elas terem visto Frau Holtzapfel aproximar-se, pela janela da sala, porque as batidas dela na porta foram duras e decisivas.
Falavam srio.
        Liesel ouviu as palavras que temia.
        -        V voc atender - disse a me, e a menina, muito ciente do que lhe convinha, fez o que lhe foi mandado.
        -        Sua me est? - indagou Frau Holtzapfel. Construda de arame de cinqenta anos, postou-se no degrau da frente, virando-se a todo momento para trs,
para ver a rua. - Aquela porca da sua me est aqui hoje?
        Liesel virou-se e chamou-a.
         SIGNIFICADO N 5 DO DICIONRIO DUDEN 
        Gelegenheit - Oportunidade:
        Chance de avano ou progresso.
        Vocbulos correlatos: perspectiva, abertura, ensejo.
        Num instante, Rosa estava atrs dela.
        -        O que voc quer aqui? Agora tambm quer cuspir no cho da minha cozinha? Frau Holtzapfel no se deixou intimidar minimamente.
        -        E assim que voc recebe todo o mundo que aparece na sua porta? Que G'sindel!Liesel observava. Tivera a infelicidade de ficar ensanduichada entre
as duas. Rosa
        a tirou do caminho.
        -        Bem, vai me dizer por que est aqui ou no?
        Frau Holtzapfel olhou mais uma vez para a rua e tomou a se virar.
        -        Tenho uma oferta para voc.
        A me deslocou o peso de uma perna para a outra.
        -         mesmo?
        -        No, para voc, no - disse, descartando Rosa com um dar de ombros na voz e se concentrando em Liesel. - Voc.
        -        Ento, por que me chamou?
        -        Bom, preciso pelo menos da sua permisso.
        Ai, minha santa me, pensou Liesel,  s disso que eu preciso. Que diabo a Holtzapfel pode querer de mim?
        -        Gostei daquele livro que voc leu no abrigo.
        No. Voc no vai ficar com ele, disso Liesel estava convencida.
        -        Pois no?
        -        Eu tinha a esperana de ouvir o resto dele no abrigo, mas parece que estamos seguros, por enquanto - e rolou os ombros, esticando o arame das costas.
- Por isso, quero que voc v a minha casa e leia para mim.
        -        Voc  mesmo descarada, Holtzapfel - fez Rosa, enquanto decidia se devia enfurecer-se ou no. - Se est pensando...
        -        Eu paro de cuspir na sua porta - interrompeu a mulher. - E lhe dou minha quota de caf.
        Rosa resolveu no se enfurecer.
        -        E um pouco de farinha de trigo?
         -        Como, voc  judia ou o qu? S o caf. Voc pode trocar o caf por farinha de trigo com outra pessoa.
        Estava resolvido.
        Por todo o mundo, menos a menina.
        -        Certo, ento est feito.
        -        Mame?
        -        Calada, Saumensch. V buscar o livro - e a me voltou a encarar Frau Holtzapfel. - Qual  o dia que lhe convm?
        -        Segundas e quartas, s quatro horas. E hoje, agora mesmo.
        Liesel seguiu as passadas marciais at a casa de Frau Holtzapfel, logo ao lado, que era uma imagem especular da dos Hubermann. Se tanto, era ligeiramente
maior.
        Quando Liesel sentou-se  mesa da cozinha, Frau Holtzapfel sentou-se bem em frente a ela, mas voltada para a janela.
        -        Leia - disse.
        -        Captulo dois?
        -        No, captulo oito. E claro que  o captulo dois! E agora, trate de ler, antes que eu a ponha para fora.
        -        Sim, Frau Holtzapfel.
        -        Esquea o "sim, Frau Holtzapfel".  s abrir o livro. No temos o dia inteiro.
        Santo Deus, pensou Liesel. Esse  o meu castigo por todos aqueles roubos. Finalmente ele me alcanou.
        Ela leu durante quarenta e cinco minutos e, quando o captulo acabou, um saco de caf foi depositado na mesa.
        -        Obrigada - disse a mulher. -  uma boa histria.
        Virou-se para o fogo e comeou a cuidar das batatas. Sem olhar para trs, disse:
        -        Voc ainda est a, ?
        Liesel entendeu que era a deixa para se retirar.
        -        Danke schn, Frau Holtzapfel.
        A porta, ao ver as fotos emolduradas de dois rapazes de uniforme militar, jogou tambm um "heil Hitler", com o brao levantado na cozinha.
        -        Sim - fez Frau Holtzapfel, orgulhosa e amedrontada. Dois filhos na Rssia.
        - Heil Hitler.
        Ps a gua para ferver e at reencontrou seus bons modos para percorrer com Liesel os poucos passos at a porta de entrada. -- Bis morgen? O dia seguinte
era sexta-feira.
        -        Sim, Frau Holtzapfel. At amanh.
        Liesel calculou que tinha havido mais quatro dessas sesses de leitura com Frau Holtzapfel, antes de os judeus marcharem por Molching.
         Estavam a caminho de Dachau, para ficarem concentrados. Isso soma duas semanas, escreveria ela no poro, tempos depois. Duas semanas para mudar o mundo
e quatorze dias para destru-lo.

        A LONGA CAMINHADA PARA DACHAU
        Algumas pessoas disseram que o caminho havia quebrado, mas posso atestar pessoalmente que no foi o que aconteceu. Eu estava l.
        O que aconteceu foi um cu de oceano, com nuvens de crista espumosa
        Alm disso, havia mais do que apenas aquele veculo. Trs caminhes no quebram de uma vez s.
        Quando os soldados pararam, para compartilhar comida e cigarros, o ridicularizar o bando de judeus, um dos prisioneiros desabou de fome e doena. No fao
idia do local de onde viera o comboio, mas ficava, talvez, a uns seis quilmetros de Molching e a muitos passos mais do campo de concentrao de Dachau.
        Entrei no caminho subindo pelo pra-brisa, achei o homem falecido e saltei pelos fundos. A alma dele era magrinha. Sua barba compunha-se de uma bola e uma
corrente. Meus ps desceram ruidosamente no cascalho, porm nenhum som foi ouvido por prisioneiro ou soldado. Mas todos sentiam meu cheiro.
        A lembrana me diz que havia muitos desejos no fundo daquele caminho. Vozes internas que me chamavam.
        Por que ele, e no eu?
        Graas a Deus no fui eu.
        Os soldados, por outro lado, ocupavam-se com uma discusso diferente. O chefe amassou o cigarro e fez aos outros uma pergunta nebulosa:
        - Quando foi a ultima vez que levamos esses ratos para pegar um pouco de ar puro?
        Seu primeiro-tenente reprimiu uma tossida.
        -        Eles bem que esto precisando, no ?
        -        Bem, ento, que tal? Temos tempo, no ?
        -        Sempre temos tempo, senhor.
        -        E est fazendo um tempo perfeito para um desfile, no acha?
        -        Sim, senhor.
        -        Ento, que esto esperando?
        Na Rua Himmel, Liesel jogava futebol quando o barulho chegou. Dois meninos disputavam a bola no meio-campo quando tudo ficou imvel. At Tommy Mller ouviu.
        -        Que  isso? - perguntou, de seu lugar no gol.
        Todos se viraram para o som de ps arrastados e vozes marciais,  medida que eles se aproximavam.
        -        Isso  uma boiada? - perguntou Rudy. - No pode ser. O barulho nunca  bem assim, ?
        Lentamente, a princpio, a rua de crianas encaminhou-se para o som magntico, em direo  loja de Frau Diller. De quando em quando, havia um aumento da
nfase nos gritos.
        Num apartamento alto, logo depois da esquina da Rua Munique, uma senhora de voz agourenta decifrou para todos a fonte exata da comoo. Do alto,  janela,
seu rosto parecia uma bandeira branca de olhos midos e boca aberta. Sua voz lembrava o suicdio, aterrissando com um baque aos ps de Liesel.
        Seu cabelo era grisalho.
        Os olhos eram escuros, azuis escuros.
        -        Die Juden - disse ela. Os judeus.
         SIGNIFICADO N 6 DO DICIONRIO DUDEN "
        Elend - Desgraa:
        Grande sofrimento, infelicidade e aflio.
        Vocbulos correlatos: angstia, tormento,
        desespero, misria, desolao.
        Mais gente apareceu na rua, onde uma massa de judeus e outros criminosos j ia sendo empurrada. Talvez os campos de extermnio fossem mantidos em segredo,
mas, vez por outra, mostrava-se s pessoas a glria de um campo de trabalhos forados como Dachau.
        Mais adiante, do outro lado, Liesel avistou o homem com a carroa de tintas. Ele passava a mo no cabelo, constrangido.
        -        L - apontou ela, mostrando-o a Rudy. - Meu papai.
        Os dois atravessaram e se aproximaram dele e, no comeo, Hans Hubermann tentou lev-los embora.
        -        Liesel - disse -, talvez...
        Mas percebeu que a menina estava decidida a ficar, e quem sabe aquilo fosse uma coisa que ela devia ver. Na brisa do ar outonal, Hans postou-se a seu lado.
No falou.
        Na Rua Munique, puseram-se a observar.
        Outros se deslocaram a seu redor e  sua frente.
        Assistiram  passagem dos judeus pela rua, como a um catlogo de cores. No foi assim que a menina que roubava livros os descreveu, mas posso lhe dizer que
era exatamente isso que eles eram, pois muitos iam morrer. Cada qual me saudaria como sua ltima amiga verdadeira, com os ossos parecendo fumaa e as almas arrastando-se
atrs.
        Quando eles chegaram de vez, o barulho de seus ps pulsou sobre a rua. Seus olhos eram enormes, nos crnios esfaimados. E a sujeira. A sujeira moldava-se
neles. As pernas cambaleavam,  medida que eles eram empurrados pelas mos dos soldados - alguns passos trpegos de corrida forada, antes do lento retorno a um
andar desnutrido.
        Hans os observava por sobre as cabeas da platia que se aglomerava. Tenho certeza de que tinha os olhos prateados e tensos. Liesel olhava pelas brechas
ou por cima dos ombros.
        Os rostos sofredores de homens e mulheres esgotados estendiam-se para eles, implorando no tanto ajuda - j haviam ultrapassado essa fase -, mas uma explicao.
Apenas alguma coisa que diminusse aquela perplexidade.
        Seus ps mal conseguiam erguer-se da terra.
        Havia estrelas-de-davi coladas em suas camisas, e a desgraa prendia-se a eles como que por designao. "No te esqueas de tua misria..." Em alguns casos,
crescia neles como uma videira.
        A seu lado, os soldados tambm passavam, dando ordens para eles se apressarem e pararem de resmungar. Alguns desses soldados eram apenas meninos. Tinham
o Fhrer nos olhos.
        Ao observar tudo isso, Liesel teve certeza de que aquelas eram as mais pobres almas ainda vivas. Foi o que escreveu sobre elas. Seus rostos macilentos esticavam-se
pela tortura. A fome os devorava, enquanto eles seguiam em frente, alguns olhando para o cho, para evitar as pessoas que ladeavam a rua. Alguns lanavam olhares
splices para os que tinham ido observar sua humilhao, esse preldio de sua morte. Outros imploravam que algum, qualquer um, desse um passo  frente e os tomasse
em seus braos.
        Ningum o fez.
        Quer assistissem a essa parada com orgulho, temor ou vergonha, nenhuma das pessoas se adiantou para interromp-la. Ainda no.
        Vez por outra, um homem ou uma mulher - no, eles no eram homens e mulheres, eram judeus - encontravam o rosto de Liesel na multido. Iam ao encontro dela,
com sua derrota, e a menina que roubava livros s podia retribuir-lhes o olhar, num longo e incurvel momento antes de eles tornarem a desaparecer. Ss podia esperar
que eles conseguissem ler a profundidade da tristeza em seu rosto, reconhecer que ela era verdadeira e no fugaz.
        Tenho um de vocs no meu poro!, sentia vontade de dizer. Fizemos juntos um boneco de neve! Eu lhe dei treze presentes quando ele adoeceu!
        Liesel no disse absolutamente nada.
        De que adiantaria?
        Ela compreendeu que era completamente intil para aquelas pessoas. Era impossvel salv-las e, em poucos minutos, a menina veria o que acontecia com os que
tentavam ajud-las.
        Numa pequena brecha na procisso havia um homem mais velho do que os outros.
        Usava barba e roupas rasgadas.
        Seus olhos eram da cor da agonia e, por mais sem peso que fosse, ele era pesado demais para ser carregado por suas pernas.
        Caiu diversas vezes.
        O lado de seu rosto achatava-se no cho.
        Em cada ocasio, um soldado erguia-se sobre ele.
        - Steh' auf - gritava. Levante-se.
        O homem se punha de joelhos e lutava para se levantar. E ia andando.
        Toda vez que chegava perto o bastante para alcanar o fim da fila, no tardava a perder impulso e tropear outra vez, caindo no cho. Havia outros s suas
costas - a carga de um caminho inteiro - e eles ameaavam ultrapass-lo e pisote-lo.
        Era insuportvel ver a dor de seus braos, tremendo na tentativa de levantar o corpo. Eles cediam de novo, antes de o homem se reerguer e dar mais meia dzia
de passos.
        Estava morto.
        O homem estava morto.
        Mais cinco minutos, e com certeza cairia na sarjeta alem e morreria. Todos o deixariam morrer, e todos olhariam.
        E, ento, um homem. Hans Hubermann.
        Aconteceu muito depressa.
        A mo que segurava com firmeza a de Liesel soltou-a, quando o ancio veio claudicando. Ela sentiu a palma bater em seu quadril.
        O pai enfiou a mo na carroa de tintas e pegou alguma coisa. Abriu caminho por entre as pessoas da calada, at chegar  rua.

        O judeu parou  sua frente, esperando outro punhado de zombarias, mas viu, junto com todos os demais, Hans Hubermann estender a mo e lhe oferecer um pedao
de po, como se fosse mgica.
        Quando a oferenda trocou de mos, o judeu escorregou. Caiu de joelhos e segurou as canelas de Hans. Enterrou o rosto entre elas e agradeceu.
        Liesel observou.
        Com lgrimas nos olhos, ela viu o homem inclinar-se um pouco mais para frente, empurrando seu pai, para chorar nos tornozelos dele.
        Outros judeus passaram, todos observando aquele pequeno milagre intil. Fluram feito gua humana. Nesse dia, alguns chegariam ao oceano. Receberiam uma
touca branca.
        Avanando por entre eles, um soldado no tardou a chegar  cena do crime. Estudou o homem ajoelhado e Hans, e olhou para a multido. Depois de refletir por
mais um instante, tirou o chicote do cinto e comeou.
        O judeu foi aoitado seis vezes. Nas costas, na cabea e nas pernas.
        - Seu lixo imundo! Seu porco!
        E o sangue passou a escorrer da orelha do velho.
        Depois, foi a vez de Hans.
        Uma nova mo segurou a de Liesel e, quando ela olhou para o lado, horrorizada, Rudy Steiner engoliu em seco, enquanto Hans Hubermann era chicoteado na rua.
O som enojou a menina, que esperou ver os lanhos surgirem no corpo do pai. Ele levou quatro chicotadas antes de tambm cair.
        Quando o judeu idoso se ps de p pela ltima vez e seguiu adiante, deu um rpido olhar para trs. Lanou uma ltima olhadela tristonha para o homem agora
ajoelhado, cujas costas ardiam com quatro linhas de fogo, cujos joelhos doam no cho. Que mais no fosse, o ancio morreria como um ser humano. Ou, pelo menos,
com a idia de que era um ser humano.
        E eu?
        No tenho certeza de que isso seja to bom assim.
        Quando Liesel e Rudy conseguiram passar e ajudaram Hans a se pr de p, houve inmeras vozes. Palavras e sol. Foi assim que ela o recordou. A luz cintilando
na rua e as palavras feito ondas, quebrando em suas costas. S ao se afastarem foi que eles notaram o po rejeitado na rua.
        Quando Rudy tentou apanh-lo, um judeu que passava o arrancou de sua mo e outros dois lutaram com este por ele, enquanto prosseguiam em sua marcha para
Dachau.
        E ento os olhos de prata foram apedrejados.
        Uma carroa foi virada e a tinta escorreu pela rua.
        Chamaram-no de amigo dos judeus,
        Outros guardaram silncio, ajudando-o a voltar para a segurana.
        Hans Hubermann inclinou-se para frente, apoiando os braos estendidos na parede de uma casa. De repente, sentiu-se invadir pelo que acabara de acontecer.
Veio-lhe uma imagem, clere e intensa. Rua Himmel, 33 - o poro.
        As idias de pnico ficaram presas na luta entre o entrar e o sair de sua respirao. Agora eles viro. Eles viro. Ah, Jesus, ah, Jesus crucificado! Hans
olhou para a menina e fechou os olhos.
        -        Voc est machucado, papai?
        Mas ela ouviu perguntas, em vez de uma resposta.
        -        Em que  que eu estava pensando? - e seus olhos se fecharam com mais fora e tornaram a se abrir. O macaco estava amarrotado. Havia tinta e sangue
nas mos de Hans. E migalhas de po. Que diferena do po do vero anterior! - Ah, meu Deus, Liesel, que foi que eu fiz?
        Pois .
        Tenho que concordar.
        Que  que o pai dela tinha feito?

PAZ
        Pouco depois das onze horas da mesma noite, Max Vandenburg subiu a Rua Himmel, com uma mala cheia de alimentos e roupas quentes. Havia ar alemo em seus
pulmes. As estrelas amarelas estavam em chamas. Quando chegou  loja de Frau Diller, ele se virou para olhar pela ltima vez para o nmero trinta e trs. No podia
ver a figura na janela da cozinha, mas ela o via. Ela acenou, e Max no retribuiu o aceno.
        Liesel ainda sentia a boca do rapaz em sua testa. Cheirava seu hlito de adeus.
        -        Deixei uma coisa para voc - disse Max -, mas voc s vai receb-la quando estiver pronta.
        E saiu.
        -        Max?
        Mas ele no voltou.
        J sara do quarto da menina e fechou a porta em silncio.
        O corredor murmurou.
        Ele se fora.
        Quando Liesel chegou  cozinha, encontrou a me e o pai com o tronco vergado e o rosto inerte. Estavam parados assim fazia trinta segundos de eternidade.
         SIGNIFICADO N 7 DO DICIONRIO DUDEN 
        Schweigen - Silncio:
        Ausncia de som ou rudo.
        Vocbulos correlatos: quietude, calma, paz.

        Que perfeio. Paz.
        Em algum lugar perto de Munique, um judeu alemo caminhava pelas trevas. Combinara-se que ele se encontraria com Hans Hubermann dali a quatro dias (isto
, se no o levassem embora). Seria num lugar bem mais adiante, no Amper, onde uma ponte quebrada recostava-se entre o rio e o arvoredo.
        Ele chegaria l, mas no ficaria mais que alguns minutos.
        A nica coisa a ser encontrada, quando o pai chegou, quatro dias depois, foi um bilhete embaixo de uma pedra, na base de uma rvore. No era dirigido a ningum
e continha apenas uma frase.
         AS LTIMAS PALAVRAS DE 
        MAX VANDENBURG
        Vocs j fizeram o bastante.
        Agora, mais do que nunca, o nmero 33 da Rua Himmel tornou-se um lugar de silencio, e no passou despercebido que o Dicionrio Duden estava completa e profundamente
errado, em especial nos seus vocbulos correlatos.
        O silncio no era quietude nem calma, e no era paz.

        O IDIOTA E OS HOMENS DE SOBRETUDO
        Na noite do desfile, o idiota sentou-se na cozinha, tomando goles amargos do caf da Holtzapfel e ansiando por um cigarro. Esperou a Gestapo, os soldados,
a polcia - qualquer um - para lev-lo embora, como julgava merecer. Rosa ordenou que ele fosse dormir. A menina deixou-se ficar no vo da porta. Ele mandou as duas
embora e passou a madrugada, at amanhecer, com a cabea nas mos, esperando.
        Nada.
        Cada intervalo de tempo carregava em si o rudo esperado das batidas e das palavras ameaadoras.
        Elas no chegaram.
        O nico som era o dele mesmo.
        -        Que foi que eu fiz? - tornou a murmurar.
        -        Meu Deus, eu adoraria um cigarro - respondeu. Estava sem nenhum.
        Liesel ouviu vrias vezes as frases repetidas, e foi muito difcil permanecer junto  porta. Ela gostaria de consol-lo, mas nunca tinha visto um homem to
arrasado. No havia consolo naquela noite. Max se fora, e o culpado era Hans Hubermann.
        Os armrios da cozinha tinham o formato da culpa, e as palmas das mos de Hans estavam oleosas, com a lembrana do que ele fizera. Devem estar suadas, pensou
Liesel, porque suas prprias mos estavam encharcadas at o pulso.
        No quarto, ela rezou,
         Mos e joelhos, braos apoiados no colcho.
        -        Por favor, Deus, por favor, deixe o Max sobreviver. Por favor, Deus, por favor...
        Os joelhos sofridos.
        Os ps doloridos.
        Ao surgir a primeira luz, ela acordou e voltou  cozinha. O pai dormia, com a cabea paralela ao tampo da mesa, e tinha um pouco de saliva num canto da boca.
O cheiro de caf era opressivo, e a imagem da bondade idiota de Hans Hubermann ainda pairava no ar. Como um nmero ou um endereo. E s repeti-lo um nmero suficiente
de vezes que ele fica gravado.
        Sua primeira tentativa de acord-lo no foi sentida, mas a segunda cutucada no ombro tirou-lhe a cabea da mesa, num sobressalto ascendente.
        -        Eles chegaram?
        -        No, papai, sou eu.
        Hans terminou a poa ranosa de caf que restara na caneca. Seu pomo-de-ado subiu e desceu.
        -        Eles j deviam ter vindo. Por que no vieram, Liesel?
        Aquilo era um insulto.
        J deveriam ter chegado e vasculhado a casa,  procura de qualquer indcio de amor aos judeus, ou de traio, mas Max parecia ter ido embora sem nenhuma
justificativa. Poderia estar dormindo no poro ou desenhando em seu caderno.
        -        Voc no podia saber que eles no viriam, papai.
        -        Eu deveria saber que no era para dar po nenhum quele homem. Simplesmente no raciocinei.
        -        Papai, voc no fez nada errado.
        -        No acredito em voc.
        Ele se levantou e saiu pela porta da cozinha, deixando-a entreaberta. Para tornar o insulto ainda mais afrontoso, era uma linda manh.
        Passados quatro dias, o pai deu uma longa caminhada  margem do Amper. Voltou trazendo um bilhetinho e o ps na mesa da cozinha.
        Passou-se mais uma semana, e Hans Hubermann continuou  espera do castigo. Os lanhos em suas costas transformavam-se em cicatrizes, e ele passava a maior
parte do tempo caminhando por Molching. Frau Diller cuspiu em seus ps. Frau Holtzapfel, fiel a sua palavra, tinha parado de cuspir na porta dos Hubermann, mas houve
um substituto conveniente.
        -        Eu sabia - maldisse-o a lojista. - Seu porco amante de judeus.
        Hans continuava a andar, desatento, e muitas vezes Liesel o alcanava no Rio Amper, na ponte. Com os braos apoiados na balaustrada e a parte superior do
tronco debruada sobre a borda. Crianas passavam por ele de bicicleta, cleres, ou ento corriam, falando alto e batendo os ps na madeira. Nada disso o afetava
minimamente.

         SIGNIFICADO N 8 DO DICIONRIO DUDEN 
        Nachtrauern - Lamentar:
        Sentir uma tristeza carregada de saudade,
        desapontamento ou luto.
        Vocbulos correlatos: penalizar-se,
        arrepender-se, prantear, contristar-se.
        -        Voc o v? - perguntou-lhe Hans uma tarde, quando ela se debruou a seu lado. - Ali, na gua?
        O rio no corria muito depressa. Nas ondulaes lentas, Liesel pde ver o contorno do rosto de Max Vandenburg. Viu seu cabelo plumoso e o restante dele.
        -        Ele costumava lutar com o Fhrer no nosso poro.
        -        Jesus, Maria e Jos - disse o pai, comprimindo as mos na madeira cheia de lascas. - Eu sou um idiota.
        No, papai.
        Voc  apenas um homem.
        Essas palavras lhe ocorreram mais de um ano depois, ao escrever no poro. Liesel gostaria de ter pensado nelas nessa hora.
        -        Eu sou burro - disse Hans Hubermann  filha de criao. - E bom. O que resulta no maior idiota do mundo. A questo  que eu quero que eles venham
me buscar. Qualquer coisa  melhor do que esta espera.
        Hans Hubermann precisava de uma confirmao. Precisava saber que Max Vandenburg sara de sua casa por um bom motivo.
        Por fim, aps quase trs semanas de espera, achou que sua hora havia chegado.
        Era tarde.
        Liesel vinha voltando da casa de Frau Holtzapfel, quando viu os dois homens de longos sobretudos pretos, e correu para dentro de casa.
        -        Papai, papai! - quase derrubou a mesa da cozinha. - Papai, eles esto aqui! A me veio primeiro.
        -        O que  essa gritaria toda, Saumensch? Quem est aqui?
        -        A Gestapo.
        -        Hansi!
        Ele j havia chegado, e saiu de casa para receb-los. Liesel quis juntar-se a ele, mas Rosa a deteve e as duas ficaram olhando pela janela. O pai ficou postado
no porto. Estava irrequieto. A me apertou com mais fora os braos de Liesel. Os homens passaram.
        O pai olhou para a janela, alarmado, depois saiu porto afora. Chamou-os.
        - Ei! Eu estou aqui. Sou eu que vocs querem. Moro nesta aqui.
        Os homens de, sobretudo apenas deram uma parada momentnea e checaram seus cadernos de notas.
        - No, no - disseram. Tinham vozes graves e volumosas. - Infelizmente, o senhor  meio velho demais para nossos objetivos.
        Continuaram a andar, mas no avanaram muito, parando no nmero trinta e cinco e cruzando o porto aberto.
        - Frau Steiner? - perguntaram, quando a porta se abriu.
        - Sim, isso mesmo.
        - Vimos ter uma conversa com a senhora.
        Os homens de sobretudo postaram-se como colunas encasacadas no umbral da casa dos Steiner, com seu formato de caixa de sapatos. Por alguma razo, estavam
ali pelo menino. Os homens de sobretudo queriam Rudy.


PARTE OITO
        A SACUDIDORA DE PALAVRAS
        APRESENTANDO:
        domins e trevas
        a idia de rudy nu
        castigo
        a mulher de um cumpridor de promessas
        um colecionador
        os comedores de po
        uma vela nas rvores
        um caderno de desenho escondido
        e a coleo de ternos do anarquista

        DOMINS E TREVAS
        Nas palavras das irms menores de Rudy, havia dois monstros sentados na cozinha. Suas vozes amassavam metodicamente a porta, enquanto trs das crianas Steiner
jogavam domin do outro lado. As outras trs ouviam rdio no quarto, distradas. Rudy esperava que isso no tivesse nada a ver com o que acontecera na escola na
semana anterior. Tinha sido algo que ele se recusara a contar a Liesel e sobre o qual no havia falado em casa.
         UMA TARDE CINZENTA, 
        UM PEQUENO CONSULTRIO NA ESCOLA
        Trs meninos fizeram fila.
        Seus histricos escolares e seus corpos
        foram minuciosamente examinados.
        Quando terminou a quarta partida de domin, Rudy comeou a en-fileirar as pedras na vertical, criando desenhos que serpenteavam pelo cho da sala. Como era
seu hbito, tambm deixou alguns espaos, para o caso de haver interferncia do dedo travesso de uma das irms, o que geralmente acontecia.
        -        Posso derrubar eles, Rudy?
        -        No.
        -        E eu?
        -        No. Todos vamos derrub-los.
        Rudy montou trs formaes separadas, que levavam  mesma torre de domins no centro. Juntos, eles observariam o desmoronamento de tudo que fora to cuidadosamente
planejado, e todos sorririam ante a beleza d destruio,
        As vozes na cozinha estavam ficando mais altas, umas trepando nas outras para se fazerem ouvir. Frases diferentes disputavam a ateno, at que uma pessoa,
anteriormente calada, entrou no meio delas.
        -        No - disse. - No - repetiu. Mesmo quando as demais retomaram a , discusso, voltaram a ser silenciadas pela mesma voz, s que, nessa hora, ela
ganhou mpeto. - Por favor - suplicou Barbara Steiner -, meu menino no.
        -        A gente pode acender uma vela, Rudy?
        Era uma coisa que o pai fizera muitas vezes com eles. Apagava a luz e todos viam os domins carem  luz da vela. De algum modo, isso tornava o acontecimento
mais grandioso, um espetculo maior.
        As pernas de Rudy estavam doloridas, de qualquer jeito.
        -        Deixem eu procurar um fsforo.
        O interruptor ficava junto  porta.
        Em silncio, Rudy aproximou-se dela, com a caixa de fsforos numa das mos e a vela na outra.
        Do lado de l, os trs homens e uma mulher treparam nas dobradias. - As melhores notas da turma - disse um dos monstros. Muita profundidade e indiferena.
- Para no falar em sua capacidade atltica - completou. Droga, por que  que ele tinha que ter ganho todas aquelas corridas na competio?
        Deutscher.
        Maldito aquele tal de Franz Deutscher.
        Mas, ento, Rudy compreendeu.
        Aquilo no era culpa de Franz Deutscher, mas sua. Ele quisera mostrar a seu antigo torturador do que era capaz, mas tambm quisera provar-se diante de todos.
E agora, o todos estava na cozinha.
        Rudy acendeu a vela e apagou a luz.
        -        Prontas?
        -        Mas ns ouvimos falar no que acontece por l - fez a inconfundvel voz de carvalho de seu pai.
        -        Anda, Rudy, anda logo!
        -        Sim, mas compreenda, Herr Steiner, tudo isso  por um objetivo maior. Pense nas oportunidades que seu filho pode ter. E realmente um privilgio.
        -        Rudy, a vela est pingando.
        O menino fez um gesto para que elas se calassem, novamente  espera de Alex Steiner. Ele veio.
        -        Privilgios? Como correr descalo na neve? Como saltar de plataformas de dez metros, em noventa centmetros de gua?
        Agora a orelha de Rudy estava grudada na porta. A cera da vela derretia em sua mo.
         -        Boatos - fez a voz rida, baixa e sem emoo. Tinha resposta para tudo. - Nossa escola  uma das melhores que j se criaram. E melhor que as de
categoria internacional. Estamos criando um grupo de elite de cidados alemes, em nome do Fhrer...
        Rudy no conseguiu mais escutar.
        Raspou da mo a cera da vela e recuou da emenda de luz que atravessava a rachadura da porta. Ao se sentar, a chama apagou-se. Movimento demais. A escurido
invadiu o cmodo. A nica luz disponvel era um estncil retangular branco, na forma da porta da cozinha.
        Ele riscou outro fsforo e tornou a acender a vela. O cheiro doce de fogo e carbono.
        Cada um deles, Rudy e as irms, deu um peteleco num domin diferente, e em seguida os observaram cair, at que a torre central prostrou-se de joelhos. As
meninas deram vivas.
        Kurt, o irmo mais velho, entrou na sala.
        -        Parecem cadveres - disse.
        -        O qu?
        Rudy espiou o rosto sombrio, mas Kurt no respondeu. Havia notado a discusso que vinha da cozinha.
        -        Que est acontecendo por l?
        Foi uma das meninas quem respondeu. A mais nova, Bettina. Tinha cinco anos.
        -        Tem dois monstros - disse. - Vieram buscar o Rudy.
        De novo, a criana humana. Muito mais perspicaz.
        Depois, quando os homens de sobretudo se foram, os dois rapazinhos, um de dezessete, outro de quatorze anos, encontraram coragem para enfrentar a cozinha.
Pararam  porta. A luz castigava seus olhos. Foi Kurt quem falou:
        -        Eles vo lev-lo?
        Os braos da me estavam arriados na mesa. As palmas das mos, viradas para cima.
        Alex Steiner levantou a cabea.
        Estava pesada.
        Sua expresso era ntida e definida, recm-talhada.
        A mo de madeira afastou as lascas de franja e ele fez vrias tentativas de falar.
        -        Papai?
        Mas Rudy no se aproximou dele.
        Sentou-se  mesa da cozinha e segurou a mo da me, com sua palma para cima.
        Alex e Barbara Steiner no quiseram revelar o que fora dito enquanto os domins tombavam feito cadveres na sala de estar. Se Rudy tivesse continuado a escutai
junto  porta, s mais uns minutinhos...
        Nas semanas seguintes, ele disse a si mesmo - ou, a rigor, protestou consigo mesmo - que, se tivesse ouvido o resto da conversa naquela noite, teria entrado
muito antes na cozinha. - Eu vou - teria dito. - Por favor, me levem, estou pronto.
        Se houvesse interferido, isso poderia ter modificado tudo.
         TRS POSSIBILIDADES 
        1. Alex Steiner no teria sofrido o
        mesmo castigo que Hans Hubermann.
        2. Rudy teria ido embora para a escola.
        3. E, talvez, talvez tivesse ficado vivo.
        Mas a crueldade do destino no havia deixado que Rudy Steiner entrasse na cozinha no momento oportuno.
        Ele tinha voltado para suas irms e os domins.
        Sentara-se.
        Rudy Steiner no iria a lugar nenhum.


A IDIA DE RUDY NU
        Havia uma mulher.
        Parada num canto.
        Tinha a trana mais grossa que ele j vira. Descia-lhe pelas costas feito uma corda e, vez ou outra, quando ela a passava por cima do ombro, espreitava os
seios colossais da mulher, como um animal de estimao superalimentado. Na verdade, tudo nela era amplificado. Os quadris, as pernas. Os dentes acavalados. A voz
era grande e direta. Sem tempo a perder.
        - Komm - ela os instruiu. - Venham. Fiquem aqui.
        O mdico, em comparao, parecia um roedor em processo de calvcie. Era mido e gil, e andava de um lado para outro, no consultrio da escola, com movimentos
e maneirismos manacos, embora metdicos. E estava resfriado.
        Dos trs meninos, foi difcil decidir quem relutou mais em tirar a roupa, ao receber essa ordem. O primeiro olhou de uma pessoa pan outra, do professor envelhecido
para a enfermeira gargantuesca e o mdico tamanho mirim. O do meio s fez olhar para os ps, e o da ex trema esquerda julgou-se abenoado por estar no consultrio
mdico da escola, e no numa viela escura. A enfermeira, decidiu Rudy, er; de dar medo.
        - Quem  o primeiro? - perguntou ela.
        Quem respondeu foi o professor que supervisionava o processo, Herr Heckenstaller. Estava mais para um terno preto do que para um homem. Seu rosto era um
bigode. Examinando os meninos, sua escolha foi rpida,
        0        pobre Jrgen Schwarz desabotoou o uniforme, com imenso mal-estar. Ficou parado ali, apenas de sapatos e roupa de baixo. Um apelo infeliz pairava
em seu rosto alemo.
        -        E ento? - perguntou Herr Heckenstaller. - Os sapatos?
        O menino tirou os dois sapatos, as duas meias.
        -        Und die Unterhosen - fez a enfermeira. - E a cueca.
        Aquela altura, Rudy e o outro menino, Olaf Spiegel, tambm tinham comeado a se despir, mas no estavam nem perto da situao periclitante de Jrgen Schwarz.
O menino tremia. Era um ano mais novo que os outros dois, porm mais alto. Quando sua cueca arriou, foi com abjeta humilhao que ele se postou no consultrio pequeno
e frio. Com o amor-prprio enroscado nos tornozelos.
        A enfermeira o observava atentamente, com os braos cruzados sobre o peito devastador.
        Heckenstaller ordenou que os outros dois andassem logo.
        O medico coou a cabea e tossiu. A gripe o estava matando.
        Os trs meninos nus foram individualmente examinados no piso frio. Cobriram a genitlia com as mos em concha e tremeram como o futuro.
        Entre as tossidas e espirros do mdico, eles mostraram suas habilidades.
        -        Inspire. Uma fungada.
        -        Expire. Segunda fungada.
        -        Abram os braos. Tosse.
        -        Eu disse abram os braos. Saraivada medonha de tosse.
        Como fazem os seres humanos, os meninos se entreolharam vrias vezes, em busca de algum sinal de solidariedade mtua. No houve nenhum. Com dificuldade,
os trs tiraram a mo do pnis e abriram os braos. Rudy no se sentiu parte de uma raa superior.
        - Aos poucos, estamos conseguindo criar um novo futuro - informava a enfermeira ao professor. - Ser uma nova classe de alemes, fsica e mentalmente avanados.
Uma classe de oficiais.
        Infelizmente, seu sermo foi interrompido quando o mdico dobrou-se ao meio e tossiu com toda a fora sobre as roupas abandonadas. Seus olhos se encheram
de lgrimas e Rudy no pde deixar de se intrigar.
        Um novo futuro? Como ele?
        Sensatamente, no disse nada.
        O exame foi concludo e ele conseguiu fazer seu primeiro "heil Hitler" nu em plo. De um jeito meio perverso, admitiu que no foi nada mau.
        Despojados de sua dignidade, os meninos tiveram permisso para se vestir e, ao serem conduzidos para fora do consultrio, j puderam ouvir s suas costas
a discusso em sua homenagem.
        -        Eles so um pouco mais velhos que de hbito - dizia o mdico -, mas estou pensando em pelo menos dois.
        A enfermeira concordou:
        -        O primeiro e o terceiro.
        Trs meninos parados do lado de fora. Primeiro e terceiro.
        -        O primeiro foi voc, Schwarz - disse Rudy, e ento perguntou a Olaf Spiegel:
        - Quem foi o terceiro?
        Spiegel fez as contas. Ser que ela se referira ao terceiro da fila, ou ao terceiro a ser examinado? No tinha importncia. Ele sabia em que queria acreditar.
        -        Foi voc, eu acho.
        -        Bosta, Spiegel, foi voc.
         UMA PEQUENA GARANTIA 
        Os homens de sobretudo sabiam quem era o terceiro.
        No dia seguinte  visita deles  Rua Himmel, Rudy sentou-se com Liesel no degrau da entrada e relatou a saga inteira, at os mnimos detalhes. Desistiu e
admitiu o que havia acontecido na escola, no dia em que fora retirado da sala. Houve at umas risadas a respeito da enfermeira elefantina e da expresso no rosto
de Jrgen Schwarz. Na maior parte, entretanto, foi uma histria de angstia, especialmente no pedao das vozes na cozinha e dos domins-cadveres.
        Durante dias, Liesel no conseguiu tirar uma idia da cabea.
        Era o exame dos trs meninos, ou, para ser franca, de Rudy.
        Ficava deitada na cama, sentindo saudade de Max, imaginando onde ele estaria e rezando para que estivesse vivo, mas, em algum lugar, no meio daquilo tudo
estava Rudy.
        Ele reluzia no escuro, completamente nu.
        Havia um grande pavor nessa viso, especialmente no momento em que ele era obrigado a retirar as mos. Aquilo era desconcertante, para dizer o mnimo, mas,
por alguma razo, Liesel no conseguia parar de pensar nessa idia.

        CASTIGO
        Nos cartes de racionamento da Alemanha nazista no havia uma lista de punies, mas todos tinham que esperar sua vez. Para alguns, ela foi a morte num pas
estrangeiro, durante a guerra. Para outros, a pobreza e a culpa, uma vez terminada a guerra, quando se fizeram seis milhes de descobertas em toda a Europa. Muita
gente deve ter visto <> castigo se aproximar, mas apenas uma pequena percentagem o acolheu de bom grado. Uma dessas pessoas foi Hans Hubermann.
        No se pode ajudar judeus na rua.
        O poro no deve esconder um deles.
        A princpio, o castigo de Hans foi a conscincia pesada. Seu desenterrar descuidado de Max Vandenburg o atormentava. Liesel via o castigo sentado junto ao
prato do pai, enquanto ele ignorava o jantar, ou (le p com ele na ponte sobre o Amper. Hans j no tocava acordeo. Seu otimismo de olhos prateados estava ferido
e esttico. Isso j era bastante ruim, mas foi s o comeo.
        Numa quarta-feira do comeo de novembro, o verdadeiro castigo chegou pelo correio. A primeira vista, pareceu uma boa notcia.
         UM PAPEL NA COZINHA 
        Temos o prazer de inform-lo que seu pedido de filiao ao NSDAP foi aprovado...
        -        O Partido Nazista? - perguntou Rosa. - Pensei que eles no quisessem voc.
        -        No queriam.
        O pai sentou-se e releu a carta.
        No estava sendo processado por traio, nem por ajudar judeus, nem qualquer coisa desse tipo. Hans Hubermann estava sendo recompensado, pelo menos no que
dizia respeito a algumas pessoas. Como era possvel?
        -        Tem que haver mais coisa.
        Havia.
        Na sexta-feira, chegou um comunicado informando que Hans Hubermann deveria alistar-se no exrcito alemo. Um membro do partido ficaria satisfeito em desempenhar
seu papel no esforo de guerra, conclua o texto. Se no ficasse, certamente haveria conseqncias.
        Liesel tinha acabado de voltar da leitura com Frau Holtzapfel. A cozinha estava carregada de vapor de sopa e dos rostos vazios de Hans e Rosa Hubermann.
O pai estava sentado. A me, de p ao lado dele, enquanto a sopa comeava a queimar.
        -        Meu Deus, por favor, no me mande para a Rssia - disse o pai.
        -        Mame, a sopa est queimando.
        -        O qu?
        Liesel correu at l e a tirou do fogo.
        -        A sopa.
        Depois de resgat-la, virou-se e examinou os pais de criao. Rostos de cidade-fantasma.
        - Papai, qual  o problema?
        Ele lhe estendeu a carta e as mos da menina comearam a tremer,  medida que ela avanou na leitura. As palavras tinham sido batidas com fora no papel.
         O CONTEDO DA IMAGINAO 
        DE LIESEL MEMINGER
        Na cozinha bombardeada, em algum
        ponto prximo do fogo, havia a imagem de
        uma mquina de escrever solitria,
        com excesso de trabalho.
        Achava-se numa sala distante, quase vazia.
        As teclas eram desbotadas e uma folha em branco
        esperava pacientemente em p, na posio correta.
        Oscilava de leve  brisa que entrava pela janela.
        O intervalo para o caf quase havia terminado.
        Uma pilha de papis, da altura de um ser humano,
        esperava junto  porta, descontrada.
        Poderia muito bem estar fumando.
        Na verdade, Liesel s viu a mquina datilogrfica tempos depois, ao escrever aos Hans Hubermann e Alex Steiner da Alemanha - aos que ajudavam os desamparados
e aos que se recusavam a abrir mo de seus filhos.
        Era um sinal do desespero crescente do exrcito alemo.
        Eles estavam perdendo na Rssia.
        Suas cidades vinham sendo bombardeadas.
        Havia necessidade de mais gente, assim como os meios para consegui-la, e, na maioria dos casos, as piores tarefas possveis seriam dadas s piores pessoas
possveis
        Enquanto seus olhos percorriam o papel, Liesel enxergava a mesa de madeira atravs dos buracos perfurados pelas letras. Palavras como compulsrio e dever
tinham sido batidas na pgina. Desencadeou-se a saliva. Era a nsia de vmito.
        -        O que  isso?
        Veio a resposta do pai, baixinho:
        -        Pensei que lhe tivesse ensinado a ler, minha menina.
        No falou com raiva nem sarcasmo. Foi uma voz de vazio, para combinar com o rosto.
        Liesel ento olhou para a mame.
        Rosa tinha uma pequena fenda embaixo do olho direito e, em menos de um minuto, seu rosto de papelo se desfez. No pelo centro, mas  direita. Contorceu-se
face abaixo, num arco que terminava no queixo.
         VINTE MINUTOS DEPOIS: 
        UMA MENINA NA RUA HIMMEL
        Ela levantou os olhos. Falou num sussurro.
        - Hoje o cu est fosco, Max. As nuvens esto muito foscas e tristes, e...
        Desviou os olhos e cruzou os braos.
        Pensou no pai, indo para a guerra, e puxou
        o casaco dos dois lados do corpo.
        - E est frio, Max. Faz muito frio...
        Cinco dias depois, quando deu continuidade a seu hbito de verificar o tempo ela no teve chance de ver o cu.
        Na casa ao lado, Barbara Steiner sentava-se no degrau da frente, com seu cabelo bem penteado. Fumava um cigarro e tremia. Quando se encaminhava para l,
Liesel foi interrompida pela viso de Kurt. Ele saiu e se sentou com a me. Ao ver a menina parar, chamou-a.
        -        Venha, Liesel. O Rudy vai sair logo.
        Aps uma breve pausa, ela continuou a andar em direo ao degrau.
        Barbara fumava.

        Uma ruga de cinza oscilava na ponta do cigarro. Kurt o pegou, bateu a cinza, deu uma tragada e o devolveu.
        Terminado o cigarro, a me de Rudy ergueu os olhos. Passou a mo pelos fios arrumados do cabelo.
        -        Nosso pai tambm vai - disse Kurt.
        Depois, silncio.
        Um grupo de crianas chutava uma bola, perto da loja de Frau Diller.
        -        Quando eles vm pedir um de seus filhos - explicou Barbara Steiner, sem se dirigir a ningum em particular -, voc tem que dizer sim.

        A MULHER DO CUMPRIDOR DE PROMESSAS

         PORO, 9 HORAS DA MANH 
        Seis horas at a despedida: - Toquei acordeo, Liesel.
        De outra pessoa - e Hans fechou os olhos. - A casa veio abaixo.
        Sem contar a taa de champanhe no vero anterior, fazia uma dcada que Hans Hubermann no consumia uma gota de lcool. E ento veio a noite da vspera de
sua partida para o treinamento.
        Ele foi ao Knoller com Alex Steiner,  tarde, e l ficou at altas horas. Ignorando as advertncias das respectivas esposas, os dois beberam at cair. No
foi de grande ajuda que o proprietrio do Knoller, Dieter Westheimer, lhes desse bebida de graa.
        Aparentemente, quando ainda estava sbrio, Hans foi convidado a subir ao palco para tocar seu acordeo. Como seria apropriado, tocou o famigerado "Domingo
Sombrio" - o hino do suicdio que vinha da Hungria - e, embora tivesse despertado toda a tristeza pela qual a msica era famosa, ele fez a casa vir abaixo. Liesel
imaginou a cena e o som. Bocas cheias. Copos vazios de cerveja, com riscos de espuma. Os foles suspiraram e a msica terminou. As pessoas aplaudiram. As bocas cheias
de cerveja deram vivas e o reconduziram ao bar.
        Quando os dois conseguiram encontrar o caminho de casa, Hans no pde fazer a chave encaixar-se na fechadura. Por isso, bateu. Repetidamente.
        - Rosa!
         Era a porta errada. Frau Holtzapfel no se empolgou.
        - Schwein! Voc est na casa errada - socou as palavras pelo buraco da fechadura. -  a porta ao lado, seu Saukerl idiota!
        -        Obrigado, Frau Holtzapfel.
        -        Voc sabe o que pode fazer com o seu obrigado, seu babaca.
        -        Como disse?
        -        V para casa.
        -        Obrigado, Frau Holtzapfel.
        -        No acabei de lhe dizer o que voc pode fazer com seu agradecimento?
        -        Disse?
        ( admirvel o que se pode recolher de uma conversa de poro e uma sesso de leitura na cozinha de uma velha desagradvel.)
        -        Caia fora daqui, sim?
        Quando finalmente chegou em casa, o pai no foi para a cama, e sim ao quarto de Liesel. Parou no vo da porta, trpego, e observou a menina dormindo. Ela
acordou e, no mesmo instante, achou que era Max.
        -         voc? - perguntou.
        -        No - fez Hans. Sabia exatamente no que ela pensava. -  o papai. Recuou do quarto e ela ouviu seus passos descerem para o poro.
        Na sala, Rosa roncava com entusiasmo.
        Quase s nove horas da manh seguinte, na cozinha, Liesel recebeu uma ordem de Rosa.
        -        D-me aquele balde ali.
        Encheu-o de gua fria e desceu com ele para o poro. Liesel a seguiu, na v tentativa de det-la.
        -        Mame, voc no pode!
        -        No posso? - fez Rosa, e fitou-a brevemente na escada. - Ser que eu perdi alguma coisa, Saumensch? Agora  voc quem d as ordens por aqui?
        As duas ficaram completamente imveis. Nenhuma resposta da menina.
        -        Achei que no.
        Seguiram adiante e o encontraram deitado de costas, em meio a uma cama de mantas de proteo contra respingos. Hans tinha achado que no merecia o colcho
de Max.
        -        Ento, vamos ver - disse Rosa, levantando o balde - se ele est vivo.
        -        Jesus, Maria e Jos!
        A marca da gua criou uma forma oval, da metade do peito at a cabea. O cabelo ficou emplastrado de lado e at os clios gotejavam.
        -        Para que foi isso?
        -        Seu velho bbado!
        -        Jesus...
        Subia um vapor estranho de sua roupa. A ressaca era visvel. Ela trepou nos ombros de Hans e sentou-se neles, feito um saco de cimento molhado. Rosa trocou
o balde da mo esquerda para a direita.
        -         sorte sua estar indo para a guerra - disse. Levantou um dedo no ar e no teve medo de sacudi-lo. - Seno eu mesma o mataria, voc sabe disso,
no sabe?
        O pai enxugou uma corrente de gua do pescoo.
        -        Voc tinha que fazer isso?
        -        Tinha, sim - fez ela, e comeou a subir a escada. - Se voc no estiver l em cima em cinco minutos, vai levar outro balde.
        Deixada no poro com o pai, Liesel se ocupou em secar o excesso de gua com algumas mantas.
        O pai falou. Com a mo molhada, fez a menina parar. Segurou-lhe o brao.
        -        Liesel? - disse, com o rosto grudado nela. - Voc acha que ele est vivo?
        A menina sentou-se.
        Cruzou as pernas.
        A manta molhada encharcou seus joelhos.
        -        Espero que sim, papai.
        Era uma coisa muito idiota para se dizer, muito bvia, mas no parecia haver grande alternativa.
        Para dizer ao menos alguma coisa que prestasse e distra-los da lembrana de Max, Liesel se agachou e ps um dedo numa pocinha de gua no cho.
        -        Guten Morgen, papai.
        Em resposta, Hans piscou o olho.
        Mas no foi a piscadela de hbito. Foi mais pesada, mais desajeitada. A verso ps-Max, verso-ressaca. Hans sentou-se e lhe contou sobre o acordeo na noite
anterior, e sobre Frau Holtzapfel.
         COZINHA: 13 HORAS 
        Duas horas at a despedida. - No v, papai. Por favor.
        A mo da menina tremia, segurando a colher. - Primeiro
        perdemos o Max. No posso perder voc tambm, agora - pediu.
        Em resposta, o homem de ressaca enfiou o cotovelo
        na mesa e tapou o olho direito.
        - Agora voc  meia mulher, Liesel - disse.
        Sentia vontade de desmoronar, mas a rechaou.
        Seguiu em frente. - Cuide da mame, sim? - pediu.
        A menina s conseguiu fazer meio aceno de cabea para concordar:
        - Sim, papai.
        Ele deixou a Rua Himmel visando sua ressaca e um terno,
        Alex Steiner s partiria dali a quatro dias. Foi visit-los uma hora antes da sada para a estao, e desejou a Hans toda a sorte possvel. A famlia Steiner
inteira estava l. Todos lhe apertaram a mo. Barbara o abraou, beijando-lhe as duas faces.
        - Volte vivo.
        - Sim, Barbara - e o jeito como o disse foi cheio de confiana. - E claro que voltarei - garantiu. Chegou at a rir: -  s uma guerra, voc sabe. Sobrevivi
a uma antes.
        Quando subiam a Rua Himmel, a mulher magra e rija da casa ao lado saiu e parou na calada.
        - Adeus, Frau Holtzapfel. Desculpe-me por ontem  noite.
        - Adeus, Hans, seu Saukerl bbado - disse ela, mas tambm lhe ofereceu um toque de amizade: - Volte logo para casa.
        - Sim, Frau Holtzapfel. Obrigado.
        Ela at brincou um pouquinho:
        - Voc sabe o que pode fazer com seu agradecimento.
        Na esquina, Frau Diller olhou defensivamente de sua vitrine e Liesel pegou a mo do pai. Segurou-a durante todo o trajeto pela Rua Munique, at a Bahnhof.
O trem j estava na estao.
        Pararam na plataforma.
        Rosa o abraou primeiro.
        Nenhuma palavra.
        Afundou a cabea no peito dele, apertado, e se foi.
        Depois, a menina.
        - Papai?
         Nada.
        No v, papai. No v, no. Deixe eles virem busc-lo, se voc ficar. Mas no v, por favor, no v.
        - Papai?
         ESTAO DE TREM, 15 HORAS  
        Nem uma hora, nem um minuto at o adeus: Ele a abraou.
        Para dizer alguma coisa, para dizer qualquer coisa,
        falou por cima do ombro da menina: - Pode cuidar
        do meu acordeo, Liesel? Resolvi no lev-lo - e ento encontrou
        algo que realmente queria dizer: - E, se houver
        novos bombardeios, continue a ler no abrigo.
        A menina sentiu o sinal contnuo de seus seios ligeiramente
        aumentados. Doam ao encostar na base das costelas do pai.
        - Sim, papai - concordou. A um milmetro dos olhos,
        fitou o tecido do terno. Falou, encostada nele:
        - Voc toca uma coisa para ns, quando voltar?

        Hans Hubermann sorriu para a filha nessa hora, e o trem se preparou para partir. Ele estendeu o brao e segurou delicadamente o rosto da menina em sua mo:
- Prometo - respondeu, e entrou no vago.
        Ficaram olhando um para o outro, enquanto o trem se afastava.
        Liesel e Rosa acenaram.
        Hans Hubermann foi ficando cada vez menor, e sua mo passou a no segurar nada alm do ar vazio.
        Na plataforma, as pessoas desapareceram ao redor delas, at no restar mais ningum. Apenas a mulher em formato de armrio e a menina de treze anos.
        Nas semanas seguintes, enquanto Hans Hubermann e Alex Steiner passavam por seus diversos campos de treinamento acelerado, a Rua Himmel ficou tensa. Rudy
no era o mesmo - no falava. Rosa no era a mesma - no dava espinafraes. Tambm Liesel sentiu os efeitos. No havia nenhum desejo de roubar livros, por mais
que ela tentasse convencer-se de que isso a animaria.
        Aps doze dias de ausncia de Alex Steiner, Rudy decidiu que j chegava. Precipitou-se porto adentro e bateu na porta de Liesel.
        - Kommst?
        - Ja.
        Ela no quis saber para onde ele ia nem o que estava planejando, mas Rudy se recusava a ir sem ela. Subiram a Himmel, seguiram pela Rua Munique e saram
completamente de Molching. Foi depois de cerca de uma hora que Liesel fez a pergunta vital. At ento, apenas olhara de relance para o rosto decidido de Rudy, ou
examinara seus braos duros e os punhos cerrados nos bolsos.
        - Para onde estamos indo?
        - No  bvio?
        Ela lutava para acompanhar seus passos.
        - Bem, para dizer a verdade... realmente, no.
        - Vou procur-lo.
        - Seu pai?
        - Sim - e pensou melhor. - Na verdade, no. Acho que vou procurar o Fhrer, em vez disso.
        Passos mais rpidos.
        - Por qu?
        Rudy parou.
        - Porque quero mat-lo.
        Chegou at a girar nos calcanhares, voltando-se para o resto do mundo.
        - Ouviram, seus canalhas? - gritou. - Eu quero matar o Fhrer! Recomearam a andar e percorreram mais alguns quilmetros. Foi quando Liesel sentiu a nsia
de dar meia-volta.
        - Vai escurecer logo, Rudy.
        -        E da? - fez ele.
        E continuou andando.
        -        Eu vou voltar.
        Nesse momento, Rudy parou e a fitou, como se ela o estivesse traindo.
        -        Est bem, roubadora de livros. Pode me deixar agora. Aposto que, se houvesse uma porcaria de um livro no fim desta estrada, voc continuaria a andar.
No ?
        Por algum tempo, nenhum dos dois disse nada, mas Liesel no tardou a encontrar sua vontade.
        -        Voc acha que  o nico, Saukerl? - e deu meia-volta. - E voc s perdeu o seu pai...
        -        Que quer dizer isso?
        Liesel demorou um instante para contar.
        Sua me. Seu irmo. Max Vandenburg. Hans Hubermann. Todos desaparecidos. E ela nem sequer tivera um pai de verdade.
        -        Quer dizer que eu vou para casa.
        Durante quinze minutos, andou sozinha, e, mesmo quando Rudy a alcanou e ficou a seu lado, com a respirao arfante e as bochechas suadas, no se disse uma
palavra, por mais de uma hora. Eles apenas caminharam juntos para casa, com os ps doloridos e os coraes cansados.
        Havia um captulo chamado "Coraes Cansados" em Uma Cano no Escuro. Uma mocinha romntica prometera amor a um rapaz, mas ele parecia ter fugido com sua
melhor amiga. Liesel tinha certeza de que era o captulo treze. "Meu corao est muito cansado", dissera a jovem. Estava sentada numa capela, escrevendo em seu
dirio.
        No, pensou Liesel, enquanto andava.  o meu corao que est cansado. Um corao de treze anos no devia sentir-se assim.
        Quando chegaram ao permetro de Molching, Liesel atirou algumas palavras. Avistou o Oval Hubert.
        -        Lembra-se de quando corremos ali, Rudy?
        -         claro. Eu estava justamente pensando nisso... em como ns dois camos.
        -        Voc disse que estava coberto de coc.
        -        Era s lama - porm ele no pde conter a diverso. - Fiquei coberto de coc na Juventude Hitlerista. Voc est se confundindo, Saumensch.
        -        No estou confundindo nada. S estou dizendo o que voc disse. O que uma pessoa diz e o que acontece costumam ser duas coisas diferentes, Rudy,
especialmente quando se trata de voc.
        Assim era melhor.
        Quando tornaram a passar pela Rua Munique, Rudy parou e olhou pela vitrine da loja do pai. Antes de Alex partir, ele e Barbara haviam discutido se a mulher
deveria mant-la em funcionamento durante sua ausncia. Tinham resolvido que no, considerando que os negcios andavam mesmo fracos, ultimamente, e que havia pelo
menos a ameaa parcial de que uns integrantes do partido fizessem sentir sua presena. O comrcio nunca foi bom para os agitadores. O soldo do exrcito teria que
chegar.
        Havia ternos pendurados nas araras e os manequins mantinham suas poses ridculas.
        - Acho que aquele ali gosta de voc - disse Liesel, depois de algum tempo. Era seu jeito de dizer ao amigo que estava na hora de seguirem em frente.
        Na Rua Himmel, Rosa Hubermann e Barbara Steiner estavam paradas na calada, juntas.
        - Ai, minha Nossa Senhora - disse Liesel. - Elas esto com cara de preocupadas?
        - Elas parecem malucas.
        Houve muitas perguntas quando os dois chegaram, principalmente do tipo "Onde diabos vocs se meteram?", mas a raiva logo cedeu lugar ao alvio. Foi Barbara
quem perseguiu as respostas.
        - Bem, Rudy?
        Liesel respondeu por ele.
        - Ele estava matando o Fhrer - disse, e Rudy fez um ar sinceramente feliz, por um instante longo o bastante para agrad-la.
        - Tchau, Liesel.
        Passadas vrias horas, houve um barulho na sala. Estendeu-se at Liesel em sua cama. Ela acordou e permaneceu imvel, pensando em fantasmas, no pai, em intrusos
e em Max. Veio um som de abrir e arrastar, e depois um silncio indistinto. O silncio era sempre a maior tentao.
        No se mexa.
        Ela pensou muitas vezes nessa idia, mas no pensou o suficiente.
        Seus ps repreenderam o cho.
        O ar transpirava pelas mangas de seu pijama.
        Ela atravessou a escurido do corredor, em direo ao silncio que antes fora ruidoso, em direo ao fiapo de luar parado na sala. Deteve-se, sentindo a
nudez dos tornozelos e dos dedos dos ps. Observou.
        Demorou mais do que havia esperado para seus olhos se adaptarem e, quando isso aconteceu, no houve como negar o fato de que Rosa Hubermann estava sentada
na beira da cama, com o acordeo do marido pendurado no peito. Os dedos pousavam nas teclas. Ela no se mexia. Nem sequer parecia respirar.
        A viso precipitou-se para a menina no corredor.
           UMA   IMAGEM   PINTADA  
        Rosa com o acordeo.
        Luar nas trevas.
        1,55m X Instrumento X Silncio.

        Liesel ficou e assistiu quilo.
        Muitos minutos se escoaram. O desejo da roubadora de livros de ouvir uma nota era fatigante, mas o som no veio. As teclas no foram pressionadas. Os foles
no respiraram. Havia apenas o luar, como uma longa mecha de cabelo na cortina, e Rosa.
        O acordeo continuou pendurado pelas alas em seu peito. Quando Rosa curvou a cabea, ele afundou em seu colo. Liesel observou. Sabia que, nos prximos dias,
sua me andaria pela casa com a marca de um acordeo no corpo. Veio tambm o reconhecimento de que havia uma grande beleza no que ela estava testemunhando naquele
instante, e a menina resolveu no o perturbar.
        Voltou para a cama e adormeceu com a viso da me e da msica silenciosa. Mais tarde, ao acordar de seu sonho habitual e se esgueirar de novo pelo corredor,
viu que Rosa continuava l, assim como o acordeo.
        Qual uma ncora, o instrumento a puxava para frente. O corpo dela afundava. Rosa parecia morta.
        Ela no pode estar respirando naquela posio, pensou Liesel, mas, quando chegou mais perto, conseguiu ouvir.
        A me roncava de novo.
        Quem precisa de foles, pensou a menina, quando tem um par de pulmes assim?
        Quando Liesel enfim voltou para a cama, a imagem de Rosa Hubermann com o acordeo recusou-se a deix-la. Os olhos da menina que roubava livros permaneceram
abertos. Ela aguardou a asfixia do sono.
         O COLECIONADOR
        Nem Hans Hubermann nem Alex Steiner foram para a frente de batalha. Alex foi mandado para a ustria, para um hospital do exrcito nos arredores de Viena.
Considerada a sua experincia como alfaiate, deram-lhe uma tarefa que ao menos se assemelhava a sua profisso. Carroas de uniformes, camisas e meias chegavam toda
semana, e ele consertava o que precisasse de conserto, mesmo que aquilo s pudesse ser usado como roupa de baixo pelos soldados que sofriam na Rssia. Hans, ironicamente,
primeiro foi mandado para Stuttgart, depois, para Essen. Foi designado para uma das funes mais indesejveis da frente nacional. A LSE.
         UMA EXPLICAO NECESSRIA 
        LSE
        Luftwaffe Sondereinheit - Unidade Especial da Aviao Militar
        A tarefa da LSE era permanecer no solo durante os ataques areos e apagar incndios, escorar paredes de prdios e resgatar quem ficasse retido em algum lugar
durante os bombardeios. Como Hans no tardou a descobrir, tambm havia uma definio alternativa da sigla. Os homens da unidade lhe explicaram, em seu primeiro dia,
que na verdade ela significava Leichensammler Einheit - Unidade Colecionadora de Cadveres.
        Na chegada, s restou a Hans perguntar-se o que teriam feito aqueles homens para merecer essa tarefa, e eles, por sua vez, perguntaram-se o mesmo a seu respeito.
O lder do grupo, sargento Boris Schipper, foi logo fazendo a indagao. Quando Hans explicou o po, os judeus e o chicote, o sargento de rosto redondo soltou uma
risadinha curta.
        - Voc tem sorte de estar vivo - comentou. Seus olhos tambm eram redondos e ele os esfregava com freqncia. Ou estavam cansados, ou coando, ou cheios
de fumaa e poeira. - s procure se lembrar de que, aqui, o inimigo no est na sua frente.
        Hans estava prestes a fazer a pergunta bvia, quando uma voz chegou de trs. Ligado a ela estava o rosto magro de um rapaz cujo sorriso lembrava um esgar.
Reinhold Zucker.
        - Conosco - disse ele -, o inimigo no est do outro lado da montanha nem em nenhuma direo especfica. Est em toda parte - e voltou a se concentrar na
carta que estava escrevendo. - Voc vai ver.
        No espao catico de poucos meses, Reinhold Zucker estaria morto. Foi morto pelo assento de Hans Hubermann.
         medida que a guerra voou com mais intensidade para a Alemanha, Hans aprendeu que todos os seus turnos de servio comeavam da mesma maneira. Os homens
se reuniam junto ao caminho, para receber instrues sobre o que fora atingido durante seu perodo de folga, qual seria o alvo subseqente mais provvel e quem
estaria trabalhando com quem.
        Mesmo quando no havia bombardeios acontecendo, ainda era enorme a quantidade de trabalho a fazer. Eles percorriam cidades destroadas, fazendo a limpeza.
No caminho iam doze homens recurvados, subindo e descendo, conforme as vrias irregularidades do terreno.
        Desde o comeo, ficou claro que todos tinham um assento.
        O de Reinhold Zucker ficava no meio da fileira da esquerda.
        O de Hans Hubermann ficava bem no fundo, onde a luz do dia se espreguiava. Ele aprendeu depressa a ficar atento a qualquer lixo que pudesse ser lanado
de qualquer lugar no interior do caminho. Nutria um respeito especial pelas pontas de cigarro, ainda acesas quando vinham assobiando.
         UMA CARTA COMPLETA PARA CASA *
        A minhas queridas Rosa e Liesel,
        Est tudo bem por aqui.
        Espero que vocs duas estejam bem.
        Com amor, Papai.
        No fim de novembro, ele teve sua primeira experincia fumacenta de um ataque de verdade. O caminho foi cercado pelos escombros e houve muita correria e
gritaria. Os incndios se propagavam e as caixas destroadas dos prdios empilhavam-se em montanhas. As estruturas se inclinavam. As bombas de fumaa pareciam palitos
de fsforo no cho, enchendo os pulmes da cidade.

        Hans Hubermann estava num grupo de quatro. Eles formaram uma fila. O sardento Boris Schipper foi na frente, com os braos desaparecendo na fumaa. Atrs
dele iam Kessler, depois Brunnenweg, depois Hubermann. Enquanto o sargento esguichava a mangueira no fogo, os outros dois esguichavam gua no sargento e, s para
ter certeza, Hubermann esguichava em todos trs.
        Atrs dele, uma construo gemeu e tropeou.
        Caiu de cara no cho, parando a poucos metros de seus calcanhares. O concreto cheirava a novo e a muralha de poeira avanou em direo a eles.
        -        Gottverdammt, Hubermann! - lutou a voz que saa das chamas. Foi imediatamente seguida por trs homens. Eles tinham a garganta repleta de partculas
de cinza.
        Mesmo quando dobraram a esquina, afastando-se do centro dos destroos, a nvoa do prdio desabado tentou segui-los. Era branca e quente, e rastejava atrs
deles.
        Abaixados, em segurana temporria, ouviram-se entre eles muitas tosses e palavres. O sargento repetiu seus sentimentos anteriores. - Maldito seja, Hubermann!
- e esfregou os lbios para solt-los. - Que diabo foi aquilo?
        -        Ele simplesmente desabou, bem atrs de ns.
        -        Disso eu j sei. A pergunta : de que tamanho era? Devia ter uns dez andares.
        -        No, senhor, s dois, eu acho.
        -        Jesus - acesso de tosse -, Maria e Jos - fez o sargento, dando um puxo na pasta de suor e poeira em suas rbitas. - Voc no podia fazer grande
coisa a esse respeito.
        Um dos outros homens limpou o rosto e disse:
        -        S por uma vez, quero estar presente quando eles atingirem um bar, pelo amor de Deus. Estou morrendo de vontade de tomar uma cerveja.
        Todos se encostaram.
        Cada qual sentiu o gosto da bebida, apagando o incndio na garganta e reduzindo a fumaa. Era um belo sonho, alm de impossvel. Todos estavam Cnscios de
que qualquer cerveja que jorrasse por aquelas ruas no seria cerveja alguma, porm uma espcie de milkshake ou mingau.
        Os quatro homens estavam cobertos pelo conglomerado cinza e branco de poeira. Quando se puseram inteiramente de p, para retomar o trabalho, s se viam pequenas
frestas de seus uniformes.
        O sargento aproximou-se de Brunnenweg. Escovou-lhe o peito com fora. Vrias batidas.
        -        Assim est melhor. Voc tinha uma poeirinha a, meu amigo. Enquanto Brunnenweg ria, o sargento virou-se para seu recruta mais novo.
        -        Desta vez,  voc primeiro, Hubermann.
        Passaram vrias horas apagando incndios e catando tudo que pudessem para convencer os prdios a continuarem de p. Em alguns casos, quando as empenas tinham
sido danificadas, as bordas remanescentes projetavam-se feito cotovelos. Esse era o ponto forte de Hans Hubermann. Ele chegou quase a gostar de encontrar um caibro
fumegante ou uma laje desgrenhada de concreto para escorar esses cotovelos, para lhes dar alguma coisa em que se apoiar.
        Suas mos ficaram cravadas de farpas, e os dentes, empastados de resduos da exploso. Ambos os lbios cobriram-se de poeira mida endurecida, e no havia
um bolso, um fio nem uma dobra oculta de seu uniforme que no estivessem cobertos pela pelcula deixada pelo ar carregado.
        A pior parte do trabalho eram as pessoas.
        De tempos em tempos, surgia algum vagando obstinadamente pela neblina, quase sempre com uma palavra s. Eles sempre gritavam um nome.
        s vezes era Wolfgang.
        - Voc viu o meu Wolfgang?
        A impresso das mos deles ficava gravada na jaqueta de Hans.
        -  Stephanie!
        -  Hansi!
        -  Gustel! Gustel Stoboi!
        Reduzida a densidade, a chamada dos nomes ia claudicando pelas ruas devastadas, ora terminando num abrao cheio de cinzas, ora num grito ajoelhado de dor.
Eles se acumulavam hora aps hora, como sonhos agridoces  espera de acontecer.
        Os perigos fundiam-se num s. Poeira, fumaa e as chamas tempestuosas. As pessoas feridas. Como o resto dos homens da unidade, Hans precisaria aperfeioar
a arte de esquecer.
        - Como vai indo, Hubermann? - perguntou o sargento, a horas tantas. O fogo estava junto de seu ombro.
        Hans balanou a cabea, sem jeito, para a dupla.
        Ali pela metade do turno, havia um velho cambaleando indefeso pelas ruas. Ao terminar de estabilizar uma construo, Hans virou-se e deparou com ele s suas
costas, esperando calmamente sua vez. Havia uma mancha de sangue assinada em seu rosto. Escorria-lhe pela garganta e pelo pescoo. O homem usava uma camisa branca
de colarinho vermelho escuro, e segurava sua perna como se ela estivesse a seu lado.
        - Ser que agora voc pode me escorar, rapaz? Hans o pegou e carregou-o para longe do nevoeiro.
         UMA  NOTINHA  TRISTE   
        Visitei essa minha da cidade, com
        o homem ainda nos braos de Hans Hubermann.
        O cu era de um cinza de cavalo branco.
        S ao deposit-lo num pedao de grama revestida de concreto foi que Hans notou.
        - O que foi? - perguntou um dos outros homens.
        Hans s conseguiu apontar.
        - Ah - e uma mo o afastou. - Trate de se acostumar, Hubermann.
        No resto do turno, ele se atirou ao trabalho. Tentou ignorar os ecos distantes das pessoas que chamavam.
        Passadas umas duas horas, talvez, saiu correndo de um prdio, com o sargento e outros dois homens. No olhou para o cho e tropeou. S quando se reequilibrou
nos quadris e viu os outros olhando para o obstculo, aflitos, foi que se apercebeu.
        O cadver estava de bruos.
        Jazia num cobertor de plvora e poeira e tampava os ouvidos.
        Era um menino.
        De onze ou doze anos, talvez.
        No muito longe, seguindo pela rua, encontraram uma mulher que gritava o nome Rudolf. Os quatro homens a atraram e ela foi a seu encontro nas brumas. Tinha
o corpo frgil e vergado de preocupao.
        - Vocs viram o meu menino?
        - Quantos anos ele tem? - perguntou o sargento.
        - Doze.
        Ah, Cristo. Ai, Cristo crucificado.
        Todos pensaram a mesma coisa, mas o sargento no conseguiu lhe dizer nem lhe apontar o caminho.
        Quando a mulher tentou empurr-los para passar, Boris Schipper a deteve.
        - Acabamos de vir daquela rua - assegurou-lhe. - A senhora no o encontrar l. A mulher recurvada continuou a se agarrar  esperana. Saiu chamando por
cima do ombro, meio andando, meio correndo.
        - Rudy!
        Foi quando Hans Hubermann pensou em outro Rudy. O da Rua Himmel. Por favor, rogou a um cu que no conseguia ver, deixe o Rudy ficar em segurana. Naturalmente,
seus pensamentos progrediram para Liesel e Rosa e os Steiner, e Max.
        Quando o grupo se reuniu com o resto dos homens, ele se deixou cair no cho e deitou de costas.
        - Como foi l? - perguntou algum.
        Os pulmes de papai estavam repletos de cu.
        Horas depois, quando j havia tomado banho, comido e vomitado, Hans tentou escrever uma carta detalhada para casa. Suas mos estavam incontrolveis, obrigando-o
a abrevi-la. Se ele conseguisse, o resto seria dito verbalmente, se e quando ele regressasse para casa.
        Para minhas queridas Rosa e Liesel, comeou.
        Levou muitos minutos para escrever essas seis palavras.

        OS COMEDORES DE PO
        Fora um ano longo e acidentado em Molching, e estava finalmente acabando.
        Liesel passou os ltimos meses de 1942 tomada por idias sobre o que chamava de trs homens desesperados. Perguntava-se onde eles estavam e o que estariam
fazendo.
        Uma tarde tirou o acordeo da caixa e o poliu com um retalho. S uma vez, pouco antes de guard-lo, deu o passo que a me no conseguira dar. Ps o dedo
numa das teclas e abriu suavemente o fole. Rosa tivera razo. S fez aumentar a sensao de vazio na sala.
        Sempre que encontrava Rudy, ela lhe perguntava se tivera alguma notcia do pai. Vez por outra, o amigo lhe descrevia em detalhe uma das cartas de Alex Steiner.
Em comparao, a nica carta enviada por seu prprio pai era meio decepcionante.
        Max,  claro, ficava inteiramente por conta de sua imaginao.
        Era com grande otimismo que ela o imaginava andando sozinho por uma estrada deserta. De quando em quando, imaginava-o caindo num vo de porta seguro, em
algum lugar, com sua carteira de identidade servindo para enganar a pessoa certa.
        Os trs homens apareciam em todo lugar.
        Ela via o pai  janela na escola. Max freqentemente se sentava a seu lado, junto  lareira. Alex Steiner chegava quando ela estava com Rudy, fitando-os
quando eles derrubavam as bicicletas na Rua Munique e olhavam para o interior da loja.
        - Olhe para aqueles ternos - dizia-lhe Rudy, com a cabea e as mos encostadas no vidro. - Todos se estragando.
        Estranhamente, uma das distraes favoritas de Liesel era Frau Holtzapfel. Agora as sesses de leitura tambm incluam as quartas-feiras, e elas haviam acabado
a verso de O Assobiador abreviada pela gua, e estavam atacando O Carregador de Sonhos. s vezes a velhota fazia ch, ou dava a Liesel uma sopa infinitamente melhor
que a de sua me. Menos aguada.
        Entre outubro e dezembro, houve mais um desfile de judeus, e outro a seguir. Como na ocasio anterior, Liesel correu para a Rua Munique, dessa vez para ver
se Max Vandenburg estava entre eles. Sentia-se dilacerada entre a nsia bvia de v-lo - de saber que ele ainda estava vivo - e uma ausncia que poderia significar
um sem-nmero de coisas, dentre elas a liberdade.
        Em meados de dezembro, um pequeno grupo de judeus e outros malfeitores foi novamente tangido pela Rua Munique, em direo a Dachau. Desfile nmero trs.
        Rudy desceu com deliberao a Rua Himmel e voltou do nmero trinta e cinco com um saquinho e duas bicicletas.
        - Est a fim, Saumensch?
         O CONTEDO DO SAQUINHO DE RUDY 
        Seis pedaos de po dormido, divididos em quatro partes.
        Os dois pedalaram  frente do desfile, rumo a Dachau, e pararam num trecho deserto da estrada. Rudy passou o saquinho a Liesel.
        -        Tire um punhado.
        -        No tenho certeza de que isso  uma boa idia. Ele lhe enfiou um punhado de po na palma da mo.
        -        O seu pai tinha.
        Como poderia ela discutir? Valia uma boa surra de chicote.
        -        Se formos rpidos, eles no nos pegam - garantiu Rudy, e comeou a distribuir o po. - Portanto, ande logo, Saumensch.
        Liesel no pde impedir-se. Havia a sombra de um sorriso em seu rosto enquanto ela e Rudy Steiner, seu melhor amigo, distribuam os pedaos de po pela estrada.
Quando terminaram, pegaram as bicicletas e se esconderam entre as rvores de Natal.
        A estrada era fria e reta. No demorou para que chegassem os soldados com os judeus.
        A sombra das rvores, Liesel observou o menino. Como as coisas haviam mudado, de ladro de frutas a doador de po! O cabelo louro de Rudy, embora mais escuro,
parecia uma vela. Ela ouviu o estmago do amigo roncar - e ele estava dando po s pessoas.
         Seria isso a Alemanha?
        Seria essa a Alemanha nazista?
        O primeiro soldado no viu o po - no estava com fome -, mas o primeiro judeu o viu.
        Sua mo esfarrapada estendeu-se, pegou um pedao e o enfiou delirantemente na boca.
        Seria Max?, pensou Liesel.
        No conseguia enxergar direito e se aproximou para ter uma viso melhor.
        -        Ei! - exclamou Rudy, lvido. - No se mexa. Se nos acharem aqui e nos ligarem ao po, estamos ferrados.
        Liesel continuou.
        Mais judeus se abaixavam e iam pegando o po da rua e, da orla das rvores, a menina que roubava livros examinava cada um deles. Max Vandenburg no estava
l.
        O alvio durou pouco.
        Agitou-se em torno dela, quando um dos soldados notou um prisioneiro baixando a mo para o cho. Todos receberam ordem de parar. A estrada foi criteriosamente
examinada. Os prisioneiros mastigavam com a mxima rapidez e silncio que podiam. Coletivamente, engoliram.
        O soldado pegou alguns pedaos e estudou os dois lados da estrada. Os prisioneiros lambem olharam.
        -        Ali!
        Um dos soldados foi andando em direo  menina, junto s rvores mais prximas. Em seguida, viu o menino. Os dois comearam a correr.
        -        No pare de correr, Liesel!
        -        E as bicicletas?
        -        Scheiss drauf! Pr merda com elas, quem  que se incomoda?
        Os dois correram e, aps uns cem metros, a respirao encurvada do soldado chegou mais perto. Esgueirou-se para o lado dela, que esperou pela mo concomitante.
Teve sorte. 'Tudo que recebeu foi um pontap no traseiro e um punhado de palavras.
        -        Continue correndo, garotinha, seu lugar no  aqui!
        Liesel correu sem parar por pelo menos mais um quilmetro e meio. Os galhos lanharam seus braos, as pinhas rolaram a seus ps e o gosto das carumas natalinas
tilintou em seus pulmes.
        Uns bons quarenta e cinco minutos tinham passado quando ela voltou e encontrou Rudy, sentado junto s bicicletas enferrujadas. Ele havia recolhido o que
sobrara do po e mastigava um pedao dormido e duro.
        -        Eu disse para voc no chegar to perto. Liesel mostrou-lhe o traseiro.
        -        Estou com uma marca de p?

        O CADERNO DE DESENHO ESCONDIDO
        Dias antes do Natal, houve outro bombardeio, embora nada tenha cado na cidade de Molching. Segundo o noticirio do rdio, quase todas as bombas caram em
campo aberto.
        O mais importante foi a reao no abrigo dos Fiedler. Depois que chegaram os ltimos clientes, todos se acomodaram solenemente e aguardaram. Olharam para
ela, expectantes.
        A voz do pai chegou, soando alto em seus ouvidos.
        -        E, se houver mais ataques, continue a ler no abrigo.
        Liesel aguardou. Precisava ter certeza de que era o que eles queriam. Rudy falou por todos:
        -        Leia, Saumensch:
        Ela abriu o livro e, mais uma vez, as palavras abriram caminho para todos os presentes no abrigo.
        Em casa, depois que as sirenes deram permisso para todos retornarem ao nvel do cho, Liesel sentou-se na cozinha com a me. Uma preocupao se estampava
na expresso de Rosa Hubermann, e no demorou muito para ela pegar uma faca e sair do cmodo.
        -        Venha comigo.
        Foi at a sala e tirou o lenol da beirada do colcho. Na lateral havia uma abertura costurada. Se voc no soubesse de antemo que estava ali, seria quase
impossvel encontr-la. Rosa a abriu com cuidado e introduziu a mo, enfiando-a por toda a extenso do brao. Quando a retirou, ela segurava o caderno de desenho
de Max Vandenburg.
         -        Ele disse para lhe dar isso quando voc estivesse pronta - informou. - Andei pensando no seu aniversrio. Depois, antecipei para o Natal.
        Rosa Hubermann levantou-se, e estampava no rosto uma expresso estranha. No era de orgulho. Talvez fosse a densidade, o peso da lembrana.
        -        Acho que voc sempre esteve pronta, Liesel. Desde o momento em que chegou aqui, agarrada quele porto, voc estava fadada a ter isto.
        Rosa entregou-lhe o livro. A capa era assim:
         A SACUDIDORA DE PALAVRAS 
        Pequena coletnea de pensamentos para Liesel Meminger
        Liesel segurou-o com leveza nas mos. Olhou fixamente.
        -        Obrigada, mame.
        Abraou-a.
        Houve tambm um grande anseio de dizer a Rosa Hubermann que ela a amava. Foi uma pena no o ter dito.
        Liesel queria ler o livro no poro, para rememorar os velhos tempos, mas a me a convenceu do contrrio.
        -        Houve uma razo para o Max adoecer l embaixo - declarou -, e uma coisa eu lhe digo, menina, no vou deix-la ficar doente.
        Liesel leu na cozinha.
        Lacunas vermelhas e amarelas no fogo.
        A Sacudidora de Palavras.
        Ela percorreu os inmeros esboos e histrias, assim como os desenhos legendados. Coisas como Rudy num pdio, com trs medalhas de ouro penduradas no pescoo.
Embaixo dizia: Cabelos da cor de limes. O boneco de neve apareceu, assim como uma lista dos treze presentes, para no falar dos registros de incontveis noites
no poro ou junto  lareira.
         claro que havia muitas idias, desenhos e sonhos relacionados com Stuttgart, a Alemanha e o Fhrer. Recordaes da famlia de Max tambm estavam presentes.
No fim, ele no pudera resistir a inclu-las. Tivera que faz-lo.
        E ento veio a pgina 117.
        Foi nela que apareceu a prpria Sacudidora de Palavras.
        Era uma fbula, ou um conto de fadas. Liesel no sabia ao certo. Mesmo dias depois, quando consultou os dois termos no Dicionrio Duden, no conseguiu distingui-los.
         Na pgina anterior, havia uma notinha.
        PGINA 116 
        Liesel: Quase risquei esta histria.
        Achei que talvez voc j estivesse crescida demais para
        esse tipo de conto, mas pode ser que ningum esteja.
        Pensei em voc, nos seus livros e palavras,
        e esta histria estranha me veio  cabea.
        Espero que voc encontre alguma coisa boa nela.
        Liesel virou a pgina.

        ERA UMA VEZ um homenzinho estranho, que decidiu trs detalhes importantes sobre sua vida:
        1.        Ele repartiria o cabelo do lado contrrio ao de todas as outras pessoas.
        2.        Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito
        3.        Um dia, ele dominaria o mundo.
        O homenzinho perambulou por muito tempo, pensando, fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria seu o mundo. E ento, um dia, sado do
nada, ocorreu-lhe o plano perfeito Ele viu uma me passeando com o filho a horas tantas, ela repreendeu o garotinho, at  que ele acabou comeando a chorar Em poucos
minutos, ela lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e at sorriu.
        O homenzinho correu at a mulher e a abraou. "Palavras!" e sorriu.
        "0 qu?"
        Mas no houve resposta. Ele j se fora.


        Sim, o Fhrer decidiu que dominaria o mundo com palavras. "Jamais dispararei uma arma, concebeu. "No precisarei faz-lo! Mesmo assim, no se precipitou.
Reconheamos nele ao menos isso. Ele no tinha nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar as palavras em tantas reas de sua terra natal quantas fosse
possvel. Plantou-as dia e noite, e as cultivou.
        Observou-as crescer; at que grandes florestas de palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha.- Era uma nao de pensamentos cultivados.
        ENQUANTO as palavras cresciam, nosso jovem fhrer plantou ainda sementes para criar smbolos, e tambm estas se achavam bem perto do pleno desabrochar Era
chegada a hora. O Fhrer estava pronto.
        Convidou seu povo a se aproximar de seu glorioso corao, acenando-lhe com suas palavras melhores e mais feias, colhidas a mo em suas florestas. E as pessoas
vieram.






        A princpio, no aconteceu nada, porm, uma tarde, ao verificar a semente, depois de um dia inteiro sacudindo palavras, a Menina viu que despontara um pequeno
broto fitou-o por muito tempo
        O broto foi crescendo dia a dia, mais depressa do que todos os demais, at se transformar na arvore mais alta da floresta. Todos foram v-la. Todos murmuraram
sobre ela e esperaram pelo Fhrer.
         Inflamado, ele deu ordens imediatas de que a rvore fosse derrubada. Foi nessa hora que a sacudidora de palavras abriu caminho pela multido. Prostrou-se
sobre os joelhos e as mos
        - Por favor - exclamou -, o senhor no pode derrub-la. Mas o Fhrer No se comoveu. No podia dar-se ao luxo de abrir excees. Enquanto a sacudidora de
palavras era arrastada para longe, ele se voltou para o homem que era seu brao-direito e fez um pedido: - O machado, por favor.


        NESTE MOMENTO, a sacudidora de palavras debateu-se at se libertar. Saiu correndo. Acercou-se da rvore e, enquanto o Fhrer golpeava o tronco com seu machado,
trepou at chegar aos galhos mais altos. As vozes e as batidas do machado prosseguiram, abafadas. As nuvens foram passando - como monstros brancos de corao cinzento.
Amedrontada, mas teimosa, a sacudidora de palavras continuou l em cima. Esperou a rvore tombar
        Mas a rvore no se mexeu.
        Passaram-se muitas horas, porm, apesar disso, o machado do Fhrer no conseguiu tirar uma nica lasca do tronco. Num estado prximo do colapso, ele ordenou
que outro homem continuasse
        Passaram-se dias.
        As semanas se sucederam.
        Nem cento e noventa e seis soldados conseguiram causar o menor impacto na rvore da sacudidora de palavras.



        -        Mas, como  que ela faz para comer?
        -        perguntavam as pessoas. - Como  que dorme?
        O que elas no sabiam era que outros sacudidores de palavras jogavam mantimentos, e que a menina descia at os galhos mais baixos para recolh-los
        NEVOU. Choveu. Vieram e se foram estaes. A sacudidora de palavras permaneceu. Quando o ltimo machadeiro desistiu, gritou para ela:
        -        Sacudidora de palavras! Voc pode descer agora! No h ningum capaz de derrotar essa arvore!
        A sacudidora de palavras, que mal conseguia discernir as frases do homem, respondeu com um sussurro, entregando-o por entre os ramos
        -        No, obrigada - disse, pois sabia que s ela  que mantinha a rvore de p
        Ningum era capaz de dizer quanto tempo levou, mas, uma tarde, entrou na cidade um novo machadeiro Sua sacola parecia pesada demais para ele Seus olhos se
arrastavam. Seus ps pendiam de exausto
        -        A rvore - perguntou ele ao povo - onde fica a rvore?
        Uma  platia o seguiu e, quando ele chegou, as nuvens tinham encoberto as regies mais altas dos galhos. A sacudidora de palavras ouviu as pessoas gritarem
que chegara um novo machadeiro, para por fim a sua viglia.
        - Ela no descer para ningum - diziam as pessoas. No sabiam quem era o machadeiro, e No sabiam que ele no desanimava.
        O rapaz abriu a sacola e tirou uma coisa multo menor que um machado.


        As pessoas riram, dizendo:
        -        Voc no pode derrubar uma arvore com um martelo velho!
        O rapaz no lhes deu ouvidos. Apenas vasculhou sua sacola,  procura de pregos. Ps trs deles na boca e tentou martelar o quarto na rvore. Nessa poca,
os primeiros galhos j eram extremamente altos, e ele calculou que precisaria de quatro pregos, a fim de us-los como apoios para os ps e chegar at l
        -        Olhem para esse idiota - rugiu um dos espectadores - Ningum mais conseguiu derrub-la com um machado, e esse bobalho acha que conseguir com...
        O homem calou-se

        O PRIMEIRO prego entrou na rvore e foi fixado com firmeza, aps cinco marteladas, Depois entrou o segundo, e o rapaz comeou a subir No quarto prego, aproximava-se
da copa e continuou a subida. Sentiu-se tentado a chamar enquanto o fazia, mas resolveu que no.
        A subida pareceu durar quilmetros. Ele levou muitas horas para atingir os ltimos galhos e, ao faz-lo, encontrou a sacudidora de rvores adormecida em
suas cobertas e nas nuvens.
        Observou-a durante vrios minutos
        O calor do sol aquecia o teto alto de nuvens
        O rapaz estendeu a mo, tocou no brao da sacudidora de rvores, e a menina acordou.
        Ela esfregou os olhos e, depois de um longo estudo do rosto do rapaz, perguntou:
        -         voc mesmo?

        - Ser que foi do seu rosto, pensou, que tirei a semente?
        O homem acenou que sim. Seu corao oscilou e ele se agarrou com mais fora aos ramos
        -        Sou.
        JUNTOS, os dois ficaram no topo da rvore Esperaram as nuvens desaparecer e, quando elas se foram, puderam ver o restante da floresta.



        -        Ela no queria parar de crescer - explicou a menina.
        -        Nem esta aqui tambm - disse o rapaz e olhou para o galho que segurava sua mo Estava certo.
        Depois de olharem e conversarem bastante os dois desceram, deixaram para trs os cobertores e as sobras de comida.
        As pessoas mal podiam acreditar no que viam e, no instante em que a sacudidora de palavras e o rapaz puseram os ps no mundo, a rvore finalmente comeou
a exibir as marcas das machadadas. Surgiram machucados. Abriram-se fendas no tronco e a terra comeou a tremer
        - Ela vai cair! - gritou uma moa. - A rvore vai cair! Tinha razo. A rvore da sacudidora de palavras, com todos os seus quilmetros e quilmetros de altura,
comeou lentamente a se inclinar Soltou um gemido e foi sugada pelo cho. O mundo sacudiu e, quando enfim tudo se acalmou, a rvore ficou estendida em meio ao restante
da floresta. Jamais conseguiria destruir toda ela, porm, que mais no fosse, uma trilha de cor diferente foi escavada em seu meio A sacudidora de palavra e o rapaz
subiram no tronco horizontal. Abriram caminho por entre os galhos e comearam a andar. Ao olharem para trs, notaram que a maioria dos espectadores tinha comeado
a voltar para seus lugares L dentro. L fora. Na floresta
        Mas, ao seguirem andando, eles pararam vrias vezes para escutar. Julgaram ouvir vozes e palavras s suas costas, na rvore da sacudidora de palavras.

        Durante muito tempo, Liesel sentou-se  mesa da cozinha e imaginou onde estaria Max Vandenburg, em toda aquela floresta l fora. A luz deitou-se  sua volta.
A menina adormeceu. A me a obrigou a ir para a cama e ela o fez, com o caderno de desenhos de Max apertado junto ao peito.
        Horas depois, quando acordou, foi que lhe veio a resposta a sua pergunta. -  claro - murmurou Liesel. - E claro que eu sei onde ele est - e tornou a dormir.
        Sonhou com a rvore.

A COLEO DE TERNOS DO ANARQUISTA
         RUA HIMMEL, 35 
        24 DE DEZEMBRO
        Com a ausncia dos dois pais, os Steiner
        convidaram Rosa e Trudy Hubermann, e Liesel
        Quando elas chegaram, Rudy ainda
        estava no processo de explicar sua roupa.
        Olhou para Liesel e sua boca se abriu,
        mas s um pouquinho.
        Os dias que antecederam o Natal de 1942 foram densos e pesados de neve. Liesel leu muitas vezes A Sacudidora de Palavras, desde a histria em si at os muitos
desenhos e comentrios dos dois lados. Na noite de Natal, tomou uma deciso a respeito de Rudy. Que se danasse o ficar na rua at tarde.
        Foi  casa ao lado, pouco antes do anoitecer, e lhe disse que tinha um presente para ele, pelo Natal.
        Rudy olhou para as mos e os lados dos ps da menina.
        -        Bom, e onde  que ele est?
        -        Nesse caso, esquea.
        Mas Rudy sabia. J a vira assim antes. Olhos arriscados e dedos pegajosos. O bafio de roubo a cercava por todos os lados, dava at para cheir-lo.
        -        Esse presente - avaliou Rudy -, voc ainda no o tem, no ?
        -        No.
         -        E tambm no vai compr-lo.
        -        E claro que no. Est pensando que eu tenho dinheiro?
        A neve ainda caa. O gelo nas bordas da grama parecia vidro quebrado.
        -        Voc tem a chave? - perguntou Liesel.
        -        Chave de qu?
        Mas Rudy no demorou a entender. Entrou em casa e voltou pouco depois. Nas palavras de Viktor Chemmel, disse:
        -        E hora de ir s compras.
        A luz desaparecia depressa e, a no ser pela igreja, toda a Rua Munique tinha fechado para o Natal. Liesel andou depressa, para acompanhar os passos mais
desengonados do vizinho. Chegaram  vitrine pretendida: STEINER - SCHNEIDERMEISTER. O vidro vestia uma fina pelcula de lama e sujeira, borrifadas nele ao longo
das semanas. Do lado oposto, os manequins postavam-se como testemunhas, srios e ridiculamente elegantes. Era difcil descartar a sensao de que observavam tudo.
        Rudy enfiou a mo no bolso.
        Era vspera de Natal.
        Seu pai estava perto de Viena.
        Achou que ele no se importaria se os dois invadissem sua querida loja. As circunstncias o exigiam.
        A porta abriu-se com facilidade e eles entraram. O primeiro instinto de Rudy foi acionar o interruptor, mas a luz j tinha sido cortada.
        -        Alguma vela?
        Rudy desolou-se.
        -        Eu trouxe a chave. Alm disso, a idia foi sua.
        Em meio ao dilogo, Liesel tropeou num ressalto do piso. Um manequim acompanhou-a na queda. Roou-lhe o brao e se desmantelou de roupa e tudo em cima dela.
        -        Tire esse troo de cima de mim!
        O manequim quebrou-se em quatro pedaos. O tronco com a cabea, as pernas e dois braos separados. Quando se livrou dele, Liesel levantou-se e sibilou:
        -        Jesus, Maria.
        Rudy achou um dos braos e lhe deu um tapinha no ombro com a mo. Quando a menina se virou, assustada, estendeu-a em sinal de amizade.
        -        Prazer em conhec-la.
        Durante alguns minutos, os dois se moveram devagar pelos corredores estreitos da loja. Rudy comeou a se dirigir ao balco. Ao cair por cima de uma caixa
vazia, gritou e xingou, depois reencontrou o caminho da entrada.
        -        Isto  ridculo - disse. - Espere aqui um minuto.
        Liesel sentou-se, com o brao do manequim na mo, at ele voltar com uma lamparina acesa da igreja.
        Um anel de luz circundava-lhe o rosto.
        -        E a, cad esse presente de que voc anda se gabando?  melhor no ser um desses manequins esquisitos.
        -        Traga a luz aqui.
        Quando ele chegou  extrema esquerda da loja, Liesel segurou a lanterna com uma das mos e, com a outra, tateou os ternos pendurados. Tirou um deles, mas
rapidamente o substituiu por outro.
        -        No, ainda  grande demais.
        Depois de mais duas tentativas, segurou um terno azul-marinho diante de Rudy Steiner.
        -        Este  mais ou menos do seu tamanho?
        Enquanto Liesel se sentava no escuro, Rudy experimentou o terno, atrs de uma das cortinas. Havia uma rodinha de luz e uma sombra que se vestia.
        Ao voltar, Rudy estendeu a lamparina a Liesel para que ela o visse. Livre da cortina, a luz parecia uma pilastra, brilhando sobre o terno refinado. Tambm
iluminava a camisa suja por baixo e os sapatos surrados do menino.
        -        E ento? - perguntou Rudy.
        Liesel continuou o exame. Andou em volta dele e encolheu os ombros.
        -        Nada mau.
        -        Nada mau! Minha aparncia  melhor do que s "nada mau".
        -        Os sapatos estragam voc. E a sua cara.
        Rudy ps a lamparina no balco e partiu para cima dela, fingindo-se furioso, e Liesel teve de admitir que comeou a ser tomada por um certo nervosismo. Foi
com alvio e decepo que o viu tropear e cair no manequim desonrado.
        No cho, Rudy caiu na gargalhada.
        Depois, fechou os olhos, apertando-os com fora.
        Liesel precipitou-se para ele. Agachou-se a seu lado. Beije-o, Liesel, beije-o.
        -        Voc est bem, Rudy? Rudy?
        -        Sinto saudade dele - disse o menino, de lado, olhando para o cho.
        -        Frohe Weihnachten - respondeu Liesel. Ajudou-o a se levantar, endireitando o terno. - Feliz Natal.

     PARTE NOVE
        O ULTIMO FORASTEIRO HUMANO
        APRESENTANDO:
        a tentao seguinte
        um jogador de cartas
        as neves de stalingrado
        um irmo sem idade
        um acidente
        o gosto amargo das perguntas
        uma caixa de ferramentas,
        um homem ensangentado, um urso
        um avio partido
        e um regresso ao lar

        A TENTAO SEGUINTE
        Dessa vez, foram biscoitos.
        Mas estavam dormidos.
        Eram Kipferl que haviam sobrado do Natal, e tinham ficado na escrivaninha pelo menos por duas semanas. Como ferraduras em miniatura, com uma camada de cobertura
de acar, os do fundo estavam grudados no prato. Os demais empilhavam-se por cima, formando um monte quase puxa-puxa. O aroma foi logo chegando  menina quando
seus dedos comprimiram o parapeito da janela. A sala tinha gosto de acar e massa, e de milhares de pginas.
        No havia bilhete, mas Liesel no demorou a perceber que Usa Hermann havia entrado em ao de novo, Ilsa com certeza no estava disposta a correr o risco
de que os biscoitos no fossem para ela. Voltou  janela e passou um sussurro pela abertura. O nome do sussurro era Rudy.
        Tinham ido a p, nesse dia, porque a estrada estava escorregadia demais para as bicicletas. O menino ficara embaixo da janela, montando guarda. Quando ela
o chamou, seu rosto apareceu, e Liesel o presenteou com o prato. No foi preciso muito convencimento para que Rudy o pegasse.
        Seus olhos banquetearam-se com os biscoitos e ele fez algumas perguntas.
        -        Mais alguma coisa? Algum leite?
        -        O qu?
        -        Leite - repetiu ele, um pouco mais alto, dessa vez. Se havia reconhecido o tom ofendido na voa: de Liesel, com certeza no o demonstrou,

        O rosto da menina que roubava livros tornou a aparecer acima dele.
        -        Voc  burro? Ser que eu posso roubar o livro?
        -        E claro. Eu s estava dizendo...
        Liesel foi at a estante do fundo, atrs da escrivaninha. Encontrou papel e caneta na gaveta de cima e escreveu Obrigada, deixando o bilhete no tampo.
        A sua direita, um livro se projetava feito um osso. Sua palidez trazia quase a cicatriz das letras escuras do ttulo. Die Letzte Menschliche Fremde - O Ultimo
Forasteiro Humano. O livro sussurrou baixinho quando ela o retirou da prateleira. Uma chuvinha de poeira espalhou-se.
        Na janela, quando a menina estava prestes a sair, a porta da biblioteca se abriu com um rangido.
        O joelho de Liesel estava levantado e sua mo de roubar livros pousava sobre o caixilho. Ao virar de frente para o rudo, ela deparou com a mulher do prefeito,
num roupo de banho novinho em folha e de chinelos. No bolso do roupo, na altura do seio, havia uma sustica bordada. A propaganda chegava at mesmo ao banheiro.
        As duas se observaram.
        Liesel olhou para o seio de Ilsa Hermann e levantou o brao.
        -        Heil Hitler.
        J ia saindo, quando se deu conta de uma coisa.
        Os biscoitos.
        Fazia semanas que tinham estado l.
        Isso significava que, se o prprio prefeito usava a biblioteca, devia t-los visto. Devia ter perguntado por que estavam ali. Ou ento - e, assim que Liesel
intuiu essa idia, ela a encheu de um estranho otimismo --, talvez a biblioteca no fosse mesmo do prefeito; era dela. De Usa Hermann.
        Ela no sabia por que isso era to importante, mas gostou do fato de o cmodo cheio de livros pertencer  mulher. Fora ela quem a apresentara  biblioteca,
para comeo de conversa, e quem lhe dera a janela de oportunidade inicial, inclusive literal. Era melhor assim. Tudo parecia encaixar-se.
        Quando ia comeando a se mexer outra vez, Liesel estancou e disse:
        -        Este cmodo  seu, no ?
        A mulher do prefeito enrijeceu-se.
        -        Eu costumava ler aqui com meu filho. Mas depois...
        A mo de Liesel apalpou o ar s suas costas. Ela viu uma me lendo no cho com um garotinho, apontando para as figuras e as palavras. Depois, viu uma guerra
na janela. - Eu sei. Veio uma exclamao do lado de fora.
        -        O que voc disse?
        Liesel falou num sussurro rspido, para trs.
        -        Fique quieto, Saukerl, e vigie a rua.
        A Ilsa Hermann, entregou lentamente as palavras.
        -        Ento, todos esses livros..,
         -        So quase todos meus. Alguns so de meu marido, alguns eram do meu filho, como voc sabe.
        Houve ento um constrangimento em Liesel. Suas bochechas ficaram em chamas.
        -        Sempre achei que essa sala era do prefeito.
        -        Por qu? - fez a mulher, com um ar que parecia divertido.
        Liesel notou que tambm havia susticas nos dedes dos ps dos chinelos.
        -        Ele  o prefeito. Achei que tinha lido muito.
        A mulher do prefeito ps as mos nos bolsos laterais.
        -        Ultimamente,  voc quem mais utiliza este cmodo.
        -        A senhora leu este? - perguntou a menina, levantando O Ultimo Forasteiro Humano.
        Ilsa olhou mais de perto para o ttulo.
        -        Li, sim.
        -         bom?
        -        No  mau.
        Veio uma nsia de ir embora nesse momento, mas tambm uma obrigao peculiar de ficar. Liesel preparou-se para falar, mas as palavras disponveis eram muito
numerosas e rpidas demais. Houve vrias tentativas de agarr-las, mas foi a mulher do prefeito quem tomou a iniciativa.
        Ela viu o rosto de Rudy na janela, ou, mais exatamente, seu cabelo de luz de vela.
        -        Acho melhor voc ir - disse. - Ele a est esperando.
        A caminho de casa, os dois comeram.
        -        Voc tem certeza de que no havia mais nada? - perguntou Rudy. - Devia haver.
        -        Tivemos sorte de arranjar os biscoitos - e Liesel examinou o presente no colo do amigo. - Agora, diga a verdade. Voc comeu algum antes de eu sair?
        Rudy ficou indignado.
        -        Ei, a ladra aqui  voc, no eu.
        -        No tente me enrolar, Saukerl, eu vi o acar do lado da sua boca.
        Paranico, Rudy segurou o prato com apenas uma das mos e limpou a boca
        com a outra.
        -        No comi nenhum, juro.
        Metade dos biscoitos havia acabado antes de eles chegarem  ponte, e o resto os dois dividiram com Tommy Mller na Rua Himmel.
        Quando terminaram de comer, restou apenas uma considerao, e Rudy a verbalizou:
        -        Que  que a gente vai fazer com o prato?

        O JOGADOR DE CARTAS
        M ais ou menos na hora em que Liesel e Rudy comiam os biscoitos, os homens da LSE jogavam cartas em sua folga, numa cidadezinha no muito distante de Essen.
Tinham acabado de fazer uma longa viagem, voltando de Stuttgart, e estavam apostando cigarros. Reinhold Zucker no era um homem feliz.
        - Ele est trapaceando, eu juro - resmungou. O grupo se encontrava num galpo que lhe servia de quartel, e Hans Hubermann acabara de vencer a terceira rodada
consecutiva. Zucker jogou as cartas na mesa, enojado, e penteou o cabelo engordurado com um trio de unhas sujas.
         ALGUNS DADOS SOBRE  REINHOLD ZUCKER
        Ele tinha vinte e quatro anos.
        Quando vencia uma partida de carteado,
        ria da desgraa alheia - segurava os cilindros finos
        de tabaco junto ao nariz e inspirava.
        "O cheiro da vitria", dizia. Ah, e mais uma coisa.
        Ele morreria de boca aberta.
          
        Ao contrrio do rapaz  sua esquerda, Hans Hubermann no tripudiou ao vencer. Foi at generoso o bastante para devolver a cada colega um de seus cigarros
e acend-lo para ele. Todos aceitaram a oferta, menos Reinhold Zucker. Pegou o oferecimento e o jogou de volta no meio da caixa emborcada.
        - No preciso da sua caridade, velhote. Levantou-se e saiu.
        - Qual  o problema dele? - indagou o sargento, mas ningum se importou em responder. Reinhold Zucker era s um garoto de vinte e quatro anos que no saberia
jogar cartas nem que fosse para salvar a vida.
        Se no houvesse perdido seus cigarros para Hans Hubermann, no o teria desprezado. Se no o houvesse desprezado, talvez no tivesse tomado o seu lugar, semanas
depois, numa estrada bastante incua.
        Um assento, dois homens, uma discusso rpida e eu.
        s vezes me arrasa o jeito como as pessoas morrem.

        As neves  de   Stalingrado
        Em meados de janeiro de 1943, o corredor da Rua Himmel estava escuro e miservel como de praxe. Liesel fechou o porto, caminhou at a porta de Frau Holtzapfel
e bateu. Ficou surpresa com quem veio atender.
        Sua primeira idia foi que o homem devia ser um dos filhos dela, mas no se parecia com nenhum dos dois irmos das fotos emolduradas junto  porta. Parecia
velho demais, embora fosse difcil saber. Tinha o rosto pontilhado de fios de barba e, nos olhos, um ar dolorido e gritante. Uma mo enfaixada pendia da manga de
seu casaco, e havia cerejas de sangue filtrando-se pelas ataduras.
        - Talvez voc deva voltar depois.
        Liesel tentou olhar por trs dele. Estava quase chamando Frau Holtzapfel, mas o homem a barrou.
        - Menina - disse. - Volte mais tarde. Eu vou cham-la. De onde voc ?
        Mais de trs horas depois, a batida chegou ao nmero 33 da Rua Himmel e o homem parou diante dela. As cerejas de sangue haviam-se transformado em ameixas.
        - Agora ela est pronta para voc.
        Do lado de fora, na luz cinzenta e vaga, Liesel no conseguiu deixar de perguntar ao homem o que acontecera com sua mo. Ele soprou o ar pelas narinas -
uma nica slaba - antes de responder.
        -        Stalingrado.
        -        Perdo? - fez Liesel. Ele tinha olhado para o vento ao falar. - No consegui ouvir. O homem tornou a responder, s que mais alto, e, dessa vez,
deu uma resposta completa  pergunta.
        -        O que aconteceu com minha mo foi Stalingrado. Levei um tiro nas costelas e trs de meus dedos foram arrancados. Isso responde  sua pergunta? -
e ps a mo no machucada no bolso, estremecendo de desdm pelo vento alemo. - Voc acha que est frio aqui?
        Liesel tocou a parede a seu lado. No pde mentir.
        -        Sim,  claro. O homem riu.
        -        Isto no  frio.
        Puxou um cigarro e o ps na boca. Com uma s mo, tentou acender um fsforo. Naquele tempo desolador, j seria difcil com as duas, porm com uma s era
impossvel. Ele deixou a caixa de fsforos cair e soltou um palavro.
        Liesel apanhou-a.
        Pegou o cigarro e o ps na boca. Tambm ela no conseguiu acend-lo.
        -        Voc tem que sugar - explicou o homem. - Com este tempo, s acende se voc sugar. Verstehst?
        Ela fez outra tentativa, procurando lembrar como o pai fazia. Dessa vez, sua boca encheu-se de fumaa. Que trepou em seus dentes e lhe arranhou a garganta,
mas ela se impediu de tossir.
        -        Muito bem - fez ele. Ao pegar o cigarro e trag-lo, estendeu sua mo no ferida, a esquerda. - Michael Holtzapfel.
        -        Liesel Meminger.
        -        Voc vai ler para a minha me?
        Nesse ponto, Rosa aproximou-se por trs e Liesel sentiu o susto s suas costas.
        -        Michael? - perguntou Rosa. -  voc?
        Michael Holtzapfel acenou que sim com a cabea.
        -        Guten Tag, Frau Hubermann. H quanto tempo!
        -        Voc parece to...
        -        Velho?
        Rosa ainda estava em choque, mas se recomps.
        -        No quer entrar? Estou vendo que voc j conheceu minha filha de criao... - e sua voz foi sumindo,  medida que ela notou a mo ensangentada.
        -        Meu irmo morreu - disse Michael Holtzapfel, e no poderia ter desferido um murro mais certeiro com seu nico punho utilizvel. Ele fez Rosa cambalear.
A guerra significava morrer, sem dvida, mas o cho sempre balanava sob os ps da pessoa, quando se tratava de algum que um dia vivera e respirara em estreita
proximidade. Rosa tinha visto os dois meninos Holtzapfel crescerem.
        De algum modo, o rapaz envelhecido encontrou uma forma de expor o que acontecera sem perder o sangue-frio.
         -        Eu estava num dos prdios que usvamos como hospital quando o trouxeram. Foi uma semana antes do dia em que era para eu vir para casa. Passei trs
dias daquela semana sentado ao lado dele, antes de ele morrer...
        -        Sinto muito - disse Rosa. As palavras no pareceram sair de sua boca. Era uma outra pessoa que se postava atrs de Liesel Meminger nessa tarde,
mas ela no se atreveu a olhar.
        -        Por favor - deteve-a Michael. - No diga mais nada. Posso levar a menina para ler? Duvido que minha me escute, mas ela disse para a menina ir.
        -        Sim, leve-a.
        Estavam a meio caminho quando Michael Holtzapfel lembrou-se de alguma coisa e se virou.
        -        Rosa? - e houve um momento de espera, enquanto a me tornava a escancarar a porta. - Eu soube que seu filho estava l. Na Rssia. Encontrei uma
outra pessoa de Molching e ela me disse. Mas tenho certeza de que voc j sabia.
        Rosa tentou impedir a sada do rapaz. Correu para o lado de fora e o segurou pela manga.
        -        No. Ele saiu daqui um dia e nunca mais voltou. Tentamos encontr-lo, mas a aconteceu tanta coisa, houve...
        Michael Holtzapfel estava decidido a escapar. A ltima coisa que queria era ouvir mais uma histria soluante. Puxando o brao, disse:
        -        Ao que eu saiba, ele est vivo.
        Juntou-se a Liesel no porto, mas a menina no foi para a casa vizinha. Ficou observando o rosto de Rosa. Um rosto que se animou e desabou no mesmo instante.
        -        Mame?
        Rosa levantou a mo.
        - V.
        Liesel esperou.
        -        Eu disse para voc ir.
        Quando a menina o alcanou, o soldado de regresso tentou entabular conversa. Devia estar arrependido de seu erro verbal com Rosa e tentou sepult-lo sob
outras palavras. Segurando a mo enfaixada, disse:
        -        Ainda no consigo faz-la parar de sangrar.
        Liesel sentiu-se contente, na verdade, por entrar na cozinha dos Holtzapfel. Quanto mais cedo comeasse a ler, melhor.
        Frau Holtzapfel estava sentada, com midos riachos de arame no rosto.
        Seu filho estava morto.
        Mas isso era s a metade.
        Ela nunca saberia realmente como havia ocorrido, mas posso lhe dizer, sem a menor dvida, que um de ns aqui sabe. Sempre pareo saber o que acontece, quando
h neve e armas e as vrias confuses da linguagem humana.

        Quando imagino a cozinha de Frau Holtzapfel, pelas palavras da menina que roubava livros, no vejo o fogo, as colheres de pau, a bomba d'gua ou nada parecido.
No de incio, pelo menos. O que vejo  o inverno russo, a neve caindo do teto e o destino do segundo filho de Frau Holtzapfel.
        Ele se chamava Robert, e foi isto que lhe aconteceu:
         UMA HISTORINHA DE GUERRA 
        Suas pernas foram decepadas na altura das canelas,
        e ele morreu com o irmo a vel-lo
        num hospital frio e fedorento.
        Foi na Rssia, em 5 de janeiro de 1943, apenas mais um dia gelado. Em meio  cidade e  neve, havia russos e alemes mortos por toda parte. Os que tinham
sobrado disparavam contra as pginas em branco  sua frente. Trs lnguas se entrelaaram. O russo, as balas e o alemo.
        Quando caminhei por entre as almas cadas, um dos homens dizia: "Minha barriga est coando." Disse-o muitas vezes. Apesar de seu choque, rastejou at uma
figura escura e desfigurada mais adiante, que se esvaa sentada no cho. Ao chegar, o soldado com o ferimento na barriga viu que se tratava de Robert Holtzapfel.
Ele tinha as mos empapadas de sangue e empilhava neve sobre a regio logo acima das canelas, onde suas pernas tinham sido decepadas pela ltima exploso. Havia
mos quentes e um grito rubro.
        Do cho subia vapor. A viso e o cheiro da neve apodrecida.
        -        Sou eu - disse-lhe o soldado. - E o Pieter - e se arrastou mais alguns centmetros para perto.
        -        Pieter? - perguntou Robert, com voz sumida. Deve ter sentido que eu estava por perto.
        -        Pieter? - uma segunda vez.
        Por algum motivo, os homens agonizantes sempre fazem perguntas cujas respostas j sabem. Talvez seja para poderem morrer tendo razo.
        Sbito, todas as vozes soaram iguais.
        Robert Holtzapfel tombou para a direita, no cho gelado e vaporfero. Tenho certeza de que esperou encontrar-me ali, naquele momento. No me encontrou.
        Infelizmente para o jovem alemo, no o levei naquela tarde. Passei por cima dele, com as outras pobres almas nos braos, e voltei para os russos. Para l
e para c eu andava. Homens desmantelados. No foi nenhuma excurso de esqui, posso lhe garantir.
         Como Michael contou  me, foi trs longussimos dias depois que finalmente busquei o soldado que havia deixado os ps em Stalingrado. Apareci convidadssima
no hospital temporrio e estremeci com o cheiro.
        Um homem com a mo enfaixada dizia ao soldado mudo, de rosto em choque, que ele sobreviveria.
        -        Voc logo ir para casa - assegurou-lhe. E, para casa, pensei. Para sempre.
        -        Vou esper-lo - continuou. - Eu ia voltar no fim da semana, mas vou esperar. No meio da ltima frase de seu irmo, recolhi a alma de Robert Holtzapfel.
Em geral, preciso me esforar para olhar atravs do teto quando estou do lado de dentro, mas nessa construo eu tive sorte. Uma pequena parte do telhado fora destruda
e pude olhar diretamente para cima. A um metro de distncia, Michael Holtzapfel continuava a falar. Tentei ignor-lo, observando o buraco acima de mim. O cu estava
branco, mas se deteriorava depressa. Como sempre, ia-se transformando numa imensa manta para respingos. O sangue escoava por ela e, em alguns trechos, as nuvens
estavam sujas, como pegadas na neve derretida.
        Pegadas?, perguntaria voc.
        Bem, eu me pergunto de quem seriam.
        Na cozinha de Frau Holtzapfel, Liesel leu. As pginas foram passando sem ser ouvidas e, para mim, quando o cenrio russo esmaeceu em meus olhos, a neve se
recusou a parar de cair do teto. A chaleira ficou coberta, assim como a mesa. Tambm os seres humanos usavam tiras de neve na cabea e nos ombros.
        O irmo estremeceu.
        A mulher chorou.
        E a menina continuou a ler, pois era para isso que estava ali, e era bom servir para alguma coisa depois das neves de Stalingrado.

        O IRMO SEM IDADE
        Liesel Meminger estava a poucas semanas de fazer quatorze anos.
        Seu papai continuava fora.
        Ela havia concludo mais trs sesses de leitura com uma mulher arrasada. Em muitas noites, vira Rosa sentar-se com o acordeo e rezar, com o queixo sobre
os foles.
        Agora, pensou, est na hora. Em geral, era roubar que a animava, mas, nesse dia, foi a devoluo de algo.
        Enfiou a mo embaixo da cama e tirou o prato. Lavou-o na cozinha, o mais depressa que pde, e saiu. Era agradvel andar por Molching. O ar era cortante e
uniforme, como a Watschen de um professor ou uma freira sdicos. Seus sapatos eram o nico som na Rua Munique.
        Quando ela atravessou o rio, um rumor de sol posicionou-se atrs das nuvens.
        No nmero oito da Grande Strasse, ela subiu a escada, deixou o prato junto  porta de entrada e bateu, e, quando a porta se abriu, j havia dobrado a esquina.
Liesel no olhou para trs, mas sabia que, se o fizesse, encontraria seu irmo outra vez na base da escada, com o joelho completamente curado. Chegou at a ouvir
sua voz.
        - Assim  melhor, Liesel.
        Foi com grande tristeza que ela se deu conta de que seu irmo teria seis anos para sempre, mas, ao reter essa idia, tambm fez um esforo para sorrir,
        Permaneceu na ponte sobre o Rio Amper, onde o pai costumava parar e se debruar.

        Sorriu e sorriu que, quando ps tudo para fora, voltou caminhando para casa, e o irmo nunca mais penetrou em seu sono. De muitas maneiras, Liesel sentiria
sua falta, mas jamais teria saudade de seus olhos mortos no piso do trem nem do som de uma tosse que matava.
        Nessa noite, a roubadora de livros deitou-se na cama e o menino s chegou antes de ela fechar os olhos. Era um componente de um elenco, pois Liesel era sempre
visitada nesse cmodo. Seu papai chegava e a chamava de meia mulher. Max escrevia A Sacudidora de Palavras num canto. Rudy ficava nu junto  porta. Vez por outra,
sua me postava-se numa estao de trem ao lado da cama. E ao longe, no quarto que se estendia como uma ponte at uma cidade sem nome, seu irmo, Werner, brincava
na neve do cemitrio.
        Do fim do corredor, como um metrnomo para marcar o andamento das vises, vinha o som dos roncos de Rosa, e Liesel ficou desperta, cercada, mas tambm relembrando
uma citao de seu livro mais recente.
         O LTIMO FORASTEIRO HUMANO, PGINA 38 
        Havia gente por toda parte, na rua da cidade,
        mas o forasteiro no poderia sentir-se mais s
        se ela estivesse deserta.
        Quando veio a manh, as vises se foram e ela pde ouvir o recital de palavras murmuradas na sala. Rosa estava sentada com o acordeo, rezando.
        - Faa-os voltar vivos - repetia. - Por favor, Senhor, por favor. Todos eles.
        At as rugas ao redor de seus olhos uniam as mos em prece.
        Rosa jamais falaria com Hans sobre esses momentos, mas Liesel achou que devem ter sido essas oraes que ajudaram seu papai a sobreviver ao acidente com
a LSE em Essen. Se no ajudaram, elas certamente no devem ter atrapalhado.

        O ACIDENTE
        Fazia uma tarde surpreendentemente clara e os homens estavam subindo no caminho. Hans Hubermann acabara de se sentar em seu lugar designado. Reinhold Zucker
parou diante dele.
        -        Saia da - disse.
        -        Bitte? Perdo?
        Zucker recurvava-se sob o teto do veculo.
        -        Eu disse para sair da, Arschloch - repetiu. A selva ensebada de sua franja caa-lhe em grumos sobre a testa. - Vou trocar de lugar com voc.
        Hans ficou confuso. O assento dos fundos era, provavelmente, o mais incmodo de todos. O mais cheio de correntes de ar, o mais frio.
        -        Por qu?
        -        E isso importa? - fez Zucker, perdendo a pacincia. - Pode ser que eu queira descer primeiro para usar a latrina.
        Hans logo se deu conta de que o resto da unidade j observava essa briga deplorvel entre dois homens supostamente adultos. No queria sair perdendo, mas
tambm no queria ser mesquinho. Alm disso, o grupo acabara de concluir um turno cansativo, e ele no tinha foras para levar a coisa adiante. Com as costas recurvadas,
dirigiu-se ao assento vazio no meio do caminho.
        -        Por que voc se submeteu quele Scheisskopft - perguntou o homem a seu lado.
        Hans riscou um fsforo e se ofereceu para dividir o cigarro.
        -        O vento l atrs entra direto nos meus ouvidos.
        O caminho verde-oliva estava a caminho do acampamento, talvez a uns dezesseis quilmetros de distncia. Brunnenweg contava uma piada sobre uma garonete
francesa, quando o pneu dianteiro esquerdo furou e o motorista perdeu o controle. O veculo capotou vrias vezes, e os homens foram xingando enquanto davam cambalhotas
no ar, na luz, no entulho e no fumo. L fora, o cu azul passava de teto a cho, enquanto eles se esforavam para se agarrar a alguma coisa.
        Quando o movimento cessou, estavam todos apinhados na parede direita do caminho, com os rostos espremidos contra os uniformes imundos mais prximos. Circularam
perguntas a respeito da sade, at que um dos homens, Eddie Alma, comeou a gritar:
        -        Tirem esse sacana de cima de mim! - gritou trs vezes, depressa. Fitava os olhos no pestanejantes de Reinhold Zucker.
         OS DANOS, ESSEN 
        Seis homens queimados por cigarros.
        Duas mos quebradas.
        Vrios dedos quebrados.
        Uma perna quebrada em Hans Hubermann.
        Um pescoo quebrado em Reinhold Zucker,
        partido quase na altura dos lobos das orelhas.
        Os homens arrastaram uns aos outros, at restar apenas o cadver no caminho. O motorista, Helmut Brohmann, ficou sentado no cho, coando a cabea.
        -        O pneu - explicou -, ele estourou.
        Alguns homens sentaram-se a seu lado e repetiram em eco que no fora culpa dele. Outros ficaram andando a esmo, fumando e perguntando uns aos outros se achavam
que suas leses eram graves o bastante para que eles fossem dispensados de suas funes. Um terceiro grupinho reuniu-se na traseira do caminho e se ps a olhar
o corpo.
        Junto a uma rvore, uma tira fina de dor intensa continuava a se abrir na perna de Hans Hubermann.
        -        Devia ter sido eu - disse ele.
        -        O qu? - perguntou o sargento, falando do caminho.
        -        Ele estava sentado no meu lugar.
        Helmut Brohmann recomps-se e voltou a entrar na cabine do motorista. De lado, tentou ligar o motor, mas no houve jeito de dar a partida. Chamou-se outro
caminho, assim como uma ambulncia. A ambulncia no veio.
        - Vocs sabem o que isso significa, no ? - perguntou Boris Schipper. Eles sabiam.
        Quando reiniciaram a viagem para o acampamento, cada um dos homens procurou no olhar para o esgar boquiaberto de Reinhold Zucker.
        -        Eu disse a voc que a gente devia t-lo virado de bruos - mencionou algum.
         Em certos momentos, alguns simplesmente esqueceram e apoiaram os ps no cadver. Ao chegarem, todos tentaram evitar a tarefa de pux-lo para fora. Concludo
o trabalho, Hans Hubermann deu uns passos abreviados, at a dor fraturar-lhe a perna e derrub-lo no cho.
        Uma hora depois, quando o mdico o examinou, disseram-lhe que ela estava decididamente quebrada. O sargento estava por perto e exibiu um meio sorriso.
        -        Bem, Hubermann. Parece que voc se safou, no ?
        Balanou o rosto redondo, fumando, e fez a lista do que aconteceria a seguir:
        -        Voc ficar descansando. Vo me perguntar o que devem fazer a seu respeito. Eu direi que voc fez um timo trabalho - e soprou outra baforada de
fumaa. - E acho que vou dizer que no serve mais para trabalhar na LSE e deve ser mandado de volta a Munique, para trabalhar num escritrio ou fazer a limpeza que
precise ser feita por l. Que lhe parece?
        Incapaz de resistir a uma risada em meio  careta de dor, Hans respondeu: - Parece bom, sargento. Boris Schipper terminou o cigarro.
        - Pode apostar que parece bom. E sorte sua eu gostar de voc, Hubermann. Sorte sua voc ser um bom homem, e generoso com os cigarros. No cmodo ao lado,
preparavam o gesso.
        O GOSTO AMARGO DAS PERGUNTAS
        Pouco mais de uma semana depois do aniversrio de Liesel, em meados de fevereiro, ela e Rosa finalmente receberam uma carta detalhada de Hans Hubermann.
Liesel correu da caixa de correio para dentro e a mostrou  me. Rosa a mandou l-la em voz alta, e as duas mal conseguiram conter a agitao quando a menina leu
sobre a perna quebrada. Liesel ficou to atnita que murmurou a frase seguinte s para si.
        -        O que foi? - pressionou Rosa. - Saumensch?
        Liesel ergueu os olhos da carta e por pouco no gritou. O sargento mantivera sua palavra.
        -        Ele est vindo para casa, mame. Papai est voltando para casa!
        As duas se abraaram na cozinha, amarrotando a carta entre seus corpos. Com certeza, uma perna quebrada era algo para se comemorar.
        Quando Liesel levou a notcia  casa ao lado, Barbara Steiner ficou radiante. Afagou o brao da menina e chamou o resto da famlia. Na cozinha, o cla dos
Steiner pareceu extasiado com a notcia de que Hans Hubermann voltaria para casa. Rudy sorriu e gargalhou, e Liesel pde perceber que ele estava ao menos tentando.
Mas tambm pde intuir o gosto amargo das perguntas em sua boca.
        Por que ele?
        Por que Hans Hubermann, e no Alex Steiner?
        Ele tinha razo em perguntar.

        UMA CAIXA DE FERRAMENTAS, UM HOMEM ENSANGENTADO,
        UM URSO
        Desde que seu pai fora recrutado pelo exrcito, em outubro do ano anterior, a raiva de Rudy vinha crescendo para valer. A notcia da volta de Hans Hubermann
era tudo de que ele precisava para intensific-la um pouco mais. Rudy no conversou com Liesel sobre o assunto. No houve queixas de que no era justo. Sua deciso
foi agir.
        Saiu carregando uma caixa de metal pela Rua Himmel, no tpico horrio de roubos da tarde crepuscular.
         A CAIXA DE FERRAMENTAS DE RUDY 
        Era de um vermelho desigual e tinha o comprimento
        de uma caixa de sapatos agigantada.
        Continha o seguinte:
        Canivete enferrujado x 1
        Lanterninha x 1
        Martelo x 2
        (um mdio, um pequeno)
        Toalha de mo x 1
        Chave de fenda x 3
        (tamanhos variados)
        Mscara de esqui x 1
        Meias limpas x 1
        Urso de pelcia x 1

        Liesel o viu da janela da cozinha - passos decididos e rosto resoluto, exatamente como no dia em que sara para procurar o pai. Segurava a ala da caixa
com toda a fora possvel e tinha os movimentos rgidos de raiva.
        A menina que roubava livros largou o pano de prato que segurava e o trocou por uma nica idia.
        Ele vai roubar.
        E correu a seu encontro.
        No houve nem mesmo um simulacro de ol.
        Rudy simplesmente continuou a andar e a falar, voltado para o ar frio  sua frente. Perto do edifcio de Tommy Mller, disse:
        -        Sabe de uma coisa, Liesel, eu andei pensando. Voc no  ladra coisa nenhuma - e nem lhe deu chance de responder. - Aquela mulher deixa voc entrar.
At lhe deixa biscoitos, pelo amor de Deus! No chamo isso de roubo. Roubo  o que o exrcito faz. Tirar o seu pai e o meu - explicou. Deu um pontap numa pedra,
que bateu com som metlico num porto. Apertou o passo. - Todos aqueles nazistas ricos de l, na Grande Strasse, na Gelb Strasse, na Heide Strasse.
        Liesel no podia concentrar-se em nada alm de acompanhar o ritmo do amigo. J haviam passado pela loja de Frau Diller e percorrido um bom trecho da Rua
Munique.
        -        Rudy...
        -        Como , afinal?
        -        Como  o qu?
        -        Quando voc tira um daqueles livros.
        Nesse momento, ela optou por ficar quieta. Se Rudy quisesse uma resposta, teria que tentar de novo, e tentou.
        -        E ento?
        Mais uma vez, porm, foi o prprio Rudy quem respondeu, antes que Liesel sequer conseguisse abrir a boca.
        -        E bom, no ? Retomar alguma coisa.
        Liesel forou a ateno para a caixa de ferramentas, tentando faz-lo diminuir o passo.
        -        O que voc tem a?
        O menino se inclinou e abriu a caixa.
        Tudo parecia fazer sentido, menos o ursinho de pelcia.
        Enquanto continuavam a andar, Rudy explicou em detalhe a caixa de ferramentas e o que faria com cada um de seus componentes. Por exemplo, os martelos eram
para quebrar janelas, e a toalha era para envolv-los, a fim de abafar o som.
        -        E o ursinho?
        Pertencia a Anna-Marie Steiner e no era maior que um dos livros de Liesel. O plo estava emaranhado e pudo. Os olhos e as orelhas tinham sido repetidamente
recosturados, mas, apesar disso, ele tinha um ar amistoso.
         - Esse - respondeu Rudy -  o golpe de mestre. Para o caso de uma criana entrar quando eu estiver l dentro. Entrego o ursinho e ela se acalma.
        -        E o que voc pretende roubar? Ele deu de ombros.
        -        Dinheiro, comida, jias. Qualquer coisa em que eu possa pr as mos. Parecia bem simples.
        S depois de uns quinze minutos, ao observar o silncio repentino no rosto do amigo, foi que Liesel percebeu que Rudy Steiner no roubaria nada. O ar resoluto
havia desaparecido e, embora ele ainda fitasse a glria imaginria de roubar, era perceptvel que j no acreditava nisso. Tentava acreditar, e isso nunca  bom
sinal. Sua grandiosidade no crime desdobrava-se diante de seus olhos e,  medida que os passos ficaram mais lentos e os dois observaram as casas, o alvio de Liesel
foi puro e triste dentro dela.
        Estavam na Gelb Strasse.
        Em geral, as casas eram escuras e imensas.
        Rudy tirou os sapatos e os segurou na mo esquerda. Com a direita, segurava a caixa de ferramentas.
        Entre as nuvens havia uma lua. Talvez um quilmetro de luz.
        -        Que  que eu estou esperando? - perguntou-se o menino, mas Liesel no respondeu. Rudy tornou a abrir a boca, mas sem nenhuma palavra. Depositou
a caixa no cho e sentou-se em cima dela.
        Suas meias ficaram frias e midas.
        -         sorte haver outro par na caixa de ferramentas - sugeriu Liesel, e percebeu que ele tentava no rir, a despeito de si mesmo.
        Rudy chegou para a ponta e se virou para o outro lado, e passou a haver espao tambm para Liesel.
        A menina que roubava livros e seu melhor amigo ficaram sentados, um de costas para o para o outro, numa caixa de ferramentas de um vermelho desbotado, no
meio da rua. Cada qual voltado para uma direo diferente, ali permaneceram um bom tempo. Quando se levantaram e foram para casa, Rudy trocou de meias e deixou a
anterior na rua. Um presente para a Gelb Strasse, decidiu.
         A VERDADE VERBALIZADA 
        DE RUDY STEINER
        - Acho que sou melhor para deixar coisas do que para roub-las.
        Semanas depois, a caixa de ferramentas acabou servindo pelo menos para uma coisa. Rudy retirou dela as chaves de fenda e os martelos e, em vez disso, resolveu
guardar muitos objetos de valor dos Steiner, para o bombardeio areo seguinte. A nica pea que permaneceu foi o ursinho de pelcia.
        Em 9 de maro, Rudy saiu de casa com essa caixa, quando as sirenes tornaram a fazer sentir sua presena em Molching.
        Enquanto os Steiner corriam pela Rua Himmel, Michael Holtzapfel bateu furiosamente na porta de Rosa Hubermann. Quando ela e Liesel saram, entregou-lhes
seu problema.
        -        Minha me - disse, e as ameixas de sangue continuavam em sua atadura.
        -        Ela se recusa a sair. Est sentada  mesa da cozinha.
        No correr das semanas, Frau Holtzapfel ainda no havia comeado a se recuperar. Quando Liesel chegava para ler, a mulher passava a maior parte do tempo olhando
fixo para a janela. Suas palavras eram baixas, quase imveis. Toda a rispidez e censura tinham sido arrancadas de seu rosto. Em geral, era Michael quem dizia at
logo a Liesel, ou lhe oferecia caf e lhe agradecia. E agora, isto.
        Rosa entrou em ao.
        Gingou com agilidade porto adentro e parou no vo da porta aberta.
        -        Holtzapfel! - gritou. No havia nada seno as sirenes e Rosa. - Holtzapfel, venha c, sua velha porca infeliz!
        O tato nunca fora um ponto forte de Rosa Hubermann.
        -        Se voc no sair, vamos todos morrer aqui na rua! - e se virou, olhando para as figuras desamparadas na calada. Uma sirene havia acabado de soltar
seu lamento.
        -        E agora? Michael encolheu os ombros, desnorteado, perplexo. Liesel deixou cair a sacola de livros e o fitou. Gritou, no comeo da sirene seguinte:
- Posso entrar? - mas no esperou a resposta. Perfez correndo a curta distncia da calada e passou pela me com um tranco.
        Frau Holtzapfel mantinha-se imvel  mesa.
        Que vou dizer?, pensou Liesel.
        Como fao ela se mexer?
        Quando as sirenes pararam mais uma.vez para respirar, ela ouviu Rosa chamando:
        -        Deixe-a para l, Liesel, temos que ir embora! Se ela quer morrer,  problema dela - mas as sirenes recomearam. Chegaram e atiraram longe a voz.
        Restaram ento apenas o barulho, a menina e a mulher magra e rija.
        -        Frau Holtzapfel, por favor!
        Tal como em sua conversa com Ilsa Hermann, no dia dos biscoitos, havia uma multido de palavras e frases na ponta de sua lngua. A diferena era que hoje
havia bombas. Hoje era ligeiramente mais urgente.
         AS OPES 
        "Frau Holtzapfel, ns temos que ir,"
        "Frau Holtzapfel ns vamos morrer, se ficarmos aqui"

        "A senhora ainda tem um filho"
        "Esto todos  sua espera."
        "As bombas vo arrancar sua cabea."
        "Se a senhora no vier, eu no venho mais ler,
        e isso significa que a senhora vai perder sua nica amiga."
        Liesel optou pela ltima frase, gritando as palavras bem no meio das sirenes. Tinha as mos plantadas na mesa. A mulher levantou os olhos e tomou sua deciso.
No se mexeu. Liesel foi embora. Afastou-se da mesa e saiu correndo da casa.
        Rosa manteve o porto aberto e as duas comearam a correr para o nmero quarenta e cinco. Michael Holtzapfel continuou paralisado na Rua Himmel.
        -        Vamos! - implorou-lhe Rosa, mas o soldado de regresso hesitou. Estava prestes a voltar para dentro de casa quando algo o fez virar-se. Sua mo mutilada
era a nica coisa que o prendia ao porto e, envergonhado, ele a soltou e seguiu as duas.
        Todos olharam para trs vrias vezes, mas nada ainda de Frau Holtzapfel. A rua parecia muito larga e, quando a ltima sirene evaporou-se no ar, as ltimas
trs pessoas da Rua Himmel entraram no poro dos Fiedler.
        -        Por que vocs demoraram tanto? - perguntou Rudy. Segurava a caixa de ferramentas.
        Liesel depositou a sacola de livros no cho e se sentou em cima.
        -        Estvamos tentando trazer Frau Holtzapfel. Rudy olhou em volta.
        -        Cad ela?
        -        Em casa. Na cozinha.
        No canto oposto do abrigo, Michael se encolhia, trmulo.
        -        Eu devia ter ficado l - dizia -, eu devia ter ficado, devia ter ficado...
        Sua voz era quase inaudvel, mas os olhos gritavam mais do que nunca. Agitavam-se furiosos em suas rbitas, enquanto ele apertava a mo ferida e o sangue
brotava, pela atadura.
        Foi Rosa quem o deteve.
        -        Por favor, Michael, a culpa no  sua.
        Mas o rapaz de poucos dedos remanescentes na mo direita estava inconsolvel. Agachou-se nos olhos de Rosa.
        -        Me diga uma coisa - pediu -, porque eu no consigo entender...
        Inclinou-se para trs e se sentou, encostado na parede.
        -        Diga-me, Rosa, como  que ela pode ficar l sentada, pronta para morrer, enquanto eu ainda quero viver? - afligiu-se. O sangue tornou-se mais espesso.
        - Por que  que eu quero viver? No devia querer, mas quero.
        Com a mo de Rosa em seu ombro, o rapaz chorou de forma incontrolvel por vrios minutos. As outras pessoas olhavam. Ele no conseguiu parar nem mesmo quando
a porta do poro abriu e fechou, e Frau Holtzapfel entrou no abrigo.
        Seu filho ergueu os olhos.
        Rosa afastou-se.
        Quando os dois se juntaram, Michael pediu desculpas.
        -        Desculpe, mame, eu devia ter ficado com voc.
        Frau Holtzapfel no ouviu. Apenas sentou-se com o filho e suspendeu sua mo enfaixada.
        -        Voc est sangrando de novo - disse, e, com todos os demais, eles esperaram.
        Liesel enfiou a mo na sacola e esquadrinhou os livros.
         O BOMBARDEIO DE MUNIQUE, 9 E 10 DE MARO 
        Foi uma longa noite de bombas e leitura.
        Sua boca estava seca, mas a menina que roubava livros
        batalhou at concluir cinqenta e quatro pginas.
        A maioria das crianas dormiu e no escutou as sirenes da segurana renovada. Os pais as acordaram ou as carregaram no colo, subindo a escada do poro para
o mundo das trevas.
        Ao longe, os incndios ardiam, e eu havia colhido pouco mais de duzentas almas assassinadas.
        Estava a caminho de Molching, mais uma vez.
        A Rua Himmel foi liberada.
        As sirenes haviam soado por muitas horas, para a eventualidade de outra ameaa e para deixar que a fumaa se espalhasse pela atmosfera.
        Foi Bettina Steiner quem notou o pequeno incndio e o filete de fumaa mais adiante, perto do Rio Amper. Ele formava uma trilha para o cu, e a menina levantou
o dedo.
        -        Olhem.
        Bettina pode t-lo visto primeiro, mas foi Rudy quem reagiu. Na pressa, nem soltou a caixa de ferramentas, ao disparar para o fim da Rua Himmel, enveredar
por algumas ruelas e penetrar no arvoredo. Liesel foi atrs (depois de entregar os livros a Rosa, em meio a seus veementes protestos), seguida por um pequeno nmero
de pessoas sadas de diversos abrigos pelo caminho.
        -        Rudy, espere!
        Rudy no esperou.
        Liesel s conseguia enxergar a caixa de ferramentas em algumas lacunas entre as rvores, enquanto ele abria caminho para o brilho agonizante e o avio enfumaado.
Estava parado, fumegante, na clareira junto ao rio, o piloto tentara pousar nela.

        A menos de vinte metros, Rudy estancou.
        Quando eu mesma cheguei, notei-o postado l, recobrando o flego.
        Os ramos das rvores espalhavam-se pela escurido.
        Havia gravetos e carumas acumulados em volta do avio, como combustvel para uma fogueira. A esquerda, trs rasgos tinham queimado a terra. O tiquetaque
descontrolado do metal que esfriava acelerou os minutos e segundos, at parecer que fazia horas que os dois estavam ali. A multido crescente juntava-se atrs deles,
grudando sua respirao e suas frases s costas de Liesel.
        -        Bem - disse Rudy -, ser que devemos dar uma olhada?
        Deu alguns passos por entre o resto das rvores, at onde a carcaa do avio se fixara no solo. O nariz estava na gua corrente, e as asas, tortas, tinham
sido deixadas para trs.
        Rudy o contornou lentamente, comeando pela cauda e seguindo pela direita.
        -        Tem vidro - disse. - O pra-brisa est em todo canto.
        E ento viu o corpo.
        Rudy Steiner nunca vira um rosto to plido.
        -        No venha aqui, Liesel.
        Mas Liesel foi.
        Viu o rosto quase inconsciente do piloto inimigo, enquanto as rvores altas observavam e o rio corria. O avio tossiu mais algumas vezes e a cabea l dentro
inclinou-se da esquerda para a direita. Disse alguma coisa, que eles obviamente no conseguiram compreender.
        -        Jesus, Maria e Jos - murmurou Rudy. - Ele est vivo,
        A caixa de ferramentas bateu na lateral do avio e trouxe consigo o som de mais vozes e ps humanos.
        O brilho do fogo havia sumido e a manh estava calma e negra. Havia apenas a fumaa em seu caminho, mas tambm ela no tardaria a se esvair.
        A muralha de rvores mantinha  distncia a cor de Munique em chamas. A essa altura, os olhos do menino tinham-se adaptado no apenas  escurido, mas tambm
ao rosto do piloto. Os olhos pareciam ndoas de caf, e havia cortes riscados nas faces e no queixo. Um uniforme amarrotado pesava desleixadamente sobre seu peito.
        Apesar do conselho de Rudy, Liesel chegou ainda mais perto, e posso lhe jurar que ns duas nos reconhecemos, naquele exato momento.
        Eu a conheo, pensei.
        Havia um trem e um garoto que tossia. Havia neve e uma menina aflita.
        Voc cresceu, pensei, mas eu a reconheo.
        Ela no recuou nem tentou combater-me, mas sei que alguma coisa disse  menina que eu estava ali, ser que ela sentiu o cheiro de meu bafo? Ser que ouviu
meu maldito bater circular do corao, girando como o crime que ele  em meu peito mortfero? No sei, mas ela me conhecia, fitou-me cara a cara e no desviou o
olhar.
         Enquanto a luz comeava a desencarvoar o cu, ns duas prosseguimos. Ambas vimos o menino enfiar de novo a mo na caixa de ferramentas, remexer numas fotos
emolduradas,  procura de alguma coisa, e retirar um brinquedinho amarelo de pelcia.
        Com cuidado, ele trepou at onde estava o homem agonizante.
        Depositou cautelosamente o ursinho risonho no ombro do piloto. A ponta de sua orelha encostou na garganta do rapaz.
        O homem agonizante aspirou o cheiro. E falou. Em ingls, disse: "Obrigado". Seus cortes retos abriram-se com sua fala, e uma gotinha de sangue escorreu torta
por sua garganta.
        -        O qu? - fez Rudy. - Was hast du gesagt? O que voc disse?
        Infelizmente, venci-o na corrida para a resposta. Era chegada a hora e estendi a mo para o cockpit. Devagar, extra a alma do piloto de seu uniforme amassado
e o resgatei do avio partido. A multido brincou com o silncio enquanto eu passava. Livrei-me dela com alguns encontres.
        No alto, o cu se eclipsou - apenas um ltimo instante de escurido -, e juro que vi uma assinatura negra, sob a forma de uma sustica. Ela se demorou l
em cima, desarrumada.
        -        Heil Hitler - disse eu, mas j me embrenhara por entre as rvores. Atrs de mim, um ursinho de pelcia descansava no ombro de um cadver. Havia
uma vela de limo abaixo dos galhos. A alma do piloto estava em meus braos.
        Provavelmente,  lcito dizer que, em todos os anos do imprio de Hitler, nenhuma pessoa pde servir ao Fhrer com tanta lealdade quanto eu. O ser humano
no tem um corao como o meu. O corao humano  uma linha, ao passo que o meu  um crculo, e tenho a capacidade interminvel de estar no lugar certo na hora certa.
A conseqncia disso  que estou sempre achando seres humanos no que eles tm de melhor e de pior. Vejo sua feira e sua beleza, e me pergunto como uma mesma coisa
pode ser as duas. Mas eles tm uma coisa que eu invejo. Que mais no seja, os humanos tm o bom senso de morrer.

        REGRESSO AO LAR
        Foi uma poca de ensangentados, avies partidos e ursinhos de pelcia, mas o primeiro trimestre de 1943 terminaria numa nota positiva para a menina que
roubava livros.
        No incio de abril, o gesso de Hans Hubermann foi cortado na altura do joelho e ele embarcou num trem para Munique. Teria uma semana de descanso e recreao
em casa, antes de se juntar s fileiras de escrevinhadores do exrcito na cidade. Ajudaria com a papelada na limpeza de fbricas, residncias, igrejas e hospitais
de Munique. O tempo diria se ele seria mandado para o trabalho de restaurao. Tudo dependeria de sua perna e da situao da cidade.
        Estava escuro quando ele chegou em casa. Foi um dia depois do esperado, j que o trem sofrera um atraso por causa de um alerta de bombardeio areo. Hans
parou  porta da Rua Himmel, 33, e cerrou o punho.
        Quatro anos antes, Liesel Meminger fora persuadida a cruzar aquela porta, ao aparecer pela primeira vez. Max Vandenburg postara-se diante dela, com uma chave
a lhe queimar a mo. Agora era a vez de Hans Hubermann. Ele bateu quatro vezes, e a roubadora de livros foi atender.
        - Papai, papai!
        Deve t-lo repetido uma centena de vezes, enquanto o abraava na cozinha e se recusava a solt-lo.
        Mais tarde, depois de comer, os trs sentaram-se  mesa da cozinha at tarde da noite, e Hans contou tudo a sua mulher e a Liesel Meminger. Explicou a LSE,
as ruas cheias de fumaa e as pobres almas perdidas que vagavam. E Reinhold Zucker. O pobre, estpido Reinhold Zucker. Levou horas.
        A uma da madrugada, Liesel foi se deitar e o pai entrou no quarto para se sentar ao lado dela, como tinha sido seu costume. A menina acordou vrias vezes
para se certificar de que ele estava ali, e o pai no a deixou em falta.
        Foi uma noite calma.
        A cama estava quente e macia de contentamento.
        Sim, foi uma grande noite para Liesel Meminger, e a calma, o calor e a maciez persistiriam por aproximadamente mais trs meses.
        Mas a histria dela dura seis.

     PARTE DEZ
        A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
        APRESENTANDO:
        o fim de um mundo
        o nonagsima oitavo dia
        um guerreador
        o caminho das palavras
        uma menina catatnica
        confisses
        o livrinho preto de ilsa hermann
        alguns avies com sua caixa torcica
        e uma cordilheira de escombros

        O FIM DO MUNDO (Parte I)
        Mais uma vez; ofereo-lhe um vislumbre do fim. Talvez seja para abrandar o golpe que vir depois, ou para me preparar melhor para cont-lo. Seja como for,
devo informar-lhe que chovia na Rua Himmel quando o mundo acabou para Liesel Meminger.
        O cu gotejava.
        Como uma torneira que uma criana fez todo o possvel para fechar, mas no conseguiu. As primeiras gotas foram frias. Senti-as nas mos, ao parar na porta
de Frau Diller.
        L no alto, eu os escutava.
        Atravs do cu nublado, levantei os olhos e vi os avies destruidores. Vi suas barrigas abertas e as bombas displicentemente lanadas. Erraram o alvo, 
claro. Era freqente errarem o alvo.
         UMA TRISTE ESPERANCINHA 
        Ningum queria bombardear
        a Rua Himmel
        Ningum bombardearia um lugar
        que tinha o nome do cu, no ?
        Ser que bombardearia?
        As bombas desceram e, em pouco tempo, as nuvens se empastaram e as frias gotas de chuva transformaram-se em cinzas. Flocos quentes de neve foram despejados
no cho.
        Em suma, a Rua Himmel foi arrasada.

        As casas foram espadanadas de um lado da rua para o outro. Uma foto emoldurada de um Fhrer de ar muito srio foi derrubada e espancada, no piso desfeito
em pedaos. Mas ele continuou a sorrir, com aquele seu jeito srio. Sabia uma coisa que nem todos sabamos. Mas eu sabia algo que ele no sabia. Tudo enquanto as
pessoas dormiam.
        Rudy Steiner estava dormindo. Mame e papai dormiam. Frau Holtzapfel, Frau Diller. Tommy Muller. Todos dormindo. Todos morrendo.
        S uma pessoa sobreviveu.
        Ela sobreviveu porque estava sentada num poro, lendo a histria de sua prpria vida, verificando os erros. Antes disso, o cmodo fora declarado raso demais,
porm, nessa noite de 7 de outubro, foi suficiente. As cpsulas da destruio desceram trotando e, horas depois, quando o silncio estranho e desarrumado acomodou-se
em Molching, a LSE local ouviu alguma coisa. Um eco. L embaixo, em algum lugar, uma menina martelava com um lpis uma lata de tinta.
        Todos pararam, com os corpos e orelhas recurvados, e, ao ouvirem de novo, comearam a cavar.
         ITENS PASSADOS DE MO EM MO 
        Blocos de cimento e telhas.
        Um pedao de parede com a
        pintura de um sol gotejante.
        Um acordeo de ar infeliz,
        espiando por sua caixa carcomida.
          
        Foram jogando tudo para cima.
        Quando mais um pedao de parede partida foi retirado, um deles viu o cabelo da menina que roubava livros.
        O homem deu uma risada de puro prazer. Estava trazendo ao mundo um recm-nascido.
        - Nem posso acreditar! Ela est viva!
        Houve grande alegria entre os homens que gritavam em algazarra, mas no pude compartilhar inteiramente seu entusiasmo.
        Antes disso, eu havia segurado o papai dela num brao e sua mame no outro. Duas almas muito suaves.
        Mais adiante, seus corpos tinham sido estendidos, como o resto. Os encantadores olhos prateados do pai j comeavam a enferrujar, e os lbios de papelo
da me fixavam-se, entreabertos, provavelmente na forma de um ronco incompleto. Para blasfemar como os alemes, Jesus, Maria e Jos.
        As mos resgatadoras puxaram Liesel para fora e sacudiram de sua roupa as migalhas de detritos.
        -        Mocinha - disseram -, as sirenes chegaram tarde demais. O que voc estava fazendo no poro? Como foi que soube?
        O que eles no notaram foi que a menina ainda segurava o livro. E gritou sua resposta. Um grito assombroso dos vivos.
        -        Papai!
        Segunda vez. Seu rosto crispou-se, enquanto ela atingia um tom mais agudo, mais marcado pelo pnico.
        -        Papai, papai! Suspenderam-na enquanto ela gritava, gemia e chorava. Se estava ferida, ela ainda no sabia, porque se debateu at se soltar, e saiu
procurando, chamando e gemendo um pouco mais.
        Continuava apertando o livro.
        Continuava desesperadamente agarrada s palavras que lhe tinham salvado a vida.

        O NONAGSIMO OITAVO DIA
        Nos primeiros noventa e sete dias depois da volta de Hans Hubermann, em abril de 1943, tudo correu bem. Em muitas ocasies, ele ficava pensativo, meditando
sobre o filho que lutava em Stalingrado, mas tinha a esperana de que um pouco de sua sorte corresse no sangue do rapaz.
        Em sua terceira noite em casa, ele tocou acordeo na cozinha. Promessa era promessa. Houve msica, sopa e piadas, e o riso de uma menina de quatorze anos.
        - Saumensch - alertou-a a me -, pare de rir alto assim. As piadas dele no so to engraadas. E, alm disso, so sujas...
        Aps uma semana, Hans retomou o trabalho, deslocando-se para um dos escritrios do exrcito na cidade. Disse que havia um bom suprimento de cigarros e comida
por l e, vez por outra, conseguia levar para casa uns biscoitos ou uma poro extra de gelia. Foi como nos velhos tempos. Um pequeno ataque areo em maio. Um "heil
Hitler" aqui e ali, e estava tudo bem.
        At o nonagsimo oitavo dia.
         PEQUENA DECLARAO 
        DE UMA ANCI
        Na Rua Munique, ela disse:
        - Jesus, Maria e Jos, eu gostaria que
        no os fizessem passar por aqui.
        Esses judeus infelizes do um azar desgraado,
        So mau sinal! Toda vez que os vejo, sei que seremos destrudos,

        Era a mesma velha que havia anunciado os judeus da janela, na primeira vez em que Liesel os vira. Visto de perto, o rosto dela era uma ameixa seca. Os olhos
tinham o azul escuro de uma veia. E sua previso foi correta.
        No auge do vero, Molching recebeu um sinal das coisas que estavam por vir. Ele entrou no campo visual como sempre fazia. Primeiro, a cabea de um soldado,
subindo e descendo, e a arma cutucando o ar acima dele. Depois, a corrente maltrapilha dos judeus aprisionados.
        A nica diferena, dessa vez,  que eles vieram da direo oposta. Foram levados  cidade vizinha de Nebling, para esfregar as ruas e fazer o trabalho de
limpeza que o exrcito se recusava a executar. No fim do dia, foram reconduzidos em marcha ao campo, lentos e exaustos, derrotados.
        Mais uma vez, Liesel procurou Max Vandenburg, achando que ele poderia muito bem ter acabado em Dachau sem que o fizessem marchar por Molching. Ele no estava.
No nessa ocasio.
        Mas bastava dar tempo ao tempo, porque, numa tarde quente de agosto, Max com certeza marcharia pela cidade com os demais. Ao contrrio dos outros, porm,
no olharia para a estrada. No olharia ao acaso para as arquibancadas alems do Fhrer.
 UM DADO CONCERNENTE A 
MAX VANDENBURG
Ele perscrutaria os rostos da Rua Munique,
 procura de uma menina que roubava livros.
        Nessa ocasio, em julho, no que Liesel depois calculou ter sido o nonagsimo oitavo dia desde o regresso do pai, ela parou e estudou a pilha mvel de judeus
pesarosos -  procura de Max. Que mais no fosse, isso aliviava a dor de simplesmente olhar.
         uma idia terrvel, escreveria ela em seu poro da Rua Himmel, mas sabia que era verdade. A dor de olh-los. E quanto  dor deles? E a dor dos sapatos
trpegos, da tortura e dos portes do campo a se fechar?
        Eles passaram duas vezes em dez dias e, logo depois, a mulher annima da Rua Munique, com sua cara de ameixa seca, revelou-se absolutamente correta. O sofrimento
decididamente havia chegado, e, se eles culpavam os judeus como uma advertncia ou um prlogo, deveriam ter culpado o Fhrer e sua busca da Rssia como a causa real
- porque, quando a Rua Himmel acordou, no fim de julho, descobriu-se que um soldado regressado estava morto. Pendia de um dos caibros de uma lavanderia perto da
loja de Frau Diller. Mais um pndulo humano. Mais um relgio parado.
        O proprietrio, descuidado, deixara a porta aberta.

 24 DE JULHO, 6:03 H DA MANH 
A lavanderia era quente,
os caibros eram firmes,
e Michael Holtzapfel pulou da cadeira
como se ela fosse um penhasco.
          
        Muita gente me perseguiu nessa poca, invocando meu nome, pedindo-me que eu os levasse comigo. E havia tambm a pequena percentagem que me chamava de vez
em quando e sussurrava com a voz estreitada.
        - Leve-me - diziam eles, e no havia como det-los. Estavam apavorados, no h dvida, mas no tinham medo de mim. Era o medo de estragarem tudo e terem
que se enfrentar novamente, e terem que enfrentar o mundo, e gente como voc.
        No havia nada que eu pudesse fazer.
        Eles tinham jeitos demais, recursos demais - e, quando o faziam realmente bem, qualquer que fosse o mtodo escolhido, eu no tinha condies de recusar.
        Michael Holtzapfel sabia o que estava fazendo.
        Matou-se por querer viver.
         claro que no vi Liesel Meminger nesse dia. Como geralmente acontece, informei a mim mesma que estava ocupada demais para permanecer na Rua Himmel e escutar
os gritos. J  ruim o bastante quando as pessoas me apanham com a boca na botija, de modo que tomei a deciso costumeira de sair de fininho, rumo ao sol cor de
caf-da-manh.
        No ouvi a detonao da voz de um velho quando ele encontrou o corpo suspenso, nem o som dos ps em correria e dos arquejos de queixo cado, quando as outras
pessoas chegaram. No ouvi um homenzinho magrelo de bigode resmungar: "Que vergonha, maldita vergonha"...
        No vi Frau Holtzapfel estirada na Rua Himmel, de braos abertos, com o rosto gritando em total desespero. No, no descobri nada disso at voltar, alguns
meses depois, e ler uma coisa chamada A Menina que Roubava Livros. Explicaram-me que, no final, Michael Holtzapfel foi vencido no pela mo mutilada, nem por qualquer
outro ferimento, mas pela culpa de estar vivo.
        No perodo que antecedeu sua morte, a menina havia percebido que ele no vinha dormindo, que toda noite era um veneno. Muitas vezes o imagino deitado, desperto,
transpirando em lenis de neve, ou tendo vises das pernas decepadas do irmo. Liesel escreveu que, em alguns momentos, ela quase lhe falou de seu irmo, como fizera
com Max, mas parecia haver uma grande diferena entre uma tosse interurbana e duas pernas obliteradas. Como consolar um homem que viu essas coisas? Seria possvel
dizer-lhe que o Fhrer se orgulhava dele, que o Fhrer o amava pelo que ele tinha feito em Stalingrado? Como  que algum se atreveria? S se podia deixar que ele
falasse. O dilema,  claro,  que as pessoas como essas guardam suas palavras mais importantes para depois, para quando os humanos em volta tm a infelicidade de
encontr-las. Um bilhete, uma frase, at uma pergunta ou uma carta, como na Rua Himmel, em julho de 1943.
 MICHAEL HOLTZAPFEL 
O LTIMO ADEUS
Querida mame,
Ser que um dia voc poder me perdoai?
 que no pude suportar mais.
Vou ao encontro do Robert.
Pouco me importa o que dizem os malditos catlicos.
Deve haver um lugar no paraso para
os que estiveram onde eu estive.
Talvez voc pense que eu no a amo,
por causa do que eu fiz, mas eu a amo.
Do seu, Michael.
        Foi a Hans Hubermann que pediram que desse a notcia a Frau Holtzapfel. Ele parou na soleira da casa e ela deve ter visto tudo em seu rosto. Dois filhos
em seis meses.
        O cu matinal resplandecia atrs dele quando a mulher magra e rija passou. Ela correu aos soluos at a aglomerao, mais adiante na Rua Himmel. Disse o
nome de Michael pelo menos duas dzias de vezes, mas Michael j tinha respondido. Segundo a menina que roubava livros, Frau Holtzapfel ficou abraada ao corpo durante
quase uma hora. Depois, voltou para o sol ofuscante da Rua Himmel e se sentou. No conseguia mais andar.
        A uma certa distncia, as pessoas observaram. Essas coisas eram mais fceis quando vistas ao longe.
        Hans Hubermann sentou-se com ela.
        Ps suas mos na dela, quando a mulher se prostrou no cho duro.
        Deixou que seus gritos enchessem a rua.
        Muito mais tarde, Hans caminhou ao lado dela, com esmerado cuidado, fazendo-a atravessar o porto e entrar em casa. E, no importa quantas vezes eu tente
ver as coisas de outra maneira, no consigo...
        Quando imagino essa cena da mulher transtornada e do homem alto, de olhos de prata, ainda neva na cozinha da Rua Himmel, nmero 31.


O GUERREADOR
        Havia um cheiro de caixo recm-construdo. Vestidos pretos. Bolsas enormes sob os olhos. Liesel ficou em p na relva, como os demais. Leu para Frau Holtzapfel
na mesma tarde. O Carregador de Sonhos, o favorito de sua vizinha.
        Foi mesmo um dia muito atarefado.
 27 DE JULHO DE 1943 
Michael Holtzapfel foi sepultado e
a menina que roubava livros leu para a me enlutada.
Os Aliados bombardearam Hamburgo -
e quanto a isso,  uma sorte eu ser meio milagrosa.
Ningum mais conseguiria carregar quase
quarenta e cinco mil pessoas num prazo to curto.
Nem em um milho de anos humanos.
        Os alemes, a essa altura, comeavam a pagar de verdade. Os joelhinhos espinhentos do Fhrer estavam comeando a tremer.
        Mas uma coisa eu reconheo nesse tal de Fhrer.
        Ele tinha, com certeza, uma vontade frrea.
        No houve afrouxamento na conduo da guerra, nem qualquer reduo na escala do extermnio e castigo de uma certa peste judaica Embora a maioria dos campos
se espalhasse por toda a Europa, ainda existiam alguns na prpria Alemanha.
        Nesses campos, muita gente ainda era obrigada a trabalhar e andar
        Max Vandenburg era um desses judeus.

        O CAMINHO DAS PALAVRAS
        Aconteceu numa cidadezinha do centro vital de Hitler.
        O fluxo de mais sofrimento foi bem bombeado, e um pedacinho dele chegou.
        Havia judeus sendo obrigados a marchar pelos arredores de Munique e, de algum modo, uma menina adolescente fez o impensvel e abriu caminho para andar com
eles. Quando os soldados a arrancaram de l e a derrubaram no cho, ela tornou a se levantar. E continuou.
        A manh estava quente.
        Mais um belo dia para um desfile.
        Os soldados e os judeus atravessaram diversas cidades e estavam chegando a Molching. Era possvel que fosse preciso fazer mais trabalho no campo, ou que
vrios prisioneiros houvessem morrido. Qualquer que fosse a razo, um novo lote de judeus recm-chegados e exaustos estava sendo levado a p para Dachau.
        Como sempre fizera, Liesel correu para a Rua Munique, com o bando habitual de circunstantes.
          
        - Heil Hitler!
        Ela ouviu o primeiro soldado l longe, na rua, e partiu em direo a ele pela multido, ao encontro do desfile. A voz a surpreendeu. Transformou o cu infinito
num teto, logo acima de sua cabea, e as palavras quicaram de volta, caindo em algum ponto do solo de trpegos ps judaicos.
         Os olhos.
        Eles observavam a rua em movimento, um por um, e, quando Liesel encontrou um lugar de onde tinha uma boa viso, parou para estud-los. Vasculhou s pressas
os arquivos de um rosto aps outro, tentando cotej-los com o judeu que escrevera O Vigiador e A Sacudidora de Palavras.
        Cabelos de penas, pensou.
        No, cabelos iguais a gravetos. Era essa a sua aparncia quando ele no era lavado. Procure cabelos iguais a gravetos, olhos alagadios e barba de aparas
de madeira.
        Meu Deus, havia muitos deles.
        Inmeros pares de olhos agonizantes e ps arrastados.
        Liesel os vasculhou, e no foi propriamente um reconhecimento de feies que revelou Max Vandenburg. Foi o modo como o rosto agia - tambm estudando a multido.
Com uma concentrao fixa. Liesel sentiu-se hesitar, ao deparar com o nico rosto que olhava diretamente para os espectadores alemes. Examinava-os com tamanha determinao,
que as pessoas dos dois lados da menina que roubava livros o notaram e apontaram.
        -        Que  que ele est olhando? - disse uma voz masculina ao lado de Liesel.
        A roubadora de livros deu um passo em direo  rua.
        Nunca um movimento tinha sido tamanho fardo. Nunca um corao fora to palpvel e grande em seu peito adolescente.
        Liesel deu um passo  frente e disse, muito baixinho:
        -        Ele est procurando por mim.
        Sua voz extinguiu-se e desapareceu dentro do corpo. A menina teve que reencontr-la - procurar l no fundo, reaprender a falar e chamar o nome dele. Max.
        -        Estou aqui, Max! Mais alto.
        -        Max, estou aqui!
        Ele a ouviu.
 MAX VANDENBURG, AGOSTO DE 1943 
Havia gravetos de cabelo, como Liesel tinha pensado,
e os olhos alagadios foram andando de ombro em ombro,
por cima dos outros judeus. Ao chegarem a ela, foram splices.
A barba afagou o rosto de Max e sua boca tremeu
ao dizer a palavra, o nome, a menina.
Liesel.

        Espremendo-se, Liesel escapou por inteiro da multido e entrou na mar de judeus, tranando por entre eles at segur-lo pelo brao com a mo esquerda.
        O rosto de Max pousou sobre ela.
        Curvou-se quando ela tropeou, e o judeu, o judeu execrvel, ajudou-a a se levantar. Precisou de todas as suas foras.
        -        Estou aqui, Max - repetiu a menina. - Estou aqui.
        -        Nem acredito... - pingaram as palavras da boca de Max Vandenburg. - Veja s como voc cresceu! - e havia uma intensa tristeza em seus olhos, que
ficaram marejados. - Liesel... eles me pegaram h alguns meses - disse a voz; capengava, mas arrastou-se at a menina: - A meio caminho de Stuttgart.
        Por dentro, a torrente de judeus era uma obscura calamidade feita de braos e pernas. Uniformes esfarrapados. At ento, nenhum soldado a vira, e Max a advertiu:
        -        Voc tem que me soltar, Liesel.
        Tentou at empurr-la, mas a menina era forte demais. Os braos esfaimados de Max no conseguiram afast-la, e ela continuou andando em meio  imundcie,
 fome e  confuso.
        Aps uma longa fileira de passos, o primeiro soldado notou.
        -        Ei! - gritou. Apontou o chicote. - Ei, garota, o que est fazendo? Saia da.
        Quando ela o ignorou por completo, o soldado usou o brao para separar a massa grudenta de gente. Empurrou-os para os lados e abriu caminho. Avultou diante
dela, enquanto Liesel lutava para seguir em frente, e notou a expresso estrangulada no rosto de Max Vandenburg. Liesel j o vira com medo, mas nunca daquele jeito.
        O soldado a segurou.
        Suas mos maltrataram-lhe a roupa.
        Liesel sentiu os ossos dos dedos militares e o caroo de cada n. Eles lhe rasgavam a pele.
        -        Eu disse para sair! - ordenou o soldado, e nesse momento a arrastou de banda e a atirou na muralha de espectadores alemes. Estava ficando mais
quente. O sol queimava o rosto de Liesel. A menina caiu, esparramada de dor, mas tornou a se levantar. Recuperou-se e esperou. Entrou novamente.
        Dessa vez, abriu caminho por trs.
        Mais adiante, vislumbrou os claros gravetos de cabelos e andou em direo a eles. Dessa vez, Liesel no estendeu a mo - parou. Em algum lugar dentro dela
estavam as almas das palavras. Que subiram e pararam a seu lado.
        -        Max - disse Liesel. O rapaz se virou e fechou os olhos por um instante, enquanto a menina prosseguia. - "Era uma vez um homenzinho estranho" - fez
ela.
        Seus braos pendiam, mas suas mos eram punhos cerrados junto ao corpo. - "Mas havia tambm uma sacudidora de palavras."
        Um dos judeus a caminho de Dachau parou de andar,

        Ficou absolutamente imvel, enquanto os outros se desviavam, carrancudos, deixando-o completamente s. Seus olhos hesitaram, e foi muito simples. As palavras
foram doadas, passando da menina para o judeu. Escalaram-no.
        Quando Liesel voltou a falar, as perguntas lhe saram da boca aos tropeos. Em seus olhos, lutavam por espao as lgrimas quentes que ela no deixava sair.
Era melhor manter-se resoluta e orgulhosa. As palavras que cuidassem de tudo.
        -        " voc mesmo?, perguntou ao rapaz" - disse Liesel. - "Ser que foi do seurosto que tirei a semente?"
        Max Vandenburg continuou esttico.
        No caiu de joelhos.
        Pessoas, judeus e nuvens, todos pararam. Ficaram observando.
        Postado ali, Max olhou primeiro para a menina, depois fitou diretamente o cu, amplo, azul e magnfico. Havia feixes pesados - pranchas de sol - caindo na
estrada ao acaso, maravilhosamente. As nuvens arquearam as costas para olhar para trs, recomeando sua caminhada.
        -        Est um dia to lindo - disse Max, com a voz em muitos pedaos. Um grande dia para morrer. Um grande dia para morrer, como esse.
        Liesel caminhou at ele. Era to corajosa que estendeu a mo e segurou seu rosto barbudo.
        -         voc mesmo, Max?
        Um dia alemo muito brilhante, com sua multido atenta. Ele deixou seus lbios beijarem a palma da menina.
        -        Sim, Liesel, sou eu - e segurou a mo dela junto ao rosto, e chorou em seus dedos. Chorava quando os soldados chegaram e um grupinho de judeus insolentes
parou para olhar.
        De p, ele foi aoitado.
        -        Max - chorou a menina.
        Depois, em silncio, enquanto era arrastada para longe.
        Max.
        O lutador judeu.
        Por dentro, ela disse tudo.
        Mxi Txi. Foi assim que aquele seu amigo o chamou em Stuttgart, quando voc brigava na rua, lembra-se? Lembra-se, Max? Voc me contou. Eu me lembro de tudo...
        Esse era voc - o menino de punhos rgidos, e voc disse que daria um soco na cara da morte quando ela viesse busc-lo.
        Lembra-se do boneco de neve, Max?
        Lembra-se?
        No poro?
        Lembra-se da nuvem branca de corao cinzento?
        O Fhrer ainda vai l procur-lo, de vez em quando. Sente sua falta. Todos sentimos a sua falta.
        O chicote. O chicote.
        O chicote continuou, brandido pela mo do soldado. Desceu sobre o rosto de Max. Recortou-lhe o queixo e lanhou sua garganta.
        Max bateu no cho e o soldado se virou para a menina. Sua boca se abriu. Tinha dentes imaculados.
        O claro sbito faiscou diante dos olhos de Liesel. Ela se lembrou do dia em que quisera que Ilsa Hermann ou a confivel Rosa, pelo menos, a esbofeteassem,
mas nenhuma das duas se dispusera a faz-lo. Nesse dia, no foi decepcionada.
        O chicote talhou sua clavcula e se estendeu at a omoplata.
        -        Liesel!
        Ela conhecia essa pessoa.
        Enquanto o soldado balanava o brao, ela avistou o aflito Rudy Steiner nas lacunas da multido. Ele a chamava. A menina viu-lhe o rosto torturado e o cabelo
amarelo.
        -        Liesel, saia da!
        A roubadora de livros no saiu.
        Fechou os olhos e recebeu o risco ardente que veio em seguida, e mais outro, at seu corpo bater no pavimento morno da rua. Ele lhe aqueceu a face. Chegaram
mais palavras, dessa vez do soldado.
        -        Steh'auf.
        A frase econmica no foi dirigida  menina, mas ao judeu. Estendeu-se em maiores detalhes.
        -        Levante, seu babaca imundo, seu judeu filho-da-puta, levante, levante...
        Max iou-se at ficar de p.
        S mais uma flexo, Max.
        S mais uma flexo no piso frio do poro.
        Os ps dele se mexeram.
        Arrastaram-se, e ele seguiu viagem.
        Suas pernas bambearam e suas mos alisaram as marcas do aoite, para aliviar a ardncia. Quando ele tentou novamente buscar Liesel com os olhos, as mos
do soldado foram postas em seus ombros ensangentados e empurraram.
        O menino chegou. Suas pernas desengonadas agacharam-se e ele gritou para a esquerda:
        -        Tommy, venha aqui me ajudar. Temos que p-la de p. Depressa, Tommy!
        Ergueu a roubadora de livros pelas axilas.
        -        Vamos, Liesel, voc tem que sair da rua.
        Quando conseguiu ficar de p, ela olhou para os alemes chocados, de rosto congelado, recm-sado da embalagem. Aos ps deles, deixou-se desabar, mas apenas
por um momento. Um arranho riscou um fsforo do lado de seu rosto, no ponto em que ela batera no cho. O latejo o fez virar-se, fritando dos dois lados.
        L longe, na rua, ela via as pernas e os calcanhares indistintos do ltimo judeu caminhante.
        Seu rosto ardia e havia uma dor infernal em seus braos e pernas - um torpor a um tempo doloroso e exaustivo.
        Liesel levantou-se pela ltima vez.
        Obstinadamente, comeou a andar e a correr pela Rua Munique, para alcanar os ltimos passos de Max Vandenburg.
        -        Liesel, que est fazendo?!
        Ela escapou das garras das palavras de Rudy e ignorou as pessoas ao lado que a observavam. Quase todas estavam mudas. Esttuas com o corao batendo. Talvez
espectadores das etapas finais de uma maratona. Liesel tornou a gritar e no foi ouvida. Tinha o cabelo nos olhos.
        -        Por favor, Max!
        Depois de uns trinta metros, talvez, no exato momento em que um soldado se virava para olhar, a menina foi derrubada. As mos fecharam-se sobre ela por trs,
feito pinas, e o menino da casa ao lado jogou-a no cho. Fincou-lhe os joelhos na rua,  fora, e suportou o castigo. Recebeu os socos como se fossem presentes.
As mos e cotovelos ossudos da menina foram acolhidos sem nada alm de pequenos gemidos. Rudy acumulou os borrifos ruidosos e desajeitados de saliva e lgrimas,
como se fossem um afago encantador em seu rosto, e, o que  mais importante, conseguiu segur-la no cho.
        Na Rua Munique, um menino e uma menina se entrelaaram. Ficaram incomodamente retorcidos no cho.
        Juntos, viram os seres humanos desaparecerem. Viram-nos dissolver-se feito pastilhas mveis no ar mido.

        CONFISSES
        Depois que os judeus se foram, Rudy e Liesel se desenredaram e a menina que roubava livros no falou. No havia respostas para as perguntas de Rudy.
        Ela tampouco foi para casa. Andou desamparada at a estao ferroviria e passou horas esperando o pai. Rudy ficou com ela nos primeiros vinte minutos, mas,
como ainda faltava um bom meio dia at a hora de Hans chegar, foi buscar Rosa. Na volta para a estao, contou-lhe o que tinha acontecido e, quando Rosa chegou,
no perguntou nada  menina. J havia montado o quebra-cabea e apenas parou a seu lado, e acabou convencendo-a a se sentar. Esperaram juntas.
        Quando o pai soube, deixou cair a sacola e chutou o ar da Bahnhof.
        Nessa noite, nenhum deles comeu. Os dedos do pai profanaram o acordeo, assassinando uma melodia aps outra, por mais que ele se esforasse. Nada mais funcionava.
        Durante trs dias, a menina que roubava livros permaneceu na cama. Toda manh e toda tarde, Rudy Steiner batia  porta e perguntava se ela ainda estava doente.
Liesel no estava doente.
          
        No quarto dia, a menina foi at a porta de entrada do vizinho e perguntou se ele poderia voltar ao bosque com ela, ao lugar onde haviam distribudo po no
ano anterior.
        - Eu devia ter-lhe contado h mais tempo - disse.
        Como prometido, os dois percorreram um longo trecho da estrada para Dachau. Pararam junto s rvores. Havia longas formas de luz e sombra. E pinhas dispersas
feito biscoitos.
        Obrigada, Rudy.
        Por tudo. Por ter-me ajudado na rua, por ter-me feito parar...
        Liesel no disse nenhuma dessas coisas.
        Descansou a mo num ramo descascado junto a seu corpo.
        -        Rudy, se eu lhe contar uma coisa, voc jura no dizer uma palavra a ningum?
        -         claro.
        Ele captou a seriedade no rosto da menina e o peso em sua voz. Encostou-se na rvore ao lado dela.
        -        O que ?
        -        Jure.
        -        J jurei.
        -        Jure de novo. Voc no pode contar a sua me, a seu irmo nem ao Tommy Mller. A ningum.
        -        Eu juro.
        Encostada.
        Olhando para o cho.
        Ela tentou vrias vezes descobrir o lugar certo em que comear, lendo as frases a seus ps, juntando as palavras com as pinhas e os restos de galhos partidos.
        - Lembra-se de quando eu me machuquei na rua, jogando futebol? - perguntou.
        Foram precisos aproximadamente trs quartos de hora para explicar duas guerras, um acordeo, um lutador judeu e um poro. Sem esquecer o que tinha acontecido
quatro dias antes, na Rua Munique.
        -        Foi por isso que voc chegou mais perto para olhar - disse Rudy - naquele dia do po. Para ver se ele estava l.
        - Foi.
        -        Cristo crucificado!
        - .
        As rvores eram altas e triangulares. Permaneceram caladas. Liesel tirou da bolsa A Sacudidora de Palavras e mostrou uma pgina a Rudy. Nela havia um menino
com trs medalhas penduradas no pescoo.
        - "Cabelos da cor de limes" - leu Rudy. Seus dedos tocaram as palavras.
        - Voc falou de mim com ele?
        No comeo, Liesel no conseguiu dizer nada. Talvez fosse a sbita turbulncia do amor que sentiu por ele. Ou ser que sempre o tinha amado? Era provvel.
Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mo e a puxasse para si. No importava onde a beijasse. Na boca, no pescoo,
na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.
        Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos montado s pressas, com um riso irregular e hesitante.
Sob o arvoredo, nessa tarde, era um doador de po e Ursinhos de pelcia. Um trplice campeo de atletismo da Juventude Hitlerista. Era seu melhor amigo. E estava
a um ms de sua morte.
        -  claro que falei de voc com ele - disse Liesel.
        Estava se despedindo, e nem sabia.

        O LIVRINHO PRETO
        DE ILSA HERMANN
        Em meados de agosto, ela pensou em ir ao nmero 8 da Grande Strasse, em busca do mesmo velho remdio.
        Para se animar.
        Foi isso que pensou.
        Tinha feito calor durante o dia, mas havia previso de chuvas  noite. Em O Ultimo Forasteiro Humano, havia uma citao perto do final. Liesel lembrou-se
dela, ao passar pela loja de Frau Diller.
 O LTIMO FORASTEIRO HUMANO PGINA 211
O sol mistura a terra. Rodando, rodando,
ele nos mistura como um ensopado.
        Na ocasio, Liesel s pensou nisso porque o dia estava muito quente.
        Na Rua Munique, lembrou-se dos acontecimentos da semana anterior. Reviu os judeus vindo pela rua, suas fileiras, seus nmeros e seu sofrimento. Resolveu
que faltava uma palavra em sua citao.
        A palavra  ensopado repulsivo, pensou com seus botes.
        To repulsivo que no posso suport-lo.
        Liesel cruzou a ponte sobre o Rio Amper. A gua estava gloriosa, esmeralda, vivida, Ela viu as pedras no fundo e ouviu o cantarolar conhecido da gua. O
mundo no merecia um rio daqueles.

        Escalou a ladeira para a Grande Strasse. As casas eram encantadoras e repugnantes. Ela gostou da dorzinha nas pernas e nos pulmes. Ande mais rpido, pensou,
e comeou a subir, como um monstro elevando-se da areia. Sentiu o cheiro da relva na vizinhana. Ela era nova e doce, verde com pontas amarelas. Liesel atravessou
o jardim sem virar uma s vez a cabea, sem a menor pausa de parania.
        A janela.
        Mos no caixilho, pernas em tesoura.
        Ps pousando.
        Livros e pginas e um lugar feliz.
        Tirou um livro da estante e sentou-se com ele no cho.
        Ser que ela est em casa?, pensou, mas no lhe importava se Ilsa Hermann estava fatiando batatas na cozinha ou fazendo fila no correio. Ou parada feito
um fantasma acima dela, examinando o que a menina lia.
        Ela simplesmente j no se importava.
        Durante muito tempo, ficou sentada e viu.
        Ela vira seu irmo morrer com um olho aberto, o outro ainda no sonho. Dissera adeus  me e imaginara sua espera solitria de um trem, de volta para o limbo.
Uma mulher de arame tinha-se deitado no cho, com seu grito percorrendo a rua, at cair de lado, como uma moeda rolada que houvesse perdido o impulso. Um rapaz pendera
de uma corda feita das neves de Stalingrado. Ela vira um piloto de bombardeiro morrer numa caixa de metal. Vira um homem judeu, que por duas vezes lhe dera as mais
belas pginas de sua vida, ser forado a marchar para um campo de concentrao. E, no centro de tudo, viu o Fhrer berrando suas palavras e passando-as adiante.
        Essas imagens eram o mundo, que cozinhava em fogo brando dentro dela, sentada ali com os livros encantadores e seus ttulos manicurados. Fermentava dentro
dela, enquanto a menina olhava as pginas, com suas panas cheias at o gorgomilo de pargrafos e palavras.
        Seus cretinos, pensou.
        Seus cretinos encantadores.
        No me faam feliz. Por favor, no me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranho.
Esto vendo o arranho dentro de mim? Esto vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? No quero ter esperana de mais nada. No quero rezar para
que Max esteja vivo e em segurana. Nem Alex Steiner.
        Porque o mundo no os merece.
        Arrancou uma pgina do livro e a rasgou ao meio. Depois, um captulo.
        Em pouco tempo, no restava nada seno tiras de palavras, derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As palavras. Por que tinham que
existir? Sem elas, no haveria nada disso. Sem as palavras, o Fhrer no era nada. No haveria prisioneiros claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques
mundanos para fazer com que nos sentssemos melhor.
        De que adiantavam as palavras?
        Dessa vez ela o disse em voz alta, para a sala iluminada de laranja.
        -        De que servem as palavras?
        A menina que roubava livros levantou-se e andou com cuidado at a porta da biblioteca, cujo protesto foi pequeno e sem nimo. O corredor arejado estava impregnado
do vazio da madeira.
        -        Frau Hermann?
        A pergunta voltou para ela e tentou um novo avano at a porta da frente. S chegou  metade do caminho, onde desabou, enfraquecida, num par de tbuas gordas
do piso.
        -        Frau Hermann?
        Nada acolheu os chamados seno o silncio, e Liesel sentiu-se tentada a procurar a cozinha, para Rudy. Conteve-se. No seria correto roubar comida de uma
mulher que lhe deixara um dicionrio encostado numa vidraa de janela. Isso e, ainda por cima, ela acabara de destruir um de seus livros, pgina por pgina, captulo
por captulo. J tinha feito estragos suficientes.
        Voltou para a biblioteca e abriu uma das gavetas da escrivaninha. Sentou-se.
 A LTIMA CARTA 
Cara Sra. Hermann,
Como a senhora pode ver, estive novamente em sua biblioteca
e destru um de seus livros.  que eu estava com tanta raiva
e tanto medo, que quis matar as palavras.
Eu a roubei e agora destru sua propriedade. Desculpe-me.
Para me castigar, acho que vou parar de vir aqui.
Ou ser que isso  mesmo um castigo?
Adoro este lugar e o odeio, porque ele  cheio de palavras.
A senhora tem sido minha amiga, embora eu
a tenha magoado, embora eu tenha sido ignominiosa
(palavra que consultei no seu dicionrio),
e acho que agora vou deix-la em paz.
Sinto muito por tudo. Obrigada, mais uma vez.
Liesel Meminger
        Deixou o bilhete na escrivaninha e se despediu do aposento pela ltima vez, dando trs voltas e passando as mos pelos ttulos. Por mais que os detestasse,
no pde resistir. Havia flocos de papel picado espalhados em torno de um livro chamado As normas de Tommy Hoffmann. Na brisa que entrava pela janela, alguns de
seus fiapos subiam e desciam.

        A luz ainda era laranja, mas no to luminosa quanto antes. As mos de Liesel sentiram a compresso final do caixilho da janela, e veio a ltima agitao
da barriga mergulhando, e o impacto da dor nos ps ao pisar na terra.
        Quando ela acabou de descer a colina e atravessar a ponte, a luz laranja havia desaparecido. As nuvens se amontoavam.
        Ao andar pela Rua Himmel, Liesel j pde sentir as primeiras gotas de chuva. Nunca mais verei Ilsa Hermann, pensou consigo mesma, porm a menina que roubava
livros era melhor para ler e estragar livros do que para fazer suposies.
 TRS DIAS DEPOIS 
A mulher bateu no nmero trinta e
trs e esperou que atendessem.
        Foi estranho para Liesel v-la sem o roupo de banho. O vestido de vero era amarelo, com um debrum vermelho. Havia um bolso com uma florzinha. Nada de susticas.
Sapatos pretos. At ento, a menina nunca havia notado as canelas de Ilsa Hermann. A mulher tinha pernas de porcelana.
        -        Frau Hermann, eu sinto muito... pelo que fiz na biblioteca da ltima vez.
        A mulher acalmou-a. Enfiou a mo na bolsa e puxou um livrinho preto. Dentro no havia nenhuma histria, mas papel pautado.
        -        Achei que, se voc no vai mais ler nenhum dos meus livros, talvez queira escrever um. A sua carta, ela foi... - e entregou o livro a Liesel com
as duas mos.
        - Voc com certeza sabe escrever. Voc escreve bem.
        O livro era pesado, de capa dura e opaca como O Dar de Ombros.
        -        E, por favor - aconselhou Ilsa Hermann -, no se castigue, como disse que faria. No seja como eu, Liesel.
        A menina abriu o livro e tocou o papel.
        -        Danke schn, Frau Hermann. Posso lhe fazer um caf, se a senhora quiser. Quer entrar? Estou sozinha em casa. Minha me est aqui ao lado, com Frau
Holtzapfel.
        -        Devemos usar a porta ou a janela?
        Liesel desconfiou que foi o sorriso mais largo que Ilsa Hermann j se permitira dar em anos.
        -        Acho que usamos a porta.  mais fcil.
        Sentaram-se na cozinha.
        Canecas de caf e po com gelia. Ambas se esforaram por falar e Liesel pde ouvir Ilsa Hermann engolir em seco, mas, de algum modo, no foi incmodo. Foi
at agradvel ver a mulher soprar delicadamente o caf para esfri-lo.
        -        Se um dia eu escrever alguma coisa e o terminar - disse Liesel -, eu lhe mostro.
        -        Seria muito bom.
        Quando a mulher do prefeito se foi, Liesel a olhou subir a Rua Himmel. Olhou para seu vestido amarelo, seus sapatos pretos e suas pernas de porcelana.
         Junto  caixa do correio, Rudy perguntou:
        -        Aquela era quem eu estou pensando?
        -        Era.
        -        Voc est de brincadeira.
        -        Ela me deu um presente.
        Como se veio a constatar, Ilsa Hermann no deu apenas um livro a Liesel Meminger nesse dia. Deu-lhe tambm um motivo para passar tempo no poro - seu lugar
favorito, primeiro com o pai, depois com Max. Deu-lhe uma razo para ela escrever suas prprias palavras, para ver que as palavras tambm lhe tinham dado vida.
        -        No se castigue - a menina a ouviu dizer outra vez. Mas haveria castigo e sofrimento, e haveria tambm felicidade. Em escrever.
        A noite, quando a me e o pai foram dormir, Liesel desceu furtivamente ao poro e acendeu a lamparina de querosene. Durante a primeira hora, s fez olhar
para o papel e o lpis. Obrigou-se a lembrar e, como era seu hbito, no desviou os olhos.
        -        Schreibe - instruiu a si mesma. Escreva.
        Passadas mais de duas horas, Liesel Meminger comeou a escrever, sem saber como conseguiria fazer isso direito. Como poderia saber que algum apanharia sua
histria e a carregaria consigo por toda parte?
        Ningum espera essas coisas.
        Ningum as planeja.
        Usando uma lata pequena de tinta como assento e uma grande como mesa, Liesel ps o lpis na primeira pgina. No centro, escreveu o seguinte:
 A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS 
uma pequena histria
de
Liesel Meminger

        OS AVIES COM CAIXA TORCICA
        Na pgina trs, sua mo estava dolorida.
        As palavras pesam muito, pensou ela, mas, no correr da noite, conseguiu terminar onze pginas.
 PGINA 1 
Eu tento ignorar, mas sei que tudo isso comeou
com o trem, a neve e meu irmo tossindo.
Roubei meu primeiro livro naquele dia.
Era um manual para cavar sepulturas, e eu o roubei
quando estava a caminho da Rua Himmel...
        Ela adormeceu l embaixo, numa cama feita de mantas de proteo contra respingos, com o papel enrolando nas bordas, em cima da lata mais alta de tinta. De
manh, a me postou-se junto dela, os olhos clorados cheios de perguntas.
        -        Liesel, que  que voc est fazendo aqui embaixo? - perguntou.
        -        Estou escrevendo, mame.
        -        Jesus, Maria e Jos - fez Rosa, e subiu a escada pisando duro. - Trate de voltar l para cima em cinco minutos, seno vai receber o tratamento do
balde. Verstehst?
        -        Entendi.
        Toda noite, Liesel descia ao poro. Carregava o livro consigo o tempo todo. Escrevia durante horas, tentando terminar a cada noite dez

        O FIM DO MUNDO (Parte II)
        Quase todas as palavras esto desbotadas. O livro preto vem-se desintegrando sob o peso de minhas viagens. Essa foi outra razo para eu contar esta histria.
Que foi que dissemos antes? Diga uma coisa um nmero suficiente de vezes, e voc nunca mais a esquece. Ademais, posso lhe contar o que aconteceu depois que as palavras
da menina que roubava livros pararam, e como vim a tomar conhecimento de sua histria, para comeo de conversa. Foi assim.
        Imagine-se andando pela Rua Himmel no escuro. Seu cabelo comea a ficar molhado e a presso do ar est  beira de uma mudana drstica. A primeira bomba
atinge o prdio de apartamentos de Tommy Mller. O rosto dele se contorce inocentemente em seu sono, e eu me ajoelho junto a sua cama. Depois, sua irm. Os ps de
Kristina projetam-se para fora do cobertor. Combinam com as pegadas do jogo de amarelinha na rua. Os dedinhos. A me deles dorme a menos de um metro de distncia.
H quatro cigarros desfigurados em seu cinzeiro, e o teto sem telhado  vermelho como uma chapa quente. A Rua Himmel est em chamas.
        As sirenes comearam a uivar.
        - Agora  tarde demais para esse exerciciozinho - murmurei, porque todos tinham sido enganados, e enganados de novo. Primeiro, os Aliados tinham fingido
um ataque a Munique, para bombardear Stuttgart. Mas, depois, dez avies tinham ficado. Ah, houve alertas,  claro. Em Molching, eles chegaram com as bombas.

CHAMADA NOMINAL DAS RUAS 
Munique, Ellenberg, Johannson, Himmel
A rua principal e mais trs,
na zona mais pobre da cidade.
No espao de alguns minutos, todas desapareceram.
Uma igreja foi deitada abaixo.
A terra foi destruda no lugar em que
Max Vandenburg se postara de p.
        No nmero 31 da Rua Himmel, Frau Holtzapfel parecia estar  minha espera na cozinha. Havia  sua frente uma xcara quebrada e, num ltimo momento de viglia,
seu rosto parecia perguntar por que diabo eu tinha demorado tanto.
        Em contraste, Frau Diller dormia a sono solto. Suas vidraas  prova de balas estavam estilhaadas ao lado da cama. Sua loja fora obliterada, com o balco
lanado do outro lado da rua, e sua fotografia emoldurada de Hitler fora arrancada da parede e jogada no cho. Decididamente, o homem tinha sido agredido e espancado
at se transformar numa pasta de vidro modo. Pisei nele ao sair.
        Os Fiedler eram bem organizados, todos na cama, todos cobertos. Pfiffikus estava escondido at o nariz.
        Na casa dos Steiner, deslizei os dedos pelo cabelo encantadoramente penteado de Barbara, tirei o ar de seriedade do srio rosto adormecido de Kurt e, uma
a uma, dei um beijo de boa-noite nas menorezinhas.
        E a, Rudy.
        Ah, Cristo crucificado, Rudy...
        Estava deitado com uma das irms. Ela devia t-lo chutado, ou aberto caminho na marra pela maior parte do espao da cama, porque o menino estava bem na beirada,
com o brao em volta dela. Dormia. Seu cabelo de luz de vela inflamava a cama, e peguei ele e Bettina com as almas ainda no cobertor. Que mais no fosse, os dois
tinham morrido depressa e aquecidos. O menino do avio, pensei. O do ursinho de pelcia. Onde estava o consolo de Rudy? Onde haveria algum para aliviar esse roubo
de sua vida? Quem o reconfortaria, ao se puxar o tapete debaixo de seus ps adormecidos?
        Ningum.
        Havia apenas eu.
        E no sou muito boa nessa histria de consolar, especialmente quando tenho as mos frias e a cama  quente. Carreguei-o com delicadeza pela rua destroada,
com sal nos olhos e o corao mortalmente pesado. Observei por um instante o contedo de sua alma, e vi um menino pintado de preto, gritando o nome de Jesse Owens
ao cruzar uma fita de chegada imaginria. Vi-o afundado at os quadris em gua gelada, perseguindo um livro, e vi um garoto deitado na cama, imaginando que gosto
teria um beijo de sua gloriosa vizinha do lado. Ele mexe comigo, esse garoto. Sempre.  sua nica desvantagem. Ele pisoteia meu corao. Ele me faz chorar.
        Por ltimo, os Hubermann.
        Hans.
        O papai.
        Era alto na cama, e vi a prata por entre suas plpebras. Sua alma sentou-se. Veio a meu encontro. As almas desse tipo sempre o fazem - as melhores. As que
se levantam e dizem: "Sei quem voc  e estou pronta. No que eu queira ir,  claro, mas irei." Essas almas so sempre leves, porque um nmero maior delas foi dispensado.
Um nmero maior delas j encontrou o caminho para outros lugares. Essa foi despachada pelo sopro de um acordeo, pelo estranho sabor do champanhe no vero e pela
arte de cumprir promessas. Ele deitou em meus braos e descansou. Houve um pulmo comichando por um ltimo cigarro, e uma imensa atrao magntica pelo poro, pela
menina que era sua filha e estava escrevendo um livro l embaixo, um livro que um dia ele esperava ler.
        Liesel.
        Foi o que sua alma sussurrou quando o carreguei. Mas no havia Liesel naquela casa. No para mim, pelo menos.
        Para mim, havia apenas Rosa e, sim, acho mesmo que a peguei no meio de um ronco, pois sua boca estava aberta e seus lbios rosados de papel ainda executavam
o ato de se mexer. Se me visse, tenho certeza de que ela me chamaria de Saukerl, embora eu no a levasse a mal. Depois de ler A Menina que Roubava Livros, descobri
que era assim que ela chamava todo o mundo. Saukerl. Saumensch. Especialmente as pessoas a quem amava. Seu cabelo elstico estava solto. Roava o travesseiro, e
seu corpo de guarda-roupa se levantara com o pulsar de seu corao. No se deixe enganar, a mulher tinha corao. Um corao maior do que as pessoas suporiam. Havia
muita coisa armazenada nele, em quilmetros de prateleiras altas e ocultas. Lembre-se de que ela foi a mulher com o instrumento preso ao corpo pelas alas na longa
noite enluarada. Foi a que alimentou um judeu, sem uma nica pergunta na primeira noite de um homem em Molching. E foi a que esticou o brao, bem no fundo de um
colcho, para entregar um caderno de desenho a uma adolescente.
 A LTIMA SORTE 
Andei de rua em rua e voltei para
buscar um nico homem, chamado
Schultz, no fim da Himmel

        Ele no conseguira agentar, dentro da casa desabada, e eu carregava sua alma pela Rua Himmel quando notei a gritaria e as risadas da LSE.
        Havia um pequeno vale na cordilheira de escombros.
        O cu quente estava vermelho e mudando. Listras de pimenta comeavam a rodopiar, e fiquei curiosa. Sim, sim, eu sei o que lhe disse no comeo. Em geral,
minha curiosidade leva ao testemunho pavoroso de algum tipo de clamor humano, mas, nessa ocasio, devo dizer que, embora aquilo me partisse o corao, fiquei e continuo
feliz por ter estado l.
        Quando a tiraram do fundo,  verdade que ela comeou a chorar e a gritar por Hans Hubermann. Os homens da LSE tentaram segur-la em seus braos poeirentos,
mas a menina que roubava livros conseguiu safar-se. Os humanos desesperados sempre parecem capazes de faz-lo.
        Ela no sabia por onde estava correndo, porque a Rua Himmel j no existia. Tudo era novo e apocalptico. Por que o cu estava vermelho? Como podia estar
nevando? E por que os flocos de neve lhe queimavam os braos?
        Liesel reduziu o passo a um andar trpego e se concentrou no que havia adiante.
        Onde estava a loja de Frau Diller?, pensou. Onde...
        Perambulou um pouco mais, at que o homem que a havia encontrado segurou-a pelo brao e continuou a falar.
        - Voc est apenas em choque, minha menina. E s o choque, voc ficar bem.
        -        Que aconteceu? - indagou Liesel. - Aqui ainda  a Rua Himmel?
        -        Sim - fez o homem de olhar decepcionado. Que teriam visto aqueles olhos nos anos anteriores? - Aqui  a Himmel. Vocs foram bombardeados, minha
menina. Es tut mit leid, Schatzi. Sinto muito, tesouro.
        A boca da menina continuou vagando, embora seu corpo estivesse imvel. Ela havia esquecido seus lamentos anteriores por Hans Hubermann. Aquilo fora anos
antes - um bombardeio faz essas coisas. Liesel disse:
        -        Temos que buscar meu pai, minha me. Temos que tirar o Max do poro. Se ele no estiver l, estar no corredor, olhando pela janela. s vezes ele
faz isso, quando h um bombardeio... ele no tem muita chance de olhar para o cu, sabe? Tenho que lhe dizer como est o tempo agora. Ele jamais acreditar em mim...
        Nesse momento, o corpo dela vergou-se e o homem da LSE a segurou e a ps sentada.
        -        Vamos lev-la num instante - disse a seu sargento.
        A menina que roubava livros olhou para algo pesado que machucava sua mo.
        O livro.
        As palavras.
        Seus dedos estavam sangrando, como haviam sangrado em sua chegada  cidade.
        O homem da LSE levantou-a e comeou a lev-la embora. Havia uma colher de pau pegando fogo. Passou um homem com uma caixa de acordeo quebrada e Liesel viu
o instrumento dentro dela. Viu seus dentes brancos e as notas pretas de permeio. Eles lhe sorriram e acionaram um alerta para sua realidade. Fomos bombardeados,
pensou, e ento se virou para o homem a seu lado e disse:
        -        Aquele  o acordeo do papai - e de novo: - Aquele  o acordeo do papai.
        -        No se preocupe, mocinha, voc est em segurana;  s andar um pouquinho mais.
        Porm Liesel no andou.
        Olhou para onde o homem levava o acordeo e o seguiu. Com o cu vermelho ainda mandando sua bela chuva de cinzas, ela deteve o trabalhador alto da LSE e
disse:
        -        Eu levo isso, se o senhor quiser;  do meu pai.
        Devagarzinho, tirou-o das mos do homem e comeou a carreg-lo. Foi mais ou menos nessa hora que viu o primeiro corpo.
        A caixa do acordeo soltou-se de seu punho. Um som de exploso. Frau Holtzapfel estirava-se no cho como uma tesoura.

 OS DOZE SEGUNDOS SEGUINTES 
DA VIDA DE LIESEL MEMINGER
Ela girou nos calcanhares e olhou o mais longe
que pde, naquele canal destroado que
um dia fora a Rua Himmel
Viu dois homens carregando um cadver e os seguiu.

        Ao ver o resto deles, Liesel tossiu. Ouviu momentaneamente um homem dizer aos outros que um dos corpos fora encontrado em pedaos, num dos ceres.
        Havia pijamas assustados e rostos rasgados. Foi o cabelo do menino que ela viu primeiro.
        Rudy?
        Em seguida, fez mais do que apenas mover os lbios para enunciar a palavra.
        - Rudy?
        Ele estava deitado com seus cabelos amarelos e os olhos fechados, e a menina que roubava livros correu em sua direo e desabou. Deixou cair o livro preto.
        -        Rudy, acorde - soluou. Agarrou-o pela camisa e lhe deu a mais leve sacudidela incrdula. - Acorde, Rudy - e j ento, enquanto o cu continuava
a esquentava a despejar uma chuva de cinzas, Liesel agarrava o peito da camisa de Rudy Steiner.
        - Rudy, por favor - e as lgrimas se engalfinhavam com seu rosto. - Rudy, por favor, acorde, que diabo, acorde, eu amo voc. Ande, Rudy, vamos, Jesse Owens
no sabe que eu amo voc? Acorde, acorde, acorde...
        Mas nada se importou.

        Os destroos apenas subiram, mais altos. Montanhas de concreto com tampas de vermelho. E uma linda menina, pisoteada pelas lgrimas, sacudindo os mortos.
        -        Vamos, Jesse Owens...
        Mas o menino no acordou.
        Incrdula, Liesel afundou a cabea no peito de Rudy. Segurou seu corpo amolecido, tentando impedir que pendesse para trs, at que precisou devolv-lo ao
cho massacrado. E o fez com delicadeza.
        Devagar.
        Devagar.
        -        Meu Deus, Rudy...
        Inclinou-se, olhou para seu rosto sem vida, e ento beijou a boca de seu melhor amigo, Rudy Steiner, com suavidade e verdade. Ele tinha um gosto poeirento
e adocicado. Um gosto de arrependimento  sombra do arvoredo e na penumbra da coleo de ternos do anarquista. Liesel beijou-o demoradamente, suavemente, e, quando
se afastou, tocou-lhe a boca com os dedos. Suas mos estavam trmulas, seus lbios eram carnudos, e ela se inclinou mais uma vez, agora perdendo o controle e fazendo
um erro de clculo. Os dentes dos dois se chocaram no mundo demolido da Rua Himmel.
        Liesel no disse adeus. Foi incapaz de faz-lo e, aps mais alguns minutos ao lado do amigo, conseguiu levantar-se do cho. Fico impressionada com o que
os seres humanos so capazes de fazer, mesmo quando h torrentes a lhes descer pelos rostos e eles avanam cambaleando, tossindo e procurando, e encontrando.
 A DESCOBERTA SEGUINTE 
Os corpos de mame e papai,
ambos emaranhados no lenol de
cascalho da Rua Himmel.
        Liesel no correu, no andou nem se mexeu. Seus olhos haviam esquadrinhado os humanos e parado, confusamente, ao notar o homem alto e a mulher baixa, em
formato de guarda-roupa. Aquela  a mame. Aquele  o papai. As palavras foram grampeadas nela.
        -        Eles no esto se mexendo - disse baixinho. - No esto se mexendo.
        Talvez, se ela ficasse imvel por tempo suficiente, eles  que se mexessem, s que eles permaneceram imveis pelo mesmo tempo que Liesel. Naquele momento,
percebi que ela no calava sapatos. Que coisa estranha para se notar, justamente numa hora dessas. Talvez eu estivesse tentando evitar seu rosto, porque a menina
que roubava livros era, de verdade, uma mixrdia irresgatvel.
        Avanou um passo e no sentiu vontade de dar nenhum outro, mas deu. Lentamente, andou at a me e o pai e se sentou entre eles, Segurou a mo da me e comeou
a falar com ela.
        -        Lembra-se de quando eu vim para c, mame? Agarrei-me ao porto e chorei. Voc se lembra do que disse a todo o mundo que passava na rua, naquele
dia? - e sua voz vacilou. - Voc disse: "O que  que esto olhando, seus babacas?"
         Pegou a mo da me e a tocou no pulso.
        -        Mame, eu sei que voc... Gostei de quando voc foi  escola e me contou que o Max tinha acordado. Sabe que eu vi voc com o acordeo do papai?
- e apertou mais forte a mo que endurecia. - Eu cheguei e fiquei olhando, e voc estava linda. Puxa vida, voc estava to linda, mame!
 MUITOS MOMENTOS DE EVITAO 
Papai. Ela no queria,
no podia olhar para o pai.
Ainda no. Agora no.
        O pai era um homem de olhos de prata, no olhos mortos.
        Papai era um acordeo!
        Mas todos os seus foles estavam vazios.
        No entrava nem saa nada.
        Liesel comeou a balanar o corpo para frente e para trs. Uma nota estridente, e alada, untuosa, ficou presa em algum ponto de sua boca, at que ela finalmente
conseguiu se virar.
        Para o pai.
        Nesse ponto, no pude evitar. Andei em volta dela, para v-la melhor, e, desde o instante em que revi seu rosto, eu soube que aquele era o que ela mais amava.
Sua expresso afagou o rosto do homem. Seguiu uma das rugas que lhe desciam pela face. Ele se sentara com ela no banheiro e lhe ensinara a enrolar cigarros. Dera
po a um homem morto na Rua Munique e dissera  menina para continuar lendo no abrigo antiareo. Talvez, se no o tivesse feito, ela no houvesse acabado escrevendo
no poro.
        Papai, o acordeonista - e a Rua Himmel.
        Um no podia existir sem o outro, porque, para Liesel, eles eram uma coisa s. Sim, isso  o que era Hans Hubermann para Liesel Meminger.
        A menina virou-se e falou com os homens da LSE. - Por favor, o acordeo do papai. Vocs podem peg-lo para mim?
        Aps alguns minutos de confuso, um membro mais velho trouxe a caixa corroda e Liesel a abriu. Tirou o instrumento machucado e o depositou junto ao cadver
do pai.
        - Tome, papai.
        E uma coisa eu posso lhe jurar, porque foi algo que vi muitos anos depois - uma viso da prpria roubadora de livros: quando se ajoelhou ao lado de Hans
Hubermann, ela o viu levantar-se e tocar o acordeo. Ele se ps de p, prendeu o instrumento no corpo pelas alas, nos Alpes de casas destroadas, e tocou o acordeo
com seus olhos prateados de bondade, e at com um cigarro pendendo dos lbios. Chegou mesmo a cometer um erro, e riu, numa rememorao encantadora. Os foles respiraram
e o homem alto tocou para Liesel Meminger pela ltima vez, enquanto o cu era lentamente tirado do fogo.
        Continue tocando, papai.
        Papai parou.
        Deixou cair o acordeo, e seus olhos de prata continuaram a enferrujar. Agora restava apenas um corpo no cho, e Liesel o ergueu e o abraou. Chorou no ombro
de Hans Hubermann.
        - Adeus, papai, voc me salvou. Voc me ensinou a ler. Ningum sabe tocar como voc. Nunca mais tomarei champanhe. Ningum sabe tocar como voc.
        Seus braos o envolveram. Ela o beijou no ombro -- no suportou mais olhar para seu rosto - e o reps no cho.
        A menina que roubava livros chorou, at ser gentilmente levada dali.
        Mais tarde, eles se lembraram do acordeo, mas ningum notou o livro.
        Havia muito trabalho a fazer e, com uma coleo de outros materiais, A Menina que Roubava Livros foi pisoteada vrias vezes, e acabou sendo apanhada, sem
sequer um olhar de relance, e atirada num caminho de lixo. Pouco antes de o caminho partir, subi depressa e peguei o livro...
        Foi sorte eu ter estado l.
        Mas, a quem  que estou enganando? Passo pela maioria dos lugares pelo menos uma vez, e, em 1943, estive praticamente em toda parte.

     EPLOGO
        A DERRADEIRA COR
        APRESENTANDO:
        a morte e liesel
        lgrimas de madeira
        max
        e o vigiador

A MORTE E LIESEL
        J faz muitos anos desde aquilo tudo, mas ainda h muito trabalho a fazer. Posso lhe jurar que o mundo  uma fbrica. O sol a movimenta, os humanos a dirigem.
E eu permaneo. Levo-os embora.
        Quanto ao que resta desta histria, no evitarei nada dela, porque estou cansada, muito cansada, e vou cont-la da maneira mais direta que puder.
 UM LTIMO FATO 
Devo lhe dizer que
a menina que roubava livros
s morreu ontem.
        Liesel Meminger viveu at uma idade muito avanada, longe de Molching e da extino da Rua Himmel.
        Ela morreu num subrbio de Sydney. O nmero da casa era quarenta e cinco - o mesmo do abrigo dos Fiedler - e o cu estava no seu melhor azul vespertino.
Como acontecera com seu papai, sua alma logo se sentou.
          
        Em suas vises derradeiras, ela viu seus trs filhos, seus netos, seu marido e a longa lista de vidas que se fundiam com a sua. Entre elas, acesos como lanternas,
estavam Hans e Rosa Hubermann, o irmo de Liesel e o menino cujo cabelo permaneceu da cor dos limes para sempre.
        Porm houve tambm umas outras vises l.
        Venha comigo que eu lhe conto uma histria.
        Vou lhe mostrar uma coisa.

        MADEIRA NA TARDE
        Quando limparam a Rua Himmel, Liesel Meminger no tinha para onde ir. Era a menina a quem eles se referiam como "a do acordeo", e foi levada para a polcia,
que se viu s voltas com a deciso sobre o que fazer com ela.
        Ficou sentada numa cadeira muito dura. O acordeo a olhava pelo buraco da caixa.
        Foram necessrias trs horas na delegacia policial para que o prefeito e uma mulher de cabelos felpudos mostrassem suas caras.
        - Todos dizem que h uma menina que sobreviveu na Rua Himmel - disse a senhora.
        Um policial apontou.
        Ilsa Hermann ofereceu-se para carregar a caixa, mas Liesel a segurou firme na mo enquanto eles desciam a escada da delegacia de polcia. A alguns quarteires
da Rua Munique, havia uma clara diviso separando os bombardeados dos afortunados.
        O prefeito dirigiu.
        Ilsa sentou-se com Liesel no banco traseiro.
        A menina deixou que ela segurasse sua mo por cima da caixa do acordeo, que se sentou entre elas no banco.
          
        Teria sido fcil no dizer nada, mas Liesel teve a reao inversa  sua devastao. Sentava-se no requintado quarto de hspedes da casa do prefeito e falava
e falava - consigo mesma - at altas horas da madrugada. Comia muito pouco. A nica coisa que no fazia era tomar banho.
        Durante quatro dias, carregou os restos da Rua Himmel pelos tapetes e tbuas corridas do nmero oito da Grande Strasse. Dormiu muito e no sonhou e, em quase
todas as ocasies, lamentou acordar. Tudo desaparecia quando ela estava dormindo.
        No dia do funeral, ela ainda no havia tomado banho, e Ilsa Hermann perguntou-lhe polidamente se gostaria de faz-lo. Antes disso, apenas lhe mostrara o
banheiro e lhe dera uma toalha.
        As pessoas que compareceram ao enterro de Hans e Rosa Hubermann sempre falaram da menina que ficou l parada, usando um lindo vestido e uma camada de sujeira
da Rua Himmel. Houve tambm um boato de que mais tarde, nesse dia, ela entrou no Rio Amper, toda vestida, e disse uma coisa muito estranha.
        Uma coisa sobre um beijo.
        Uma coisa sobre uma Saumensch.
        Quantas vezes ela teria que dizer adeus?
        Depois disso, vieram semanas e meses, e muita guerra. Liesel se lembrava de seus livros nos momentos de maior tristeza, especialmente dos que tinham sido
feitos para ela e do que lhe salvara a vida. Certa manh, num novo estado de choque, chegou at a voltar  Rua Himmel para procur-los, mas no sobrara nada. No
havia recuperao para o que tinha acontecido. Isso levaria dcadas, levaria uma longa vida.
        Houve duas cerimnias para a famlia Steiner. A primeira, imediatamente depois do sepultamento. A segunda veio assim que Alex Steiner voltou para casa, ao
lhe concederem uma licena depois do bombardeio.
        Desde que a notcia o alcanara, Alex vinha definhando.
        - Cristo crucificado - dizia -, se ao menos eu tivesse deixado o Rudy ir para aquela escola.
        A gente tem uma pessoa.
        A gente a mata.
        Como  que ele ia saber?
        A nica coisa que realmente sabia  que ele teria feito qualquer coisa para estar na Rua Himmel naquela noite, para que Rudy tivesse sobrevivido, em vez
dele.
        Isso foi uma das coisas que disse a Liesel na escada do nmero oito da Grande Strasse, quando correu para l, ao saber que ela havia sobrevivido.
        Nesse dia, na escada, Alex Steiner estava serrado em dois.
        Liesel lhe contou que havia beijado a boca de Rudy. Aquilo a embaraava, mas pareceu-lhe que ele gostaria de saber. Houve lgrimas de madeira e um sorriso
de carvalho. Na viso de Liesel, o cu que vi estava cinzento e brilhante. Uma tarde prateada.

      Max
        Depois que a guerra acabou e Hitler se entregou em meus braos, Alex Steiner retomou o trabalho em sua alfaiataria. No ganhava dinheiro com ela, mas se
mantinha ocupado por algumas horas, todos os dias, e Liesel freqentemente o acompanhava. Os dois passavam muitos dias juntos, amide andando at Dachau, depois
que o campo foi libertado, apenas para serem repelidos pelos americanos.
        Por fim, em outubro de 1945, um homem de olhos alagadios, plumas de cabelo e rosto escanhoado entrou na loja. Aproximou-se do balco.
        - H algum aqui com o nome de Liesel Meminger?
        - Sim, ela est l nos fundos - disse Alex. Ficou esperanoso, mas queria ter certeza. - Posso perguntar quem a est procurando?
        Liesel saiu.
        Os dois se abraaram e choraram e desabaram no cho.

        O VIGIADOR
        Sim, j vi inmeras coisas neste mundo. Freqento as piores desgraas e trabalho para os piores viles.
        Mas, por outro lado, existem outros momentos.
        H uma multido de histrias (um mero punhado, como sugeri antes) que permito que me distraiam enquanto trabalho, assim como as cores. Eu as apanho nos lugares
mais azarados, mais improvveis, e me certifico de record-las enquanto executo meu trabalho. A Menina que Roubava Livros  uma dessas histrias.
        Quando viajei at Sydney e levei Liesel, finalmente pude fazer uma coisa pela qual havia esperado durante muito tempo. Coloquei-a no cho e fomos andando
pela Avenida Anzac, perto do campo de futebol, e tirei do bolso um livro preto e empoeirado.
        A velha senhora ficou perplexa. Segurou-o nas mos e perguntou:
        -         ele mesmo?
        Fiz que sim com a cabea.
        Com grande alvoroo, ela abriu A Menina que Roubava Livros e folheou as pginas.
        -        No consigo acreditar...
        Muito embora o texto estivesse desbotado, ela conseguiu ler as palavras. Os dedos de sua alma tocaram na histria escrita tanto tempo antes, em seu poro
da Rua Himmel.
        Ela se sentou no meio-fio e eu a acompanhei.
        - Voc o leu? - perguntou, mas no olhou para mim. Tinha os olhos fixos nas palavras.
        Fiz que sim.
        -        Muitas vezes.
        -        E conseguiu entender?
        Nesse ponto, houve uma grande pausa.
        Passaram alguns carros, para um lado e para outro. Seus motoristas eram Hitleres e Hubermanns, e Maxes, e assassinos, e Dillers e Steiners...
        Tive vontade de dizer muitas coisas  roubadora de livros, sobre a beleza e a brutalidade. Mas que poderia dizer-lhe sobre essas coisas que ela j no soubesse?
Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raa humana - que raras vezes simplesmente a estimo. Tive vontade de lhe perguntar como
uma mesma coisa podia ser to medonha e to gloriosa, e ter palavras e histrias to amaldioadas e to brilhantes.
        Nenhuma dessas coisas, porm, saiu de minha boca.
        Tudo que pude fazer foi virar-me para Liesel Meminger e lhe dizer a nica verdade que realmente sei. Eu a disse  menina que roubava livros e a digo a voc
agora.
 UMA LTIMA NOTA DE SUA NARRADORA 
Os seres humanos me assombram.


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